Diário do cronista digital

Hoje, bem cedo, eu me sentei diante de um atendente da Previdência Social e assisti ao filme da minha vida de trabalhador de carteira assinada. Um longa-metragem comprido, que teria completado 30 anos no dia 1° de janeiro deste 2016.

Um filme com muitas cenas inesquecíveis, e algumas poucas que gostaria de esquecer.

Lembrei o dia em que subi com meus olhos de andorinha molhada de chuva as escadarias da finada “Tribuna da Imprensa”, na Rua do Lavradio, na mesma Lapa carioca que, ultimamente, me convoca pela música e não mais pelo jornalismo. Faz 30 anos.

Hoje, diante do atendente da Previdência, gerei a minha primeira GPS, e aprendi que essas três letrinhas reunidas não são apenas sigla de “Global Positioning System”. Descobri que, numa rotina mais simples e desornada, como a de agora, também significam Guia da Previdência Social.

Hoje, fiz isso porque algo haveria de nascer nove meses depois da minha última contribuição como trabalhador de carteira assinada – e, por causa do meu impulso matinal, eu me dei conta de que cada um de nós, brasileiros, corresponde a um NIT. E descobri o meu NIT. E ainda descobri que NIT quer dizer Número de Identificação do Trabalhador. E descobri também que o tal NIT, na sua brevidade fonética, contém quase toda a história da vida da gente.

Hoje, descobri que todos somos um número – nós, brasileiros em idade ativa, que, em algum momento, já contribuímos pra esta engrenagem chamada Previdência Social, agora ameaçada de desmonte. Somos todos um número.

Hoje, acordei muito cedo, como nos tempos de carteira assinada, quando construí minha existência como NIT, e, antes que o meu impulso me levasse ao posto do INSS, chorei um pouco depois de ler numa rede social a confissão de medo da minha filha mais velha com o estupro coletivo cometido por mais de 30 energúmenos contra uma menina de 16 anos, idade da irmã dela.

E chorei mais um pouco ao lembrar que, diferentemente da irmã mais velha, de pé àquela hora pra divulgar numa rede social o seu sofrimento com a notícia do estupro, minha filha caçula ainda dormia, na inocência dos seus 16 anos, com seu jovem corpo já de moça e sua compleição de ainda criança, sem saber, talvez, da imensa barbárie cometida contra uma garota da idade dela.

Hoje, eu sofri por esse crime e por todos os outros que ocorrem de segunda-feira a domingo contra mulheres, crianças e demais seres do mundo. E me indignei novamente ao tentar adivinhar a tristeza e o pavor que esse inominável acontecido pode elaborar pra sempre no coração das minhas filhas e nos corações de tantas filhas de tantas pessoas.

Hoje, lembrei que uma amiga de adolescência foi estuprada. E me lembrei também de outros abusos sofridos por gente que vou amar pra sempre. E me entristeci com essas lembranças.

Hoje, ouvi duas vezes “Bachianas brasileiras n° 4”, de Heitor Villa-Lobos, com sua beleza e delicadeza que não têm fim. Em seguida, ouvi mais uma vez a abertura impactante de “Tristão e Isolda”, a ópera do alemão Richard Wagner, baseada na lenda medieval cuja emoção que desperta nos enamorados o tempo jamais será capaz de impedir. Jamais será.

Hoje, eu me lembrei de todos os amores que perdi na vida. E ainda lembrei amores que, idiota, abri mão de viver. Lamentei por todos, cada um deles.

Hoje, eu me lembrei da garotinha de cachos reprimidos em tranças da quarta série primária da Escola Municipal Souza e Melo, causadora, sem saber, do meu primeiro sofrimento de amor, talvez aos 9 anos de idade. Nunca soube o nome dela. Jamais saberei. Talvez se chamasse Adalgisa e tenha ficado perdida pra sempre de mim numa esquina da memória.

Hoje, pedalei dois quilômetros ladeira acima, enquanto cantava, ofegante, “Beautiful boy”, de John Lennon. “Close your eyes/Have no fear/The monster’s gone/He’s on the run and your daddy’s here”…

Pedalei, enquanto cantava e pensava nos meus três filhos e no mundo em que, um dia, eles vão ficar sozinhos, sem mim.

Hoje, reli o trecho de “O amor nos tempos do cólera” no qual Juvenal Urbino e Fermina Daza se desentendem seriamente por causa da acusação dele de que ela havia se esquecido de repor o sabonete no banheiro.

Hoje, entendi novamente as razões de Juvenal Urbino, quando, depois de um mês de noites mal dormidas e culpas remoídas num sofá do escritório, com saudade do quente e do macio do corpo da mulher, ele resolve se deitar ao lado dela no meio da madrugada e diz, rendido pelo banzo: “Tinha sabonete, sim.” E ela o aceita.

Hoje, mais uma vez, visitei com compreensão as razões de Fermina Daza em sua franca sensação da ofensa provocada pela acusação comezinha e egoísta de Juvenal Urbino.

Hoje, uma vez mais, concluí, que, como na história de Bentinho e Capitu, e do suposto adultério em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, jamais vou saber quem estava certo na tocante história de Gabriel García Márquez. Havia sabonete? Houve traição?

Hoje, como na canção “Gabriela”, de Tom Jobim, “pensei, repensei tanta coisa”. Hoje, como na primeira palavra que salta de “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, eu me senti “nonada”.

Hoje, repeti pra mim mesmo que os amigos são tesouros recebidos do insondável ao longo da nossa existência – e que devemos sempre zelar pela proximidade deles. Sempre. Sempre.

