Morro Agudo

De um ponto de vista puramente romântico, talvez eu tenha passado em Morro Agudo os dias mais felizes da minha vida. Puramente romântico porque, na verdade, eu não aconselharia nenhum garoto de playground do Leblon a trocar de infância comigo.

Sinto muita falta de Morro Agudo, de seus campos de pelada, de seus botequins com vitrola de ficha e suas ruas batidas de terra, onde ainda hoje parecem zanzar as resignações da minha infância simples, mas feliz.

De todos os lugares que conheci, Morro Agudo continua sendo o mais especial de todos. Menos pelo que apresenta de beleza, que é nada, e mais pela coleção de lembranças que me desperta. Lá, ainda vivem minha mãe, meus tios, meus primos e amigos que vou levar para a vida toda.

Criança, eu não sabia que gostava tanto daquele lugar. Com a inocência de quem via o mundo apenas pela televisão ou pelas fotografias coloridas das revistas, não suspeitava de que um dia fosse mudar de ideia e preferir Morro Agudo à Praça Mauá, por exemplo, para mim um símbolo de progresso e de urbanidade naquele tempo.

Morro Agudo não fica longe nem perto. Depende. Fica muito longe da Pedra da Gávea ou dos quintais floridos do Morumbi, mas está a um pulo da Favela da Rocinha ou das privações da Zona Leste paulistana.

Nunca um presidente da República pisou lá. Nem para pedir voto. Governador do estado só apareceu antes da eleição. E de todos os prefeitos que administraram Nova Iguaçu, sua cidade-mãe, apenas um era de Morro Agudo. Mas antes não fosse, tamanho o desastre que aprontou.

Morro Agudo fica na Baixada Fluminense, capital da indigência do Rio, a uns 60 quilômetros da Zona Sul carioca. É um lugar feio, onde faltam emprego e saneamento, escola e diversão, hospital e segurança.

Mas, apesar disso, foi capaz de dar ao mundo gente como Pedrinho, Totó, Cláudio, Miguel, Fernando, Tono e Tito. Ou ainda como os irmãos portuguesinhos David e Manoel, amigos de escola que me ajudaram a desfazer a impressão infantil de que português já nascia velho.

Pedrinho, meu primeiro amigo, é um talento desperdiçado. Seu humor fino deveria ser reverenciado na TV. Totó, poeta da geração desbunde, escreveu alguns dos poemas mais lindos que conheço. Um dia, adolescente, encheu-se de coragem e remeteu um apanhado deles ao seu maior ídolo, Carlos Drummond de Andrade. Logo depois, para a surpresa de nós todos, Totó seria recebido pelo próprio Drummond e passaria uma tarde recitando seus versos para o encantamento do ídolo.

Não há como duvidar do Totó. Há uma testemunha. Com ele, naquela visita, estava Cláudio, que ainda hoje confirma a história em nossos encontros cada vez mais raros.

Eu e meus amigos de Morro Agudo não nos vemos com tanta frequência, mas, volta e meia, matamos a saudade em rodas de música e cerveja, e, nas aflições, sempre nos procuramos. É no meio deles que eu me refugio se alguma coisa vai mal deste lado de cá do mundo. E, aí, não dá outra – a gente ri de se acabar das histórias que vivemos juntos. Elas são muitas.

Uma certa madrugada, ali pela primeira metade dos anos 1980, estávamos todos num botequim de Morro Agudo quando, às 2h, 2h30 da manhã, nossa conversa foi interrompida por um sujeito que se apresentava como mágico.

– Estão vendo esta moeda? – o tal mágico perguntou, olhando para a gente.

Nenhum de nós demonstrou muito interesse, mas o homenzinho foi em frente.

– Prestem atenção, porque ela vai sumir! Pronto, sumiu! Mas ela está aqui, ó! – disse, “retirando” a tal moeda da orelha do Totó.

O sujeito quis saber se tínhamos gostado do número, e respondemos que com moeda era fácil. “Moeda é pequena, dá para esconder na manga da camisa”, dissemos.

O homem já atraía a atenção do botequim inteiro. Desafiador, pediu um ovo ao comerciante atrás do balcão e repetiu o número.

– Bom, ovo é grande, não se esconde em qualquer lugar, certo? Vocês vão ver que não é truque, é mágica!

