Por Amy, Adalgisa e todas as mulheres

Ainda sobre “Amy”, o filme de Asif Kapadia que relata os últimos anos da vida tão curta de Amy Winehouse, vencedor do Oscar de 2016, motivo de crônica anterior aqui, faltou dizer o quanto ela, a imensa cantora derrotada pelo álcool e pelas drogas em 2011, amou o pai, Mitchell Winehouse, para quem “aquilo não é um documentário, mas uma mentira”.

Assim também reagiu Blake Fielder-Civil, namorado e depois marido de Amy, um fulano que a levou, sem ressalvas, a submergir nas profundezas das profundezas das profundezas do crack, da cocaína e da heroína.

Blake foi um dos dois maiores amores na vida da cantora e compositora tão bonita e tão infensa a qualquer ajuda que a salvasse dele. O outro foi o pai.

Basta pousar os olhos sobre a letra de “Rehab”, maior sucesso de Amy, pra se ter certeza.

Por ironia, Kapadia deve as melhores imagens de seu filme aos dois desagradados – Mit, como o pai é chamado nos momentos mais íntimos do documentário, e Blake, pelo visto bom assistente de vídeo, mas medíocre como homem, que vivia com uma câmera na mão nas turnês da namorada.

O Youtube está repleto de imagens de shows de Amy em que ela canta olhando nos olhos de seu grande amor, ou procurando os olhos dele no escuro da plateia ou da coxia.

Blake foi só um louco naqueles anos. Já era a paixão da estrela, e vice-versa, antes da fama e dos milhões de dólares que ela acumularia. Não parecia estar atrás de dinheiro.

Já o pai, no filme, bom, esse aí se entrega nas esquinas do que ele mesmo diz em seu depoimento a Kapadia – pelo menos, da edição do documentário, é o que fica na cabeça da gente.

Amy conta, em off, numa das passagens gravadas por Blake, que, aos 9 anos de idade, cortou os pulsos. Não fez isso, relata, porque quisesse se matar de verdade, mas apenas, segundo ela, pra tumultuar a relação da mãe com o padrasto.

O pai, também em off, na sequência, revela ter mantido um relacionamento extraconjugal desde que Amy era uma bebê – e que só tomou a iniciativa de sair de casa quando ela já era uma menininha mais crescida.

O pai, pelo que o filme permite saber, só retorna ao convívio da filha, por ele tão apaixonada, quando ela já estava famosa e rica e drogada nos braços de Blake. E, na tentativa de salvá-la do vício induzido e incentivado pelo namorado, aparta Amy de seu amor e a leva pra um exílio de alguns meses em Santa Lúcia, país insular das Pequenas Antilhas.

Blake é preso em Londres, Amy sofre, mas se abstém das drogas nas lonjuras paradisíacas do Caribe. Lá, porém, aprofunda-se na troca do crack, da heroína e da cocaína pelos exageros do álcool.

Mit não a leva sozinha pra Santa Lúcia. Na comitiva, montada por ele mesmo, faz questão de infiltrar uma equipe de vídeo, que grava as imagens de sua menina já mofina, magra demais, num calvário cujo fim estava já bem próximo. A intenção do pai de Amy, com seu “Big Brother”, não é clara.

No Dia Internacional da Mulher, o cronista digital volta, de propósito, a falar do documentário sobre Amy Winehouse não apenas por ter gostado tanto de “conhecer” aquela criatura indefesa, presa aos cordões de marionete ora do “namorido” drogado, embora carinhoso, ora do pai, de início ausente.

Volta também pela mãe dele e por sua irmã e por suas filhas. Volta por seu filho, que reconhece a Terra como um ente do gênero feminino no universo. Volta por Adalgisa. Volta por todas as mulheres.

Volta, sobretudo, por ele mesmo e por seu passado repleto de referências femininas – e, se mais não se alonga, é pra não cair nas armadilhas da pieguice mascarada de emoção e paixão por Amy.

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