Carta de carnaval

Meu caro amigo Lefê. Escrevo pra você na segunda-feira de carnaval, o primeiro sem sua enorme figura por aqui, no nosso querido Rio de Janeiro – figura que, de tão enorme, sabe Deus como podia caber no seu 1,60m.

Começo a escrever a poucas horas da concentração do Bloco de Segunda, ali na Cobal do Humaitá, onde você, certamente, estaria hoje, eu sei.

Fui abatido pelo tal zika vírus em plena época da folia, amigo. Mas você ficaria orgulhoso. Eu disse um “foda-se” pro mosquito (um “foda-se” com candura, você me conhece), não deixei o tamborim cair, vesti minha camisa listrada e saí por aí, como Assis Valente nos induzia naqueles tantos carnavais em que nos divertimos juntos nos blocos, abraçados como pai e filho – e o pai, evidentemente, era eu, apesar dos seus 20 anos mais.

No sábado, cantei pra umas 10 mil pessoas, sei lá, no palcão da Lapa. Bom, “cantei” é um tremendo exagero. Cantamos. Nosso parceiro João Pimentel, o Janjão, foi mais uma vez finalista do concurso de marchinhas da Fundição Progresso e me contratou a peso de ouro, nem queira saber, pra eu fazer parte do grupo de intérpretes da composição dele, do Eduardo Gallotti e do Nuno Neto na finalíssima.

Janjão se fantasiou de Adão, precisava ver que graça. Gallotti, outro parceiro querido da gente, se vestiu de Noé. Outra graça. O Nuno não pôde ir, e, no lugar dele, este seu amigo subiu ao palco com orelhas de coelho, bermuda preta de bolinhas brancas e uma camiseta vermelha que estampava no peito uma imagem do nosso padroeiro São Sebastião.

Eu devia estar com uns 38° de febre, mas foi divertido. E ainda compunha o cenário da nossa cantoria, no palco, um balé de bichos formado, entre outros, pelo Márcio Dorneles, lembra?, o nosso amigo que foi técnico do Carioca da Gema. Marcinho meteu no rosto uma máscara de porco e deu conta do rebolado. A Maria Teresa Madeira, ela mesma, a imensa pianista, mulher dele, filmou tudo e pôs no Facebook.

Ficamos em terceiro. Mas saímos felizes dali, porque nos divertimos muito. Até porque o critério não era o mérito. Venceria quem conseguisse mais votos numa eleição pela internet. Deve ter tido gente que contraiu tendinite de tanto que votou em si mesmo.

Você não era disso. Nosso irmão Janjão não é disso. Nem Gallotti e nem Nuno. Não somos. A gente leva a coisa até o limite da diversão, e só nos chateamos com sinceridade quando o talento é punido por quem não sabe julgá-lo. Isso existe. Você sabe.

Foi muito bom rever a Lapa tão grandiosa e apinhada de foliões e folionas de todas as cores e gêneros. Eu me lembrei de você, claro, porque, se a nossa Lapa estava assim, tão viva e fervilhante, o gene desse renascimento foi seu. Pra sempre será.

No domingo, novamente, mandei o mosquito pra fruta que caiu e saí de palhaço rumo ao Cordão do Boitatá, na Praça XV. Fui sozinho, parceiro. Eu e minha coceira da zika atravessamos um mar de mulheres maravilhas, moças lindas pintadas de verde e dourado, aquela mesma enorme ala de Smurfs e outra multidão de fantasias do Boi Tolo até chegar lá. Foi muito bom também.

Pelo menos até a hora em que o mosquito foi mais forte do que eu e me obrigou a me retirar sozinho, à francesa, de volta a Laranjeiras, sem me despedir de ninguém, como você sabe que faço.

No nosso bairro, dei de cara com o cortejo do bloco Laranjada. Janjão estava lá com a Marcela, namorada dele, que o tempo, esse vilão insensível, não deixou você conhecer. Estavam lá também nossos amigos Luciana Conti e Cadoca. Foi um ótimo meio-fim de tarde (aliás, Marcela e Marita, mulher do Gallotti, também estavam na nossa “arca” no palco da Lapa/Fundição ao lado de mais um punhado de boas amigas-bailarinas – bom, deixa eu explicar, “arca” porque a marchinha do Janjão, do Gallotti e do Nuno se chama “A marcha de Noé”, e você teria gostado de ver e rido muito).

Ah, eu me esqueci de contar que, no sábado de manhã, encontrei a Mônica na saída da feira da General Glicério. Quase no mesmo lugar onde a gente se viu pela última vez, lembra? Ela está muito bem, Lefê, fique tranquilo. Sente muita saudade, claro, mas mantém o mesmo sorriso nos lábios e o seu nome gravado pra sempre no coração.