Repetiu, então, os trejeitos e as palavras incompreensíveis do truque, fez o ovo desaparecer e perguntou, pedante:

– Onde vocês querem que o ovo apareça?!

Pedrinho respondeu primeiro:

– Pode tirar da minha bunda, por favor.

O mágico riu da graça do meu amigo e pediu que ele se virasse. Pedrinho obedeceu, empinou a bunda e, quando o mágico já ia enfiando a mão dentro da calça dele, o meu amigo… “Bruuuuuuuuummmm!”, soltou um peido.

O mágico ficou tão passado que deixou o ovo escorregar pela manga da camisa e se espatifar no chão. E ainda teve de limpar a sujeira, porque o dono do botequim não gostou do número.

Do peido na mão do mágico para cá, cada um de nós inventou um futuro diferente. Todos conseguimos atravessar o funil que há entre Morro Agudo e o resto do mundo, mas a coincidência mais relevante entre nós é outra. Continua sendo a da amizade mesmo.

A maioria deles ainda foi mais esperta do que eu e não saiu de lá.  Alguns saem de manhã para trabalhar e voltam de noite. Pedrinho é advogado, Cláudio é médico anestesista, Fernando trabalha com um dos maiores neurocirurgiões do mundo, Miguel é professor de biologia, Tito e Manoel são engenheiros, Tono trabalha com políticos, David é comerciante e Totó, por ironia, comanda as atividades culturais de um Ciep local que leva o nome do ídolo, Carlos Drummond de Andrade. Um dia eu volto também.

(texto revisado, publicado originalmente em “Nada não e outras crônicas”, do autor, Editora Mauad, 1999)

Coisas que eu diria, se pudesse

Se eu pudesse, diria a Truman Capote que sou muito fã dele. Por “A sangue frio”. Por “Outras vozes”. Por seu jornalismo literário e por sua liberdade.

Se eu pudesse, diria a Joaquim Silvério dos Reis que não o perdoo por ter abortado do ventre do Brasil o país que teria sido. Diria antes a Caramuru que o país abortado por Silvério foi gerado em seu naufrágio.

Se eu pudesse, diria a monsieur Eric Fottorino que gostaria de me candidatar a uma vaga de repórter no “Le Monde”. Diria que adoraria viver em Paris, entre as ruas estreitas de Montmartre, admirando as tardes sem pressa, com suas mulheres que vêm e vão, e sonhando com o futuro possível, e esperando o ônibus 69 no Gambetta depois de visitar Père Lachaise uma vez mais.

Se eu pudesse, diria a Tristão, o cavaleiro da lenda medieval apaixonado por Isolda, que os amores platônicos são melhores, pois doem menos e não fenecem. Diria o mesmo a Isolda, e talvez isso a consolasse em seu casamento infeliz com o rei Marcos da Cornualha.

Se eu pudesse, voltaria àquele 8 de julho de 2014, no Mineirão, e pediria, quem sabe, à Gisele Bündchen (a guardiã da taça, quem se lembra?) que invadisse o campo e se exibisse e desviasse a atenção das TVs e das rádios e, sobretudo, de Müller, Klose, Kroos, Khedira, Schürrle na impiedade de cada gol marcado nos 7 a 1. Nenhum gol inimigo teria saído. Venceríamos por 1 a 0, gol de Oscar.

Diria também ao mexicano Marco Rodríguez, árbitro da tragédia, pra não se meter.

– Ei, psiu, você não tem nada com isso – eu diria a ele, com respeitosa veemência.

E ele atenderia, e nada teria acontecido de mau depois daquele dia, e a vida seguiria seu rumo.

Se eu pudesse, contaria à Gisele Bündchen, aliás, que nosso olhar ficou mais triste desde que ela deixou as passarelas.

– Volta, Gisele – eu diria, com semblante pidão.

Se eu pudesse, diria ao Dunga pra convocar o Ganso só pro Paulo Cezar Caju ter outro assunto na coluna dele. Se eu pudesse, diria também ao Dunga pra não abandonar, na primeira derrocada, esse jeito mais afável que tem mantido em sua volta à seleção. Diria que ele está muito melhor assim.

Aliás, eu diria ao Dunga que a primeira derrota virá um dia, embora, talvez, ele não acredite.

Se eu pudesse, contaria ao Pixinguinha – quem sabe nós dois sentados no murinho da varanda de João da Baiana, na Praça Onze – das tantas noites em que chorei ouvindo suas melodias.

