Uma viagem ao meu coração

Lá onde o Brasil começa, ou talvez acabe, ou deveria começar e nunca terminar, foi por lá que eu andei nos últimos dias.

Minhas vontades baratas, minhas necessidades sem importância, minhas urgências ordinárias, foi por lá que elas andaram e defrontaram comigo nos últimos dias.

Lá, onde a destruição demora a chegar – mas, quando chega, devasta e mutila -, foi por lá que eu andei.

Andei por variantes e picadas da Amazônia. Conversei com índios, pescadores, crianças, mulheres valentes que deveriam ser imitadas – elas, sim. Dividi com eles e com elas os sentimentos do que vai por aí. Do que vai por aqui.

Ouvi muitas histórias, contei poucas. Gente pobre e sabida. Gente sofrida, mas inconformada.

Fiz carinho no Rio Xingu, rio tão lindo, rio tão aviltado. Lavei meu rosto nele. Rio que pareceu atravessar o meu coração e lavar e ungir minha alma pra sempre.

Fui desprovido de certezas. Voltei triste. As feridas na floresta. As feridas em mim.

Dias. Sete dias. E por onde andei fui analógico e me despi do dominó do cronista digital e procurei esquecer os preconceitos que moram em todo mundo, sobretudo em mim.

Nas cafuas e nos cafundós dessa porção de Amazônia aspirei a poeira de barro da Transamazônica – e nem contra ela, a rodovia construída pela ditadura militar, nem pra ela eu torci meu nariz entupido pela nuvem vermelha que subia renitente do chão.

Apesar de ter adolescido com a certeza de que ela, a via expressa que sangrou a floresta, foi obra da megalomania fardada, apesar do meu preconceito, procurei ouvir o relato da gente que habita as bordas da estrada. E assenti, envergonhado dos meus preconceitos, que ela, a Transamazônica, fez bem a seus nativos. Fez sim.

De Altamira, no Pará, seu marco zero simbólico inaugurado pelo ditador Médici, até Belém, meio chão até Manaus, são 800 quilômetros. Desejei percorrer cada metro da estrada que se inicia bem lá atrás, em Cabedelo, na Paraíba, e vai até Lábrea, nas lonjuras do Amazonas, cortando o solo paraense ao meio. Não pude. Um dia eu volto e percorro.

Nos travessões da Amazônia, com seus calores e suas chuvas que logo passam, com seu sol de queimar o cabelo e seu céu tão azul agora mesmo e imensamente fechado de tanta nuvem daqui a pouco, com sua pobreza e sua imponência, com seus rios e bichos, ali, bem ali, nas bibocas do Brasil, eu ouvi dos povos da floresta relatos inesquecíveis do país onde vivo e fiz viver três filhos.

Descobri entre castanheiras e em caminhos remotos entre pedras de igarapés um Brasil narrado por índios mais bem informados do que eu poderia supor na minha presunção.

Descobri que os ribeirinhos, com seu grande discernimento das coisas, são capazes de trocar de canal de TV ou de estação de rádio quando querem ou se sentem enganados. Constatei que eles, os povos da floresta, sabem das passeatas de Copacabana e da Avenida Paulista. E que têm opinião sobre elas.

E quando eu procurava me esquecer um pouco delas, as passeatas e as discussões de cá e de lá, e tentava adormecer no pensamento a imagem do enorme pato feio inflável em frente à Fiesp, e também embaçar na memória o discurso apaixonado de quem só enxerga erro no outro, embora finja que não, eram eles, os ribeirinhos, que me faziam lembrar novamente de tudo.

Percebi, surpreso, flagrado nas minhas certezas desfeitas, que o Brasil, ignorado por uma parcela de juventude alienada aqui, é muito íntimo da juventude lá. Muito mesmo.

Juventude índia. Juventude cabocla. Juventude cafuza e mameluca. Juventude tudo que, um dia, eu criança, tinha vergonha de ser, e, hoje, orgulhosamente, sei que sou – mameluco, cafuzo, zambo, cariboca de Nova Iguaçu.

Um Brasil que o Brasil despreza, mas não despreza o Brasil. Um Brasil que sabe o que é o Brasil – mas que o Brasil só pensa ou mente saber dele.

Uma índia jovem, mulher de um índio guerreiro de aldeia Juruna, amarrou no meu pulso um bracelete de miçangas. Uma pulseira que, ensina o costume nativo, eu soube, simboliza a força necessária quando se entra numa guerra.

– Só desamarre do pulso depois de vencer a guerra – me disseram.

– Que guerra? – perguntei.

– Só você vai saber.

Uma rezadeira me deu sementes de pinhão-pajé, planta mágica, ela me disse, que ensina o caminho certo a seguir a cada manhã. Caroços, na verdade, porque é dentro deles, os caroços, que se escondem as sementes.

E ela me disse: “Guarde numa caixa ou envolvidos num pano ou num papel, porque esses caroços explodem sozinhos, e as sementes dentro deles, quando se dá a explosão, voam tão longe que você jamais as achará.”

Guardei na caixa dos meus óculos. E quando entrei em casa, depois da longa viagem de volta, eles, os caroços, estavam já estourados, e suas sementes mágicas amazônicas estavam a salvo, prontas pra serem plantadas.