Hoje, senti vontade de voltar a Ouricuri e a Altamira; a Dublin e a Berlim; a Japeri e a Weggis; a Souza e a Zurique. Rever a garçonete portuguesinha do Wellness Hotel Rössli. Atravessar o Portão de Brandemburgo. Beber no Temple Bar às seis da tarde no verão. Reconhecer a nave da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Japeri.

Fechei os olhos, hoje, e me vi na oficina de marcenaria e carpintaria do avô Anacleto, construindo com ele brinquedos bons de brincar e ouvindo dele coisas boas de ouvir.

Hoje, tive vontade de viajar no tempo e chegar à porta da salinha do MPA, em Morro Agudo, e pedir à minha madrinha e professora Denaltina:

– Dindinha, posso entrar? Preciso reaprender o esquecido, melhorar minha média da primeira série, reencontrar a garotinha de cachos reprimidos por tranças, que talvez fosse Adalgisa, e tentar refazer o mundo pra que minhas filhas e meu filho não sofram por nada. Por nada, dindinha. E gostaria de recomeçar daqui, deste ponto.

E ela permitiria, e eu entraria, e meu cachorro Ringo me esperaria lá fora com uma folha de amendoeira entre os dentes pra me entregar depois, e eu viveria tudo de novo, consertaria algo aqui, algo ali, sem retirar nada do curso refeito do tempo, e viveria as surpresas do tempo outra vez.

Hoje, eu me sentei diante de um atendente da Previdência Social. Hoje, eu me dei conta de que todos somos um número. Hoje, chorei um pouco depois de ler numa rede social a confissão de medo da minha filha mais velha ao saber do estupro coletivo cometido por 30 e tantos calhordas contra uma menina de 16 anos, idade da irmã dela.

Hoje, lembrei todos os meus amores e percebi que há dias impossíveis de caber num só.

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Conversa que espero ter com meus bisnetos

Tudo isso vai passar. Como tanta coisa já passou, tudo isso vai passar. E, quando passar, quando hoje já for História, seremos, em algum momento, acordados em nossa cadeira de balanço pelos mais jovens com um pedido pra que a gente revele os segredos deste tempo. Os desvãos deste tempo.

Eles, os mais jovens, vão perguntar de que lado estávamos, como nos comportamos, a quais manifestações comparecemos – às do pato da Fiesp ou às dos vermelhos da Dilma.

Eu já imagino minha conversa com meu neto ou minha neta, ou, quem sabe, se eu tiver ainda mais sorte, com meu bisneto ou minha bisneta.

– Vovô, o que, afinal, aconteceu em 2016? Foi golpe mesmo?

– Foi, meu amor. Foi sim.

– Mas o bisavô do meu amigo diz que não foi golpe, não… Por quê?

– Ele devia ser coxinha…

– Coxinha?! O que era isso, vovô?

– É como a gente chamava o pessoal da classe média e da classe alta que ia pra frente da Fiesp, na Avenida Paulista, adorar um pato de borracha. Mas veja, nada contra o pessoal da classe média ou da classe alta.

– Um pato de borracha? Adorar?

– Sim. Era um pato amarelo feio à beça. Um imenso balão de borracha na forma de pato que virou símbolo dos protestos dos conservadores pra derrubar a presidente Dilma. Aquele pessoal adorava o pato num sentido bíblico, de adorar uma imagem, entende?

– Não…

– Bom…

– Mas, vovô, conta mais. Como foi o golpe? Vocês pegaram em armas? E esses coxinhas? Também?

– Não, meu bem. Isso tinha acontecido no outro golpe, o de 1964, dado pelos militares. Esse, de 2016, foi um golpe civil, parlamentar, apoiado por uma direita enxovalhada e que já andava débil, montado pelos piores políticos que havia no Brasil, e sustentado pela grande mídia. A arma principal deles foi o apoio da grande mídia…

– Grande mídia? O que era isso, vovô?

– Ah, desculpe, amorzinho. Eu esqueci que vocês não veem mais televisão, nem há mais jornais de papel. Esqueci que, hoje, vocês têm milhares de canais na internet.

– Que internet, vovô! Internet é coisa de velho. A gente hoje vê as coisas no…

– Não me fale sobre isso de novo. Não tenho mais idade pra aprender essas coisas.

– O que a grande mídia fez?

– Pois é. Foi assim. Em 2002, na quarta tentativa depois de 21 anos de ditadura militar, a esquerda chegou ao poder no Brasil. Lula, um operário que havia fundado o Partido dos Trabalhadores com alguns intelectuais e artistas, virou presidente da República. Ele foi muito bem no primeiro mandato e se reelegeu. No fim do segundo mandato, como tinha ido bem de novo, ele elegeu a Dilma. O primeiro governo dela fez boas coisas, mas atravessou algumas crises. Principalmente por causa de denúncias de corrupção. Petistas históricos foram presos. Muitos foram condenados. Mas, ainda assim, a Dilma se reelegeu.

– Ah, é por isso que o bisavô do meu amigo chama você de petralha?

– O quê? Diz pra ele que petralha é a…

– O que, vovô?

– Deixa pra lá. Bom, meu benzinho, por causa da crise ética que fez do PT um igual do PMDB…

– O quê?!? Vovô!!! Já tinha PMDB naquele tempo???!!! Caraca!!!

– Pois é, meu bebê, já tinha PMDB, sim. Parece que sempre vai haver.

– Conta mais!