– Obrigado, seu Pixinguinha – eu diria, com veneração e humildade.

Pediria, se eu pudesse, a Gabriel García Márquez pra manter o amor de Fermina Daza e Florentino Ariza eternamente a salvo dos desfavores da vida cá fora, protegido pra sempre no curso daquele rio, daquele navio, sob a vigia da bandeira amarela do cólera hasteada no mastro. E, como teria feito com Pixinguinha, eu também diria a ele:

– Obrigado, seu Gabriel, por ter me emocionado tantas vezes com seus livros, suas histórias de Macondo, suas meninas de cabelos tão longos quanto a excelência das fábulas que o senhor criou, obrigado por Remédios, por Aureliano Buendía, por seus 12 contos peregrinos, obrigado, humildemente, obrigado.

A Karl Marx e a Engels, diria que a única intercessão entre orçamento e sentimento é a rima pobre.

Sussurraria no ouvido de Soledad Villamil, apertada a meu peito, dançando tango na Recoleta, se eu pudesse:

– Você não sabe o que perde por não me ter, mulher, mas eu sei o que perco.

Se eu pudesse, conversaria um dia inteiro com Zico e o faria me contar cada detalhe de seus 333 gols no Maracanã. Depois, como minha filha caçula com as histórias que eu lhe inventava, pediria pra me contar tudo de novo. Pediria ao Didi, se eu pudesse, pra refazer, só pra eu ver, a primeira folha seca, ainda antes de 1958.

Andaria no tempo e pediria ao Telê Santana pra tirar Valdir Peres e escalar Raul, trocar Serginho por Roberto Dinamite, e quem sabe assim teríamos a lembrança de um 1982 mais feliz.

Se eu pudesse, diria ao Lenine o quanto admiro a obra dele. Diria à plateia do Maracanã – “Suderj informa!” – que meu coração persevera contido naquele anel de história e dinheiro público reconcretado. Diria que estive ali no gol do Nunes. No gol do Romário sobre o Uruguai no último jogo das eliminatórias de 1993. Diria que vi Reinaldo me desbundar, que vi Júnior Baiano dar uma tesoura e ser expulso, que vi o gol impossível e o gol anulado, que vi o elástico de Rivellino e o gol de barriga de Renato Gaúcho. Diria que sorri ali, que chorei ali.

Se eu pudesse, diria tantas coisas. Diria a Mandela que eu seria capaz de morrer pela causa dele. Diria a Adalgisa que eu a esperaria o tempo que fosse, e que seria capaz de perdê-la com meus erros só pra reconquistá-la depois com as virtudes que me restassem.

A Carlos Drummond de Andrade, com lágrimas nos olhos, pela referência maior que me inspira, eu diria:

– Seu Carlos, perdão por incomodá-lo, mas saiba que, pelo menos uma vez por semana, embarco em sua viagem na família e me disfarço em seu elefante. Obrigado, seu Carlos, obrigado.

Se eu pudesse, diria àquela moça que nem todas as estrelas do céu reunidas seriam capazes de beleza maior que a dela. Diria o quanto a admiro e me sinto apartado, e, ao mesmo tempo, paciente. E, se mais uma concessão eu tivesse, diria também pra não usar tanto perfume.

Pequena reflexão sobre os abraços

Há dois anos e meio, quando rompeu todos os ligamentos do ombro direito num tombo de bicicleta, ele imaginou, no seu egoísmo precário, não haver dor maior do que aquela.

Dor da clavícula saltada do braço abobalhado e pendido, sem obedecer a suas ordens. Dor intensa, dor grande, dor de pitbul lhe mordendo o ombro, lembrança gravada pra sempre no seu pensamento.

Ele ainda lembra a noite preta sobre seu corpo deitado na ladeira. Lembra o medo, a incerteza, o choro infantil arrancado pela dor.

Naquelas primeiras horas depois da queda, ainda antes das duas cirurgias a que seria submetido, ele não se deu conta da temporada seguinte. Durante quatro meses, viveu com o braço apoiado numa tipoia, privado, em consequência, de muitas coisas – entre elas, o mais singelo dos gestos de afeto. Ele não podia abraçar.

A queda havia sido na noite de 6 de janeiro de 2013. A primeira cirurgia, alguns dias depois. Mas ele só realizaria a privação do abraço em maio, depois de quase 80 sessões de fisioterapia. Foi quando trocou seu primeiro abraço.

