Já que ninguém me entrevista…

Em longa entrevista dada com exclusividade a si mesmo, o cronista digital dá de ombros pra sua falta de importância e conta tudo o que ninguém nunca quis saber dele, mas ele sente vontade de dizer. Da origem de seu nome ao que pensa sobre a crise do jornalismo impresso. Da TV Globo ao PT. Da tentativa de impeachment de Dilma às desditas do seu Flamengo. De sua participação nos blocos de carnaval com seus parceiros à sua autoavaliação como cantor de botequim. De sua paixão pela música a seu ofício de cronista. Do seu amor por Morro Agudo à sua adoração por Adalgisa.

Marceu, por que você decidiu se entrevistar? Você se acha importante?

Não, nem um pouco. Quem me inspirou foi a querida e talentosa Andrea Dutra, de quem sou fã, cantora, compositora e jornalista, que está aí na batalha como eu. Andrea teve esta ideia primeiro e fez isso no Facebook. Achei divertido e senti vontade de fazer também. Antes, pedi permissão a ela. Mas talvez tenha sido só pra ter a sorte de Adalgisa ler minha entrevista e, quem sabe, saber que eu existo.

Quem é Adalgisa?

Se você souber, me diga. Eu não sei. Já pensei que soubesse.

Como assim?

Adalgisa é uma mutante. Cada dia é uma. Às vezes, diverge de si mesma. É pudica e despudorada. Adora verde, mas se veste de vermelho. Está perto e longe. É Flamengo, mas é Vasco. Já não sei dela, nem quem é ela.

Você se sente mais cronista, mais jornalista ou mais compositor?

Hoje, eu sei que sou uma mistura desses três Marceus. Durante muitos anos, como empregado da grande imprensa, fui mais jornalista. Até porque era isso que pagava minhas contas. E foi o que me permitiu criar três filhos. Hoje, os ofícios se misturam. Faço reportagens pro site #Colabora e cumpro outros trabalhos jornalísticos pra quem me contrata. Além disso, componho, como sempre, e canto por aí pra ajudar nas despesas. E escrevo crônicas, o que tem me dado muita alegria, muita alegria. Eu não imaginava quanto a crônica estava represada em mim.

Não é pretensão se definir como cronista, condição de escritores tão importantes e que não estão mais por aqui, como José Carlos Oliveira, Rubem Braga?…

Talvez seja. Mas eu não sabia que era cronista. Até o dia em que o Villas-Bôas Corrêa, o grande jornalista, com quem tive a honra de trabalhar no finado “Jornal do Brasil”, onde fui chefiado pelo filho dele, o Marcos Sá Corrêa, bem, até o dia em que o seu Villas me disse, depois de ler um texto meu como interino da coluna “Coisas da Política”: “Marceu, não perca essa mão, agora que a encontrou; você é um cronista; não se esqueça jamais disso.” Aquilo ficou na minha cabeça. Porque tinha o peso da voz do seu Villas.

Que texto foi esse?

Foi um texto sobre o primeiro ano do Plano Real, em 1995. Chamava-se “Dramas de gente que vai levando”. Publiquei este texto depois num livro de crônicas. Falava da pressão sobre a classe média, que andava triste naqueles dias e não reclamava, porque o plano era tão comemorado pelos ricos e pelos pobres. O que eu escrevi, em resumo, foi que os ricos estavam felizes porque sempre estão felizes, e os pobres ficaram satisfeitos porque a inflação havia sido domada. Já a classe média estava juntando moedas pra pôr gasolina e economizando no iogurte dos filhos, pois a mensalidade da escola subia, o aluguel subia, e o salário, não. O texto teve muita repercussão na época e serviu de pauta pro próprio JB e pra imprensa em geral. Seu Villas me disse: “Rapaz, isso que você fez é crônica.” E eu nunca esqueci. Então, a culpa é dele.

Você é cantor?

Não. Sou compositor. Sou letrista de música popular. Meu ofício principal, na música, é cobrir melodias com letras, respeitando cada nota e a sílaba tônica de cada frase melódica.

Então, por que você canta?

Porque me solicitam, porque algumas pessoas gostam de me ouvir cantar, e porque, admito, eu gosto. E admito também que é uma maneira de pagar algumas contas nestes tempos difíceis.

