A mulher ideal

Todo homem sonha ter Adalgisa, a mulher impossível. Mas Adalgisa não se deixa ter. Só finge que se deixa. Porque é Adalgisa, quando quer, que os tem.

Nós, os pobres homens que adormecemos com ela, mas não dormimos com ela.

Adalgisa não é uma. São muitas. Tantas que é impossível não vê-la na imensidão de sua existência. Está em todos os lugares. Hoje mesmo eu a vi. Ela não me viu. Ontem também. E anteontem. E será assim amanhã. Adalgisa nunca me vê.

No ponto mais remoto da Terra, lá está Adalgisa. No mais barulhento, também está ela. Notívaga, diverte-se nos bares apinhados de Las Ramblas. Diurna, pisa em estradas particulares da Grécia. Tardia, é a última a chegar à ópera. Festeira, brilha no samba e no fado.

Bela e perfeita, tão brasileira como uma peça cantada de Villa-Lobos e tão universal quanto o prazer que a mesma ária desperta. Girassol aberto de Van Gogh, flor reconhecida em todos os continentes.

Adalgisa é do mundo na multiplicidade do seu encantamento. Anda apressada pelas bordas da Lagoa Rodrigo de Freitas e vai a festas no Leblon. Silencia Montmartre e distribui esmolas em Notting Hill. Sua fama emudece os homens do SoHo, sua chegada interrompe o falatório na estação de metrô da Consolação.

Adalgisa são várias. Não cabe numa mulher só. Expõe sua beleza nos palcos do seu teatro. Excede em virtudes na sua Marquês de Sapucaí. Expande seu encanto além dos limites de seu corpo nas areias de praias espetaculares – algumas eu nunca vi; não vejo as praias; mas vejo Adalgisa.

Ela, a mulher ideal, que só pertence a si mesma. Ela, cuja presença provoca dentro da gente mais barulho do que o gozo coletivo de um gol.

Adalgisa, que já foi Nery, descrita nos versos de Drummond. Adalgisa, que já foi Colombo. Adalgisa que não depende de poetas. Adalgisa que não se encerra em nomes, nem no seu próprio.

Adalgisa que já fez 100 anos e mal tem 21. Adalgisa de idade imprecisa e de pouca importância, que olhos humanos não conseguem quantificar.

Ela, que o tempo não aniquila. Ela, que não fenece, protegida do contar das horas, dos dias, dos anos, dos séculos. Ela, que todos os homens esperamos. Ela, que espero.

Será pra sempre Adalgisa, com seu hálito bom de moça perfeita a me alegrar só de vê-la. Adalgisa de curvas em que não toco, mas meu coração desgovernado se perde. Curvas em que os corações de todos os homens se perdem.

Ainda ontem, chamava a atenção de tarde em Paquetá, de noite na Urca. Na próxima manhã, deve caminhar por Ipanema, transitar pela Pampulha, vagar pela Rua da Praia. Atrairá, quem sabe, os olhares de todos os homens do Morumbi – e os entristecerá por não tê-la.

Fará o mesmo em outras lonjuras. Ela, que me põe febre nos olhos.

Adalgisa, com seu feitiço jovem e ancestral, mora no meu peito e no meu pensamento. Faz troça de todos os desejos que desperta. Inclusive do meu. Sobretudo do meu.

Fecho os olhos e a vejo na exatidão do que ela é.  Às vezes, de cabelos curtos. Às vezes, longos. Mas estendo os braços e não a alcanço.

Adalgisa ri de mim sem saber, e nem sabe que sei dela. Sem supor que eu existo, faz companhia à minha solidão.

Está nas minhas lembranças desarrumadas, salta das minhas gavetas e dos meus armários. Adormece na minha expectativa de futuro. Esconde-se no meu sonho. Está nos cheiros que acredito sentir das estrelas no meio da noite.

 

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