Pequena reflexão sobre os abraços

Há dois anos e meio, quando rompeu todos os ligamentos do ombro direito num tombo de bicicleta, ele imaginou, no seu egoísmo precário, não haver dor maior do que aquela.

Dor da clavícula saltada do braço abobalhado e pendido, sem obedecer a suas ordens. Dor intensa, dor grande, dor de pitbul lhe mordendo o ombro, lembrança gravada pra sempre no seu pensamento.

Ele ainda lembra a noite preta sobre seu corpo deitado na ladeira. Lembra o medo, a incerteza, o choro infantil arrancado pela dor.

Naquelas primeiras horas depois da queda, ainda antes das duas cirurgias a que seria submetido, ele não se deu conta da temporada seguinte. Durante quatro meses, viveu com o braço apoiado numa tipoia, privado, em consequência, de muitas coisas – entre elas, o mais singelo dos gestos de afeto. Ele não podia abraçar.

A queda havia sido na noite de 6 de janeiro de 2013. A primeira cirurgia, alguns dias depois. Mas ele só realizaria a privação do abraço em maio, depois de quase 80 sessões de fisioterapia. Foi quando trocou seu primeiro abraço.

Nos desvãos mais escondidos do seu pensamento sobrevive a lembrança de sua alegria infantil ao ouvir dos dois fisioterapeutas, Pablo e Andréa, ele torcedor do Vasco, ela do Bangu: “Parabéns, você já pode abraçar!” Ele nunca vai esquecer.

Será devedor pra sempre dessa alegria boba, a do primeiro abraço depois do pesadelo.

Desde então, passou a valorizar os abraços como uma manifestação mais relevante do que o beijo. Não existe carinho maior que o abraço, ele reflete. Beijos damos em muita gente. Até em quem acabamos de conhecer. Abraço de verdade, não.

Salvo exceção – porque a vida também é feita delas, exceções -, abraço só se dá em quem se gosta muito. Abraço pra proteger. Abraço pra esconder o padecimento de quem não quer ou não deve ou não pode se exibir assim. Abraço em alguém todo vomitado – um filho, uma mulher, alguém que queremos muito bem. Abraço de amor. Abraço de carinho. Abraço de zelo e de desejo e de saudade.

Abraço dado em silêncio. Abraço além do seu estado de palavra apenas.

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10 comentários sobre “Pequena reflexão sobre os abraços

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