Você é violonista?

Também não. Se violonista é quem é um profissional do violão, não sou um deles. Longe disso. Mas se violonista é só quem toca violão, eu sou. Toco pra mim mesmo desde adolescente. Cheguei a tocar em bar de Morro Agudo no início da juventude. Mas o que gosto mesmo é de tocar só pra mim, de aprender a tocar as músicas em que ponho letras. E, às vezes, arriscar compor uma ou outra melodia, o que não é meu ofício. Toco músicas de outros compositores pelo prazer particular de aprendê-las. E, ultimamente, porque me chamam pra cantar e eu sinto necessidade de incluir canções que não são minhas no repertório.

Você acha que canta bem?

Não. Só interpreto com correção e afinação.

Quem são seus parceiros na música?

O principal deles, pela quantidade da obra, é o Tuninho Galante. Eu e Galante temos mais de 120, 130 músicas em parceria. Temos prontas as canções de três projetos de musicais. Um se chama “Sinfonia da vida a dois”, com músicas que falam da vida em comum. Outro é o “Fé brasileira”, sobre a religiosidade sincrética do Brasil. O terceiro é o “Minha escola vai desfilar”, que propõe um desfile imaginário de várias escolas de samba do Rio, algumas que nem no Grupo Especial estão. Uma delas, a minha Imperial de Morro Agudo.

E seus outros parceiros, quem são?

Tenho o maior orgulho de ser parceiro de um cara como o Lucas Porto, por exemplo, com quem já fiz várias músicas. E também do Luiz Flávio Alcofra e do Marcelo Menezes. Lucas, Luiz Flávio e Marcelo são grandes violonistas. Estão entre os maiores do Brasil. Sinto muito orgulho também  de ter como parceiros a Nilze Carvalho, o João Pimentel, o Nuno Neto, o Márcio Almeida (o Márcio Hulk), o Márcio Dornelles, o Ney Conceição… Ney é um dos maiores contrabaixistas do mundo. É meu parceiro mais recente. Compus também com Teresa Cristina, com meu saudoso amigo Lefê Almeida… E, na adolescência, em Morro Agudo, meus amigos Pedro Cavalcanti, o Zeca, este aí meu irmão da vida toda, e Moacir Soledad, musicaram poemas meus.

Você também fez sambas pra vários blocos de carnaval do Rio…

Sim. Compus pra quase todos da Zona Sul. Nesse particular, meus principais parceiros sempre foram João Pimentel, o Janjão, meu irmão, que faz isso como nenhum de nós, e o Lefê, outro amigo querido e compositor genial de blocos, que já se foi. Além deles, já compus com Eduardo Gallotti, Mário Moura, Samir Abujamra, Marco Gerard, Jorgito, Orlando Magrinho, Alexandre Medeiros, Cláudio Henrique, Fábio Nascimento, Fernando Molica… Devo estar esquecendo alguém importante.

Como você analisa a crise trazida pela internet ao jornalismo, sobretudo o impresso?

O jornalismo está em crise por razões maiores que a internet. Está em crise porque cedeu à tentação capitalista além do limite que o bom jornalismo permite.

O que isso quer dizer?

Quer dizer que a pressão da internet é sobre a venda da revista e do jornal impressos. Hoje, as pessoas têm de graça no computador ou no celular um conteúdo a que, antes, só tinham acesso pagando. Por isso, os sites de jornais criam cada vez mais barreiras de navegação. Você só consegue acesso a determinadas matérias se pagar por isso. Acho que a imprensa acordou tarde demais pra essa pressão. E o efeito é a demissão em massa nas redações.

Mas o que é a tal “tentação capitalista”?

É a tentação de sacrificar o bom jornalismo em prol da manutenção do nível de lucro. Em sua lógica capitalista, os patrões da imprensa não investem mais em grandes reportagens, por exemplo, que custam caro. Promovem a editores profissionais que poderiam ser seus melhores repórteres. E erram ao abrir mão de jornalistas experientes. O conteúdo que os grandes jornais têm produzido, por pressão do que chamo de “ditadura do clique”, é, em geral, fraco e pouco profundo. As melhores análises do que ocorre hoje no Brasil passam longe da grande imprensa. A grande imprensa nem reportagens de impacto produz mais. Nesse caso mesmo da Lava-Jato, ela parece apenas reproduzir as ações do juiz Moro e as investigações da Polícia Federal. A imprensa não parece investigar, nem descobrir nada por ela mesma, por seus repórteres. Vivemos a “ditadura do clique”. A guerra entre os jornalões, hoje, é por mais “cliques” em seus sites, e não por um furo espetacular, como já foi um dia. E o jornalismo vai virando entretenimento…

Isso não é ressentimento seu, por estar fora da grande imprensa neste momento? Por ter sido você mesmo uma vítima desta crise?