Estão agora plantadas na terra e no meu coração. Tomara que floresçam no meu pequeno quintal e no meu peito que ama teimoso sem conseguir desamar.

Os povos da floresta sabem o que ocorre hoje no Brasil, o que ocorre no mundo. Assistiram em silêncio a Obama e Raul na TV. Gostaram. Também intuem o perigo aqui, a ameaça ao que foi decidido pelo voto livre, os senões de quem tanto prometeu sem cumprir.

Sabem bem quem fez por eles e quem os ignorou e quem os engana. Sabem dos erros e dos acertos daqueles em quem confiaram e os traíram, e criticam e defendem esses seus heróis-algozes ferozmente. Mas medem sua fúria e sua decepção, como num jogo de xadrez.

O cronista digital, analógico pela própria natureza, já foi a Cuba, onde fumou charuto Cohiba verdadeiro, e já bebeu chá de carqueja legítimo feito por sua avó Iracema em Morro Agudo. Esteve no World Trade Center antes da hecatombe do 11 de setembro de 2001, e já procurou dissipar suas tristezas e seus desamores nas madrugadas da Lapa. Já esteve em Belford Roxo e em Paris. Conheceu a Dublin de James Joyce e a Zundert de Van Gogh.

Poucos lugares invadiram tanto seu coração como a Amazônia.

O cronista digital foi lá mais uma vez. Conheceu novas pessoas. Aprendeu com todas elas. Com algumas, aprendeu mais; com outras, menos. E, desta vez, mergulhou mais fundo, mais fundo, mais fundo. Ouviu muito. Muito. Falou pouco. Pouco.

Sentiu saudade dos seus filhos, da sua família, dos seus amigos, dos seus amores. Sobretudo dos seus amores, sobretudo dos seus filhos, sobretudo da sua família e sobretudo dos seus amigos.

Concluiu, bobo e tão idiota, que todos esses, os amores, os filhos, a família, os amigos, são todos um só, são todos vértices, linhas que se unem na formação dos ângulos da sua vida, os ângulos da sua existência precária e de tudo que seu coração precário contém.

Percebeu, finalmente, que, apesar de ter ido tão longe, apesar de ter andado tanto, ele havia viajado, na verdade, apenas ao centro do seu coração.

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Mais da caixa postal do cronista

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“Desculpe insistir. Mas blog rende algum dinheiro?”
“Marceu, quem é Adalgisa?”
“Dirceu, para você, caberia melhor uma Marília… Perdão, não resisti. Hihihi…”
“Seu petismo me incomoda.”
“Gosto do que você escreve. Para ser sincera, menos quando você revela seu antipetismo.”
“Admiro sua paixão declarada pela sua Amarilza.”
“As fotos do seu blog continuam ruins.”
“Não gostei da crônica sobre Amy Winehouse. Ela dava mau exemplo.”
“Amei a crônica sobre Amy Winehouse. Dei para minha filha ler.”
“Você é Vasco?”
“Só não gosto quando você deixa escapar que é Flamengo.”
“Sabia que ia falar desse Alfredinho do Bip Bip uma hora. Estava demorando.”
“Você é gay?”
“Sinto um pouco de vergonha de perguntar. Mas é verdade que Adalgisa é seu terceiro casamento?”
“Fale mais de amor, você fala pouco de amor.”
“Você é muito romântico. Às vezes, não. Mas, às vezes, sim. Você me entende?”
 “Seu estilo me lembra… Esqueci agora.”
“Você fala demais do passado. Isso cansa.”
 “Bom ler alguém que valoriza tanto o que já viveu e parece mirar sempre o amanhã.”
 “Vi suas fotos no Facebook. São falsas? Você parece mais velho escrevendo.”
 “Marcel, Adalgisa existe?”
 “Era você em Guarulhos ontem? A moça era Adalgisa?”
 “Também me chamo Marcel e passo por essas confusões. Vivem me chamando de Marcelo ou Maxwel.”
 “Você é um chato.”
 “Seu nome não é esquisito, pare de sofrer com isso.”
 “Marceu é só um pseudônimo, imagino.”
 “Marcei, adoro seu nome, relaxa.”
 “Você tem a maior pinta de botafoguense.”
 “Quantos anos você tem? Parece tão moço para ter trabalhado no ‘Jornal do Brasil’.”
 “Cheguei ao seu blog por indicação do meu cunhado, que também se chama Narceu.”

Carta aos meus amigos petistas

O pedido de prisão preventiva do Lula pelo Ministério Público de São Paulo não chateia quem nele votou apenas pela constatação incômoda de que, em mais de cinco séculos de Brasil, seja por motivação política ou rendição econômica, os rigores da lei, nesta terra, continuam seletivos.

Desde Caramuru, o náufrago português que se encantou pela índia Paraguaçu ao dar numa praia de Salvador em 1509 ou 1510, esses rigores funcionam pra uns “assim”, e pra outros, “assado”.

Também não entristece apenas por dar mais uma martelada no prego da certeza geral de que, em algum momento da sua ascensão tão bonita, o PT se rendeu a essa mesma lógica e passou a reproduzir, no poder, os rituais de antigos inimigos – e, talvez por ter se deixado seduzir pelos encantos de certos barões do poder econômico, o partido, ou gente dele, tenha dado chance a tudo isso que ocorre agora.

