O Facebook não sabe brincar

O cronista digital, embora se atribua este predicado, é um ser humano precário e analógico. Quase completamente analógico.

A casa dele não tem micro-ondas e, só há bem pouco tempo, ganhou máquina de lavar. Ele não tem torradeira; sua cafeteira funcionou cinco, seis vezes, se muito; seu coador é de pano; seu fogão é movido a botijão; sua TV é de tubo; seu chuveiro é elétrico; seu carro está com ele há 18 anos.

Como o elefante do poema tão bonito de Carlos Drummond de Andrade, o cronista digital se humaniza a cada manhã, ao abrir os olhos, e sai por aí “à procura de amigos, de episódios não contados em livro”, às vezes com sua bicicleta, às vezes “com seu passo que vai (assim ele acredita) sem esmagar as plantas, num mundo enfastiado, que já não crê nos bichos e duvida das coisas”.

Raras vezes, como o elefante do poema, ele, o cronista digital, encontrou o “de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante em que amo disfarçar-me”.

Numa dessas viagens, em que quase sempre voa pra dentro de si mesmo, na sua solidão de “elefante” na multidão da rua, ele assim se predicou – como “cronista digital”. E nesse dia nasceu seu blog, no ar há três meses e seis dias e algumas horas e alguns segundos até esta linha.

No fim da noite de ontem, terça-feira fria de maio, neste outono invernal que colore a rua onde vive com o amarelo das folhas caídas das amendoeiras, o cronista, sujeito estranho que não festeja aniversário e não troca jogo do Flamengo nem por show dele mesmo, ele, enfim, teve a intenção boba de anunciar em sua apresentação nas redes sociais, mas apenas pra si mesmo, a sua nova-já-quase-velha condição de trabalhador sem patrão.

E, então, modificou, na sua página no Facebook, a sua apresentação. Retirou quinquilharias já sem serventia de seu passado recente, e, na sua limitação analógica, atualizou o nome da “empresa” pra qual trabalha atualmente.

Pôs lá que é empregado do seu marceuvieira.wordpress.com.

Fez isso pra se homenagear e, na esperança de sonhar coisas boas, talvez com Adalgisa vestida de branco num dia radiante, foi dormir sem imaginar que, na madrugada acesa a seu redor, no teclar incessante da internet, o Facebook não saberia brincar.

Acordou, vestiu mais uma vez o dominó de “elefante” e, antes de sair com sua bicicleta, viu no Facebook que mais de 200 amigos o felicitavam por sua nova fonte de renda. Ficou impactado.

O cronista digital, que ainda não entendeu muito bem os segredos das hastegs, e não tem nem 72 horas de voo como usuário do Twitter, em sua limitação de ignorante nas coisas do Google Adsense e do Google Analytics, permaneceu surpreso e assustado e se achou no dever de explicar.

Não, ele não “monetizou” o seu blog (ei, garoto que sempre pergunta, o cronista digital não sabe se blog dá dinheiro, pelo menos o dele, ele não sabe, ele não sabe). Ele sonha muito conseguir isso um dia. Mas ainda não conseguiu. Se vai conseguir, e ele espera que sim, dependerá da audiência doada por quem o lê.

Aliás, não faz muito tempo que ele aprendeu o significado de “monetizar”.

Por questões inerentes à sua nova-já-quase-velha vida de independente, o cronista digital até se tornou “empresário”. É sócio, desde a semana passada, da futuramente pujante, ele espera, Marceu e João Ltda., microempresa estabelecida no Rio de Janeiro, fruto de mais uma parceria com seu amigo-irmão João Pimentel – o Janjão, pros não íntimos.

Mas, não. O seu marceuvieira.wordpress.com, que, aliás, em muito breve, será só marceuvieira.com, não se tornou uma empresa.

Ao fazer constar isso do Facebook, o cronista digital só queria fazer graça com ele mesmo e dar um pouco importância – pra si próprio e a si próprio – ao que tem feito, às reflexões muitas vezes bobas e tão pessoais narradas no seu blog.

Não imaginava que, pra sua alegria infantil, o Facebook não saberia brincar e entenderia a mudança de seu perfil ao pé da letra – e a compartilharia com o público.

Só resta ao cronista digital, agora, agradecer tantas palavras de carinho, tantos dedinhos pra cima no ícone curtir, tantos coraçõezinhos que indicam o sentimento de quem torce sinceramente por ele.

E pedir, por favor, que continuem lendo suas reflexões, seus desabafos com ou sem relevância, suas bobagens e o relato da sua interminável busca por Adalgisa.

Obrigado.

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2 comentários sobre “O Facebook não sabe brincar

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