Para uma certa mulher

A mulher na Praça General Osório, às quinze para as cinco da tarde, não sabe que bem do lado alguém busca nela a inspiração que falta. Parece querer consolo do sol que ilumina mas não aquece o início do outono em Ipanema, com suas folhas amareladas se desprendendo das árvores para dançar no vento.

A aparência sugere mais de 30. O batom disfarça o sentimento do mundo que parece carregar. Mas as lágrimas denunciam que sofre.

É moça da Zona Sul, percebe-se. É branca, alta, e um certo jeito de mexer nos cabelos tenta dizer que já se achou mais bonita.

Como num filme, vira-se para o lado e, sem que se pergunte, conta que encontrou um bilhete no bolso do marido. Em letras miúdas e bem desenhadas, o papelzinho expunha o desassossego no coração do homem com quem está casada há alguns anos.

Há muito, diz ela, já desconfiava. O marido andava calado, frio e não a procurava.

Coração frágil, ressentia-se de gestos mais constantes de carinho. Precisava acreditar o tempo todo que, no outro lado da cama, estava alguém interessado em cada detalhe seu, do jeito do cabelo à roupa escolhida aquela manhã.

E, na busca pela confirmação do amor, acabou descobrindo as razões da falta desses gestos.

Lamenta sua condição de mulher. Acha que homem é tudo igual. Que homem não sofre, porque não ama.

Está enganada. Com homem também é assim. Mas sua coleção de tristezas e sua imensa pena de si mesma não a deixam ouvir a contestação.

Está ali desde onze da manhã. Não almoçou. Tapeou o vazio do estômago com metade de um sanduíche e um copo de guaraná comprados na padaria adiante. Não sabe se volta e teme nunca mais reencontrar o gosto pelas coisas.

Quando o coração está magoado, moça, perde-se mesmo um pouco do prumo e do desejo de fazer as coisas. Perde-se até a predisposição para a alegria.

– … (silêncio).

As traições, moça, grandes ou pequenas, ferem mesmo. Mas é preciso entender, até para sofrer menos, que não somos bichos. Somos humanos. E humanos traem, mentem, cobiçam, enganam, trapaceiam, dissimulam, corrompem, põem os desejos acima das necessidades. Os sentimentos, moça, não têm controle. São como picada de inseto. Chegam, e a gente não sabe de onde eles vêm. Contaminam e vão embora.

Se aconteceu com ele, pode acontecer com você também.

– … (suspiro).

Nenhum de nós, homens e mulheres, ou de qualquer gênero, está protegido. Agora mesmo, o insondável pode estar preparando uma surpresa. Seja na virada daquela esquina no fim da praça, seja no trabalho ou na sala da faculdade, na rua ou no prédio em que moramos.

É preciso sofrer menos. Entender as coisas com o tamanho que têm. Todos os problemas são grandes quando acontecem com a gente.

É preciso olhar para eles desprovidos da vaidade que, em hora errada, em vez de ajudar, acaba abalando nossa autoestima.

A mulher sentada na Praça General Osório não suspeita. Mas é um pouco de nós todos nesta cidade maravilhosa e corrompida pelos horrores da selva urbana, onde há assassinatos em favelas, onde crianças sentem fome e perambulam maltrapilhas pelas ruas, e, em cada apartamento, problemas de todos os tamanhos – de contas atrasadas a trapaças comezinhas – dividem espaço com seus habitantes.

A mulher carrega no olhar impregnado de sentimentos tudo que já passamos e sofremos.

Sem saber, é Zico de joelhos na grande área depois do pênalti perdido na Copa. É a mãe desolada que, faz tempo, não tem notícia do filho que andava metido com traficantes e a polícia levou. É o viúvo inconsolado que perdeu a mulher. É a carpideira, o menino sem pai, a socialite que guarda o segredo da fortuna perdida e trava seu fracasso inconfessável na solidão da vergonha. É o homem que perdeu tudo, o emprego e a namorada.

Neste outono, moça, sob este sol de abril, todos nós, garis e agentes do mercado financeiro, taxistas e estudantes, balconistas e diretores de banco, todos somos você. Todos, agora mesmo ou em algum dia, sufocamos no peito nossas dores de amor.

Nos ônibus que passam lotados, nos bancos traseiros dos táxis, ao volante de cada carro ali na Prudente de Moraes, quantos dramas individuais não consomem corações e fazem sofrer? Certamente muitos, moça. Não sofra tanto pelo seu.

Mas ela não tem tempo de notar relevâncias em tudo que se diz. Que os sentimentos, embora privados por natureza, estão disseminados nos escritórios, nas calçadas, nos shoppings, nas favelas, nas mansões do Alto Leblon, em todos os bares de todos os lugares.

A mulher pega a bolsa, levanta-se e desaparece na virada da esquina, sem saber que seu drama, naquela meia hora perdida, fez dela a mais importante das criaturas da cidade.

(crônica publicada originalmente pelo autor na coluna “Canto do Rio”, do “Jornal do Brasil”, em abril de 1998, e republicada aqui a pedido do querido amigo Alfredinho do Bip Bip)

 

 

 

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