Apeado de seu passado tão belo, o Partido dos Trabalhadores, aquele partido puro do broche de estrelinha no peito que tanto orgulho dava a seus militantes, aquele do “olê, olê, olê, olá!”, aquele PT teria cedido, segundo a Lava-Jato, a favores de empreiteiros milionários e famélicos da dinheirama proporcionada por obras públicas.

O pedido de prisão preventiva do Lula não aborrece, enfim, apenas pela disseminação do pensamento de que o ex-presidente teria cometido um crime, nem só pela desigualdade do rigor de alguns senhores da lei, tão cartesianos com uns, tão camaradas com outros.

O gesto do MP paulista entristece, sobretudo, pela tentativa de assassinato de um sonho.

Pelo menos, no caso deste cronista das coisas banais e mero observador dos gestos humanos.

Quando Lula ganhou sua primeira eleição pra presidente, em 2002, saí tarde da noite do trabalho e fui me juntar a amigos petistas no carnaval da comemoração no Bip Bip, o botequim de Copacabana onde eu gostaria de estar na hora do fim do mundo.

Estava ali não como o petista que nunca fui, mas como o sujeito comum que jamais vai votar na direita e anda com seus pés por aí e é dono do seu voto e do seu nariz e do seu discernimento.

De uma forma menos rasa de olhar as coisas e seus possíveis desdobramentos, não escolhi o Lula em 2002. Escolhi o sonho que ele representava – como definiu tão bem minha amiga querida Débora Thomé nas redes sociais, falando de si mesma, nesta quinta-feira 10 de março de 2016, dia em que o Ministério Público de São Paulo divulgou seu pedido de prisão preventiva, e o Brasil assistiu a mais um capítulo do colapso, do debacle, do desastre e da tentativa de desconstrução do PT.

Naquele 27 de outubro de 2002, votei na crença de um país diferente; um sem criança abandonada na rua; um onde negros e brancos fossem olhados igual; um país em que transexuais fossem considerados gente e não aberrações; uma nação sem pessoas com fome e com hospital bom pra todo mundo.

Não votei num cara barbudo dotado de voz rouca e enorme carisma, apesar de sua formação cultural e política precária, com passado de pensamento alienado ou conservador, como ele mesmo admitiu algumas vezes.

Naquele 27 de outubro de 2002, a música foi mecânica no Bip Bip. Não havia músico disposto a tocar, apesar de haver muitos ali, no pequeno bar de 18 metros quadrados do meu amigo-pai-irmão Alfredo Melo, o Alfredinho. Todos só queríamos nos divertir e comemorar. Era justo.

Foi um dia tão mágico. Adalgisa devia vagar por outro bairro, ainda sem saber que eu existia. O mar de Copacabana cuspia na areia o sal dos corpos que haviam lotado a praia horas antes. E a madrugada chegava e anunciava que a esperança, sim, a esperança, quem se lembra?, havia vencido o medo.

Abraçado ao meu amigo Cid Benjamin, o ex-guerrilheiro que, com um punhado de outros porra-loucas, tinha sequestrado o então embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, arriscando sua juventude e sua vida em troca da liberdade de 15 presos políticos – um deles, José Dirceu -, eu disse a ele, emocionado e enlevado pelos vapores da cerveja:

– Vocês são heróis do Brasil. A gente deve este momento a vocês.

Eu me dirigia também ao César Benjamin, irmão do Cid, outro ex-guerrilheiro, ali presente. Nem sei se eles recordam. Eu lembro como se fosse hoje.

Catorze anos e três eleições depois, Zé Dirceu está novamente na cadeia, agora não mais pelas razões nobres de 1969, e o Ministério Público paulista, tão contaminado pelos sentimentos e pelos desfavores da política mesquinha, pede que se faça o mesmo com Lula.

A intenção de muita gente nessa investigação da Lava-Jato, talvez não a de todos, mas a de muitos, por mais razões que o PT lhes tenha dado, o objetivo desses parece ser o aniquilamento do Lula e de seu partido.

(Que o Lula e o PT se entendam com a lei – mas que a lei também sopre forte assim pros lados dos algozes do Brasil camuflados no PSDB e no PMDB e no PP e em todos os Pês, e que os jornalões e telejornalões e revistões noticiem isso com a mesma ênfase).

Mas o que esses não devem conseguir – ninguém deve – é aniquilar o sonho de país que moveu tanta gente (esqueçam os petistas) a votar no Lula em 2002. Este sonho continua íntegro, inteiro, vivo, como disse minha amiga Débora Thomé nas redes sociais em seu emocionado e emocionante depoimento que transcrevo aqui:

“Nesses 14 anos, não teve um dia em que eu tenha me arrependido da minha opção. Porque na nossa democracia não é escolher a/o presidente que se deseja, é escolher entre as/os que te oferecem. Dentre as opções, foi a minha nas últimas quatro eleições. Não que eu não tenha condenado o mensalão, não que eu não tenha rejeitado quando ele fretou um avião para levar os amigos dos filhos (os tais filhos) para passar férias em Brasília. E não acho a corrupção um mal menor. O que vamos acompanhando hoje me dói, me dói muito. Ver a loucura, a loucura que corrompeu tanta gente de história boa do PT. Isso me faz chorar, me faz triste.

