Sobre coisas que aconteceram outro dia

Outro dia mesmo, eu era só uma semente no útero da minha mãe, até que minha mãe me expulsou do útero, e eu chorei, mas foi bom quase tudo que veio depois.

Outro dia mesmo, minha mãe saiu pra trabalhar, e minha avó Iracema me pôs uma calça curta azul marinho, um jaleco cáqui com as letras MPA bordadas no bolso, e me tirou do quintal protegido de casa e me levou à escola com meu cachorro Ringo – e foi bom também quase tudo que veio depois.

Outro dia mesmo, meu cachorro Ringo me acompanhava até a escola enquanto carregava uma folha de amendoeira presa nos dentes e abanava o rabo e parecia sorrir com os olhos.

Outro dia mesmo, existia calça curta, e existia, outro dia, o MPA, Movimento Popular de Alfabetização, escolinha pública, onde meninos pobres como eu aprendiam a ler e a escrever, e existia, outro dia mesmo, o Ringo lá fora deitado no chão de areia branca, à espera da minha saída, pra me acompanhar até em casa, enquanto carregava uma folha de amendoeira entre os dentes e abanava o rabo e parecia sorrir com os olhos.

Outro dia, minha madrinha Denaltina me ensinou a ler e a escrever no MPA, e meu lanche era uma bananada que ela mesma vendia no recreio por poucos centavos de cruzeiro.

Outro dia, era Natal, e eu e dezenas de outras crianças íamos à casa da madrinha Denaltina ganhar um presente.

Outro dia mesmo, meu pai ainda morava com a gente, e levou o Ringo embora, porque ele mordia a bunda dos vizinhos. Outro dia, o Ringo voltou, sabe-se lá de onde, mas devia ser longe, porque ele demorou. Outro dia mesmo, meu pai levou o Ringo embora novamente, e meu cachorro não voltou nunca mais.

Outro dia, foi meu pai quem foi embora. E aí chegou a Pretinha, cadelinha baixinha e muito brava, já adulta, que resolveu ter sua ninhada atrás de um amontoado de tábuas que dormiam empilhadas no quintal – e tão imenso, até outro dia, era o quintal de Morro Agudo, com seus abacateiros e goiabeiras, e seu algodoeiro e seu pé de laranja da terra, e seu pé de milho e seu pé de romã, e seu pé de abiu e sua enorme amendoeira que chateava minha avó e minha mãe e minha tia por sujar o terreiro, aquele mesmo imenso terreiro, atapetado de folhas.

Folhas que o Ringo, até outro dia, devia adorar, porque pegava sempre uma delas com os dentes pra me entregar, enquanto abanava o rabo com seus olhos felizes. Outro dia.

Outro dia mesmo, havia uma oficina de carpintaria no meio do quintal, aquele mesmo imenso quintal, onde meu avô Anacleto ganhava a bisnaga de pão que dividíamos em sete todas as manhãs, diante do olho gordo primeiro do Ringo, depois da Pretinha.

Outro dia, eu já estava na 2ª série da Escola Municipal Souza e Melo, e minha professora era dona Ilma, e eu comia sopa em prato de metal no recreio, e como era gostosa aquela sopa.

Outro dia, passei pra 3ª série, e minha professora agora era dona Ana.

E depois pra 4ª, e minha professora passou a ser minha mãe, até o dia em que me expulsou pela segunda vez de seu útero ao me transferir, por incompatibilidade minha com as funções de filho e aluno, pro Colégio Estadual Professor Márcio Caulino, uma estação do ramal 33 da Central adiante, em Austin.

Outro dia mesmo, eu vestia a camisa 2 do time de futebol de salão do Vasquinho de Morro Agudo.

Outro dia, o Flamengo de Zico, Júnior e Leandro foi campeão do Brasil e depois da América e depois do mundo, e eu conheci a minha primeira grande alegria como torcedor de futebol. Outro dia, a seleção de Zico, Júnior, Leandro, Falcão, Sócrates e Cerezo perdeu a Copa de 1982, e eu conheci a minha primeira grande dor como torcedor de futebol.

Outro dia mesmo, eu cresci e passei no vestibular pra UFF e fiquei surpreso ao perceber que as carências da universidade pública federal eram as mesmas da escola pública estadual que já eram as mesmas da pública municipal que já eram as mesmas do MPA – e com agravante de não ter bananada no recreio a poucos centavos de cruzeiro.

Outro dia, eu tocava violão e cantava na noite em Morro Agudo e ganhava 5 mil cruzeiros por apresentação no Bar Te Papo.

Ainda outro dia, eu e os poetas Antônio Totó Ribeiro e Edílson de Souza fazíamos o projeto Poesia na Praça, em Morro Agudo, e parecíamos malucos declamando poemas no som instalado pelo querido amigo Fonseca, que puxava a energia da Farmácia do Valdir.