Já pensei nisso. Mas, creia, falo essas coisas de coração limpo e com a serenidade de quem teria completado no dia 1° de janeiro 30 anos de carteira assinada na grande imprensa. Não acho a grande imprensa um demônio. Acho que ela sofre no redemoinho do furacão da crise, cede ao que não deveria e passa por uma transição. A imprensa é uma instituição importante. Torço pra que ela se revigore. O jornalismo é um sacerdócio, como me definiu certa vez o Ali Kamel, diretor da TV Globo. Ali, que é brilhante, me disse isso por e-mail num momento em que eu andava desencantado com o jornalismo. Ele tinha razão. Às vezes, os sacerdotes erram. Ou não conseguem rezar as cerimônias adequadas. Mas, sem a grande imprensa, não teríamos a História e não saberíamos nada que nos ajudasse a formar nossa própria opinião a respeito do que vai no Brasil e no planeta. Mesmo quando divergimos dela.

E o papel da TV Globo?

Vejo o Grupo Globo, não só a TV, mas sobretudo ela, a TV, como mais uma vítima dessas duas crises, a da imprensa e a do Brasil. Evandro Carlos de Andrade promoveu uma importante reforma tanto no jornal “O Globo” como na TV Globo. Uma reforma de resgate de credibilidade focada numa certa parcela de leitores, pra desvincular a marca Globo do seu passado de engajamento à direita, pra desvincular a marca Globo da sustentação dada à ditadura militar. Pois a crise política de hoje pôs a Globo de novo na ciranda das críticas e cantorias das manifestações pró-Dilma. O Grupo Globo quer fazer crer que o processo de impeachment da presidente se justifica na roubalheira do PT. Mas a razão legal do processo de impeachment não é essa. São as malandragens fiscais do governo. Esse pecado, que não é só do Grupo Globo, mas de toda a grande imprensa brasileira, já é cobrado pela imprensa internacional, e isso faz mal à Globo, sobretudo, e pode comprometer a importante reforma de Evandro Carlos de Andrade.

Por que você chama o impeachment de golpe, se ele é previsto na Constituição?

Porque não há um crime que o justifique. Dilma, se for arrancada da Presidência, terá sido por motivação política. E isso me parece inconstitucional e injusto. Me surpreende que nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal diga isso, que parece tão óbvio. Temo que a História cobre satisfações um dia de todos os personagens que participam desse desmonte da Dilma. Não se pode tirar alguém da Presidência só porque não gostamos dessa pessoa. É preciso que ela tenha cometido um crime. Dilma está sendo imolada por crimes cometidos pelo PT. O momento de se vingar do PT, pra quem não gosta dele, será em 2018. É o que penso.

Marceu, erram muito seu nome. Não é que ele seja feio, mas… Qual a origem dele?

Minha mãe queria que fosse “Marcéu”, mar + céu. Ela me teve longe do mar, e também não devia estar olhando as estrelas pela janela da sala de preparação, onde nasci (sim, porque eu fui ligeiro, não houve tempo de ela chegar à sala de parto). São coisas do meu subúrbio, onde as pessoas escolhem os nomes dos filhos em obediência a uma lógica lúdica pessoal.

E por que virou “Marcêu”?

Fui “Marcéu” até a 4ª série primária, quando minha mãe, então minha professora na Escola Municipal Souza e Melo, no Cacuia, distrito de Nova Iguaçu, decidiu me transferir de colégio por absoluta incompatibilidade minha com o papel duplo de aluno e filho.

Como foi isso?