– Bom, por causa da crise ética do PT, agravada por outra crise, essa econômica, e que cresceu muito rápido, o resultado da eleição tinha sido muito apertado. A Dilma ganhou por pouco do Aécio Neves. Aí…

– Quem era esse Aécio Neves?

– Era um coxinha.

– Ah, tá.

– Deixa eu contar. Aí, já no primeiro dia depois da eleição, os conservadores começaram a falar em impeachment. Primeiro, queriam fazer isso baseados nas acusações de corrupção contra gente do PT. Depois, como viram que nenhuma acusação de desvio de dinheiro pesava contra a Dilma, eles procuraram, procuraram, procuraram e acharam uma razão que, pela Constituição, daria margem ao impeachment. Disseram que a Dilma havia cometido “pedaladas fiscais”, ou seja, como se ela tivesse mentido sobre os números oficiais do governo. Ela tinha feito isso pra poder economizar e investir em projetos sociais mais necessários.

– Ah, entendi! Ela fez como o papai faz quando diz que não tem dinheiro pra comprar um brinquedo novo, prometido no início do ano, porque precisa economizar pro supermercado e pra escola da gente.

– Mais ou menos isso.

– E isso era razão pra impeachment, vovô?!

– Foi a maneira que eles encontraram. Mas a grande mídia e eles próprios, os coxinhas, só falavam em corrupção, em corrupção, em corrupção. Uma coisa que nem estava em julgamento no impeachment. No fundo, o que os conservadores queriam era o poder. E, apoiados pela grande mídia, que só falava em Lava-Jato, apesar de a Dilma não ser acusada de nenhum roubo, eles conseguiram o impeachment.

– O que era Lava-Jato?

– Era uma investigação necessária comandada por um juiz chamado Sérgio Moro pra prender os corruptos. Bom, aí assumiu o Michel Temer…

– Quem era esse? Nunca ouvi falar, vovô. Parece marca de perfume.

– Era outro coxinha. Era do PMDB. Ele era o vice da Dilma.

– Peraí, vô! O vice da Dilma era do PMDB?! Como assim?!

– Sim. Ele era o vice da Dilma e assumiu a Presidência, acabando com projetos importantes tocados pelo PT.

– O vice da Dilma era do PMDB?! Como assim?!

– Sim, meu amor, ele era do PMDB. O PT tinha feito um acordo com o PMDB na eleição. E o candidato a vice-presidente havia sido indicado pelos peemedebistas.

– Nossa, vovô! Mas eu achava que o PT não tinha nada a ver com o PMDB…

– Não tinha. Mas, depois, acabou tendo.

– Vovô, mas o PT não passou a ter muitos corruptos mesmo?

– Sim, benzinho. O partido guardava uma origem linda, baseada na solidariedade e na honestidade, na humanização das relações, na inclusão dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos desfavorecidos, na construção de um país justo, com escola e saúde públicas boas pra todo mundo. Mas, no poder, muitos deles repetiram seus adversários e fizeram acordos com os mesmos empreiteiros que haviam enriquecido nos governos anteriores. Alguns foram seduzidos pelos milhões da corrupção…

– Vovô, você tá chorando?

– Não, lindeza. É impressão sua.

– Puxa, vovô. Quer dizer que a culpa de o PT ter se dado foi mal foi do próprio PT?!

– De certa forma, sim, neném, porque eles mesmos construíram as armadilhas em que seriam apanhados. No poder, o discurso petista da ética continuou público, mas, no ambiente privado, muitos deles cederam aos encantos da riqueza fácil. Muita gente que era do PT deixou o partido chateada com isso. Alguns desses fundaram o PSOL e foram pra oposição ao PT. Curiosamente, no impeachment, acabou sendo do PSOL o apoio mais bonito à Dilma, no Congresso e nas ruas, na batalha contra o golpe. Foi a exibição mais linda e mais triste de que a beleza do PT havia ficado pra trás, perdida em alguma rua do tempo.

– Vovô, você era do PT naquela época?

– Eu nunca fui filiado a partido nenhum, amor. Sempre votei na esquerda, nunca votei na direita. Nunca. Votei na Dilma, por exemplo, nos dois turnos de 2010 e no segundo turno de 2014. Depois, também fiquei muito chateado com o PT por ele ter se igualado aos partidos adversários na prática do poder.

– Então, por que você defendeu tanto a Dilma e foi contra o golpe?

– Justamente por ser um golpe, meu bem. Por achar injusto, muito injusto e muito feio o que fizeram com a Dilma. Inclusive pelo PT, que dilacerou seu passado e, depois, entregou o seu futuro esquartejado pra ela tentar remontar. Apoiei por acreditar que, se não há roubo, não se pode retirar uma pessoa do poder só porque não gostamos do governo dela. Por achar que o momento certo de fazer isso é na eleição. Mas os coxinhas conseguiram…

– E quem mais era coxinha, vovô?

– Ah, além do bisavô do seu amigo, tinha o Eduardo Cunha, tinha o Bolsonaro…

– Quem?!?

– É… Desses é feio falar, meu amor. Desses eu conto quando você crescer um pouco mais.

Sobre o amor em tempos difíceis

Nestes tempos tão difíceis,

de cólera, trapaça, asco,

em que resplandecem os vices

(Temer, Dornelles, Vasco…),

falemos um pouco de amor,

esqueçamos o carrasco

que nos furta o voto e o humor

e não passa de um fiasco.

 

Vamos falar de amor, Adalgisa?

Agora que sei quem tu és?

Agora que vivo de brisa

e sigo ao sabor das marés?

Falemos, enfim, de amor,

agora que és revelada?

