‘Sexto andar, por favor’

Meu coração insiste em ser juvenil. Apesar da idade que já rouba do corpo a condição de jovem, ele, meu coração, insiste em ser juvenil.

Tantos sentimentos antigos moram no meu coração. Esta renitência com a poesia. O casamento longevo e fiel e indissolúvel com a música. As ruas da infância em Morro Agudo. Aquele gol mal anulado no campinho do seu Lalinho. As noites de cantoria no Bar-Te-Papo. O sorriso de Adalgisa com suas promessas jamais cumpridas. Tanta coisa.

Meu coração invadido por segredos sem importância. Meu coração que há tantos anos me derruba e me revigora.

Meu coração esquecido num banco de praça em Vila de Cava. Meu coração atingido por uma bolada atrás de uma das balizas do campo do Morro Agudo Futebol Clube. Meu coração que dava voltas no salão nos bailes de carnaval do Vasquinho. Meu coração no trem 33 da Central do Brasil.

Por fim, meu coração que subia e descia nos elevadores de aço inox reluzente da entrada principal do “Jornal do Brasil”. Ou nos elevadores de trás, um deles de carga, que ia e vinha tão lento quanto lento sempre foi o meu coração no percurso entre o apego e o desapego.

Pois meu coração abre agora novamente seu baú de lembranças, muitas delas inúteis diante do julgamento da maioria, pra contar que é meu – é sério, é meu – um dos elevadores do velho JB, naquele prédio ainda tão impregnado de histórias da Avenida Brasil 500, no Rio, onde hoje funciona o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into).

Não sei qual dos elevadores, mas que ele é meu, é meu. Pertence a este cronista digital. Alguém aí se interessa em comprar?

Peço perdão e licença a quem é mais jovem e talvez não consiga ver graça na memória de certas coisas. Perdão, licença.

A caixa postal do cronista já foi, inclusive, alvejada por críticas e sugestões assim, de gente que, em suas certezas sempre bem-vindas, recomenda mais reflexões sobre o presente ou especulações sobre o futuro, e “menos mimimi sobre o passado, Orfeu, quer dizer, Dirceu, ops, Lineu.”

Por “mimimi sobre o passado” entenda-se falar de coisas como o velho “Jornal do Brasil”, onde eu havia sido cronista pela última vez, num intervalo que já vai inteirar 18 anos – e onde ainda permanecem, hoje, vagando, as assombrações daquele jornal e… o meu elevador!

Às vezes, julgamos já ter dito tudo, e não dissemos. É o caso. Por isso, perdão. Por isso, licença. Quero contar que um dos elevadores do ex-JB, hoje Into, é meu.

Não é uma brincadeira. É sério. É meu mesmo. A diretoria do hospital nem deve suspeitar, mas eu poderia, talvez, se quisesse, instalar na porta de um daqueles elevadores um pedágio e cobrar, quem sabe, um real de cada maca.

Esta história começa quando saio daquele JB, em 1998, e não recebo tudo a que tenho direito. O velho “Jornal do Brasil” já cumpria o calvário que o levaria à morte, depois de anos de grave crise de indigência financeira e, por último, editorial.

O advogado que eu havia contratado, na época, nem chegou ao fim da ação pra incluir em seu currículo a conquista esquisita de se tornar sócio de um elevador, do qual ele seria dono de um percentual na forma de honorários. No meio do caminho, meu advogado, gente muito boa, rompeu com seu passado nos tribunais, desabafou comigo as suas decepções com certas esquinas do Judiciário, largou a profissão, mandou-se pra Shangri-La e subscreveu a ação pra um colega.

“Logo na minha vez o cara achou de pirar”, pensei. Mas tudo certo. O advogado que o sucedeu também era gente boa. A ação seguiu, foi julgada, ganhamos… mas não levamos. O JB deu o calote nas parcelas, a dívida voltou a ser a original, não a negociada, e, sob as ordens da juíza trabalhista, um oficial de Justiça foi levantar o que poderia ir a leilão no bololô da massa falida do finado jornal pra quitação do passivo.

Explico, antes que alguém pergunte. Sou credor não do título JB, arrendado ao empresário Nelson Tanure, mas da massa falida. Em linguagem de trabalhador caloteado, sou credor do que restou do falecido jornalão – coisas como o maquinário velho que imprimia aquele diário que tanto prazer nos deu, a mim e a várias outras gerações de jornalistas e leitores.

Apura daqui, olha dali, o moço oficial de Justiça listou o que havia de mais valor naquele edifício já fantasma. E o diamante do colar de rotativas velhas já imprestáveis e de paredes descascadas e de vasos sanitários carcomidos nos banheiros abandonados e do mobiliário em petição de miséria, enfim, de tudo listado, sobraram, com algum valor ainda, os reluzentes elevadores do “Jornal do Brasil”.

