Para Zoraia e todas as trans

A fotografia de uma transexual fantasiada de baiana na Banda de Ipanema, estampada numa primeira página de jornal velho encontrado em casa, me fez lembrar de novo de Zoraia, a única primeira passista travesti que conheci na vida.

Aliás, deve ter sido a única primeira passista transexual de toda a história das escolas de samba.

Num tempo em que ainda não havia rainhas de bateria, Zoraia reinava à frente da querida Imperial de Morro Agudo, agremiação da minha infância, luminosa verde e branca que vai estar pra sempre no meu coração e na minha lembrança, e me conduziu, ainda muito menino, ao altar do meu casamento indissolúvel com o carnaval.

Apesar de sua existência inusitada – porque, num ambiente de manifestações machistas, com seus códigos e idiossincrasias, o título de primeira passista, que dirá o de rainha, era deferência concedida apenas à mais desejada das cabrochas -, bom, apesar disso, é pouco provável que os estudiosos dos desfiles das escolas de samba, desde sua origem, saibam da história de Zoraia.

Escrevia-se Zoraia assim mesmo, com “z” de ziriguidum, nome social de uma criatura tão diferente pros meus olhos de menino em Morro Agudo, que, no início, eu não conseguia adivinhar se ela era homem ou mulher.

Era muito alta, devia medir quase 1,90m. Tinha a voz meio grossa, meio fina, peitinhos miúdos de limão e olhava pra gente com olhos de lascívia.

Zoraia resplandeceu no carnaval de Morro Agudo nos anos 1960 e 1970. De certa forma, era da linhagem de uma Madame Satã, por exemplo, homossexual que dominou a Lapa carioca dos anos 1940 e 1950. Como Satã, era valente e não costumava perder as brigas em que se metia.

Pobre, nascida na Baixada Fluminense, anti-heroína de uma vida distante dos colégios e próxima dos conflitos com a polícia, era a minoria em forma de gente. Seu tipo se enquadrava no de todas as vítimas da sociedade branca e má que foi se estabelecendo no Brasil desde a Primeira Missa ou desde a chegada do primeiro navio negreiro.

Era negra, pobre, não era bonita e, num complemento fundamental de sua condição, nem mulher era.

Mas antes de ter sua carreira interrompida pelas dores de uma condenação na Justiça por um crime que eu nunca soube direito qual foi, defendeu, anos a fio, com orgulho de princesa do carnaval, a bandeira da sua, da nossa escola de samba. Com sua magreza talhada em curvas artificiais, desfilava, deslumbrante, junto ao vistoso  pendão verde e branco da Imperial de Morro Agudo.

Na infância, uma das nossas brincadeiras preferidas era provocar Zoraia. Naqueles dias em que o homossexualismo feminino era, pra mim,  algo insondável, eu e meus amigos de rua descobrimos, enfim, graças a ela, que a humanidade não era dividida apenas entre homens e mulheres.

Havia também os “viados”, que é como a gente a chamava – ô viadoooooo! – na farra politicamente incorreta e insensível e idiota, tampouco reprimida, da meninada que vivia caçoando de quem era só diferente.

Zoraia cobrava caro pela ofensa. Corria atrás da gente e, quando pegava um, não economizava cascudos tão doloridos. Bem feito pra nós. E, se não conseguia nos alcançar, berrava palavrões e, de longe, mostrava o pau, balançando a peça de tamanho razoável, que acrescentava a seu aspecto já confuso pra nós um detalhe de aberração e deformidade.

Alguns palavrões que gritava eram desconhecidos, o que nos obrigava a pedir a tradução de garotos mais velhos. Lembro que um desses garotos mais velhos, certa vez, gritou pra ela:

– Zoraaaaaaaiaaaa! Tua buceta é no cuuuuuuuuuuuu!

Achei curioso que, naquele dia, ela não se ofendeu. Parou de correr, olhou pra criançada que se acabava de rir e, em vez de estrilar, como sempre, devolveu com o nariz empinado e um sorriso orgulhoso:

– Até que enfim vocês disseram alguma coisa que presta! Dessa eu gostei!

Ainda hoje ouço falar que, como a Geni da “Ópera do Malandro”, do Chico Buarque, Zoraia, em sua contundência real, era a alegria dos peões de obra, dos degredados do sexo, dos viúvos solitários, dos solteirões tarados, dos aleijados, dos desterrados da sorte, dos loucos de rua e dos desvalidos que se saciavam com seus favores.