Percamos de vez o pudor,

façamos sexo na escada?

 

Mal sabes de mim, Adalgisa.

Somente imaginas que sabes.

Tu te supões pitonisa,

porém, ignoras que cabes

inteira no meu coração.

Nem sabes que és Adalgisa,

que trazes contigo a unção

de que minha vida precisa.

 

Sei tanto de ti, Adalgisa.

Teus braços, teu colo, teus pés…

Por todo teu corpo deslisa

o meu olhar de viés.

Teu vestido azul florido,

teus cabelos de cetim,

o teu quadril tão fornido

que teima em bulir pra mim.

 

Nestes tempos de desdita,

de golpe, ira, malfeito,

repares, mulher bonita,

no teu poeta imperfeito.

Quem dera tu me soubesses,

Adalgisa, a ansiada.

Te daria, se quisesses,

a Lua por ti desejada.

Itamar, nunca houve um vice como ele

Depois da treva de Fernando Collor, entre 1990 e 1992, o Brasil viveu a brandura de Itamar Franco. Itamar era um homem bom. Como a Gilda do filme norte-americano de 1946, dirigido por Charles Vidor e estrelado pela deslumbrante Rita Hayworth (1918-1987), nunca houve na política brasileira um vice como ele.

Homem simples, cidadão digno, político honrado, Itamar costumava dizer que, na vida pública, antes de qualquer senão, “é preciso se preocupar com a mensalidade e o aluguel das pessoas”.

Ele pensava e dizia o óbvio – e quase sempre estava certo, ou bem perto de estar certo.

Pois no dia 2 de julho agora, daqui a mais ou menos mês e meio, vai fazer cinco anos que Itamar morreu. Itamar faz falta ao Brasil.

Qualquer um que com ele tenha convivido, mesmo de longe, mesmo apenas como contemporâneo de seu tempo no ambiente político, poderá testemunhar. Mais do que um vice, talvez nunca tenha havido na política brasileira um sujeito como ele. Banhado de pureza. Ungido pela singeleza dos melhores.

Itamar era diferente. Não leu os mesmos livros que Fernando Henrique Cardoso. Não teve a origem desventurada nem a inspiração intuitiva de Lula. Não dispunha do carisma nem foi curtido na desdita da infância de Leonel Brizola.

Não ergueu uma Brasília como Juscelino Kubitschek. Não inventou uma grande era como Getúlio Vargas.

Era um ser natural e comum. Tão natural e comum que não precisou se esforçar pra que esta fosse a sua marca. Governou o Brasil com amigos. Obedecia, em primeira e em última instâncias, ao seu coração. E seu coração era justo e limpo.

Certa noite, numa mesa do Café Lamas, catedral da boemia carioca, bebeu chope rodeado de estudantes da UNE. Era presidente da República. Mais ouviu do que falou. E do que falou, ficou na memória esta frase, ou algo parecido com ela: “Na vida pública, é preciso se preocupar com a mensalidade e o aluguel das pessoas.”

Itamar não era grande nem pequeno. Nem médio. Itamar era Itamar. Apenas parecia caber na definição de homem público ideal feita hoje pelo uruguaio José Pepe Mujica: “Os políticos devem aprender a viver como a maioria do seu povo, não como a minoria.” Assim parecia ser Itamar.

Itamar Augusto Cautiero Franco nasceu em localização não especificada do mar territorial brasileiro, durante uma viagem de navio de cabotagem entre Rio e Salvador. Foi registrado na capital baiana no dia 28 de junho de 1930. Morreu em São Paulo, em 2011, vítima de complicações causadas por uma leucemia.

Seu nome está nos registros da pátria como o 33º presidente da República Federativa do Brasil. Eleito vice em 1989, governou o país entre 1992 e 1994, após o impedimento de Fernando Collor. Engenheiro civil, começou na política pelo antigo PTB de Vargas e João Goulart, e se filiou ao MDB quando a ditadura militar impôs o bipartidarismo.

Foi prefeito de Juiz de Fora de 1967 a 1971. Reeleito em 1972, renunciou dois anos depois pra concorrer ao Senado por Minas. Eleito senador, cumpriu a lida de vice-líder da oposição ao regime nos duros anos de 1976 e 1977.

Com o fim do bipartidarismo, no início dos anos 1980, seguiu no PMDB, o MDB assim rebatizado. Pelo PMDB de Ulysses Guimarães, defendeu as Diretas Já e votou em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de 1985.

Ainda era senador, em 1988, quando aceitou o convite de Collor pra concorrer a vice-presidente pelo finado PRN. Empossado, mudou-se para o Palácio do Jaburu, hoje habitado por Michel Temer, onde logo passou a divergir do presidente – sobretudo por sua política econômica.

E, cada vez mais afastado do titular, deixaria o PRN no primeiro semestre de 1992, antes da crise do impeachment, descontente com uma reforma ministerial que reconduzira ao governo ex-chimangos da ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá.

Quando veio o impedimento de Collor, julgado por corrupção e desvios, em 1992, Itamar reuniu lideranças de todos os partidos na sua residência oficial. Disse que não pedia apoio. Só governabilidade. Avisou que, sem governabilidade, renunciaria e convocaria nova eleição.

Naquele Brasil menos conflagrado que o de agora, foi atendido. E seguiu.

O cidadão simplório, com base eleitoral na mineira Juiz de Fora, assumiu, então, a cadeira principal do quarto andar do Palácio do Planalto, e montou um Ministério a partir dos caprichos do seu coração. Nele, havia muitos amigos da sua Juiz de Fora, alguns aliados e técnicos que mal conhecia.