(…)

Não tenho nenhuma força ou argumento para defender o Lula ou as práticas de alguns petistas, tampouco para alguns erros graves do atual governo, mas aquele projeto que a gente celebrou lá atrás ainda é o dos meus sonhos e, mais que isso, estou certa de que ele pode ser o da nossa prática.

Como faz? Eu não tenho a menor ideia, mas vou tentando.”

Vamos.

Por Amy, Adalgisa e todas as mulheres

Ainda sobre “Amy”, o filme de Asif Kapadia que relata os últimos anos da vida tão curta de Amy Winehouse, vencedor do Oscar de 2016, motivo de crônica anterior aqui, faltou dizer o quanto ela, a imensa cantora derrotada pelo álcool e pelas drogas em 2011, amou o pai, Mitchell Winehouse, para quem “aquilo não é um documentário, mas uma mentira”.

Assim também reagiu Blake Fielder-Civil, namorado e depois marido de Amy, um fulano que a levou, sem ressalvas, a submergir nas profundezas das profundezas das profundezas do crack, da cocaína e da heroína.

Blake foi um dos dois maiores amores na vida da cantora e compositora tão bonita e tão infensa a qualquer ajuda que a salvasse dele. O outro foi o pai.

Basta pousar os olhos sobre a letra de “Rehab”, maior sucesso de Amy, pra se ter certeza.

Por ironia, Kapadia deve as melhores imagens de seu filme aos dois desagradados – Mit, como o pai é chamado nos momentos mais íntimos do documentário, e Blake, pelo visto bom assistente de vídeo, mas medíocre como homem, que vivia com uma câmera na mão nas turnês da namorada.

O Youtube está repleto de imagens de shows de Amy em que ela canta olhando nos olhos de seu grande amor, ou procurando os olhos dele no escuro da plateia ou da coxia.

Blake foi só um louco naqueles anos. Já era a paixão da estrela, e vice-versa, antes da fama e dos milhões de dólares que ela acumularia. Não parecia estar atrás de dinheiro.

Já o pai, no filme, bom, esse aí se entrega nas esquinas do que ele mesmo diz em seu depoimento a Kapadia – pelo menos, da edição do documentário, é o que fica na cabeça da gente.

Amy conta, em off, numa das passagens gravadas por Blake, que, aos 9 anos de idade, cortou os pulsos. Não fez isso, relata, porque quisesse se matar de verdade, mas apenas, segundo ela, pra tumultuar a relação da mãe com o padrasto.

O pai, também em off, na sequência, revela ter mantido um relacionamento extraconjugal desde que Amy era uma bebê – e que só tomou a iniciativa de sair de casa quando ela já era uma menininha mais crescida.

O pai, pelo que o filme permite saber, só retorna ao convívio da filha, por ele tão apaixonada, quando ela já estava famosa e rica e drogada nos braços de Blake. E, na tentativa de salvá-la do vício induzido e incentivado pelo namorado, aparta Amy de seu amor e a leva pra um exílio de alguns meses em Santa Lúcia, país insular das Pequenas Antilhas.

Blake é preso em Londres, Amy sofre, mas se abstém das drogas nas lonjuras paradisíacas do Caribe. Lá, porém, aprofunda-se na troca do crack, da heroína e da cocaína pelos exageros do álcool.

Mit não a leva sozinha pra Santa Lúcia. Na comitiva, montada por ele mesmo, faz questão de infiltrar uma equipe de vídeo, que grava as imagens de sua menina já mofina, magra demais, num calvário cujo fim estava já bem próximo. A intenção do pai de Amy, com seu “Big Brother”, não é clara.

No Dia Internacional da Mulher, o cronista digital volta, de propósito, a falar do documentário sobre Amy Winehouse não apenas por ter gostado tanto de “conhecer” aquela criatura indefesa, presa aos cordões de marionete ora do “namorido” drogado, embora carinhoso, ora do pai, de início ausente.

Volta também pela mãe dele e por sua irmã e por suas filhas. Volta por seu filho, que reconhece a Terra como um ente do gênero feminino no universo. Volta por Adalgisa. Volta por todas as mulheres.

Volta, sobretudo, por ele mesmo e por seu passado repleto de referências femininas – e, se mais não se alonga, é pra não cair nas armadilhas da pieguice mascarada de emoção e paixão por Amy.

Amy Winehouse, Sérgio Costa e as adivinhações do coração

Assisti, no fim de semana que passou, ao documentário “Amy”, vencedor do Oscar de 2016, sobre a vida de Amy Winehouse, trágica vida, vida breve, vida adoecida e efêmera de quem, na minha depreensão particular e emocionada, ao fim do filme, morreu de – ou por – amor.

Amy perdeu a guerra pra uma overdose alcoólica, aos 27 anos de idade, no dia 23 de julho de 2011, na sua Londres, cidade que tanto a detratou e a venerou, após meteórico sucesso.

Tão ligeiro e intenso e acidentado sucesso que não a deixou saber de sua entronização no altar das maiores cantoras de jazz da História, talvez a maior do século 21 – e me perdoem os mais entendidos no assunto se eu estiver enganado ou arrebatado em demasia pelo filme de Asif Kapadia.