Outro dia mesmo existia a Farmácia do Valdir, e existia o Valdir, e existia também o Vladimir, filho dele, querido amigo que nos deixou tão cedo.

Não faz muito, outro dia, eu tive de escolher o que seria da vida, e a música e a literatura não pareciam um futuro de subsistência viável.

Outro dia mesmo me formei em jornalismo e, como orador da turma, discursei, cheio de orgulho, que aquele punhado de sonhadores havia entrado na universidade em 1982, “quando a ditadura começava a abrir as pernas” – e, que “por baixo das pernas da ditadura a gente começou a ser jornalistas”.

Outro dia mesmo, o general Euclydes de Oliveira Figueiredo, ex-comandante da Primeira Divisão do Exército e irmão do João, conseguiu me condenar por “injúria e difamação”, com base na famigerada Lei de de Imprensa, a dois anos de prisão, com direito a “sursis”, num dos últimos sopros da infame vida da ditadura militar.

Outro dia mesmo, a música e a literatura dormiram em mim, enquanto o jornalismo com todos os seus ideais de um mundo mais justo me dominavam.

Outro dia, entrei numa redação pela primeira vez, a da “Tribuna da Imprensa”, presidida pelo Hélio Fernandes, pai do Helinho e do Rodolfo. Outro dia mesmo, havia a “Tribuna da Imprensa”, e havia o Helinho e havia o Rodolfo. Saudade deles.

Vieram outros dias, e eu passei a conhecer outras redações, todas tão plenas de História. Como a do “O Nacional”, aventura comandada pelo Tarso de Castro. Outro dia mesmo, existia “O Nacional”, e existia o Tarso de Castro. Saudade também.

Outro dia mesmo, conheci a redação do finado “Jornal do Brasil”, com toda a importância que teria na minha vida dali pra frente. Outro dia. Saudade.

E, outro dia, conheci ainda as redações da “Veja”, do “O Dia”, da “Época” e, por último, a do Globo, onde fiz tantos amigos e reencontrei outros, gente que terá minha gratidão e meu carinho pra sempre – principalmente, o Ancelmo Gois, nós por ele, ele por nós, meu mestre, meu chefe, jornalista maior que tanto me ensinou, sujeito talentoso e, sobretudo, generoso, que me permitiu criar bordões e frases e tipos na coluna dele, coluna nossa, a mais lida e mais reverenciada de Frei Paulo, de Morro Agudo, do Brasil e do mundo.

Outro dia mesmo, O Globo me concedeu a honra de comandar a editoria de Esportes. Outro dia, comandei uma equipe numerosa numa Copa das Confederações em casa.

Outro dia mesmo, o Brasil recebeu uma Copa do Mundo pela segunda vez, e ainda era eu no comando da mesma equipe numerosa. Outro dia, o Brasil perdeu da Alemanha por 7 a 1 na semifinal da Copa em casa num Mineirão apinhado de gente vestida de amarelo e com lágrimas de dor nos olhos.

Ainda era outro dia quando O Globo me cedeu, em comodato, até esta data, o “imóvel” deste Botequim. Outro dia. Sou grato. Muito grato.

Agora, o Botequim vai fechar, e o dono dele vai levar boas lembranças, vai rir ao recordar muitos dias que viveu aqui, atrás do balcão. E ele espera que a freguesia também leve.

Outro dia, eu era só uma semente no útero da minha mãe, até que minha mãe me expulsou do útero, e, como toda criança, eu chorei muito ao sair do conforto daquele útero. Mas foi bom quase tudo que veio depois.

Outro dia.

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18 comentários sobre “Sobre coisas que aconteceram outro dia

  1. Outro dia, já tivemos uma imprensa mais palatável que abrigava grandes talentos. Agora os expulsou não do seu útero, mas da cloaca que virou essa mídia que não merece mais nosso respeito.
    Por ser do sul, não conhecia o trabalho do Marceu. Apareci aqui por indicação do Brito, do Tijolaço, um blogueiro chamado sujo, mas mais limpo do que a maioria dos que o ofende.
    Gostei do estilo e da fluidez do texto. Obrigado por nos oferecer uma parte de ti.

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  2. Outro dia mesmo conheci o garoto Marceu… Tive o prazer de assisti-lo, com mais outros e outras, cantando e tocando violão, no (primeiro) Bartepapo. Acompanhei de bem perto o seu despertar para as injustiças sociais e compartilhei com ele, ainda ontem, o meu primeiro voto para prefeito e vereador…

    …Do meu extinto e saudoso barzinho, em Morro Agudo, onde o conheci, ainda ontem, e a militância e o voto na Esquerda, também ontem, ainda, aos dias de hoje, já faz algum tempo, admito. Nunca, porém, cheguei a ter saudades do Marceu, pois nunca dele me afastou a alma.

    Abraço, querido, e muito sucesso nessa nova empreitada!

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