Mônica me contou como foi emocionante depositar uma parte das suas cinzas no desfile do Simpatia, cumprindo seu desejo. Ela me confessou que, mesmo sem você ter pedido, guardou um pouquinho das cinzas pro desfile do Meu Bem, Volto Já, onde ganhamos a disputa de samba uns cinco anos seguidos – eu, você e Janjão, e algumas vezes com mais parceiros, como o Gallotti mesmo, o Mário Moura, o Samir Abujamra, o Gerard…

Amigo, dei razão à Mônica. O Leme ocupava um pedaço grande no seu mapa sentimental do Rio. Eu sei disso. Sabemos disso. Você concordaria. A Mônica fez bem. Mesmo sem seu consentimento (ela também deixou outro pouquinho das suas cinzas naquela praia de Paraty onde vocês dois se amaram tanto).

Aliás, o Meu Bem decidiu homenagear você este ano. Vão cantar um samba nosso. Escolheram o “Maria, Calmaria!”, aquele que falava dos 500 anos do Descobrimento. Eu sei que você teria preferido o da “Baleia”, que falava do “Big Ben do marido da mulata” (como rimar relógio do Hans Donner e Valéria Valenssa num samba de bloco? E a gente conseguiu! Graças ao Janjão!). Mas, pena, não me consultaram. E vão sair com o “Calmaria”. Tudo bem.

Também fizeram um samba inédito repleto de citações de versos de composições que fizemos pro bloco. Mas não nos chamaram, nem este seu amigo e nem o Janjão, pra integrar a parceria. Achei indelicado. Fiquei um pouco desapontado quando soube. Acho que você também ficaria. Mas, você sabe, eu não ligo pra isso.

Os desapontamentos que me ferem de verdade são outros, e passam longe da diretoria dos blocos. Vão no meio da multidão, multiplicados por aí, sabe-se lá fantasiados de quê.

Sinto muita falta das nossas conversas, parceiro, das nossas confidências, dos nossos brindes quase de manhã no Clube Condomínio, no Horto, e das nossas gargalhadas nas madrugadas da Lapa ou de Copacabana. Sinto falta dos seus aconselhamentos, e até de dar conselhos pra você, teimoso que sempre foi pela própria natureza.

Neste carnaval mesmo, eu precisei dos seus conselhos – e, admito aqui nesta carta fechada, mas pública, que chorei um pouco, no sábado, pensando no que você teria me dito antes de soltar aquela gargalhada: “Marceuzinho, Marceuzinho… vai se divertir! Hahahahaha!”

Antes que a conversa avance, deixa eu contar que vi também o Pedro, seu filho, quinta passada, no baile do Trapiche Gamboa. Não deu pra conversar naquela muvuca, mas fique tranquilo, amigo, porque, como a Mônica, o Pedro está muito bem. Todos estamos, apesar do mosquito.

Amigo, parei de escrever nossa carta neste ponto e fui assistir à saída do desfile do Bloco de Segunda. Dividi um táxi com Luciana e Cadoca. Acabei de voltar e retomo a escrita aqui. Não é que a Moniquinha estava lá? Falamos muito de você!

Mônica me disse que ficou chateada no segundo desfile do Simpatia, ontem, domingo de carnaval. Haviam prometido cantar, no “esquenta”, um dos seus sambas campeões no bloco. Mas se esqueceram.

Mônica achou que foi descuido – como você também acharia. E foi mesmo. O comando desses queridos blocos, todos dirigidos por amigos nossos, não vê em nós, compositores, muita importância. Acreditam, de verdade, que a maior honra que podemos receber é vencer a disputa no bloco deles.

Nunca pedimos pra receber nada. Mas tudo nesse ambiente é remunerado. Do segurança que leva a corda ao colega músico que esmerilha as mãos no repique ou no surdo. Menos o compositor, esse ser menor que se contenta apenas com o aplauso. Por isso nos magoa quando nos falta o respeito.

No mais, parceiro querido, “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”, como cantava outro compositor genial que sempre esteve no nosso repertório de carnaval, ou de não carnaval, o Chico Buarque.

Você não sabe. Uns engomadinhos cercaram o Chico no Leblon, outro dia, e disseram um monte de bobagens só porque ele apoia a Dilma e é contra o golpe que andaram tentando construir pra derrubá-la. Ah, sim! Tentaram isso, você não sabe – e com alguma ajuda da nossa imprensa, essa mesma que, às vezes, tanto me envergonha, e isso você sabe. Mas não vingou, que bom.

Nesta terça, temos na agenda sua homenagem no Meu Bem, o desfile do Bloco do Cardosão – que você nunca foi, mas gostaria muito de ir, tenho certeza – e o “bailão-fecha-a-tampa” do Trapiche. Você vai junto em tudo isso no coração da gente.

PS: amigo Lefê, depois da minha carta fechada e pública seguir pra você, o Jorgito Portenho, como você o chamava, presidente do Meu Bem, me escreveu e garantiu ter me chamado, sim, pra parceria do samba em sua homenagem. Disse que fez isso pelo Facebook. Eu disse a ele que não vi a convocação na rede social. Ele ficou triste por eu ter dito que você preferiria que cantassem nosso samba da “Baleia”. Argumentou que eu poderia ter dito isso antes. Ele tem razão. Eu disse que nem tinha citado o nome dele na nossa carta. Mas ele novamente argumentou que falar do Meu Bem é falar dele, porque ele é o bloco. Ele também tem razão. Peço desculpas.

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