O meu elevador foi a leilão judicial algumas vezes, mas, evidentemente, nenhum maluco apareceu, querendo arrematá-lo.

Como eram bonitos aqueles elevadores, como eram mesmo. Aqueles elevadores já carregaram a pressa do Castelinho (saudade) pra entregar sua coluna, o sorriso cheio de ironias do Oldemário Touguinhó (saudade), a rabugice e o talento e a competência do Xico Vargas (saudade), a inteligência de tanta gente, o exemplo de tanta gente, ainda aqui entre nós ou já do lado de lá do balcão da enorme confraria da vida.

Como deviam sobrar empregos naquele Brasil em crise, até ainda há pouco governado pelo Sarney, com seus “marimbondos de fogo”. Cada elevador tinha um ascensorista uniformizado. “Sexto andar, por favor.”

No elevador de carga do JB cabia um Fusca, acho. Será aquele o meu? Ainda existe lá no Into? Ou será um daqueles da entrada principal, assépticos, que chegavam a dar na gente vontade de morar dentro deles? Talvez eu nunca saiba.

Ou serei dono de mais de um, a esta altura, com a dívida submetida a tantas correções e correções e correções e correções? Talvez eu nunca saiba também.

Mas me conforta, de alguma maneira, juro, saber que, além da família Nascimento Brito, talvez eu seja o único dono de alguma coisa física do amontoado de História que restou do velho JB original.

Depois da minha despedida, em 1998, jamais voltei àquele prédio, onde, só agora eu percebo, meu passado ainda teima em arrastar correntes. Predião tão bonito e moderno, com heliponto no teto. Espigão-orgulho de seus funcionários, onde conheci a mãe da minha filha caçula e fiz tantos amigos. Gigante vistoso de concreto, onde fui chefiado pelo Marcos Sá Corrêa, o mais brilhante diretor de redação que encontrei na vida, e onde aprendi a ser o avatar do Ancelmo Gois (nós por ele, ele por nós!). Edifício-monumento ao jornalismo brasileiro, onde ouvi pela primeira vez – e quem disse foi o mestre Vilas-Boas Corrêa – que eu era um cronista.

Alguém quer comprar meu elevador?

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34 comentários sobre “‘Sexto andar, por favor’

    1. É, Marceu, também me sinto um pouco sócio daquele elevador, depois de tantos anos na velha Rádio JBAM, no 7º andar. Lembro-me principalmente do bom humor do “Vovô”, o meu ascensorista favorito. Bom humor que se elevava às raias da euforia toda vez que ele se encontrava com João Saldanha e os dois travavam um bate-papo imperdível sobre futebol naquele curto trajeto entre os pavimentos. Bons tempos.

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  1. Que maravilha! Olha vc falando de Morro Agudo também remete minha infância, tínhamos uma ” secretária” que era de Morro Agudo e me levava com elas para sua casa algumas vezes nos finais de semana.
    Os elevadores do JB que maravilha eram de fato uma maravilha, aqueles espelhos enormes que muitas vezes dava o último retoque antes de chegar……
    Lindo seu texto e delicioso de se ler.
    Parabéns mais uma vez!

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  2. Muitas lembranças… Um dia cheguei bem atrasada para trabalhar nesse mesmo prédio e dei de cara com o chefe no elevador. Foram os seis lances mais longos com o almofadinha me olhando e balançando a cabeça tipo… “Espera chegar no aquário que o couro vai comer”. De fato, comeu. O cara me esculachou e fui chorar escondido perto da cantina. Ô, azar…

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  3. saí um ano antes
    com vários depósitos de R$ 0,01 “recebi” tudo o que me deviam
    mas deixei naquele prédio muito do que sempre imaginei ser Jornalismo (assim mesmo, com J maiúsculo, por favor)
    não usava o elevador social
    subia no de carga, pois descia na Avenida Brasil, do 261, que hoje nem existe mais (na época era da CTC, mas quem há de lembrar disso?)
    tínhamos o tão falado salário-ambiente
    quantas vezes deitei no chão do sexto andar (isso mesmo, deitei), durante o pescoção?
    quantas vezes descemos cantando rumo à Variant que vendia cachorro-quente?
    quantas vezes passo pelo prédio e procuro a mesa onde escrevi…
    como disse, “recebi” tudo o que me deviam, menos o jeito certo de esquecer como era feliz naquele gigante de concreto

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  4. Não quero comprar seu elevador!! rsrsrs mais sim viajar sempre em suas crônicas ,sempre cheias de emoção, talento e saudades ,afinal isso tudo você conhece ,sente e transpira .Bom recordar e ter no cantinho do coração lembranças boas pois as ruins devemos esquecer. Um grande abraço e beijo .Saudades

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  5. Aos prantos. Minha vida subiu e desceu por aqueles elevadores por uma eternidade. Sou do tempo em que os seguranças esvaziavam o elevador social para que um elitista Nascimento Brito subisse sozinho por ele. No seu final decadente, o velho já não fazia essa exigência toda. Mas eu preferia mesmo era o ir e vir pelos ferrugentos de carga, localizados próximos à rotativa e aos rolos gigantes de papel. Foi de tanto ver as equipes de reportagem chegando e saindo por ele do jornal que um dia criei coragem e cheguei ao sexto andar.