Na equipe, diferentemente de agora, havia mulheres. Eram duas – Yeda Crusius (Planejamento) e Margarida Coimbra do Nascimento (Transportes). E assim Itamar iniciou um governo que duraria dois anos e dois meses, até a ascensão do tucano Fernando Henrique, eleito seu sucessor em 1994.

FH, aliás, havia sido seu ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Já não estava no governo quando Itamar lançou o Plano Real, paradigma da economia brasileira, que não foi elaborado pelo PSDB, como o pensamento dominante faz crer, mas por uma equipe escolhida e nomeada por ele.

A inflação brasileira passava de 1.000% ao ano. Desceu a zero, com todo o preço pago pela classe média (esta mesma que, ainda há pouco, estava vestida de verde e amarelo na Avenida Paulista, como em adoração ao pato da Fiesp, em sua grita de “fora Dilma”).

Fernando Henrique já era candidato à Presidência quando o Real nasceu – e, registra a História, beneficiou-se dele e do apoio de Itamar pra se eleger.

No governo Itamar, os brasileiros foram chamados a decidir, num plebiscito, se queriam a manutenção do presidencialismo, a volta da monarquia ou o parlamentarismo. Deu presidencialismo, como se sabe.

Na gestão Itamar, iniciou-se a campanha de combate à fome e à miséria liderada pelo sociólogo Betinho e abraçada pelo presidente. Em seu governo, surgiram os remédios genéricos – e, num gesto talvez inocente de democratizar o carro zero, houve a tentativa de ressurreição do Fusca.

Num sentido reducionista, Itamar era assim, inocente. Descasado como tantos brasileiros comuns, pai de duas filhas jamais expostas aos holofotes do poder, parecia ter um coração puro. Coração, por sinal, aparentemente alheio às teorias e às certezas de Nicolau Maquiavel (1469-1527), o pensador italiano do Renascimento, considerado fundador da ciência política moderna.

Coração, algumas vezes, envolvido em situações quase adolescentes, que sequer chegaram a merecer críticas.

A mais falada dessas situações ocorreu no carnaval de 1994, quando, num camarote da Marquês de Sapucaí, foi fotografado ao lado da modelo Lilian Ramos, moça desinibida, de beleza generosa e corpo virtuoso, que, ali, usava apenas uma camiseta, sem nada por baixo.

A camiseta era mais curta do que recomendava a falta da calcinha. Mais curta, ainda, do que impunham os humores da liturgia da Presidência da República.

Mas só Itamar poderia passar por uma situação assim e seguir. E ele seguiu.

Concluiu o governo com 41% de popularidade, elegeu FH em 1994, e, já longe, bem longe do seu ex-ministro, apoiou Lula, em 2002, contra o tucano José Serra. Venceu mais uma vez.

O povo de Minas Gerais deve a ele a preservação da Cemig como patrimônio de seu estado. Eleito governador em 1998, quatro anos depois de deixar a Presidência, Itamar, convertido em opositor ferrenho do tucanato, retomou na Justiça o controle acionário da estatal energética.

A empresa havia sido parcialmente vendida pelo antecessor, o tucano Eduardo Azeredo. A negociação estaria na origem do chamado mensalão mineiro e do esquema Marcos Valério, que tantas dores de cabeça daria mais tarde ao PT de Lula e Dilma.

Hoje, a Cemig é uma das maiores geradoras e distribuidoras de energia do mundo. Fundada em 1952 pelo então governador JK, é a empresa mais pujante do setor elétrico na América do Sul. Tem 117 mil acionistas em 44 países. Suas ações são negociadas nas bolsas de São Paulo, Nova York e Madri.

Minas e o Brasil também devem a Itamar a não privatização de Furnas. No mesmo mandato de governador, o homem singular que governara o Brasil convocou a Polícia Militar e, num gesto tresloucado, ameaçou explodir uma das usinas da companhia, em São José da Barra, MG, caso a gigante fosse privatizada.

No país tomado agora de Dilma por Temer, Eletrobras-Furnas desponta como uma joia. Está no topo do mundo entre as maiores em geração e transmissão de energia. Seus acionistas, que hoje lucram com ela, deveriam oferecer uma ave-maria todos os dias à memória de Itamar.

Itamar Franco morreu aos 81 anos de idade, em 2011, e sua trajetória não foi lição assimilada pelo PT, hoje enovelado na teia da atenta e solerte aranha do conservadorismo, que, com seus venenos, sempre conspirou e sempre vai conspirar contra quem a ameace.

Collor foi muito feliz ao escolher Itamar como vice. Felicitou não só a si mesmo, pois se elegeu em 1989. Felicitou também o país todo, porque, ao ser afastado, deixou em seu lugar um brasileiro único e bom, preocupado com o nosso aluguel e a nossa mensalidade.

Um brasileiro que, na Constituinte de 1988, como senador, fora a favor da soberania popular e do rompimento com países que discriminassem negros. A favor da nacionalização do subsolo e da humanização do sistema financeiro. A favor da redefinição dos encargos da dívida externa e da criação de um fundo de apoio à reforma agrária.

O intuitivo Lula, num ramal pessoal, também seria feliz na escolha de seu vice, José Alencar, a ele tão leal até o último suspiro.

Já Dilma, justiçada agora por erros cometidos por seu partido, teve uma campanha e um mandato inteiros, entre 2010 e 2014, pra aferir se Michel Temer era mesmo seu par ideal, se lhe seria fiel, se seria firme e perseverante na possibilidade do Brasil que ela havia sonhado construir com os votos de 54,5 milhões de eleitores.

