Especulação sobre ela

A mulher que eu não conheço,
que nem sei se vai chegar,
e acho que nem mereço…
Por onde agora andará?

Subirá sua ladeira
depois de muito dançar
no breu de uma gafieira?
Por onde se exibirá?

Ou mora numa planície
a me espreitar da janela
sem que eu jamais a visse,
suspeitasse quem é ela?

Segue a bordo de um vagão
feminino de metrô?
Carrega no coração
a lança de um ex-amor?

Eu insisto, muito embora:
o amor que eu não conheço,
e nem acho que mereço,
a quem se dará agora?

Solerte, entrará num bar
da Lapa? Copacabana?
Sem roupa, se lança ao mar?
É virgem? Será mundana?

Sai agora de um teatro?
É atriz? Será cantora?
Juga os homens de quatro?
É perversa sedutora?

Caminha pela avenida
tranquila? Desesperada?
Terá a bolsa fornida?
É pobre? Necessitada?

O amor que eu não conheço,
que nem sei se vai chegar,
e acho que nem mereço…
Por onde se esconderá?

Será casada infeliz?
Solteirona, desquitada?
Não me encontrou por um triz
numa certa madrugada?

Frequenta rodas de samba?
É madame perfumada?
E se eu pedir que me lamba,
fará cara de enojada?

Terá uma cicatriz
no liso da tez macia?
Será uma meretriz
de noite, e casta de dia?

Ainda moça ou senhora,
o amor que eu não conheço
e acho que nem mereço
desfila por onde agora?

Sofrerá de diarreia?
Terá filhos? Não foi mãe?
Será judia? Uma ateia?
Índia txucarramãe?

Loura falsa, platinada?
Morena? Ruiva? Bisonha?
Negra, branca? Debochada?
Será séria? Sem vergonha?

Pratica feitiçaria?
Espírita? Pentecostal?
Será sua pele fria?
As unhas como punhal?

Como saber quem é ela?
Se existe ou é ficção?
Se é fútil, rasa, donzela,
ou mera especulação?

E de mim, o que saberá
a mulher que eu não conheço,
e nem sei se vai chegar,
e acho que nem mereço?

Não sabe da minha espera.
Ignora meus anseios.
Sequer me sonda a quimera
de lhe adivinhar os seios…

Serão grandes? Pequeninos?
Pontudos? Rijos? Têm viço?
Ou penderão como sinos,
pesados num precipício?

Com quantos já me enganou,
sem suspeitar que eu existo?
Pra quantos já se entregou
aquela por quem insisto?

Suburbana? Bem nascida?
Será que ela não existe?
Já passou por minha vida,
risonha, quem sabe triste?

A mulher que eu tanto espero
e, quem sabe, nunca terei,
aquela que eu tanto quero,
quem é ela? Saberei?

Terá a cintura fina?
Será linda? Requenguela?
Será vetusta? Traquina?
Será feia? Será bela?

Quem é ela? Quem é ela?

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