Mais coisas que eu diria, se pudesse

Se eu pudesse, diria a Haruk Murakami que, graças a ele e a seu “Norwegian Wood”, descobri a literatura japonesa. Diria que me emocionei com seu livro e sua tentativa de dissecar o nascedouro dos suicídios.

Diria ainda que os suicídios, com toda a sua carga de drama, como ensina sua história tocante, não são capazes de eliminar quem morre da memória da gente – e essa é a maior dor que podem produzir.

“Seu Murakami, num sentido figurado, há quem morra pra nós”, eu diria a ele. “Porém, numa atitude mais grave, que de nós não depende, há os que se suicidam das nossas vidas.”

Diria, se pudesse, a Graciliano Ramos, que me emocionou tudo que li dele. Diria que, até hoje, talvez mais de 30 anos depois, sua cachorra Baleia, de “Vidas secas”, permanece íntegra com seus olhos tristes no meu pensamento, apesar do seu destino trágico.

Se eu pudesse, pediria a Manuel Bandeira que me recitasse o seu “Desencanto”, soneto tão bonito em que ele dizia fazer versos “como quem morre”. Diria também: “Seu Manuel, não morra jamais, precisaremos sempre do senhor por perto.”

A Fernando Pessoa, pediria que me apresentasse a seu heterônimo Álvaro de Campos, e a Álvaro de Campos, quem sabe nós dois subindo as escadarias do Bairro Alto, num verão de Lisboa, rogaria que me levasse à sua “Tabacaria” – e, lá, talvez chorássemos um pouco juntos, lembrando nossos desamores.

A Romeu e a Julieta, os adolescentes da tragédia de Shakespeare, pediria, neste século 21 tão pobre de afetos verdadeiros, que ensinassem a nós todos a veemência de seu amor juvenil. Mas também diria: não morram, meninos.

A Shakespeare, com todo o respeito, quase sussurrando, de tanta vergonha pela heresia de um pedido assim, imploraria que lhes inventasse outro final.

A Franz Kafka, o tcheco que tanto influenciou García Márquez, contaria de seu sucesso após a morte, e pediria, convencido de que lhe faria bem: “Seu Franz, largue essa companhia de seguros, vá escrever mais, e publique, por favor, as suas cartas de amor a Felice Bauer.”

Faria o mesmo com Van Gohg, se eu pudesse. Na véspera de seus 37 anos, falaria a ele do futuro em que, já considerado gênio, seus quadros superariam em interesse qualquer detalhe sórdido de seu infortúnio mental. Contaria de Nise da Silveira, do Profeta Gentileza, do Joãozinho Pinel do Bip Bip, e talvez isso lhe trouxesse esperança.

A Roosevelt, contaria que virou nome de avenida no Rio e pediria que ensinasse ao Brasil a salvação da depressão atual. Pediria também que ouvisse mais os conselhos de Churchill e suas argumentações visionárias sobre o risco da terceira grande guerra num mundo já nuclear. A Churchill, depois de também contar de sua avenida carioca, talvez pedisse um charuto.

Se eu pudesse, diria a Hitler pra nos poupar de seu nascimento, e pediria a Eva Braun que nascesse de novo – e que, antes de morrer pela primeira vez, evitasse o desfecho e não se suicidasse, pra termos sua história contada por ela mesma.

Se eu pudesse, diria a Pedro Álvares Cabral pra me relatar sua vida. Revelaria sua relevância no ensino das escolas brasileiras, e quem sabe isso absolvesse sua alma do ressentimento de não ter a glória de navegador reconhecida em Portugal. Quem sabe, pretensioso, eu o livrasse, assim, da possível inveja que, em sua pós-existência, talvez ainda sinta do genovês Cristóvão Colombo e do conterrâneo Vasco da Gama.

Diria, no entanto, a Cabral e a seus colegas mais famosos do mal que fizeram aos índios da América, e os três talvez ficassem compungidos e cabisbaixos, ou, insensíveis, nem se importassem com o anacronismo da dor do nosso continente.

Eu recomendaria, se fosse capaz, a Menelau, após ser detraído por Helena, que pronunciasse um “foda-se.” Mas um “foda-se” dito em tom baixo e sem amargura. Recomendaria que dissesse a mesma coisa a Páris, por suas injustiças e injúrias, e também com muita calma, e também sem qualquer vinco no rosto ou na voz. “Foda-se.”

A Adalgisa, mulher que só existe nos sonhos e foi descrita nos versos de Drummond, perguntaria, ainda com voz doce: por que demora tanto, Adalgisa, a escapar do meu sonho e a acordar nos meus braços, você que são duas, você que “tem tantas direções e em nenhuma se define, mas em todas se resume”?

A Jasão e a Medeia, antes de matarem ou agredirem por amor, eu diria, se pudesse: desempunhem suas armas, abaixem suas mãos. A Eurídice e a Orfeu, pediria apenas, antes de pensarem na morte por amor: “Vivam, pois os amores são grandes e valiosos demais pra serem causa de óbito, e precisam ser vividos até o limite do que supomos ser sofrimento.”

A Orfeu, especialmente, pediria paciência e que, ansioso por rever o rosto de Eurídice, não olhasse pra trás até estar de volta à luz do sol.

A Barbosa, o goleiro de 1950, eu diria: não se culpe, seu Barbosa, beba um gole da minha cerveja, viaje comigo até 2014 e assista à sua própria remissão.

Ao moço anônimo e desimportante que, outro dia mesmo, se queixava do desconforto de ter encontrado seu grande amor aceitando a corte de outro homem, eu diria somente: “Sossega, rapaz, isso não é privilégio seu; mesmo tendo ela virado o rosto e franzido os lábios num gesto de repugnância ao ver você.” À moça que fez isso com o moço, eu só olharia em seus olhos e, sem pretensão de compreender seu gesto, não diria nada.

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