Nos desvãos mais escondidos do seu pensamento sobrevive a lembrança de sua alegria infantil ao ouvir dos dois fisioterapeutas, Pablo e Andréa, ele torcedor do Vasco, ela do Bangu: “Parabéns, você já pode abraçar!” Ele nunca vai esquecer.

Será devedor pra sempre dessa alegria boba, a do primeiro abraço depois do pesadelo.

Desde então, passou a valorizar os abraços como uma manifestação mais relevante do que o beijo. Não existe carinho maior que o abraço, ele reflete. Beijos damos em muita gente. Até em quem acabamos de conhecer. Abraço de verdade, não.

Salvo exceção – porque a vida também é feita delas, exceções -, abraço só se dá em quem se gosta muito. Abraço pra proteger. Abraço pra esconder o padecimento de quem não quer ou não deve ou não pode se exibir assim. Abraço em alguém todo vomitado – um filho, uma mulher, alguém que queremos muito bem. Abraço de amor. Abraço de carinho. Abraço de zelo e de desejo e de saudade.

Abraço dado em silêncio. Abraço além do seu estado de palavra apenas.

Quando a cidade se acende

Vencido pela falta de sono e de aconchego, um aconchego que não tinha mais e o dizimava de saudade, calçou o velho All Star e, com a madrugada prestes a se desfazer no arrebol, entrou no carro e foi vagar pelas ruas da Lapa.

Não se deu conta. Mas o velho par de tênis, com seus simbolismos, depois de uma temporada esquecido num canto de armário, repunha nele, naquele minuto, um pouco de cada coisa perdida nos últimos dois anos, seis meses e um punhado de dias.

Saiu disposto a ver o sol nascer por trás dos Arcos, a admirar suas luzes que, toda manhã, costumam escorrer prontas pra se moldar em qualquer sentimento. Luzes que vazariam dali a pouco pelos vãos do imponente aqueduto, tão antigo aqueduto, inaugurado em 1750, símbolo de uma cidade já inexistente e contaminada pelas injustiças dos homens. Luzes que viriam banhar de amarelo a praça espalhada defronte ao monumento.

Àquela altura da madrugada quase desfeita, dormiam no largo mendigos, e cintilava a sirene de um carro de polícia sem ninguém dentro.

Já havia cumprido esse mesmo roteiro tempos atrás, numa madrugada remota, uma outra madrugada mais feliz em que, certamente, ele havia sido melhor companhia do que poderia ser agora. Não queria encontrar ninguém. Só ele mesmo e sua alma perdida, talvez num beco, o beco das três canções de Manuel Bandeira, o beco do hotel de João Gilberto e Wilson Batista, descrito, se sua memória não o traía, em “Noturno da Lapa”, o bonito livro de Luís Martins de que tanto gostara.

Os pavores que a noite desperta na coincidência de certos horários e lugares não lhe invadiam. Sentia-se tão corajoso que a lágrima em seu rosto sequer lhe acrescentava raiva. Possivelmente, só dele mesmo e de sua fraqueza tão exposta.

Havia estacionado adiante, e, de onde estava agora, ainda conseguia distinguir na luz pouco difusa o carro surrado como ele próprio.

“Ei, me dá um cigarro?” Não deu. “Moço, me paga uma comida?” Nem olhou. Atravessou a Avenida Mem de Sá que recendia a mijo e tristeza, e entrou num botequim de onde uma música ruim brotava não muito alta sem lhe despertar nada. Nem desprezo.

Sua coleção de fracassos, suas perdas acumuladas, seu orgulho ferido, seus pesadelos, suas dores não repartidas, sequer confessadas, tudo o ofendia.

– Vai tomar no… – gritaram pra alguém na rua.

Nem ligou. Pediu uma cerveja, bebeu devagar e se livrou do som ambiente com seus fones de ouvido. Dos fones, Lenine gritava pra ele: “Hoje eu encontrei a lua/Antes de ela me encontrar/Me lancei pelas estrelas/E brilhei no seu lugar/Derramei minha saudade/E a cidade se acendeu/Por descuido ou por maldade/Você não apareceu.”

O barulho desagradável do primeiro ônibus no ponto em frente o acordou do transe, e a manhã começou a surgir, e a manhã tinha pressa. A manhã exigia. E ele pagou a cerveja, e ele caminhou até a praça dos Arcos, e ele admirou o parto do sol doendo no tempo.

