Das flores e dores do abril de 2016

Lá da ralé de onde eu venho, sonhar custava muito barato. Aliás, não custava nada. Era de graça. Eu sonhava tanta coisa.

Pilotar avião. Dirigir ônibus. Virar gigante. Jogador de futebol. Reger orquestra como o Carlos Gomes bigodudo das figuras do encarte de um compacto simples de sua ópera “Guarani”, que não sei como foi parar lá em casa.

Desde bem pequeno, quando eu ainda era aluno do Movimento Popular de Alfabetização, espécie de Mobral de Morro Agudo no meu tempo de criança – e pra quem não conheceu o Mobral, perdão, fica difícil explicar agora, prometo fazer isso depois -, bom, desde garoto bem miúdo, lá no areal da Tenda Mirim, onde ficava o MPA, sigla da escolinha onde aprendi a ler, desde aqueles dias, enfim, eu guardo no meu coração essa verdade. Sonhar não custa nada.

Talvez por isso eu tenha me emocionado tanto com o samba da Mocidade Independente de Padre Miguel no carnaval de 1992, quando a escola foi vice-campeã. “Sonhar não custa nada, não se paga pra sonhar…” – ainda ecoam na minha memória os versos de Dico da Viola, Moleque Silveira e Paulinho Mocidade.

Aquele samba me marcou tanto que, mais de dez anos depois, no meu ofício de letrista de música popular, eu faria uma citação a seus versos numa parceria com o violonista, compositor, arranjador e meu querido amigo Tuninho Galante.

Também desenvolvi, naquele pedaço tão importante da minha vida, um senso de justiça que nunca me abandonou. Havia garotos mais desafortunados do que eu naquela algazarra da rua de terra batida. A gente caçava rãs e, quando chovia e a vazão aumentava, até se banhava nas águas do mesmo “valão”, que era como, pra nos alertar, nossos pais e mães se referiam ao igarapé contaminado.

Corta pra esta segunda-feira, 18 de abril de 2016, um dia depois de a Câmara dos Deputados ter aprovado o prosseguimento do processo de impedimento da presidente Dilma.

Pois eu acordei com esta equação de sonho e senso de justiça inundando o meu coração. Durante o dia todo, um travo cismou na minha garganta. Demorei a me dar conta de que essa sensação era fruto da mistura de sonho e senso de justiça dos meus tempos de garoto no MPA e de brincadeiras no valão.

Em nome de Deus, da família deles, dos seus conterrâneos, dos seus estados, das suas cidades, das boquinhas que muitos já tiveram no governo e esperam ter de volta, em nome do marido-prefeito que seria preso na manhã seguinte, acusado de desviar dinheiro de hospital de pobre, em nome de suas pecúnias e seus egoísmos, por fim, 367 deputados tentaram destroçar meus sonhos e meu senso particular de justiça construídos desde os tempos de criança no areal do MPA.

Pelo menos meus sonhos. Pelo menos meu senso particular de justiça.

Um dos sonhos que tentaram matar foi o de um país sem valões e sem muros e com possibilidades pra todos.

Valões como aquele de Morro Agudo. Muros como os que foram erguidos, num simbolismo dolorido, na Praia de Copacabana e na Esplanada dos Ministérios, neste 17 de abril, pra separar as metades a favor e contra o impedimento da presidente.

Foi nesse sonho bobo que eu sempre votei. Mesmo sem, num sentido freudiano, realizar essa intenção. Sujeito comum, sem filiação partidária, foi nesse sonho boboca e irreal que eu sempre votei.

Não votei sempre no Lula, na Dilma ou no PT. Mas nunca votei em nenhum daqueles 367 deputados e deputadas, que, em nome disso ou daquilo, gritaram “sim” pra um processo cuja motivação política conta com o incentivo da mídia dominante – que, talvez sem se dar conta da gravidade de seu enxovalhamento, é cada vez mais demonizada nas redes sociais, cada vez mais, cada vez mais.

Um sonho que já andava avacalhado e corrompido pelo próprio PT na sua desoladora metamorfose.

No poder, o PT dos jingles dos tempos da “Rede Povo”, aquele PT do “será que a gente é que é diferente ou será que os outros são tão iguais?”, o PT do “se a honestidade é a marca da gente, ser diferente é bom até demais”, aquele PT que me emocionava se transformou num quase siamês do PMDB ou do PSDB e de tantos “bês” do variado cardápio partidário brasileiro (recomendo a leitura do excelente artigo de Aydano André Motta no site #Colabora, em http://goo.gl/OUgG1A).

A ponto de ter enfiado na enrascada de agora, num só embrulho, Dilma e o meu sonho bobo e apartidário de nação mais justa e sem muros e sem valões.

Nenhum daqueles 367 deputados favoráveis ao impeachment me representa. Nenhum. Também são poucos, muito poucos os que me representam entre os 137 que votaram “não”.

Mas constatei, ao longo da segunda-feira, que meu sonho saiu vivo. E que, se acordei com um travo cismado na garganta, é que havia prevalecido no meu coração o senso de justiça.

O mesmo senso de justiça moldado no coração do garoto que corria descalço na areia branca do terrenão do MPA e brincava com a criançada da vizinhança no valão.

Compreendi a razão de ter me ofendido tanto o festival cínico do “sim” na Câmara dos Deputados, na tarde-noite do domingo, num justiçamento presidido com a peçonha desfaçatosa de quem, como tudo indica, deveria estar preso.

Fiquei orgulhoso e feliz ao lembrar que, como repórter, já fui processado mais de uma vez por Eduardo Cunha, em sua tática de intimidar jornalistas. Fiquei orgulhoso e feliz ao lembrar que não fui condenado em nenhuma. Orgulhoso e feliz ao lembrar que, na única ação convertida em julgamento, ele se recusou a apertar minha mão.

Fiquei orgulhoso e feliz, finalmente, ao perceber, mais uma vez, o que penso realmente disso tudo.

Penso que não pode ter meu apoio – embora meu apoio não valha nada – o justiçamento de uma mulher sobre quem, até agora, não recaiu um só crime dos muitos atribuídos a seu partido; que não pode ter meu apoio um justiçamento engrossado pelo “sim” de um deputado fanfarrão, Jair Bolsonaro, sempre ele, cuja justificativa de voto foi apresentada como homenagem a um dos maiores torturadores da finada ditadura militar. Não pode. Não, não pode.

E o dia seguiu, e o dia se desfez, e com ele se foi o travo cismado na minha garganta.

*    *    *

Agora que seu pinhão-pajé mágico da Amazônia entrou na segunda infância e azaleias floresceram no outono do seu pequeno quintal, o cronista digital pretende se ausentar um pouco deste assunto.

Vai voltar, talvez, a falar de plantas e flores, de música, das dores do Rio Xingu, das malvadezas cometidas contra os povos da floresta, a falar, quem sabe, do seu Flamengo, dos desvãos do seu pensamento, e só retornar ao tema quando seu coração pedir.

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5 comentários sobre “Das flores e dores do abril de 2016

  1. Tamos juntos, irmão.
    Nesse mesmo travo, nesse mesmo senso de justiça que explode vendo tanto filho da puta sendo aplaudido, vendo nossa profissão servindo pra isso, nesse sono difícil depois disso tudo. E tamos juntos em juntar os cacos e seguir na luta. Porque como o Velho gosta de dizer, o jogo é deles mas a luta é nossa. Tamos juntos, sempre!

    Curtido por 1 pessoa

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