No Leblon

Não teve tempo de dizer aonde ia quando saiu contrariado, batendo a porta, querendo que a vida passasse depressa e, com ela, a lembrança daquele dia e de tantos outros difíceis de esquecer.  Murmurou um “vou ali”, fingiu que não ouvia uma última reclamação sobre seu jeito demasiado simples e sua lentidão diante das coisas e partiu sem vontade de voltar.

Mesmo sabendo que dali a pouco entraria novamente por aquela porta para reencontrar a sala que ela, sem perguntar nada, havia redecorado sem satisfações, condenando a um canto qualquer do quartinho dos fundos toda a sua coleção de pequenas importâncias contidas em  quadros antigos, bibelôs sem graça e em objetos ordinários de família.

Sabia que ainda amava aquela mulher a quem, não fazia muito, entregava-se sem prestar atenção nas horas e até em si mesmo. Mas, agora, era diferente. A rotina se encarregara de mutilar o lirismo de tantos dias felizes e de ferir, quem sabe de morte, como ele suspeitava tomado de raiva, o romantismo muitas vezes sem sentido com que costumava enxergar as miudezas da vida em comum.

Tinha noção do quanto havia lutado por ela, de quantas noites havia perdido no exercício inútil de conjeturar possibilidades no futuro improvável em que viveriam juntos para sempre. Sentia-se farto, esgotado e, sobretudo, fraco.

Estava convencido de que ela o havia traído mais de uma vez, entregando-se a ex-namorados de um passado nem tão remoto e a paixões de ocasião sem consistência.

Era dia de jogo do Brasil, o Leblon nem parecia Leblon às 5h daquela tarde de terça, mergulhado no silêncio das pessoas que, em casa, esperavam um gol narrado na Copa. A única voz que se ouvia nas ruas era a dos locutores de TV, vazada em coro pelas janelas dos apartamentos da Ataulfo de Paiva e de suas afluentes desertas.

Naquele instante, desejou com todas as forças a derrota do Brasil – só para ela sofrer. Encostou o cotovelo no balcão do botequim mais próximo, onde uma TV embaçada exibia o jogo, ignorou o burburinho em volta e mergulhou na memória de tardes mais amenas.

Lembrou-se de quando se conheceram. Estavam num bar. Ela com uma calça jeans estilo anos 1970, uma blusa de certa transparência que deixava ver o sutiã meia-taça e a beleza impiedosa de seu dorso, sandálias brancas, cabelos soltos e hálito fresco. Ele de jeans surrado, camiseta branca, tênis velho e cheiro de cerveja na boca.

Reparou nos pelos dourados que lhe compunham a pele do braço e desejou aquela mulher como não se recordava de ter desejado nenhuma outra, em qualquer tempo.

Uma bola na trave o acordou do sonho daquela primeira noite, encerrada com o beijo mais longo que já dera na vida, numa esquina do mesmo Leblon de agora, bem perto dali.

Teve vontade de voltar, mas resistiu. Sabia que, ao chegar, a mulher no apartamento não seria a mesma daquela noite de descobertas. Como ele próprio, estava contaminada pelos desfavores da rotina e tinha a alma corrompida pelas concessões da vida a dois.

Não deu atenção ao gol narrado na TV, tomou o último gole de cerveja, pagou a conta e partiu.

A rua vazia convidava à calma e a pensar mais. Convenceu-se de que a paixão tem como variáveis o rancor e a mágoa – e que o tempo, com seus pequenos desastres cotidianos, cuida de incinerar emoções antigas sem conseguir apagar a dor de suas recordações. Mas se sentiu desarmado, e preferiu voltar.

Abriu a porta, olhou a mulher com o rosto banhado em lágrimas e, sem dizer nada, entrou no quarto, descalçando os sapatos. O mesmo quarto de tantas noites de paixão, os mesmos sapatos que ela lhe dera na especialidade de certa data, ele já não lembrava qual.

– Sabe há quanto tempo você não me fala como foi o seu dia? – ela perguntou, com a voz comprometida pelo choro de ainda há pouco.

– Sabe há quanto tempo você não me pergunta? – ele devolveu, antes de entrar no banho.

Dormiram sem se tocar, ambos com o coração saturado de fracassos coniventes, ambos com a sensação inconfessada de que estavam errados. No fundo mais fundo de suas almas, sentiam-se reconfortados com a presença um do outro, embora, ali, na viuvez dolorida de um dia perdido em plena idade da rebeldia e da ardência das paixões, ainda não suspeitassem que o nome que se dá a isso também é amor.

* Texto publicado originalmente em “Nada não e outras crônicas”, do autor, 1999, Editora Mauad

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