Uma viagem ao meu coração

Lá onde o Brasil começa, ou talvez acabe, ou deveria começar e nunca terminar, foi por lá que eu andei nos últimos dias.

Minhas vontades baratas, minhas necessidades sem importância, minhas urgências ordinárias, foi por lá que elas andaram e defrontaram comigo nos últimos dias.

Lá, onde a destruição demora a chegar – mas, quando chega, devasta e mutila -, foi por lá que eu andei.

Andei por variantes e picadas da Amazônia. Conversei com índios, pescadores, crianças, mulheres valentes que deveriam ser imitadas – elas, sim. Dividi com eles e com elas os sentimentos do que vai por aí. Do que vai por aqui.

Ouvi muitas histórias, contei poucas. Gente pobre e sabida. Gente sofrida, mas inconformada.

Fiz carinho no Rio Xingu, rio tão lindo, rio tão aviltado. Lavei meu rosto nele. Rio que pareceu atravessar o meu coração e lavar e ungir minha alma pra sempre.

Fui desprovido de certezas. Voltei triste. As feridas na floresta. As feridas em mim.

Dias. Sete dias. E por onde andei fui analógico e me despi do dominó do cronista digital e procurei esquecer os preconceitos que moram em todo mundo, sobretudo em mim.

Nas cafuas e nos cafundós dessa porção de Amazônia aspirei a poeira de barro da Transamazônica – e nem contra ela, a rodovia construída pela ditadura militar, nem pra ela eu torci meu nariz entupido pela nuvem vermelha que subia renitente do chão.

Apesar de ter adolescido com a certeza de que ela, a via expressa que sangrou a floresta, foi obra da megalomania fardada, apesar do meu preconceito, procurei ouvir o relato da gente que habita as bordas da estrada. E assenti, envergonhado dos meus preconceitos, que ela, a Transamazônica, fez bem a seus nativos. Fez sim.

De Altamira, no Pará, seu marco zero simbólico inaugurado pelo ditador Médici, até Belém, meio chão até Manaus, são 800 quilômetros. Desejei percorrer cada metro da estrada que se inicia bem lá atrás, em Cabedelo, na Paraíba, e vai até Lábrea, nas lonjuras do Amazonas, cortando o solo paraense ao meio. Não pude. Um dia eu volto e percorro.

Nos travessões da Amazônia, com seus calores e suas chuvas que logo passam, com seu sol de queimar o cabelo e seu céu tão azul agora mesmo e imensamente fechado de tanta nuvem daqui a pouco, com sua pobreza e sua imponência, com seus rios e bichos, ali, bem ali, nas bibocas do Brasil, eu ouvi dos povos da floresta relatos inesquecíveis do país onde vivo e fiz viver três filhos.

Descobri entre castanheiras e em caminhos remotos entre pedras de igarapés um Brasil narrado por índios mais bem informados do que eu poderia supor na minha presunção.

Descobri que os ribeirinhos, com seu grande discernimento das coisas, são capazes de trocar de canal de TV ou de estação de rádio quando querem ou se sentem enganados. Constatei que eles, os povos da floresta, sabem das passeatas de Copacabana e da Avenida Paulista. E que têm opinião sobre elas.

E quando eu procurava me esquecer um pouco delas, as passeatas e as discussões de cá e de lá, e tentava adormecer no pensamento a imagem do enorme pato feio inflável em frente à Fiesp, e também embaçar na memória o discurso apaixonado de quem só enxerga erro no outro, embora finja que não, eram eles, os ribeirinhos, que me faziam lembrar novamente de tudo.

Percebi, surpreso, flagrado nas minhas certezas desfeitas, que o Brasil, ignorado por uma parcela de juventude alienada aqui, é muito íntimo da juventude lá. Muito mesmo.

Juventude índia. Juventude cabocla. Juventude cafuza e mameluca. Juventude tudo que, um dia, eu criança, tinha vergonha de ser, e, hoje, orgulhosamente, sei que sou – mameluco, cafuzo, zambo, cariboca de Nova Iguaçu.

Um Brasil que o Brasil despreza, mas não despreza o Brasil. Um Brasil que sabe o que é o Brasil – mas que o Brasil só pensa ou mente saber dele.

Uma índia jovem, mulher de um índio guerreiro de aldeia Juruna, amarrou no meu pulso um bracelete de miçangas. Uma pulseira que, ensina o costume nativo, eu soube, simboliza a força necessária quando se entra numa guerra.

– Só desamarre do pulso depois de vencer a guerra – me disseram.

– Que guerra? – perguntei.

– Só você vai saber.

Uma rezadeira me deu sementes de pinhão-pajé, planta mágica, ela me disse, que ensina o caminho certo a seguir a cada manhã. Caroços, na verdade, porque é dentro deles, os caroços, que se escondem as sementes.

E ela me disse: “Guarde numa caixa ou envolvidos num pano ou num papel, porque esses caroços explodem sozinhos, e as sementes dentro deles, quando se dá a explosão, voam tão longe que você jamais as achará.”

Guardei na caixa dos meus óculos. E quando entrei em casa, depois da longa viagem de volta, eles, os caroços, estavam já estourados, e suas sementes mágicas amazônicas estavam a salvo, prontas pra serem plantadas.

Estão agora plantadas na terra e no meu coração. Tomara que floresçam no meu pequeno quintal e no meu peito que ama teimoso sem conseguir desamar.

Os povos da floresta sabem o que ocorre hoje no Brasil, o que ocorre no mundo. Assistiram em silêncio a Obama e Raul na TV. Gostaram. Também intuem o perigo aqui, a ameaça ao que foi decidido pelo voto livre, os senões de quem tanto prometeu sem cumprir.

Sabem bem quem fez por eles e quem os ignorou e quem os engana. Sabem dos erros e dos acertos daqueles em quem confiaram e os traíram, e criticam e defendem esses seus heróis-algozes ferozmente. Mas medem sua fúria e sua decepção, como num jogo de xadrez.

O cronista digital, analógico pela própria natureza, já foi a Cuba, onde fumou charuto Cohiba verdadeiro, e já bebeu chá de carqueja legítimo feito por sua avó Iracema em Morro Agudo. Esteve no World Trade Center antes da hecatombe do 11 de setembro de 2001, e já procurou dissipar suas tristezas e seus desamores nas madrugadas da Lapa. Já esteve em Belford Roxo e em Paris. Conheceu a Dublin de James Joyce e a Zundert de Van Gogh.

Poucos lugares invadiram tanto seu coração como a Amazônia.

O cronista digital foi lá mais uma vez. Conheceu novas pessoas. Aprendeu com todas elas. Com algumas, aprendeu mais; com outras, menos. E, desta vez, mergulhou mais fundo, mais fundo, mais fundo. Ouviu muito. Muito. Falou pouco. Pouco.

Sentiu saudade dos seus filhos, da sua família, dos seus amigos, dos seus amores. Sobretudo dos seus amores, sobretudo dos seus filhos, sobretudo da sua família e sobretudo dos seus amigos.

Concluiu, bobo e tão idiota, que todos esses, os amores, os filhos, a família, os amigos, são todos um só, são todos vértices, linhas que se unem na formação dos ângulos da sua vida, os ângulos da sua existência precária e de tudo que seu coração precário contém.

Percebeu, finalmente, que, apesar de ter ido tão longe, apesar de ter andado tanto, ele havia viajado, na verdade, apenas ao centro do seu coração.

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12 comentários sobre “Uma viagem ao meu coração

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