Mas, a exemplo de Gilda, nunca houve um vice como Itamar.

Meu abraço em Dilma e sobre um outro abraço

O desfecho da primeira fase do processo de impedimento da presidente Dilma me fez lembrar que a História, desde muito antes de Jesus, tem fabricado mártires em todas as lonjuras. Gente que se ofereceu ou foi oferecida em sacrifício por sua crença ou sua causa ou seu sonho pela salvação de um coletivo.

Ou foi imposta a esse martírio por seus inimigos.

Aqui mesmo, nesta terra de Michel Temer, Eduardo Cunha e seus siameses, sucedeu o episódio reconhecido pela Igreja Católica como o dos “Quarenta Mártires do Brasil”. Envolveu um grupo de 40 jovens, entre 20 e 30 anos de idade, alistados na Companhia de Jesus.

Vinham de Portugal e da Espanha, em 1570, numa missão de catequização, quando o navio em que viajavam foi interceptado por calvinistas franceses. Descobertos como missionários católicos, acabaram martirizados e atirados sem clemência ao mar deste lado de cá do mundo, até ali insondável.

Quatro séculos depois, a América Central registrou a imolação do religioso católico salvadorenho Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, que denunciava a repressão em seu país e a execução de quem a contestava. Dom Romero foi assassinado com um tiro em pleno altar da igreja onde celebrava uma missa no dia 24 de março de 1980.

Também há mártires protestantes na História. Gente igualmente sacrificada por sua fé, como Anne Askew, poetiza luterana inglesa, queimada viva numa fogueira em 1546. Ou Heinrich von Zütphen, reformador alemão, outro queimado por católicos após ser massacrado na prisão, em 1524.

Ou ainda Martin Luther King Jr., o lendário pastor protestante dos Estados Unidos, que, em sua pregação de amor aos semelhantes, foi um dos maiores combatentes pelos direitos civis dos negros no planeta. Luther King foi assassinado em 1968.

Há, por fim, os mártires não religiosos. O sul-africano Nelson Mandela passou 27 anos na cadeia, subjugado por brancos. Tiradentes, na conclusão de seus ideais de Brasil livre, foi enforcado e esquartejado.

E há os anônimos, sobretudo pobres e pretos, que tombam todos os dias ou já tombaram nos guetos, aqui bem perto, nas favelas e nos subúrbios.

Houve ainda os jovens assassinados pela ditadura militar – e os quase-mortos por ela, que escaparam depois de presos e brutalmente inquiridos e barbaramente torturados, cuja alma foi doloridamente marcada pra sempre.

Conheci alguns. Votei em alguns.

Todos os mártires, mesmo os que sobrevivem ao martírio, quase sempre muito adiante de sua aflição, acabam abraçados pela História um dia. Com Mandela, o primeiro presidente negro eleito na África do Sul, foi assim.

Num sentido mais coletivo, com Dilma Rousseff e seus companheiros de prisão e de padecimento na tortura, também.

A jovenzinha duramente agredida no porão do regime de 1964 sobreviveu pra se eleger duas vezes presidente da República do Brasil. Sobreviveu pra ser entronizada como a primeira mulher presidente da História da nação brasileira, nação tão misógina e sexista na avaliação de suas protagonistas femininas.

Pois Dilma talvez também entre pra História universal como a única vivente feita mártir duas vezes. Uma, na ditadura cruel de seu país; outra, agora, no seu sacrifício de governante honesta e inocente, até prova em contrário, imolada num tribunal politizado e injusto por crimes que não cometeu e sequer estavam em julgamento.

Seu governo tão ruim, tão já esgarçado e no limite do desastre e da sem-saída e do sem-jeito, nem isso estava em julgamento.

A presidente não cometeu os pecados de pecúnia atribuídos a seus pares petistas, aliados e até não aliados. Não é ré no Supremo Tribunal Federal, como seu algoz Eduardo Cunha. Não concorreu à condição de ficha-suja ou de inelegível, como o vice e agora presidente interino Michel Temer. Não roubou. Não desviou. Não enriqueceu.

Agradeço a ela por isso. Obrigado, dona Dilma. Obrigado por não se igualar a tantos homens que rodeavam seu tailleur no palácio e por ter resistido com tanta dignidade a tamanhas indignidades cometidas contra a senhora ou bem perto da senhora.

E não vou esperar a História pra lhe dar o meu abraço sincero de carinho e gratidão por sua conduta.

Ganhar abraço de carinho sincero é tão bom. Aceite o meu, presidente. Só entende plenamente este tipo de abraço quem o recebe. Dou já o meu na governante afastada, mas legitimamente eleita em 2010 e reeleita em 2014 e desempossada neste triste 12 de maio de 2016.

Desempossada pra dar lugar a um novo governo, um que já nasce velho e já começa a ser chamado por aí de porcaria – aliás, único substantivo feminino (“porcaria”) presente em seu primeiro escalão repleto de homens, os de sempre.

Ganhar abraço de carinho é tão bom, presidente. Aceite mesmo o meu. Ainda ontem eu ganhei um assim. Um abraço comprido que paralisou meu dia. Um que pareceu estancar os sinais de trânsito a meu redor e abafar o barulho dos ônibus e segurar a mão perversa de todos os malfeitos planejados no mundo – em Brasília, inclusive.

Um abraço longo, cuja duração foi maior que a intenção da oferta, mas que a força da procura estendeu.

