As aventuras de Maritudo

O nome dela é Marizete. Perdão, Marilize. Não, não. Marivalda. Quer dizer, Marilúcia. Talvez Marinara. Ou, quem sabe, Marilina, Mariline, Marielza, Marilena, Marilene, Marinilda, Marileia, Maricreuza, Marissol…

Marinada? Maritudo.

Pra quem também foi batizado com um nome… deixa eu pensar melhor num termo… com um nome diferente ou, vá lá, incomum (se eu escrevesse “esquisito” aqui minha mãe poderia se chatear, ou a da… Maribela?), bom, pra quem volta e meia é chamado de Orfeu, Alceu, Perceu, Dirceu, Narceu, Maxuel, Marcel, Marcelo, Márcio e tantas outras variantes, não é difícil compreender o que a… Maribete?…, bom, o que ela sente quando trocam seu nome.

O sobrenome dela é muito mais complicado do que o nome. Mas é batata. Só erram o nome.

Fotojornalista de imenso talento, mulher de olhos sensíveis e coração solidário, ela há muito tempo dispensou o flash. Aliás, há muito tempo, dispensou uma lista grande de itens que os fotógrafos carregam em suas bolsas sempre tão pesadas.

Pra falar a verdade, ela dispensou até mesmo a bolsa de fotógrafa. Carrega apenas seu instrumento essencial, a câmera – e, quase sempre, uma só lente.

Pra falar a verdade também, ela se desfez ainda da maioria de suas roupas e de seus sapatos e de seus acessórios de moça. Decidiu viver uma vida simples, apenas com o essencial e o necessário.

Dispensou também a casa, e, há quase um ano, pode acreditar, mora no mundo, viajando pra lá e pra cá, fotografando, fotografando, fotografando, ora pro “New York Times”, ora pro Greenpeace, ora pra uma revista ou um jornal ou uma instituição – e ela não pertence a nenhuma dessas corporações enormes ou empresas miúdas que a contratam. E lá vai ela, e lá vai ela, e lá vai ela, em sua reencarnação feliz de jornalista independente.

Marivete, desculpe, Maricleia expõe no LensCulture.com (nesse link aqui, zip.net/bdsXHs) as fotos dos quartos ou alojamentos em que dorme mundo afora.

Foi ela quem me apresentou à designação “jornalista independente” e me ensinou seu significado, suas delícias e seus temores. Delícias como não ter mais de fazer as contas dos plantões e feriados pra saber se a gente vai trabalhar no ano novo ou no Natal, no carnaval ou na Semana Santa, no domingo de jogão do Flamengo ou no aniversário de um filho. Temores como o da conta que vai chegar na virada de um mês em que sua renda beirou o zero real.

Foi ela quem me deu a mão, sem saber que fazia isso, e me conduziu, com uma delicadeza do tamanho de seu talento, pelos primeiros becos escuros da vida sem carteira assinada e 13°, sem férias proporcionais e plano de saúde corporativo, a vida sem dissídio, sem acordo coletivo e refeitório com almoço subsidiado.

Pois um dia chega na minha caixa postal um e-mail do Agostinho Vieira, o grande jornalista, idealizador do site #Colabora. Agostinho me encaminhava uma mensagem da… Maridirce?…, bem, uma mensagem em que ela, a Marizélia, falava de sua surpresa ao descobrir minha procedência da Baixada Fluminense.

Porque ela também é da área, e eu nem sabia.

Na mensagem tão bem escrita, a Marilaine propunha que fizéssemos juntos, eu e ela, pro #Colabora, uma matéria num plantão de sábado na emergência do Hospital da Posse.

A remuneração modesta, dentro das possibilidades do ótimo site colaborativo do Agostinho, não atraía no contencioso entre custo e benefício de uma noite de sábado. Mas a chance de dividir uma reportagem com a… com a… Marigilse?…, uma das maiores fotojornalistas do mundo – e digo isso sem exagero -, sim, isso atraía.

Curioso é que eu havia trabalhado a poucos metros da Marilinda, por muitos anos, na mesma redação de jornal, mas só trocávamos “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, ou só um “oi”, ou só um sorriso educado, ou nem isso, e nem eu e nem ela sabíamos da coincidência das nossas origens em Nova Iguaçu, a “Atenas da Baixada” – como eu descobri outro dia que a cidade já foi chamada, veja só, isso na primeira metade do século passado, quando nem eu e nem a Marivilma havíamos nascido.