A discografia de Amy, compositora do que interpretava, reúne apenas dois CDs de estúdio, um DVD e duas compilações póstumas, além de uma caixa pra colecionadores. Essa pouca e enorme obra somou mais de 30 milhões de cópias vendidas, uma apoteose num tempo em que as chamadas plataformas digitais abatem os discos e tantas outras coisas até dia desses julgadas por nós como eternas.

Ao longo do filme, eu me apaixonei várias vezes pela figura frágil daquela menina, com idade, talvez, pra ser minha filha, conduzida ao crack e à heroína pelo namorado e depois marido Blake Fielder-Civil, assistente de vídeo responsável – antes de ir pra cadeia pela imersão profunda no inferno das drogas  – por boa parte das valiosas imagens de bastidor reunidas no documentário.

Amy, além de refém da bebida e do crack e da heroína, era bulímica e deprimida. Quase no fim da vida, já sem conseguir cantar, sussurrava aos poucos amigos verdadeiros que, se pudesse, dava qualquer coisa pra poder caminhar novamente pelas ruas de Londres sem ser perseguida pelos flashes cruéis dos tabloides britânicos e pelo assédio implacável dos fãs. Emoldurado por sua beleza exótica e que, pra mim, era cortante, seu corpo maltratado pelo vício devia ter o peso de uma pluma.

A autópsia do corpo esgarçado de Amy mostrou que ela carregava nas veias e nas vísceras quatro vezes mais álcool do que um organismo comum poderia suportar. Foi o que entendi. Ela não era comum.

Ver o filme me fez pensar muito na finitude das coisas e, sobretudo, na finitude da própria vida, e me deixou com uma dor insistente no coração, dor que atravessou todo o fim de semana, até a manhã desta segunda-feira, 7 de março, quando recebi a triste notícia da morte do colega Sérgio Costa, jornalista tão competente e de índole tão boa e exata, com quem trabalhei no “O Dia”.

Sérgio, diferentemente de Amy, levava vida regrada e se alegrava, entre outras amenidades, com passeios de barco na costa de Salvador, onde morava há alguns anos.

Meu coração já contagiado pelas dores de Amy, meu coração que parecia querer me fazer chorar de súbito em vários momentos do fim de semana, sem nenhuma razão além das que já pudesse carregar, este meu coração bobo indicava alguma adivinhação. Talvez fosse a antecipação da notícia da morte do Sérgio.

Um dos últimos compartilhamentos do querido Sérgio em sua página no Facebook, antes de morrer de infarto, no domingo, aos 55 anos de idade, em sua casa, em Salvador, onde dirigia com brilhantismo, como ouvi falar e acredito, o “Correio da Bahia”, foi uma crônica deste meu blog. E eu nem tive tempo de agradecer.

Reflexões sobre o 4 de março de 2016

Por ter sido repórter de política num período grande da sua vida profissional, no Rio e em Brasília, e também por ter cumprido, digamos, o papel de “chefe da Casa Civil” do Ancelmo Gois em sua coluna ao longo de mais de uma década, o cronista digital sempre se sentiu pouco à vontade e até mesmo impedido de revelar o voto dele publicamente.

Repórter, sobretudo o de política, é aquele ser que, uma vez reconhecido na rua, ou quando expõe seus pensamentos no botequim ou na internet, principalmente na internet, território livre onde as ofensas se alastram como mosquito da zika ou da chicungunha, na maioria das vezes incentivadas pelo anonimato ou pela virtualidade segura de quem as comete, enfim, esse cara, o jornalista político, se identificado, vira alvo da ira de quem pensa diferente dele – ou, ainda mais comum, do patrão dele.

No auge do pedetismo no Rio, por exemplo, quando a TV Globo castigava e castigava e castigava Leonel Brizola, militantes aloprados viraram um carro da emissora. A bordo, não estava o Roberto Marinho. Estavam profissionais que, na vida privada, discordavam seriamente do pensamento da empresa e do seu dono.

O cronista digital mesmo, em tempos mais amenos, e sem ter nada com isso, já foi desafiado em balcões de botequim a explicar as posições do “Globo”, onde trabalhou por 13 anos e meio.

Mas, apesar de todo risco que possa correr neste 4 de março de 2016, dia já marcado na História brasileira como o da 24ª fase da Operação Lava-Jato, cujo alvo foi o Lula e sua família e alguns amigos, eu, hoje, senti vontade de revelar meus votos.

Não há nenhuma novidade neles. Todos os meus amigos já sabem – e outros nem tão amigos, também, por já terem dividido comigo mesas de redação ou de bar.

Em 1986, pra governador do Rio, eu votei, com o maior orgulho, no professor Darcy Ribeiro. Talvez tenha sido o resultado das urnas mais frustrante da minha trajetória de eleitor, ali incipiente. Deu Moreira Franco. Em 1989, pra presidente, fui de Brizola, no primeiro turno, e de Lula, no segundo.

Como nunca votei no PSDB nem no PMDB, apesar de acreditar na existência de gente de bem nesses partidos (e aqui queria lembrar o senador Pedro Simon), bom, como jamais escolhi candidatos tucanos ou peemedebistas, fica claro que meus votos seguintes não foram muito diferentes.

