Minha amiga

Heleninha me apareceu pela primeira vez num sinal luminoso, mais ou menos perto de um certo Natal. Parei o carro na faixa, à espera da luz verde, e lá veio ela, com seu olhar de pidona, oferecendo chicletes por R$ 1. Comprei, perguntei o nome dela e, desde então, ficamos “amigos”.

Eu passava pelo sinal quase todos os dias – e, quase todos os dias, lá estava Heleninha, com seus 9 anos que pareciam 6, de tão mirrada que era.

Desenvolvemos um pelo outro um afeto superficial, mas ao mesmo tempo tão sincero, que, até com o sinal aberto, volta e meia, eu dava um jeito de parar o carro pra comprar seu chiclete ou, simplesmente, perguntar um “e aí?” e ouvir dela o “beleza” de sempre. Seu riso fácil não denunciava a história triste de sua infância. Não era uma menina de rua. Era uma menina na rua.

Havia deixado a escola depois de repetir de ano duas vezes seguidas. O pai tinha saído de casa, e, no aperto, a mãe achou que Heleninha seria mais útil no sinal do que na sala de aula – ela e os três irmãos, todos mais velhos, mas não menos diligentes no trato com a freguesia nem sempre simpática.

Eu vivia dizendo pra Heleninha deixar o sinal e voltar pra escola. Ela respondia, pendurada na janela do carro, que a mãe já havia tentado uma nova vaga, sem sucesso. Mas dava pra perceber que era mentira. Nem ela e muito menos a mãe pareciam querer mudar aquela situação.

Hoje, olhando pra trás e lembrando a figura frágil de Heleninha, tenho certeza de que ela buscava na atenção paciente de fregueses como eu algo parecido com um pai. Ela negava. Ficava brava quando eu dizia: “Olha aqui, Heleninha, eu não sou seu pai, entende? Para de me pedir tudo.” Ficava tão brava que respondia, dando as costas: “Quem disse que eu quero que você seja meu pai?!”

Alguns meses depois do primeiro encontro, uma coincidência me fez descobrir o dia do aniversário dela. Eu levava um bolo no banco do carona, ela perguntou pra quem era, contei que haveria um “parabéns pra você” na família, e pronto. Fiquei sabendo que ela completaria 10 anos dali a uma semana.

No dia exato do aniversário da minha amiga, dei a ela um macacão jeans, “igual ao da menina da novela”. No dia do meu, fiz questão de contar pra ela e ganhei um chiclete e um beijo envergonhado na bochecha.

É claro que eu me preocupava com aquela dependência descabida. Mas não fazia nada pra evitá-la. Pelo contrário. Como morava perto, mais de uma vez, nos fins de semana, saía de casa, pedalando a bicicleta, só pra lhe dar um “oi” no sinal ou um embrulho com o que comer.

Cheguei a pensar em conseguir uma casa e uma família novas pra ela. Mas não demorei a perceber que, apesar de mirrada, Heleninha já era vivida demais pra trocar a mãe, os irmãos e tantas referências de menina solta no sinal pelo insondável.

Nossa cumplicidade infantil permitiu que dividíssemos segredos. Ela arregalou os olhos quando contei que meu maior complexo dos tempos de criança atendia pelo nome de zigodactilia, derrapada genética que me fez nascer com dois dedos do pé esquerdo semicolados. Ela duvidou, pediu pra ver e, quando mostrei, botando o pé descalço pra fora da janela do carro, achou tão engraçado que riu de se acabar.

O segredo mais relevante de Heleninha era sua teimosia em comer melecas “quando era pequena”. Contou que, pra acabar com a mania, a mãe passou a lambuzar seus dedos com pimenta. Mas não adiantou. Porque, em vez de se livrar do vício das melecas, arrumou um outro – o de pimenta.

Mas jurava que aquilo era coisa do passado. Tinha abandonado o péssimo hábito, assim eu entendi, por causa de um garoto que balançara seu coração de criança. O menino poderia descobrir, ficar enojado, e aí babau – as supostas pretensões infantis de Heleninha iriam pro brejo.

Um dia minha amiga sumiu. Já estava pra fazer 11, embora ainda aparentasse os 9 de quando nos conhecemos. No primeiro dia sem ela no sinal, estava tão atrasado pra um compromisso que não liguei. No segundo, estranhei. No terceiro, perguntei por ela, mas nenhum daqueles meninos que também zanzavam por ali soube dizer.

Ela já havia sumido antes. Mas, das outras vezes, seus irmãos estavam lá pra contar que Heleninha isso ou Heleninha aquilo. Mas, agora, a família toda desaparecera.

Quando o sumiço da minha amiga completou um mês, temi por ela e achei que era meu dever procurá-la na favela onde dizia morar. Nem foi preciso. Na manhã seguinte, num desvio de caminho, eu passava de carro pelo outro lado da cidade quando avistei Heleninha com dois dos três irmãos num novo sinal.

Dessa vez, não vendiam chicletes nem pediam dinheiro. Vestidos com uniformes da escola pública, apenas esperavam pra atravessar a rua.

Fiquei tão alegre que soltei uma gargalhada solitária no carro. E só não parei pra falar com ela porque percebi que a cena da minha pequena amiga indo pra escola já era o final mais feliz que o destino poderia dar à nossa história.

* Texto revisado publicado originalmente em “Nada não e outras crônicas”, do autor, Editora Mauad, 1999

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8 comentários sobre “Minha amiga

  1. Aaaah!! Chorei com o final feliz! Que bom seria se todas as Heleninhas pudessem contar com a sorte de um afeto sincero e uma gargalhada de felicidade pela sua vitória.
    Tive uma Heleninha certa vez. Eu ainda na faculdade e ela num sinal próximo ao ponto do meu ônibus. Como eu quase nunca tinha grana sobrando pro chiclets negociei com ela: não tenho dinheiro, mas tenho beijinhos! Proposta aceita com desconfiança inicialmente mas que virou hábito. Todo dia lá vinha a Cacau ganhar beijinhos. Com o tempo trouxe os amigos e era uma farra beijoqueira. Acabou a faculdade e nunca mais soube dela. Tomara que tenha ganhado uma chance também e voltado pra escola…

    Curtido por 1 pessoa

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