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  6. Meu texto provavelmente não é tão brilhante quanto o do Marceu. Mas eu tenho uma história de elevador muito engraçada… Saio eu depois do expediente. Fico esperando ansiosa o elevador que esta no 6o andar. Sabado, tipo umas 2h00 da tarde e eu apressada pra ir embora pois a praia me esperava. Quando, enfim, o elevador se abre, dou de cara com uma senhorinha muito arrumada. Cumprimento-a com minha afobação juvenil sem sequer imaginar quem seja, mais “preocupada” em chegar logo ao terreo e correr pra praia. Morosamente o elevador começa descer , o que da tempo suficiente pra pensar : como essa senhorinha vai sair daqui da Av. Brasil, 500 (soa bem Av. Brasil, 500) sozinha? Abusadamente, impensadamente pergunto de sopetao : a Sra. quer uma carona? Sair daqui e meio ruim a essa hora. Meu namorado esta ai para me pegar e posso deixa-la. Estou indo pro Leme. Ela me agradece e diz pra eu não me preocupar, que ela está bem. E que alguem tambem a esta esperando. Deixo que ela saia na minha frente por educação. Saio em seguida me dirigindo pra portaria principal e percebo que ela se dirige pra saida lateral onde, realmente, tinha uma pessoa esperando. Era um Lincoln claro e um motorista a esperava com a porta aberta.. Dai me dei conta: era a Condessa Pereira Carneiro que , carinhosamente , a chamávamos de Tia Maurina. Seu texto despertou minha memoria. E deu uma sauuuuudade muito boa. Obrigada.

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  7. Marceuzinho, queridão, muito obrigada por fazer esse brilhante relato-anúncio, tão emocionante pra nós que andávamos naqueles elevadores. Ontem, entreguei minha dissertação de mestrado e comecei o doutorado sobre as memórias coletivas e afetivas desse espólio, e fiquei arrepiada com o diálogo entre a sua crônica e a primeira do Drummond publicada no JB, em 1969, chamada “Leilão do ar”, sobre o leilão da companhia aérea Panair. Um trechinho:
    “Nos últimos tempos, vem acontecendo leilões de navios e leilões de ilhas, não sei se de montanhas. O leiloeiro, diante de um público restrito, mas de alto poder econômico (não há por aí gente em condições de arrematar uma ilha ou um navio inteiro), faz exatamente como se se tratasse de um aparelho de chá ou de um lote de miudezas. Só que é estranho ver uma ilha leiloada, com suas águas, plantas, bichos, minerais, caminhos, casas e outras benfeitorias. Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas… De repente, ao entardecer, a ilha aparece no salão escuro, cercada de dívida; emerge da papelada do espólio, ocupa a rua, caminhamos por ela através dos lances do leilão, de gritos martelados” (B, 2/10/1969).
    Se quiser ler a crônica completa, linda, linda – como a sua: http://www.jb.com.br/especial-drummond/noticias/2012/07/01/a-1a-cronica-no-jornal-do-brasil-leilao-do-ar-em-outubro-de-1969/.
    Obrigada pela carona neste elevador.
    Com carinho, Itala Maduell

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  8. Em tempo: voltei lá, há um ano, quando minha mãe foi operada no Into. Entrei tremendo, preocupação de filha de paciente misturada à emoção de pisar naquele chão, passar por aquelas paredes, tentando reconhecê-las. A ala de pós-operatório era no sétimo andar, com vista para o porto, mesma posição das editorias de Economia e Política, no andar de baixo (tirei uma foto da janela). O esqueleto está lá, mas a estrutura é toda outra – o seu (nosso) elevador não está mais lá. Onde estará?

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  9. Tenho uma memória sentimental muito forte com o JB: era o jornal que papai lia religiosamente todos os dias. Posso sentir o cheiro da tinta de suas páginas nas lembranças afetivas e olfativas da minha infância. Quando passávamos pelo prédio, papai comentava: seu primo Marceu trabalha ali, e eu ficava imaginando uma sala imensa com dezenas de máquinas de escrever e pessoas agitadas discutindo as notícias do dia. Ainda que eu tenha te visitado na redação de O Globo, totalmente moderna e diferente das de outrora, e que hoje o edifício abrigue o INTO, tem um pedacinho Vieira no meu coração que insiste em ouvir uma máquina datilográfica em ação toda vez que eu passo pelo lugar o qual, para sempre, chamarei de prédio do JB.

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