Ou seja, votei no Lula e votei na Dilma.

Nunca fui filiado a nenhum partido nem vesti camiseta de candidato. Nem nos breves meses em que fui assessor de imprensa da Cidinha Campos em sua campanha pelo PDT à prefeitura do Rio, em 1992. Aliás, nem votei nela, porque meu título era de Nova Iguaçu.

O cronista digital diz tudo isso pra tentar convencer quem dele venha discordar, por alguma razão ou paixão, que ele hoje se sente um eleitor comum, livre pra cobrar seus eleitos pela compra de um pedalinho de R$ 2 mil ou de um barquinho, ainda que mequetrefe, de R$ 4 mil. Ou de um apartamento no Guarujá – não em Higienópolis, imagina, onde mora o FH, nem no Leblon, de onde muitas vezes já tocou seu mandato ou governou Minas o senador Aécio Neves.

Não faz muito tempo, cabia aos jornais denunciar um suposto crime; à polícia, cabia investigar; ao Judiciário, julgar. Hoje, com todo o respeito e sem qualquer fiozinho de ressentimento, preocupa a constatação de que a ordem das coisas se inverteu, e que nosso principal repórter é, num sentido figurado, o japonês da Federal. O pauteiro da redação é o juiz Sérgio Moro. E a nossa grande imprensa, com sua soberba e seus autoelogios incuráveis, só parece publicar o que deles vem, o que por eles se sabe – e, na contramão do que ensinam as boas escolas de jornalismo, sem contra-apuração.

Nada contra o papel da Polícia Federal e do magistrado Moro. Acho que a Lava-Jato deve investigar mesmo. Ir fundo. Raspar o tacho de toda nojeira e pôr na cadeia os culpados, não importa o partido deles – PT, PSDB, PMDB, sobretudo esses três, que já tanto se igualam, ou PP, PQP, FDP…

Mas o ocorrido no Brasil nesta sexta-feira, dia 4 de março, é o tesouro mais contundente que o PT buscava, talvez sem merecer encontrar, com sua interminável coleção de transgressões e de desacertos e de desastres e de falta de vergonha de alguns de seus filiados. É, talvez, a prova mais bem acabada que o partido fundado a partir de tantos sonhos, em 1980, poderia receber de presente pra reforçar sua tese de motivação política por trás da Lava-Jato.

A Polícia Federal, por ordem do juiz Moro, foi à casa do Lula às 6h da manhã com um mandado de condução coercitiva pra que o ex-presidente depusesse sobre doações de empreiteiras ao instituto que leva seu nome, um barquinho de R$ 4 mil, um pedalinho de R$ 2 mil e uma chácara e um tríplex que ele garante que não são dele. Se forem, fica configurada a ocultação de patrimônio – e que o Lula (ele e dona Marisa flagrados de pijama e camisola) seja punido por isso.

Mas, de novo com todo o respeito ao juiz Moro e à tropa da Polícia Federal boa cumpridora de ordens, não havia necessidade de condução coercitiva, nem de criar mais um embaraço, este gigantesco, e mais uma crise que dissemina o devaneio da possibilidade de golpes pra um governo já paralisado e já em frangalhos e já ruim e quase sem chance de reação como o da Dilma.

O juiz Moro perdeu pontos importantes neste 4 de março. A Polícia Federal, por tabela, também. O PT, Lula e Dilma, acho, saem vencedores deste gesto aloprado.

‘Sexto andar, por favor’

Meu coração insiste em ser juvenil. Apesar da idade que já rouba do corpo a condição de jovem, ele, meu coração, insiste em ser juvenil.

Tantos sentimentos antigos moram no meu coração. Esta renitência com a poesia. O casamento longevo e fiel e indissolúvel com a música. As ruas da infância em Morro Agudo. Aquele gol mal anulado no campinho do seu Lalinho. As noites de cantoria no Bar-Te-Papo. O sorriso de Adalgisa com suas promessas jamais cumpridas. Tanta coisa.

Meu coração invadido por segredos sem importância. Meu coração que há tantos anos me derruba e me revigora.

Meu coração esquecido num banco de praça em Vila de Cava. Meu coração atingido por uma bolada atrás de uma das balizas do campo do Morro Agudo Futebol Clube. Meu coração que dava voltas no salão nos bailes de carnaval do Vasquinho. Meu coração no trem 33 da Central do Brasil.

Por fim, meu coração que subia e descia nos elevadores de aço inox reluzente da entrada principal do “Jornal do Brasil”. Ou nos elevadores de trás, um deles de carga, que ia e vinha tão lento quanto lento sempre foi o meu coração no percurso entre o apego e o desapego.

Pois meu coração abre agora novamente seu baú de lembranças, muitas delas inúteis diante do julgamento da maioria, pra contar que é meu – é sério, é meu – um dos elevadores do velho JB, naquele prédio ainda tão impregnado de histórias da Avenida Brasil 500, no Rio, onde hoje funciona o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into).

Não sei qual dos elevadores, mas que ele é meu, é meu. Pertence a este cronista digital. Alguém aí se interessa em comprar?

Peço perdão e licença a quem é mais jovem e talvez não consiga ver graça na memória de certas coisas. Perdão, licença.

