Itamar, nunca houve um vice como ele

Depois da treva de Fernando Collor, entre 1990 e 1992, o Brasil viveu a brandura de Itamar Franco. Itamar era um homem bom. Como a Gilda do filme norte-americano de 1946, dirigido por Charles Vidor e estrelado pela deslumbrante Rita Hayworth (1918-1987), nunca houve na política brasileira um vice como ele.

Homem simples, cidadão digno, político honrado, Itamar costumava dizer que, na vida pública, antes de qualquer senão, “é preciso se preocupar com a mensalidade e o aluguel das pessoas”.

Ele pensava e dizia o óbvio – e quase sempre estava certo, ou bem perto de estar certo.

Pois no dia 2 de julho agora, daqui a mais ou menos mês e meio, vai fazer cinco anos que Itamar morreu. Itamar faz falta ao Brasil.

Qualquer um que com ele tenha convivido, mesmo de longe, mesmo apenas como contemporâneo de seu tempo no ambiente político, poderá testemunhar. Mais do que um vice, talvez nunca tenha havido na política brasileira um sujeito como ele. Banhado de pureza. Ungido pela singeleza dos melhores.

Itamar era diferente. Não leu os mesmos livros que Fernando Henrique Cardoso. Não teve a origem desventurada nem a inspiração intuitiva de Lula. Não dispunha do carisma nem foi curtido na desdita da infância de Leonel Brizola.

Não ergueu uma Brasília como Juscelino Kubitschek. Não inventou uma grande era como Getúlio Vargas.

Era um ser natural e comum. Tão natural e comum que não precisou se esforçar pra que esta fosse a sua marca. Governou o Brasil com amigos. Obedecia, em primeira e em última instâncias, ao seu coração. E seu coração era justo e limpo.

Certa noite, numa mesa do Café Lamas, catedral da boemia carioca, bebeu chope rodeado de estudantes da UNE. Era presidente da República. Mais ouviu do que falou. E do que falou, ficou na memória esta frase, ou algo parecido com ela: “Na vida pública, é preciso se preocupar com a mensalidade e o aluguel das pessoas.”

Itamar não era grande nem pequeno. Nem médio. Itamar era Itamar. Apenas parecia caber na definição de homem público ideal feita hoje pelo uruguaio José Pepe Mujica: “Os políticos devem aprender a viver como a maioria do seu povo, não como a minoria.” Assim parecia ser Itamar.

Itamar Augusto Cautiero Franco nasceu em localização não especificada do mar territorial brasileiro, durante uma viagem de navio de cabotagem entre Rio e Salvador. Foi registrado na capital baiana no dia 28 de junho de 1930. Morreu em São Paulo, em 2011, vítima de complicações causadas por uma leucemia.

Seu nome está nos registros da pátria como o 33º presidente da República Federativa do Brasil. Eleito vice em 1989, governou o país entre 1992 e 1994, após o impedimento de Fernando Collor. Engenheiro civil, começou na política pelo antigo PTB de Vargas e João Goulart, e se filiou ao MDB quando a ditadura militar impôs o bipartidarismo.

Foi prefeito de Juiz de Fora de 1967 a 1971. Reeleito em 1972, renunciou dois anos depois pra concorrer ao Senado por Minas. Eleito senador, cumpriu a lida de vice-líder da oposição ao regime nos duros anos de 1976 e 1977.

Com o fim do bipartidarismo, no início dos anos 1980, seguiu no PMDB, o MDB assim rebatizado. Pelo PMDB de Ulysses Guimarães, defendeu as Diretas Já e votou em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de 1985.

Ainda era senador, em 1988, quando aceitou o convite de Collor pra concorrer a vice-presidente pelo finado PRN. Empossado, mudou-se para o Palácio do Jaburu, hoje habitado por Michel Temer, onde logo passou a divergir do presidente – sobretudo por sua política econômica.

E, cada vez mais afastado do titular, deixaria o PRN no primeiro semestre de 1992, antes da crise do impeachment, descontente com uma reforma ministerial que reconduzira ao governo ex-chimangos da ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá.

Quando veio o impedimento de Collor, julgado por corrupção e desvios, em 1992, Itamar reuniu lideranças de todos os partidos na sua residência oficial. Disse que não pedia apoio. Só governabilidade. Avisou que, sem governabilidade, renunciaria e convocaria nova eleição.

Naquele Brasil menos conflagrado que o de agora, foi atendido. E seguiu.

O cidadão simplório, com base eleitoral na mineira Juiz de Fora, assumiu, então, a cadeira principal do quarto andar do Palácio do Planalto, e montou um Ministério a partir dos caprichos do seu coração. Nele, havia muitos amigos da sua Juiz de Fora, alguns aliados e técnicos que mal conhecia.

Na equipe, diferentemente de agora, havia mulheres. Eram duas – Yeda Crusius (Planejamento) e Margarida Coimbra do Nascimento (Transportes). E assim Itamar iniciou um governo que duraria dois anos e dois meses, até a ascensão do tucano Fernando Henrique, eleito seu sucessor em 1994.

FH, aliás, havia sido seu ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Já não estava no governo quando Itamar lançou o Plano Real, paradigma da economia brasileira, que não foi elaborado pelo PSDB, como o pensamento dominante faz crer, mas por uma equipe escolhida e nomeada por ele.