Invadido por tantos cheiros esse abraço que eu ganhei, presidente. Dedico à senhora um abraço igual. Com cheiro do mato de São Pedro da Serra. Cheiro de madrugadas no Jardim Botânico. Cheiro do quarto da minha infância em Morro Agudo. Cheiro das pedras das Ilhas Tijucas lavadas com o sal do mar batido em suas bordas. Cheiro de banho recém-tomado, de lençóis azuis limpos e de roupa saltada há pouco da gaveta. Cheiro de um amor único. Cheiro de criança de cabelo molhado, correndo pela casa.

Um abraço tão bom que senti vontade de doar, a quem mais eu gosto e preservo, um pouco da sensação de calma despertada pelo enlace de corpos no meio da rua movimentada. Vontade de doar um pouco do abraço bom a meus iguais, a cada um dos meus filhos, a cada um dos meus amigos.

Doar um pouco desse abraço a toda a vizinhança. Um pouco pra toda a cidade e um pouco pro país todo – e mais um pouco pra todas as pessoas dignas de abraço neste dia de discórdia e de conflagração política e de divisão que subtrai e não soma, de multiplicação de incertezas, dia de insensatez e de escassez de esperança no que vem a seguir.

Abraçar é bom, presidente. A senhora sabe. Abraço de saudade. Abraço de amor. Abraço de amigo. Abraço de filho. Abraço de acolhimento. Abraço que não é de adeus, mas de até breve. Abraço de quem, no silêncio, só quer dizer com seu gesto um “ei, estou junto, não esmoreça, não se recolha nem se esconda, vamos seguir”.

Ganhar abraço é tão bom. Aqui vai o meu, presidente. Com carinho e gratidão, aqui vai o meu.

Valsa pra ela

Em lugar mais longe ainda

que o Japão, numa janela,

haverá mulher mais linda

do que linda é aquela?

Será possível encontrar?

Talvez mulata de Lan?

Passarinho? Miss Catar?

Nativa das Ilhas Cayman?

Inútil buscar beleza

igual, maior, parecida.

Não existe na natureza

nada que ao menos coincida

com seu olhar de sereno,

seu cheiro limpo, jasmim…

Tão bela é ela que temo:

não posso querer pra mim.

O Facebook não sabe brincar

O cronista digital, embora se atribua este predicado, é um ser humano precário e analógico. Quase completamente analógico.

A casa dele não tem micro-ondas e, só há bem pouco tempo, ganhou máquina de lavar. Ele não tem torradeira; sua cafeteira funcionou cinco, seis vezes, se muito; seu coador é de pano; seu fogão é movido a botijão; sua TV é de tubo; seu chuveiro é elétrico; seu carro está com ele há 18 anos.

Como o elefante do poema tão bonito de Carlos Drummond de Andrade, o cronista digital se humaniza a cada manhã, ao abrir os olhos, e sai por aí “à procura de amigos, de episódios não contados em livro”, às vezes com sua bicicleta, às vezes “com seu passo que vai (assim ele acredita) sem esmagar as plantas, num mundo enfastiado, que já não crê nos bichos e duvida das coisas”.

Raras vezes, como o elefante do poema, ele, o cronista digital, encontrou o “de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante em que amo disfarçar-me”.

Numa dessas viagens, em que quase sempre voa pra dentro de si mesmo, na sua solidão de “elefante” na multidão da rua, ele assim se predicou – como “cronista digital”. E nesse dia nasceu seu blog, no ar há três meses e seis dias e algumas horas e alguns segundos até esta linha.

No fim da noite de ontem, terça-feira fria de maio, neste outono invernal que colore a rua onde vive com o amarelo das folhas caídas das amendoeiras, o cronista, sujeito estranho que não festeja aniversário e não troca jogo do Flamengo nem por show dele mesmo, ele, enfim, teve a intenção boba de anunciar em sua apresentação nas redes sociais, mas apenas pra si mesmo, a sua nova-já-quase-velha condição de trabalhador sem patrão.

E, então, modificou, na sua página no Facebook, a sua apresentação. Retirou quinquilharias já sem serventia de seu passado recente, e, na sua limitação analógica, atualizou o nome da “empresa” pra qual trabalha atualmente.

Pôs lá que é empregado do seu marceuvieira.wordpress.com.

Fez isso pra se homenagear e, na esperança de sonhar coisas boas, talvez com Adalgisa vestida de branco num dia radiante, foi dormir sem imaginar que, na madrugada acesa a seu redor, no teclar incessante da internet, o Facebook não saberia brincar.

Acordou, vestiu mais uma vez o dominó de “elefante” e, antes de sair com sua bicicleta, viu no Facebook que mais de 200 amigos o felicitavam por sua nova fonte de renda. Ficou impactado.

O cronista digital, que ainda não entendeu muito bem os segredos das hastegs, e não tem nem 72 horas de voo como usuário do Twitter, em sua limitação de ignorante nas coisas do Google Adsense e do Google Analytics, permaneceu surpreso e assustado e se achou no dever de explicar.

Não, ele não “monetizou” o seu blog (ei, garoto que sempre pergunta, o cronista digital não sabe se blog dá dinheiro, pelo menos o dele, ele não sabe, ele não sabe). Ele sonha muito conseguir isso um dia. Mas ainda não conseguiu. Se vai conseguir, e ele espera que sim, dependerá da audiência doada por quem o lê.

Aliás, não faz muito tempo que ele aprendeu o significado de “monetizar”.