Com alguns, iria de graça. Com outros se deitaria em troca de notas miúdas, cigarros, bebida ou prendas ordinárias, como perfumes e bijuterias furtados das prateleiras de casa.

Dizem também que consolava mulheres enfastiadas de seus maridos – e que, nesse papel, teria chegado a roubar o coração de uma ou outra senhorinha carente de gozo e carícia e afeto.

Lembro que tinha uma irmã linda e cobiçada. Contam que muitos homens iam com Zoraia só pra amainar, com fantasias, a obsessão de possuir a deusa primeira da família. Ter Zoraia na posição de cunhada era uma possibilidade que o preconceito disseminado impedia, mas devia ser o sonho que povoava o fundo da alma de muitos em Morro Agudo.

Talvez não tenha sido o meu e o dos meus amigos por uma questão cronológica. Éramos bem mais novos. Mas ouvi sobre homens que sofreram de se embebedar nos botequins com o coração afogado na tristeza por não desfrutar das virtudes da irmã de Zoraia.

Lembro que, certa vez, adolescente, entrei tarde da noite no Botequim do Dimas, Deus os tenha – o Dimas, que já morreu, e seu botequim, que virou armarinho, acho -, e encontrei meu tio sentado diante no balcão. Perto dele, talvez dois banquinhos de meia-bunda adiante, estavam a irmã e a mãe de Zoraia.

A irmã já não era aquela visão mestiça e perturbadora da minha infância, mas ainda atraía todos os olhares masculinos do bar. Aliás, não era a única. Dividia alguns com a mãe, ali uma cinquentona bem apanhada, capaz de mexer com a libido dos homens no recinto miúdo.

Um dia Zoraia foi presa, e eu nunca mais soube dela. Sua mãe e sua irmã, com os anos, também sumiram, e, desde então, aquela figura extravagantemente andrógina e improvável dos meus dias de criança, de cabelo carapinha escondido sob lenço ou peruca, passou a ser tema de conversas sobre as brincadeiras bobocas e sem graça que aprontávamos na infância.

Anos atrás, cheguei a pensar em me valer das minhas prerrogativas de repórter pra tentar descobrir seu destino. Logo desisti. Como não sabia seu nome de certidão, não ia dar muito certo telefonar pra assessoria de imprensa do Departamento do Sistema Penal do Estado do Rio e perguntar por uma pessoa chamada Zoraia, que nem fama no mundo do crime tinha.

Recordo que, na cobertura de uma rebelião no presídio de Água Santa (terá sido mesmo Água Santa?), ali pela segunda metade dos anos 1980, cheguei a imaginar que poderia encontrá-la. A cena: eu, de bloco e caneta nas mãos, anotando as queixas dos presos, e, no meio deles, lá estaria a antiga estrela dos desfiles da Imperial, feliz com a troça de um colega de cela, que gritaria para os jornalistas:

– Eeeeeeeiiiiiii! Esta aqui é a Zoraia, que tem a buceta no cuuuuuuu!

Ela me reconheceria, e eu, compungido e arrependido dos meus malfeitos infantis, rogaria:

– Desculpe, Zoraia, desculpe.

Que nada. Zoraia não estava ali. Há algum tempo, contei a um amigo da vida toda de Morro Agudo da intenção de escrever sobre ela um dia. Pedi que me ajudasse a descobrir seu paradeiro. Ou, pelo menos, se ainda era viva.

Depois da pesquisa possível, meu amigo ouviu que a personagem da nossa infância teria cumprido pena de vários anos e deixado a cadeia em data imprecisa, um tempo atrás. Segundo essa versão, ela se tornara evangélica, passara a frequentar uma igreja e, antes de morrer, doente de mal desconhecido, envelhecida e mofina, reassumira o nome de batismo – Wilson.

Quem sabe na esperança de alcançar o céu, e, com ele, a remissão dos pecados de antigamente, e talvez ainda a ressurreição da carne castigada e a vida eterna, amém, Wilson teria sido enterrado já sem as curvas artificiais que me intrigavam na infância, e sem tempo de ouvir o meu pedido de perdão.

* Texto revisado, publicado originalmente no livro “Parem as máquinas – Jornalistas que valem mais de 50 contos” (Casa Jorge Editorial, 2006), reunião de crônicas e contos de 50 autores, um deles este cronista digital.

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