Uma vez, estava uma bagunça danada na sala, e ela virada pro quadro, escrevendo. De repente, tornou a olhar pra turma e deu uma bronca enorme, com os olhos fixos em mim, como se eu fosse o culpado de tudo. Quando novamente se virou pro quadro, eu cochichei com meu colega de carteira (na época, havia aquelas carteiras duplas): “Parece maluca!” Ela ouviu, me mandou sair de sala e eu nunca mais voltei. Fui parar no Colégio Estadual Professor Márcio Caulino, em Austin, uma estação da Central do Brasil adiante, onde a professora Sônia, logo no primeiro dia, ao fazer a chamada, me chamou de “Marcêu”.

Como você reagiu?

Não reagi. Fiquei quieto. E ela chamou de novo: “Marcêu!” E de novo e de novo e de novo. Até que me repreendeu: “Menino, você não vai responder?” Eu expliquei: “Professora, meu nome não é Marcêu, é Marcéu.” Ela então foi ao quadro e explicou pra turma toda que, se fosse “Marcéu”, teria um acento agudo no “céu”. Não havendo a acentuação, era “Marcêu”. A turma inteira caiu na gargalhada, e eu virei Marceu pra sempre. Mas tenho amigos que me chamam de Zeca desde menino, porque, pra agravar minha situação, meu nome é composto, Marceu José. Isso porque nasci no fim de março, mês de São José. Se nascesse em abril, seria Marceu Jorge. Assim me disse minha mãe.

Você fala tanto de Morro Agudo… Isso não é marketing?

Se for, digo “obrigado” a quem pensa assim. Porque não passei nessa prova, a do marketing pessoal. Quem me conhece sabe que sou uma negação neste quesito e sofro as consequências disso. Falo de Morro Agudo porque é minha pátria sentimental. Em Morro Agudo, mora minha família, moram meus amigos e algumas das minhas lembranças mais felizes. Estou sempre lá. Sempre. Morro Agudo é um lugar feio. Já me criticaram ali por dizer isso. Mas não consigo chamar Morro Agudo de bonito. Bonita é a paisagem humana que vejo em Morro Agudo.

Alceu, perdão, Morfeu, e o seu Flamengo, hein?

Bom… Seu tempo de entrevista acabou.

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14 comentários sobre “Já que ninguém me entrevista…

  1. Show Marceu ,apesar de vc ser PT PDT ou seja lá qual for ,ainda te admiro e sempre mandarei um Abraço e um Beijo. Kkkkkkk Alias ninguém é perfeito amigo!!! Sobre Morro Agudo TB tenho ótimas lembranças e tô até hoje aqui ,vivendo e criando meus filhos!!!!Lugar feio mais com suas qualidades !!!!Bjs querido

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  2. O estilo é o homem (aqui considerado no sentido universal, como, provavelmente foi a intenção do autor da frase). Pode ser o Marcéu ou o Marcêu, não importa, o que se deve levar em conta é o inusitado e o teor da entrevista. O jornalismo escrito não perecerá, mesmo com o descrédito dos veículos de comunicação da rede Globo.

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  3. Belo texto… estou aqui… pois fui jogado de lá do TIJOLAÇO… rsrsrsrs pela reportagem sobre o sonho do Jango….e postei no Facebook algo…e agora essa auto entrevista… cheguei até pensar ser original rsrsrsrs… e do mais… até meus 12 anos morei na Baixada… Engenheiro Pedreira (CARAMUJO)… Queimados… Nilópolis ( sou Beija Flor)… agora com sementinha em Fortaleza…más, quando vendendo balas e amendoins torrados pelos trens…. conheci entre outros bairros… Morro Agudo… não recordo… mais me parece que também é conhecido por outro nome…. deixa pra lá… vixxe até… não sei porque dessas reminiscências rsrsrsrs… más gostei de suas crônicas… hoje angustiado… face a esse GOLPE iminente e os retrocessos que essa DIREITONA implantará ao povo e Democracia e Soberania do Brasil e o envergonhamento mundial… de conquistas
    já até pleiteada junto ao Conselho na ONU… e outras parcerias com o BRICS… agora… Os Projetos Sociais de Largo alcance aos mais necessitados… Pré Sal… nossas empresas transnacionais…projeto de modernização de nossas defesas… inclusive de comunicação… via cabos ópticos sem passar pela CIA… a transaceônica… outras tantas… tudo será ruído pelas ratazanas de plantão

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