Amy Winehouse, Sérgio Costa e as adivinhações do coração

Assisti, no fim de semana que passou, ao documentário “Amy”, vencedor do Oscar de 2016, sobre a vida de Amy Winehouse, trágica vida, vida breve, vida adoecida e efêmera de quem, na minha depreensão particular e emocionada, ao fim do filme, morreu de – ou por – amor.

Amy perdeu a guerra pra uma overdose alcoólica, aos 27 anos de idade, no dia 23 de julho de 2011, na sua Londres, cidade que tanto a detratou e a venerou, após meteórico sucesso.

Tão ligeiro e intenso e acidentado sucesso que não a deixou saber de sua entronização no altar das maiores cantoras de jazz da História, talvez a maior do século 21 – e me perdoem os mais entendidos no assunto se eu estiver enganado ou arrebatado em demasia pelo filme de Asif Kapadia.

A discografia de Amy, compositora do que interpretava, reúne apenas dois CDs de estúdio, um DVD e duas compilações póstumas, além de uma caixa pra colecionadores. Essa pouca e enorme obra somou mais de 30 milhões de cópias vendidas, uma apoteose num tempo em que as chamadas plataformas digitais abatem os discos e tantas outras coisas até dia desses julgadas por nós como eternas.

Ao longo do filme, eu me apaixonei várias vezes pela figura frágil daquela menina, com idade, talvez, pra ser minha filha, conduzida ao crack e à heroína pelo namorado e depois marido Blake Fielder-Civil, assistente de vídeo responsável – antes de ir pra cadeia pela imersão profunda no inferno das drogas  – por boa parte das valiosas imagens de bastidor reunidas no documentário.

Amy, além de refém da bebida e do crack e da heroína, era bulímica e deprimida. Quase no fim da vida, já sem conseguir cantar, sussurrava aos poucos amigos verdadeiros que, se pudesse, dava qualquer coisa pra poder caminhar novamente pelas ruas de Londres sem ser perseguida pelos flashes cruéis dos tabloides britânicos e pelo assédio implacável dos fãs. Emoldurado por sua beleza exótica e que, pra mim, era cortante, seu corpo maltratado pelo vício devia ter o peso de uma pluma.

A autópsia do corpo esgarçado de Amy mostrou que ela carregava nas veias e nas vísceras quatro vezes mais álcool do que um organismo comum poderia suportar. Foi o que entendi. Ela não era comum.

Ver o filme me fez pensar muito na finitude das coisas e, sobretudo, na finitude da própria vida, e me deixou com uma dor insistente no coração, dor que atravessou todo o fim de semana, até a manhã desta segunda-feira, 7 de março, quando recebi a triste notícia da morte do colega Sérgio Costa, jornalista tão competente e de índole tão boa e exata, com quem trabalhei no “O Dia”.

Sérgio, diferentemente de Amy, levava vida regrada e se alegrava, entre outras amenidades, com passeios de barco na costa de Salvador, onde morava há alguns anos.

Meu coração já contagiado pelas dores de Amy, meu coração que parecia querer me fazer chorar de súbito em vários momentos do fim de semana, sem nenhuma razão além das que já pudesse carregar, este meu coração bobo indicava alguma adivinhação. Talvez fosse a antecipação da notícia da morte do Sérgio.

Um dos últimos compartilhamentos do querido Sérgio em sua página no Facebook, antes de morrer de infarto, no domingo, aos 55 anos de idade, em sua casa, em Salvador, onde dirigia com brilhantismo, como ouvi falar e acredito, o “Correio da Bahia”, foi uma crônica deste meu blog. E eu nem tive tempo de agradecer.

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2 comentários sobre “Amy Winehouse, Sérgio Costa e as adivinhações do coração

  1. A morte dis outros nos toca em várias intensidades e nos faz pensar sobre o tempo.
    O morto tem seu tempo extinto e os vivos seguem com os seus que um dia também acabará e não sabemos nem onde estaremos e quando será.
    Tive oportunidade de assistir a linda e frágil Amy aqui no Rio.
    Lembro que todo o tempo ela claramente demonstrava sua timidez e até mal estar de cantar e se deixar ser assistida por estranhos.
    Amy não havia nascido para exibir toda aquela arte estupenda de compor e cantar.
    Parece que ela se violentou, tornando público seus talentos e não ter estrutura emocional para todo ritual que a fama lhe entregava em sua rotina de vida.
    Infelizmente ,as drogas ganharam força para amortecer a dor da fama.
    Esta semana uma amiga perdeu seu filho homem de 22 anos, e os mesmos sentimentos que você relata pudemos compartilhar e só nos resta fazer um mix de lágrimas e em breve dar a volta por cima, pois nosso tempo ainda está vivo!

    Curtido por 1 pessoa

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