O que os olhos veem e o coração percebe

Da minha janela, vejo, ao longe, não muito longe, o Cristo Redentor de braços abertos sobre a noite do Jardim Botânico, e, à sua esquerda, uma favela acesa, toda acesa, que rasga a floresta no Cosme Velho.

Vejo o céu rabiscado de nuvens que agora já não chovem, mas ainda há pouco choviam, e prometem voltar a chover. Numa nesga entre prédios, na madrugada iniciada, vejo a Rua das Laranjeiras agora muda e vazia do rio não faz muito caudaloso de carros e ônibus e motoboys e gente com pressa e mal distinguida à distância.

Imagino ver, além de cada ponto iluminado dos edifícios adiante, conspirações contra a felicidade e o bem-estar coletivos. Enxergo sono e enxergo desamores e amores em construção. Percebo como são grandes os males-entendidos e seu poder de aniquilamento de sentimentos e alegrias.

Um barulho de avião fora de hora polui o horizonte logo à frente, a poucos minutos de pousar, talvez no Santos Dumont, com uns 200 sonhos a bordo, e também desejos, e, quem sabe, aflições e, quem sabe ainda, saudades de partida ou de chegada.

Vejo o ninho quieto das rolinhas no caibro do telhado da varanda, e a memória retorna ao voo barulhento matinal do bando renitente de maritacas. Avisto na lembrança o casal de bem-te-vis que visita todas as tardes a caixa d’água do vizinho.

Tento adivinhar por onde vaga Adalgisa agora, com sua pose de mulher ideal, talvez já atravessando o corredor do prédio onde mora, talvez ainda na rua, voltando pra casa, talvez já despida em casa, talvez resistente numa mesa de bar, falando e gesticulando, ou, sozinha em sua cama, entregando seus pensamentos quem sabe a quem.

Os olhos fazem curvas, muitas curvas, e chegam às ruas de depois, atrás do morro adiante, e atrás do morro seguinte, e além de mais um morro, e, horizonte afora, através dos muros, em lugares onde duplas ou trios ou quartetos de amigos trocam confidências e risadas, ou onde velhos de olhos tristes, insones, examinam seu repertório de afazeres e sondam enfrentar filas na manhã seguinte, ou onde casais caminham de mãos dadas na noite sem se dar conta de que o futuro vai sempre conspirar contra eles – e que, por isso, é preciso cuidado, muito cuidado.

Da minha janela, percebo a marcha da vida que voltará a seguir ao nascer do sol, ignorando os olhos parados da moça ou do moço no ponto do ônibus.

Com muita tristeza, o olhar se debruça na janela, e, ao saber do assassinato de uma turista argentina em Copacabana, conclui, diante da foto da prisão dos suspeitos, que os autores de crimes assim na selva da cidade quase todos são negros, a exemplo do batalhão dos oprimidos e dos sem oportunidade. Tudo bem perto daqui.

E, envergonhados de fazer parte desta grande máquina de esmagar gente, os olhos se olham no espelho, e se fecham, e tentam dizer alguma coisa com seu silêncio, embora ninguém ouça.

Da minha janela, suponho o mar batendo fresco no Leblon, e também a multidão que, não faz muito, cruzava as roletas na gare da Central do Brasil à espera do último trem.

Suponho ainda, em cada luz que brilha até onde a vista alcança, o liquidificador de futuros que age impune em cada lar, em cada quarto, em cada mesa de jantar não desfeita.

Suponho beijos, abraços, gozos, bolas na trave na pelada dos garçons logo ali no campinho do Aterro. Adivinho discussões nas mesas do Lamas, na calçada do Galeto Sat’s, na Cracolândia da Avenida Brasil.

E vejo a ameaça perto, cada vez mais perto, cada vez mais, já quase dentro dos meus olhos, e o coração pulsa, pulsa, pulsa, e eu não temo nada, mais nada, e o sono chega, e a madrugada progride, e a madrugada se instala, e eu apenas fecho a janela.

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