A caixa postal do cronista já foi, inclusive, alvejada por críticas e sugestões assim, de gente que, em suas certezas sempre bem-vindas, recomenda mais reflexões sobre o presente ou especulações sobre o futuro, e “menos mimimi sobre o passado, Orfeu, quer dizer, Dirceu, ops, Lineu.”

Por “mimimi sobre o passado” entenda-se falar de coisas como o velho “Jornal do Brasil”, onde eu havia sido cronista pela última vez, num intervalo que já vai inteirar 18 anos – e onde ainda permanecem, hoje, vagando, as assombrações daquele jornal e… o meu elevador!

Às vezes, julgamos já ter dito tudo, e não dissemos. É o caso. Por isso, perdão. Por isso, licença. Quero contar que um dos elevadores do ex-JB, hoje Into, é meu.

Não é uma brincadeira. É sério. É meu mesmo. A diretoria do hospital nem deve suspeitar, mas eu poderia, talvez, se quisesse, instalar na porta de um daqueles elevadores um pedágio e cobrar, quem sabe, um real de cada maca.

Esta história começa quando saio daquele JB, em 1998, e não recebo tudo a que tenho direito. O velho “Jornal do Brasil” já cumpria o calvário que o levaria à morte, depois de anos de grave crise de indigência financeira e, por último, editorial.

O advogado que eu havia contratado, na época, nem chegou ao fim da ação pra incluir em seu currículo a conquista esquisita de se tornar sócio de um elevador, do qual ele seria dono de um percentual na forma de honorários. No meio do caminho, meu advogado, gente muito boa, rompeu com seu passado nos tribunais, desabafou comigo as suas decepções com certas esquinas do Judiciário, largou a profissão, mandou-se pra Shangri-La e subscreveu a ação pra um colega.

“Logo na minha vez o cara achou de pirar”, pensei. Mas tudo certo. O advogado que o sucedeu também era gente boa. A ação seguiu, foi julgada, ganhamos… mas não levamos. O JB deu o calote nas parcelas, a dívida voltou a ser a original, não a negociada, e, sob as ordens da juíza trabalhista, um oficial de Justiça foi levantar o que poderia ir a leilão no bololô da massa falida do finado jornal pra quitação do passivo.

Explico, antes que alguém pergunte. Sou credor não do título JB, arrendado ao empresário Nelson Tanure, mas da massa falida. Em linguagem de trabalhador caloteado, sou credor do que restou do falecido jornalão – coisas como o maquinário velho que imprimia aquele diário que tanto prazer nos deu, a mim e a várias outras gerações de jornalistas e leitores.

Apura daqui, olha dali, o moço oficial de Justiça listou o que havia de mais valor naquele edifício já fantasma. E o diamante do colar de rotativas velhas já imprestáveis e de paredes descascadas e de vasos sanitários carcomidos nos banheiros abandonados e do mobiliário em petição de miséria, enfim, de tudo listado, sobraram, com algum valor ainda, os reluzentes elevadores do “Jornal do Brasil”.

O meu elevador foi a leilão judicial algumas vezes, mas, evidentemente, nenhum maluco apareceu, querendo arrematá-lo.

Como eram bonitos aqueles elevadores, como eram mesmo. Aqueles elevadores já carregaram a pressa do Castelinho (saudade) pra entregar sua coluna, o sorriso cheio de ironias do Oldemário Touguinhó (saudade), a rabugice e o talento e a competência do Xico Vargas (saudade), a inteligência de tanta gente, o exemplo de tanta gente, ainda aqui entre nós ou já do lado de lá do balcão da enorme confraria da vida.

Como deviam sobrar empregos naquele Brasil em crise, até ainda há pouco governado pelo Sarney, com seus “marimbondos de fogo”. Cada elevador tinha um ascensorista uniformizado. “Sexto andar, por favor.”

No elevador de carga do JB cabia um Fusca, acho. Será aquele o meu? Ainda existe lá no Into? Ou será um daqueles da entrada principal, assépticos, que chegavam a dar na gente vontade de morar dentro deles? Talvez eu nunca saiba.

Ou serei dono de mais de um, a esta altura, com a dívida submetida a tantas correções e correções e correções e correções? Talvez eu nunca saiba também.

Mas me conforta, de alguma maneira, juro, saber que, além da família Nascimento Brito, talvez eu seja o único dono de alguma coisa física do amontoado de História que restou do velho JB original.

Depois da minha despedida, em 1998, jamais voltei àquele prédio, onde, só agora eu percebo, meu passado ainda teima em arrastar correntes. Predião tão bonito e moderno, com heliponto no teto. Espigão-orgulho de seus funcionários, onde conheci a mãe da minha filha caçula e fiz tantos amigos. Gigante vistoso de concreto, onde fui chefiado pelo Marcos Sá Corrêa, o mais brilhante diretor de redação que encontrei na vida, e onde aprendi a ser o avatar do Ancelmo Gois (nós por ele, ele por nós!). Edifício-monumento ao jornalismo brasileiro, onde ouvi pela primeira vez – e quem disse foi o mestre Vilas-Boas Corrêa – que eu era um cronista.

Alguém quer comprar meu elevador?