Enxugou os olhos, fingiu um sorriso pra moça de maquiagem borrada que passava, e, depois de um café preto numa padaria imunda, retomou o sentido obrigatório das coisas, e se odiou um pouco, e voltou a seu carro, e foi trabalhar.

Sobre coisas que aconteceram outro dia

Outro dia mesmo, eu era só uma semente no útero da minha mãe, até que minha mãe me expulsou do útero, e eu chorei, mas foi bom quase tudo que veio depois.

Outro dia mesmo, minha mãe saiu pra trabalhar, e minha avó Iracema me pôs uma calça curta azul marinho, um jaleco cáqui com as letras MPA bordadas no bolso, e me tirou do quintal protegido de casa e me levou à escola com meu cachorro Ringo – e foi bom também quase tudo que veio depois.

Outro dia mesmo, meu cachorro Ringo me acompanhava até a escola enquanto carregava uma folha de amendoeira presa nos dentes e abanava o rabo e parecia sorrir com os olhos.

Outro dia mesmo, existia calça curta, e existia, outro dia, o MPA, Movimento Popular de Alfabetização, escolinha pública, onde meninos pobres como eu aprendiam a ler e a escrever, e existia, outro dia mesmo, o Ringo lá fora deitado no chão de areia branca, à espera da minha saída, pra me acompanhar até em casa, enquanto carregava uma folha de amendoeira entre os dentes e abanava o rabo e parecia sorrir com os olhos.

Outro dia, minha madrinha Denaltina me ensinou a ler e a escrever no MPA, e meu lanche era uma bananada que ela mesma vendia no recreio por poucos centavos de cruzeiro.

Outro dia, era Natal, e eu e dezenas de outras crianças íamos à casa da madrinha Denaltina ganhar um presente.

Outro dia mesmo, meu pai ainda morava com a gente, e levou o Ringo embora, porque ele mordia a bunda dos vizinhos. Outro dia, o Ringo voltou, sabe-se lá de onde, mas devia ser longe, porque ele demorou. Outro dia mesmo, meu pai levou o Ringo embora novamente, e meu cachorro não voltou nunca mais.

Outro dia, foi meu pai quem foi embora. E aí chegou a Pretinha, cadelinha baixinha e muito brava, já adulta, que resolveu ter sua ninhada atrás de um amontoado de tábuas que dormiam empilhadas no quintal – e tão imenso, até outro dia, era o quintal de Morro Agudo, com seus abacateiros e goiabeiras, e seu algodoeiro e seu pé de laranja da terra, e seu pé de milho e seu pé de romã, e seu pé de abiu e sua enorme amendoeira que chateava minha avó e minha mãe e minha tia por sujar o terreiro, aquele mesmo imenso terreiro, atapetado de folhas.

Folhas que o Ringo, até outro dia, devia adorar, porque pegava sempre uma delas com os dentes pra me entregar, enquanto abanava o rabo com seus olhos felizes. Outro dia.

Outro dia mesmo, havia uma oficina de carpintaria no meio do quintal, aquele mesmo imenso quintal, onde meu avô Anacleto ganhava a bisnaga de pão que dividíamos em sete todas as manhãs, diante do olho gordo primeiro do Ringo, depois da Pretinha.

Outro dia, eu já estava na 2ª série da Escola Municipal Souza e Melo, e minha professora era dona Ilma, e eu comia sopa em prato de metal no recreio, e como era gostosa aquela sopa.

Outro dia, passei pra 3ª série, e minha professora agora era dona Ana.

E depois pra 4ª, e minha professora passou a ser minha mãe, até o dia em que me expulsou pela segunda vez de seu útero ao me transferir, por incompatibilidade minha com as funções de filho e aluno, pro Colégio Estadual Professor Márcio Caulino, uma estação do ramal 33 da Central adiante, em Austin.

Outro dia mesmo, eu vestia a camisa 2 do time de futebol de salão do Vasquinho de Morro Agudo.

Outro dia, o Flamengo de Zico, Júnior e Leandro foi campeão do Brasil e depois da América e depois do mundo, e eu conheci a minha primeira grande alegria como torcedor de futebol. Outro dia, a seleção de Zico, Júnior, Leandro, Falcão, Sócrates e Cerezo perdeu a Copa de 1982, e eu conheci a minha primeira grande dor como torcedor de futebol.