Por questões inerentes à sua nova-já-quase-velha vida de independente, o cronista digital até se tornou “empresário”. É sócio, desde a semana passada, da futuramente pujante, ele espera, Marceu e João Ltda., microempresa estabelecida no Rio de Janeiro, fruto de mais uma parceria com seu amigo-irmão João Pimentel – o Janjão, pros não íntimos.

Mas, não. O seu marceuvieira.wordpress.com, que, aliás, em muito breve, será só marceuvieira.com, não se tornou uma empresa.

Ao fazer constar isso do Facebook, o cronista digital só queria fazer graça com ele mesmo e dar um pouco importância – pra si próprio e a si próprio – ao que tem feito, às reflexões muitas vezes bobas e tão pessoais narradas no seu blog.

Não imaginava que, pra sua alegria infantil, o Facebook não saberia brincar e entenderia a mudança de seu perfil ao pé da letra – e a compartilharia com o público.

Só resta ao cronista digital, agora, agradecer tantas palavras de carinho, tantos dedinhos pra cima no ícone curtir, tantos coraçõezinhos que indicam o sentimento de quem torce sinceramente por ele.

E pedir, por favor, que continuem lendo suas reflexões, seus desabafos com ou sem relevância, suas bobagens e o relato da sua interminável busca por Adalgisa.

Obrigado.

Outras da caixa postal do cronista

O cronista digital completou três meses no ar. Neste período, aprendeu que nem tudo na rede da internet é peixe. Pra alegria boba dele, são mais de 60 mil visualizações e quase 50 mil visitas em 90 dias. Sua responsabilidade aumenta – mas as dúvidas e as certezas de seus leitores, parece, também.

“Quantos anos, afinal, tem Adalgisa?”

“Cara, só agora percebi que Adalgisa não existe. Ou existe?”

“Tenho uma vizinha chamada Adalgisa, uma senhora muito simpática. Mostrei sua crônica pra ela. Ela gostou tanto.”

“Adalgisa deve ser o nome de uma filha sua. Não é possível. Chega de escrever sobre Adalgisa!”

“Aguardo, ansiosa, pela próxima crônica sobre Adalgisa.”

“Narceu, você é parente do Valdir Vieira?”

“Você não deve ter conhecido Narceu de Almeida. Foi uma grande figura. Por isso, não despreze seu nome.”

“Por que não me responde se blog dá dinheiro?”

“Adorei sua ‘entrevista’ com o Brizola. Mas, da próxima vez, pergunte por que ele apoiou o Collor.”

“Não gostei muito da sua crônica sobre Jango. Eu esperava que você dissesse que ele só assumiu porque Brizola comandou a Cadeia da Legalidade depois da renúncia de Jânio Quadros.”

“Por que você ainda não escreveu sobre o Bolsonaro? Por acaso gosta dele?”

“Adorei a pancada que você deu no Bolsonaro numa crônica sobre o impeachment de Dilma.”

“Você pensa isso mesmo da TV Globo? Que a TV Globo é vítima? Acha mesmo que, por apoiar o golpe, a Globo compromete essa tal reformulação de imagem? Fala sério, a Globo não é nem nunca será vítima de nada! E não sei que imagem reformulada é essa.”

“Surpreendente e admirável sua postura crítica em relação às Organizações Globo. Sobretudo, por ter trabalhado lá.”

“Impeachment não é golpe! Vá estudar a Constituição!”

“Esse impeachment é golpe! Isso aí, Morfeu! Rs… Brincadeira. Já aprendi que seu nome é Marcel!”

“Você é louro?”

“Continuo achando que você é Botafogo.”

“Afinal, você é petista?”

“Concordo quando você culpa a Dilma e o Lula por Belo Monte. Aquela hidrelétrica foi o maior crime ambiental cometido por um governo.”

“Fale mais do seu pinhão-pajé e das suas azaleias. Pare de falar de política.”

“Continue falando do golpe, da política, do Eduardo Cunha, do Michel Temer. Você me consola. É quando sua escrita fica mais interessante.”

“Marceu é pseudônimo, admita. Você é uma mulher?”

“Você perdeu o maior tempo se entrevistando. Poderia entrevistar alguém mais interessante. Estou só implicando. Mas que podia, podia.”

“Você foi brizolista?”

“Onde fica Morro Agudo?”

“Vi uma foto sua no Facebook. Não sei por que, mas jurava que você era negro como eu sou.”

“Minha mãe adora o que você escreve. Cheguei aqui por causa dela. Vou te ler sempre. Mas prefiro que ela não saiba. Ela vive me contestando.”

“Que conselhos de amor você daria a um homem solitário e com mais de 60 como eu? Você já fez 60?”

“Nos seus possíveis 30 e poucos anos, talvez 40, você parece ter acumulado algum conhecimento. Mas precisa viver mais um pouco, menino.”

“Você já se sentiu aflito? Eu já. Hoje mesmo, ao ler sua crônica sobre Dilma. Para de defender essa mulher!”

“Sua defesa do mandato de Dilma é necessária. Como mulher e devota da democracia, acho necessária.”

“Você estudou em colégio de padre? Parece.”

“Adorei ler sobre a origem do seu nome. Não culpe sua mãe, rapaz.”

“Estou sentindo falta de um novo poema seu no blog.”

“Ainda bem que não publicou mais poesias. Fique na crônica. É melhor.”

“Não é que a qualidade das fotos do seu blog melhorou?!”

“Dizer que Morro Agudo é feio, realmente, é maldade. Estive há algum tempo no casamento de um amigo daquela cidade paulista.”

“Marcel, quanto você paga ao Ancelmo Gois pra ele divulgar seus shows?”