Minha amiga

Heleninha me apareceu pela primeira vez num sinal luminoso, mais ou menos perto de um certo Natal. Parei o carro na faixa, à espera da luz verde, e lá veio ela, com seu olhar de pidona, oferecendo chicletes por R$ 1. Comprei, perguntei o nome dela e, desde então, ficamos “amigos”.

Eu passava pelo sinal quase todos os dias – e, quase todos os dias, lá estava Heleninha, com seus 9 anos que pareciam 6, de tão mirrada que era.

Desenvolvemos um pelo outro um afeto superficial, mas ao mesmo tempo tão sincero, que, até com o sinal aberto, volta e meia, eu dava um jeito de parar o carro pra comprar seu chiclete ou, simplesmente, perguntar um “e aí?” e ouvir dela o “beleza” de sempre. Seu riso fácil não denunciava a história triste de sua infância. Não era uma menina de rua. Era uma menina na rua.

Havia deixado a escola depois de repetir de ano duas vezes seguidas. O pai tinha saído de casa, e, no aperto, a mãe achou que Heleninha seria mais útil no sinal do que na sala de aula – ela e os três irmãos, todos mais velhos, mas não menos diligentes no trato com a freguesia nem sempre simpática.

Eu vivia dizendo pra Heleninha deixar o sinal e voltar pra escola. Ela respondia, pendurada na janela do carro, que a mãe já havia tentado uma nova vaga, sem sucesso. Mas dava pra perceber que era mentira. Nem ela e muito menos a mãe pareciam querer mudar aquela situação.

Hoje, olhando pra trás e lembrando a figura frágil de Heleninha, tenho certeza de que ela buscava na atenção paciente de fregueses como eu algo parecido com um pai. Ela negava. Ficava brava quando eu dizia: “Olha aqui, Heleninha, eu não sou seu pai, entende? Para de me pedir tudo.” Ficava tão brava que respondia, dando as costas: “Quem disse que eu quero que você seja meu pai?!”

Alguns meses depois do primeiro encontro, uma coincidência me fez descobrir o dia do aniversário dela. Eu levava um bolo no banco do carona, ela perguntou pra quem era, contei que haveria um “parabéns pra você” na família, e pronto. Fiquei sabendo que ela completaria 10 anos dali a uma semana.

No dia exato do aniversário da minha amiga, dei a ela um macacão jeans, “igual ao da menina da novela”. No dia do meu, fiz questão de contar pra ela e ganhei um chiclete e um beijo envergonhado na bochecha.

É claro que eu me preocupava com aquela dependência descabida. Mas não fazia nada pra evitá-la. Pelo contrário. Como morava perto, mais de uma vez, nos fins de semana, saía de casa, pedalando a bicicleta, só pra lhe dar um “oi” no sinal ou um embrulho com o que comer.

Cheguei a pensar em conseguir uma casa e uma família novas pra ela. Mas não demorei a perceber que, apesar de mirrada, Heleninha já era vivida demais pra trocar a mãe, os irmãos e tantas referências de menina solta no sinal pelo insondável.

Nossa cumplicidade infantil permitiu que dividíssemos segredos. Ela arregalou os olhos quando contei que meu maior complexo dos tempos de criança atendia pelo nome de zigodactilia, derrapada genética que me fez nascer com dois dedos do pé esquerdo semicolados. Ela duvidou, pediu pra ver e, quando mostrei, botando o pé descalço pra fora da janela do carro, achou tão engraçado que riu de se acabar.

O segredo mais relevante de Heleninha era sua teimosia em comer melecas “quando era pequena”. Contou que, pra acabar com a mania, a mãe passou a lambuzar seus dedos com pimenta. Mas não adiantou. Porque, em vez de se livrar do vício das melecas, arrumou um outro – o de pimenta.

Mas jurava que aquilo era coisa do passado. Tinha abandonado o péssimo hábito, assim eu entendi, por causa de um garoto que balançara seu coração de criança. O menino poderia descobrir, ficar enojado, e aí babau – as supostas pretensões infantis de Heleninha iriam pro brejo.

Um dia minha amiga sumiu. Já estava pra fazer 11, embora ainda aparentasse os 9 de quando nos conhecemos. No primeiro dia sem ela no sinal, estava tão atrasado pra um compromisso que não liguei. No segundo, estranhei. No terceiro, perguntei por ela, mas nenhum daqueles meninos que também zanzavam por ali soube dizer.

Ela já havia sumido antes. Mas, das outras vezes, seus irmãos estavam lá pra contar que Heleninha isso ou Heleninha aquilo. Mas, agora, a família toda desaparecera.

Quando o sumiço da minha amiga completou um mês, temi por ela e achei que era meu dever procurá-la na favela onde dizia morar. Nem foi preciso. Na manhã seguinte, num desvio de caminho, eu passava de carro pelo outro lado da cidade quando avistei Heleninha com dois dos três irmãos num novo sinal.

Dessa vez, não vendiam chicletes nem pediam dinheiro. Vestidos com uniformes da escola pública, apenas esperavam pra atravessar a rua.

Fiquei tão alegre que soltei uma gargalhada solitária no carro. E só não parei pra falar com ela porque percebi que a cena da minha pequena amiga indo pra escola já era o final mais feliz que o destino poderia dar à nossa história.

* Texto revisado publicado originalmente em “Nada não e outras crônicas”, do autor, Editora Mauad, 1999