Outro dia mesmo, eu cresci e passei no vestibular pra UFF e fiquei surpreso ao perceber que as carências da universidade pública federal eram as mesmas da escola pública estadual que já eram as mesmas da pública municipal que já eram as mesmas do MPA – e com agravante de não ter bananada no recreio a poucos centavos de cruzeiro.

Outro dia, eu tocava violão e cantava na noite em Morro Agudo e ganhava 5 mil cruzeiros por apresentação no Bar Te Papo.

Ainda outro dia, eu e os poetas Antônio Totó Ribeiro e Edílson de Souza fazíamos o projeto Poesia na Praça, em Morro Agudo, e parecíamos malucos declamando poemas no som instalado pelo querido amigo Fonseca, que puxava a energia da Farmácia do Valdir.

Outro dia mesmo existia a Farmácia do Valdir, e existia o Valdir, e existia também o Vladimir, filho dele, querido amigo que nos deixou tão cedo.

Não faz muito, outro dia, eu tive de escolher o que seria da vida, e a música e a literatura não pareciam um futuro de subsistência viável.

Outro dia mesmo me formei em jornalismo e, como orador da turma, discursei, cheio de orgulho, que aquele punhado de sonhadores havia entrado na universidade em 1982, “quando a ditadura começava a abrir as pernas” – e, que “por baixo das pernas da ditadura a gente começou a ser jornalistas”.

Outro dia mesmo, o general Euclydes de Oliveira Figueiredo, ex-comandante da Primeira Divisão do Exército e irmão do João, conseguiu me condenar por “injúria e difamação”, com base na famigerada Lei de de Imprensa, a dois anos de prisão, com direito a “sursis”, num dos últimos sopros da infame vida da ditadura militar.

Outro dia mesmo, a música e a literatura dormiram em mim, enquanto o jornalismo com todos os seus ideais de um mundo mais justo me dominavam.

Outro dia, entrei numa redação pela primeira vez, a da “Tribuna da Imprensa”, presidida pelo Hélio Fernandes, pai do Helinho e do Rodolfo. Outro dia mesmo, havia a “Tribuna da Imprensa”, e havia o Helinho e havia o Rodolfo. Saudade deles.

Vieram outros dias, e eu passei a conhecer outras redações, todas tão plenas de História. Como a do “O Nacional”, aventura comandada pelo Tarso de Castro. Outro dia mesmo, existia “O Nacional”, e existia o Tarso de Castro. Saudade também.

Outro dia mesmo, conheci a redação do finado “Jornal do Brasil”, com toda a importância que teria na minha vida dali pra frente. Outro dia. Saudade.

E, outro dia, conheci ainda as redações da “Veja”, do “O Dia”, da “Época” e, por último, a do Globo, onde fiz tantos amigos e reencontrei outros, gente que terá minha gratidão e meu carinho pra sempre – principalmente, o Ancelmo Gois, nós por ele, ele por nós, meu mestre, meu chefe, jornalista maior que tanto me ensinou, sujeito talentoso e, sobretudo, generoso, que me permitiu criar bordões e frases e tipos na coluna dele, coluna nossa, a mais lida e mais reverenciada de Frei Paulo, de Morro Agudo, do Brasil e do mundo.

Outro dia mesmo, O Globo me concedeu a honra de comandar a editoria de Esportes. Outro dia, comandei uma equipe numerosa numa Copa das Confederações em casa.

Outro dia mesmo, o Brasil recebeu uma Copa do Mundo pela segunda vez, e ainda era eu no comando da mesma equipe numerosa. Outro dia, o Brasil perdeu da Alemanha por 7 a 1 na semifinal da Copa em casa num Mineirão apinhado de gente vestida de amarelo e com lágrimas de dor nos olhos.

Ainda era outro dia quando O Globo me cedeu, em comodato, até esta data, o “imóvel” deste Botequim. Outro dia. Sou grato. Muito grato.

Agora, o Botequim vai fechar, e o dono dele vai levar boas lembranças, vai rir ao recordar muitos dias que viveu aqui, atrás do balcão. E ele espera que a freguesia também leve.

Outro dia, eu era só uma semente no útero da minha mãe, até que minha mãe me expulsou do útero, e, como toda criança, eu chorei muito ao sair do conforto daquele útero. Mas foi bom quase tudo que veio depois.

Outro dia.