Coisas que eu diria, se pudesse

Se eu pudesse, diria a Truman Capote que sou muito fã dele. Por “A sangue frio”. Por “Outras vozes”. Por seu jornalismo literário e por sua liberdade.

Se eu pudesse, diria a Joaquim Silvério dos Reis que não o perdoo por ter abortado do ventre do Brasil o país que teria sido. Diria antes a Caramuru que o país abortado por Silvério foi gerado em seu naufrágio.

Se eu pudesse, diria a monsieur Eric Fottorino que gostaria de me candidatar a uma vaga de repórter no “Le Monde”. Diria que adoraria viver em Paris, entre as ruas estreitas de Montmartre, admirando as tardes sem pressa, com suas mulheres que vêm e vão, e sonhando com o futuro possível, e esperando o ônibus 69 no Gambetta depois de visitar Père Lachaise uma vez mais.

Se eu pudesse, diria a Tristão, o cavaleiro da lenda medieval apaixonado por Isolda, que os amores platônicos são melhores, pois doem menos e não fenecem. Diria o mesmo a Isolda, e talvez isso a consolasse em seu casamento infeliz com o rei Marcos da Cornualha.

Se eu pudesse, voltaria àquele 8 de julho de 2014, no Mineirão, e pediria, quem sabe, à Gisele Bündchen (a guardiã da taça, quem se lembra?) que invadisse o campo e se exibisse e desviasse a atenção das TVs e das rádios e, sobretudo, de Müller, Klose, Kroos, Khedira, Schürrle na impiedade de cada gol marcado nos 7 a 1. Nenhum gol inimigo teria saído. Venceríamos por 1 a 0, gol de Oscar.

Diria também ao mexicano Marco Rodríguez, árbitro da tragédia, pra não se meter.

– Ei, psiu, você não tem nada com isso – eu diria a ele, com respeitosa veemência.

E ele atenderia, e nada teria acontecido de mau depois daquele dia, e a vida seguiria seu rumo.

Se eu pudesse, contaria à Gisele Bündchen, aliás, que nosso olhar ficou mais triste desde que ela deixou as passarelas.

– Volta, Gisele – eu diria, com semblante pidão.

Se eu pudesse, diria ao Dunga pra convocar o Ganso só pro Paulo Cezar Caju ter outro assunto na coluna dele. Se eu pudesse, diria também ao Dunga pra não abandonar, na primeira derrocada, esse jeito mais afável que tem mantido em sua volta à seleção. Diria que ele está muito melhor assim.

Aliás, eu diria ao Dunga que a primeira derrota virá um dia, embora, talvez, ele não acredite.

Se eu pudesse, contaria ao Pixinguinha – quem sabe nós dois sentados no murinho da varanda de João da Baiana, na Praça Onze – das tantas noites em que chorei ouvindo suas melodias.

– Obrigado, seu Pixinguinha – eu diria, com veneração e humildade.

Pediria, se eu pudesse, a Gabriel García Márquez pra manter o amor de Fermina Daza e Florentino Ariza eternamente a salvo dos desfavores da vida cá fora, protegido pra sempre no curso daquele rio, daquele navio, sob a vigia da bandeira amarela do cólera hasteada no mastro. E, como teria feito com Pixinguinha, eu também diria a ele:

– Obrigado, seu Gabriel, por ter me emocionado tantas vezes com seus livros, suas histórias de Macondo, suas meninas de cabelos tão longos quanto a excelência das fábulas que o senhor criou, obrigado por Remédios, por Aureliano Buendía, por seus 12 contos peregrinos, obrigado, humildemente, obrigado.

A Karl Marx e a Engels, diria que a única intercessão entre orçamento e sentimento é a rima pobre.

Sussurraria no ouvido de Soledad Villamil, apertada a meu peito, dançando tango na Recoleta, se eu pudesse:

– Você não sabe o que perde por não me ter, mulher, mas eu sei o que perco.

Se eu pudesse, conversaria um dia inteiro com Zico e o faria me contar cada detalhe de seus 333 gols no Maracanã. Depois, como minha filha caçula com as histórias que eu lhe inventava, pediria pra me contar tudo de novo. Pediria ao Didi, se eu pudesse, pra refazer, só pra eu ver, a primeira folha seca, ainda antes de 1958.

Andaria no tempo e pediria ao Telê Santana pra tirar Valdir Peres e escalar Raul, trocar Serginho por Roberto Dinamite, e quem sabe assim teríamos a lembrança de um 1982 mais feliz.

Se eu pudesse, diria ao Lenine o quanto admiro a obra dele. Diria à plateia do Maracanã – “Suderj informa!” – que meu coração persevera contido naquele anel de história e dinheiro público reconcretado. Diria que estive ali no gol do Nunes. No gol do Romário sobre o Uruguai no último jogo das eliminatórias de 1993. Diria que vi Reinaldo me desbundar, que vi Júnior Baiano dar uma tesoura e ser expulso, que vi o gol impossível e o gol anulado, que vi o elástico de Rivellino e o gol de barriga de Renato Gaúcho. Diria que sorri ali, que chorei ali.

Se eu pudesse, diria tantas coisas. Diria a Mandela que eu seria capaz de morrer pela causa dele. Diria a Adalgisa que eu a esperaria o tempo que fosse, e que seria capaz de perdê-la com meus erros só pra reconquistá-la depois com as virtudes que me restassem.

A Carlos Drummond de Andrade, com lágrimas nos olhos, pela referência maior que me inspira, eu diria:

– Seu Carlos, perdão por incomodá-lo, mas saiba que, pelo menos uma vez por semana, embarco em sua viagem na família e me disfarço em seu elefante. Obrigado, seu Carlos, obrigado.

Se eu pudesse, diria àquela moça que nem todas as estrelas do céu reunidas seriam capazes de beleza maior que a dela. Diria o quanto a admiro e me sinto apartado, e, ao mesmo tempo, paciente. E, se mais uma concessão eu tivesse, diria também pra não usar tanto perfume.

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2 comentários sobre “Coisas que eu diria, se pudesse

  1. Diria a você que, se pudesse voltar no tempo, depois de ler seus comentários sobre futebol, gostaria de retornar a 1954 quando o Flamengo foi bicampeão carioca (foi tri em 1955). Morava no interior do Paraná, próximo a Curitiba, onde só se acompanhava o campeonato carioca; pelo rádio, claro. Tinha 8 anos, completei 9 quando o Mengo foi campeão. Os amigos, todos flamenguistas, evidente. O time: Chamorro (Garcia); Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Paulinho, Rubens, Índio e Zagallo (escalação com algumas variações). Se não estou enganado: Flamengo 3 x América 1. iniciava-se, ali, uma grande paixão. Hoje não tão grande, admito. Minha simpatia está mais para o Ameriquinha, assim como para o Juventus aqui em São Paulo.

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