A inflação brasileira passava de 1.000% ao ano. Desceu a zero, com todo o preço pago pela classe média (esta mesma que, ainda há pouco, estava vestida de verde e amarelo na Avenida Paulista, como em adoração ao pato da Fiesp, em sua grita de “fora Dilma”).

Fernando Henrique já era candidato à Presidência quando o Real nasceu – e, registra a História, beneficiou-se dele e do apoio de Itamar pra se eleger.

No governo Itamar, os brasileiros foram chamados a decidir, num plebiscito, se queriam a manutenção do presidencialismo, a volta da monarquia ou o parlamentarismo. Deu presidencialismo, como se sabe.

Na gestão Itamar, iniciou-se a campanha de combate à fome e à miséria liderada pelo sociólogo Betinho e abraçada pelo presidente. Em seu governo, surgiram os remédios genéricos – e, num gesto talvez inocente de democratizar o carro zero, houve a tentativa de ressurreição do Fusca.

Num sentido reducionista, Itamar era assim, inocente. Descasado como tantos brasileiros comuns, pai de duas filhas jamais expostas aos holofotes do poder, parecia ter um coração puro. Coração, por sinal, aparentemente alheio às teorias e às certezas de Nicolau Maquiavel (1469-1527), o pensador italiano do Renascimento, considerado fundador da ciência política moderna.

Coração, algumas vezes, envolvido em situações quase adolescentes, que sequer chegaram a merecer críticas.

A mais falada dessas situações ocorreu no carnaval de 1994, quando, num camarote da Marquês de Sapucaí, foi fotografado ao lado da modelo Lilian Ramos, moça desinibida, de beleza generosa e corpo virtuoso, que, ali, usava apenas uma camiseta, sem nada por baixo.

A camiseta era mais curta do que recomendava a falta da calcinha. Mais curta, ainda, do que impunham os humores da liturgia da Presidência da República.

Mas só Itamar poderia passar por uma situação assim e seguir. E ele seguiu.

Concluiu o governo com 41% de popularidade, elegeu FH em 1994, e, já longe, bem longe do seu ex-ministro, apoiou Lula, em 2002, contra o tucano José Serra. Venceu mais uma vez.

O povo de Minas Gerais deve a ele a preservação da Cemig como patrimônio de seu estado. Eleito governador em 1998, quatro anos depois de deixar a Presidência, Itamar, convertido em opositor ferrenho do tucanato, retomou na Justiça o controle acionário da estatal energética.

A empresa havia sido parcialmente vendida pelo antecessor, o tucano Eduardo Azeredo. A negociação estaria na origem do chamado mensalão mineiro e do esquema Marcos Valério, que tantas dores de cabeça daria mais tarde ao PT de Lula e Dilma.

Hoje, a Cemig é uma das maiores geradoras e distribuidoras de energia do mundo. Fundada em 1952 pelo então governador JK, é a empresa mais pujante do setor elétrico na América do Sul. Tem 117 mil acionistas em 44 países. Suas ações são negociadas nas bolsas de São Paulo, Nova York e Madri.

Minas e o Brasil também devem a Itamar a não privatização de Furnas. No mesmo mandato de governador, o homem singular que governara o Brasil convocou a Polícia Militar e, num gesto tresloucado, ameaçou explodir uma das usinas da companhia, em São José da Barra, MG, caso a gigante fosse privatizada.

No país tomado agora de Dilma por Temer, Eletrobras-Furnas desponta como uma joia. Está no topo do mundo entre as maiores em geração e transmissão de energia. Seus acionistas, que hoje lucram com ela, deveriam oferecer uma ave-maria todos os dias à memória de Itamar.

Itamar Franco morreu aos 81 anos de idade, em 2011, e sua trajetória não foi lição assimilada pelo PT, hoje enovelado na teia da atenta e solerte aranha do conservadorismo, que, com seus venenos, sempre conspirou e sempre vai conspirar contra quem a ameace.

Collor foi muito feliz ao escolher Itamar como vice. Felicitou não só a si mesmo, pois se elegeu em 1989. Felicitou também o país todo, porque, ao ser afastado, deixou em seu lugar um brasileiro único e bom, preocupado com o nosso aluguel e a nossa mensalidade.

Um brasileiro que, na Constituinte de 1988, como senador, fora a favor da soberania popular e do rompimento com países que discriminassem negros. A favor da nacionalização do subsolo e da humanização do sistema financeiro. A favor da redefinição dos encargos da dívida externa e da criação de um fundo de apoio à reforma agrária.

O intuitivo Lula, num ramal pessoal, também seria feliz na escolha de seu vice, José Alencar, a ele tão leal até o último suspiro.

Já Dilma, justiçada agora por erros cometidos por seu partido, teve uma campanha e um mandato inteiros, entre 2010 e 2014, pra aferir se Michel Temer era mesmo seu par ideal, se lhe seria fiel, se seria firme e perseverante na possibilidade do Brasil que ela havia sonhado construir com os votos de 54,5 milhões de eleitores.

Mas, a exemplo de Gilda, nunca houve um vice como Itamar.

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