E lá fomos nós, eu e Marivânia, perdão, Marigraça, enfim, lá fomos nós viver 12 horas, das sete da noite às sete da manhã, no inferno social de uma cidade doente, uma Baixada doente, um Rio doente, um país doente, na emergência do Hospital da Posse, com sua procissão de baleados, acidentados, estropiados, mortos e semimortos, que ali chegam em busca de lenitivo pra suas vidas fragilizadas.

Ou são desembarcados ali por ambulâncias apenas pra que consigam uma assinatura em sua certidão de óbito.

E, pela primeira vez, em tantos anos de (não) convivência, conversamos, eu e Mariclodes. E Maricláudia me apresentou ao mundo do jornalismo independente, e Mariclara me indicou a leitura de certos sites, e Marinelma me relatou as trajetórias de Fulanos e Cicranos e Beltranos, e também a dela mesma, pra me provar que é muito bom não ter carteira assinada e nem a segurança de um contracheque e nem o alegra-eu capitalista das participações nos lucros com seus que-tais e suas contrapartidas.

– O bom – ela me disse – é trabalhar naquilo que você faria até de graça. Tomei essa decisão. De um tempo pra cá, só faço o que eu gosto, o que eu faria até sem receber dinheiro.

“Bom”, eu pensei comigo, brincando na minha idiotice de mais um cidadão-número recém-somado ao índice geral de desemprego no país, “bom, essa mulher deve adorar estar aqui agora, às quatro e meia da manhã, na emergência do Hospital da Posse, vendo esses dramas todos, aquele senhorzinho com a cara mutilada logo ali adiante, aquela senhorinha obesa com aparência bem pobre recém-diagnosticada com AVC, aquele jovem desacordado na maca com o corpo em carne viva depois de cair de moto…”

Mas entendi, naquele minuto, a profundidade do que a Marinete dizia, e apenas confessei pra ela a minha incapacidade de me alistar entre os “independentes”, eu, afogado em boletos bancários, com tantas responsabilidades a cumprir até o quinto dia útil do mês.

E ela apenas sorriu e disse o que me diria muitas outras vezes depois daquela madrugada na Posse:

– Você consegue. Acredite, você consegue.

Aquela que seria nossa reportagem de estreia não chegou a ser publicada, porque a pauta específica que buscávamos não se concretizou naquele plantão, e logo depois vieram o Natal e o ano-novo e o carnaval. Mas ainda será.

Já faz alguns meses que nos (re)conhecemos, eu e Marigleide, e, desde então, viramos parceiros de reportagens. No #Colabora do nosso querido Agostinho, já fomos até “promovidos” ao status de dupla, e isso pra mim é um orgulho danado.

Com sua máquina e sua lente, a… Maribete?…, enfim, ela é capaz de cometer fotos belíssimas. É inimiga do constrangimento do objeto fotografado. Seja ele um bicho, uma flor ou gente. Com ela, todo mundo sai bem na imagem.

Ela mesma não gosta muito de posar. O flagrante aí de cima foi feito por uma detenta, hoje ex, chamada Íris, na casa de acolhida onde ela e outras mães condenadas eram levadas pra visitar os filhos, no sistema prisional de Varginha, Minas, numa das muitas andanças profissionais da Marilua em sua trajetória independente.

Toda essa rasgação de seda é pra dizer que, sem ela, Marizilda Cruppe – sim, repito, uma das maiores fotojornalistas do mundo, figura divertidíssima, mulher amiga, capaz de rir dela mesma quando lhe trocam o nome (e isso acontece dia sim, dia também, em entrevistas, caixas de banco, filas de supermercado, balcão de aeroporto, a ponto de a Maritudo colecionar os diferentes nomes pelos quais a chamam) -, enfim, tudo isso é só pra dizer que, sem o incentivo e a insistência da minha querida parceira, este blog, cuja função principal é dar alegria boba ao cronista digital e mantê-lo vivo e exposto, enfim e finalmente, sem a Marizilda, este blog nem teria existido.

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