Sobre o fim que vem depois do fim

Eu tenho, no pequeno quintal da minha casa, uma planta que comprei em janeiro de 2014 na serra de Nova Friburgo. Nunca soube o nome dela. Não me ocorreu perguntar a quem me vendeu – e, se o vendedor me disse, eu não registrei, pro meu desconforto e pro meu arrependimento tanto tempo depois.

Nunca soube até hoje, quando, movido por uma necessidade difícil de explicar, fiz uma trabalhosa pesquisa de imagens na internet e descobri que minha plantinha se chama confete. Seu nome científico é Hypoestes phyllostachya.

Tão carregada de significado a minha plantinha. É só mais uma entre 20 e tantas que venho acrescentando em vasos no meu quintal, e que rego dia sim, dia não. Ou, às vezes, se faz muito calor, rego dia sim, dia também.

É só mais uma, mas tão única no seu significado.

Minha plantinha foi comprada numa viagem feliz, num tempo particularmente feliz, e tenho certeza de que ela – na verdade, ele, o meu confete – foi muito feliz comigo também.

Meu confete floresceu algumas vezes. Suas flores roxas, bem miúdas, já enfeitaram minhas manhãs e me fizeram companhia nas madrugadas em que, deste mesmo quintal, do alto da ladeira onde vivo, olho a cidade acesa lá em baixo, tão longe e tão perto, com seus mistérios e seus convites.

Fomos felizes todo esse tempo, mas, há alguns dias, comecei a perceber que minha plantinha estava morrendo. 

Por ser de uma espécie que adora clima frio e úmido, não muito raro, costumava murchar as folhas pra me dizer que queria água. Regada, recobrava a vida e espreguiçava as folhas verdes com pintas cor-de-rosa – e assim avisava que a felicidade havia voltado.

Sempre que eu viajava, minha preocupação era com ela. Se a ausência fosse longa, deixava a chave de casa com alguém, pra que a regasse. As outras plantas do quintal poderiam resistir a até uma semana sem água. Ela, não. No verão, se não fosse aguada, mal podia conservar o viço por um dia.

Nos últimos tempos, apesar deste frio esquisito no Rio, a felicidade do meu confete começou a não voltar.

As folhas foram murchando, murchando, murchando, muitas amareleceram e caíram, até que, na manhã deste último dia de junho, tentei um recurso derradeiro e cortei seus dois galhos já mofinos, na esperança de que voltem a crescer e a dar folhas e flores em breve.

Sem saber direito se meu gesto traria bom resultado, saí da cama bem cedo e fiz isso. A dor da tesoura decepando os dois galhos bem finos doeu em mim.

Acordei antes mesmo de o meu capim-de-Santa-Luzia florir no quintal (tão diferente do confete, capaz apenas de uma ou duas floradas por ano, o capim-de-Santa-Luzia se exibe toda manhã, com suas pétalas azuis que duram cinco, seis horas, se muito, até fenecerem à tarde, pra voltarem a florir logo depois do nascer do sol seguinte).

Desci a ladeira com minha bicicleta, pensando no destino triste da minha plantinha e nos seus significados, e me lembrei do filme “Truman”, produção espanhola-argentina estrelada pelo brilhante Ricardo Darín, a que assisti há pouco, com atraso de uns dois meses.

O longa, bonito toda vida, fala da morte sem exibir a morte. É um drama que não faz drama. Em certos momentos, até faz rir.

Eu soube que, durante as filmagens, várias vezes, o diretor catalão Cesc Gay teve de desligar a câmera porque os atores choravam fora de hora. E a intenção do filme dele não era fazer chorar, embora quase todo mundo tenha chorado ao assistir. Eu, inclusive.

Aliás, o personagem de Darín, no único momento em que chora, dá as costas pra câmera.

Julian, interpretado por Darín, é um ator argentino de teatro que vive em Madri. Desenganado, mas ainda com vigor, apesar do câncer disseminado e já sem possibilidade de cura, ele decide abandonar o tratamento pra viver com liberdade o tempo que ainda lhe resta.

A partir daí, seu calvário não é o da doença, mas o de tentar encontrar quem possa ficar com seu cachorro depois que ele morrer. O cachorro se chama Truman e conduz toda a história.

O filme não começa com Julian. Começa com Tomás (o espanhol Javier Cámara), que viaja do Canadá, onde mora há alguns anos, na esperança de convencer o amigo da vida inteira, na Espanha, a não deixar a quimioterapia.

Na Europa, os dois passam quatro dias juntos – e é só este o período abordado numa história de profundidade lancinante.

Uma história sobre a amizade, o amor, as despedidas, a solidão, o arbítrio que todos deveríamos ter na hora da morte, e, principalmente, sobre o significado das pequenas coisas e dos pequenos gestos, tantas vezes considerados sem valor aos olhos apressados da humanidade.

Eu li que, na definição de Darín, “Truman” é um filme no qual “o não dito tem uma importância imensa”. Talvez mais do que o dito. Ele tem razão.

Quando Julian, finalmente, entrega seu cachorro ao novo dono, e faz isso de uma forma surpreendente, o que fica na cabeça da gente, por exemplo, não é aquela cena tocante. É o que o longa não mostra depois.

É como aquele homem tão apegado a seu cachorro vai poder sobreviver seus últimos dias sem Truman, que não dá um latido no filme.

Curiosamente, Troilo, nome do cachorro na vida real, morreria poucos meses depois das filmagens.

Pensei no filme por compreender que, como na agonia da minha plantinha, com todos os seus significados desimportantes na percepção da maioria, o fim de verdade de todas as histórias vem sempre depois do fim estabelecido.

O fim de verdade só chega quando o realizamos, e jamais coincide com o momento em que o desenlace foi decretado.

O fim de verdade vem mais adiante, já depois dos créditos do filme da perda, e geralmente o vivemos sozinhos. Vem depois até mesmo do luto aparente, quando ninguém já nos consola. Vem no silêncio, no “não dito” citado por Darín em sua definição de “Truman”.

Antes de se consumar, o fim dá seus avisos. Todos percebem. O fim de verdade também dá os seus. Mas só nós percebemos.

Com meu confete, tão vistoso até outro dia, não morre o significado que me prendia a ele. Foi o que compreendi ao me lembrar do comovente filme de Cesc Gay e associá-lo ao martírio sem importância da minha plantinha.

Os cachorros, as pessoas, os ciclos da vida, os amores, tudo acaba um dia. Mas a lembrança dos seus significados permanece viva por bom tempo, ainda doendo, à espera do fim de verdade.

Às vezes, a lembrança desses significados continua viva numa bola de borracha. Às vezes, numa fotografia. Às vezes, numa planta.

*     *    *    *

Eduardo Galeano, o genial uruguaio que morreu em 2015, mas não morrerá nunca, escreveu assim sobre a finitude no seu belo “Livro dos abraços”: “Quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando.”

 

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Declaração de amor às palavras

Devo às palavras tudo que eu tenho. Não sei quantas conheço. Menos do que gostaria. Sinto muita vontade de agradecer a cada uma delas. Obrigado, dona Delicadeza, por todas as vezes em que a usei – com todo o respeito. Minha gratidão eterna, seu Vernáculo, o senhor, que, em quatro sílabas apenas, é capaz de conter todas as palavras.

Adoro conhecer palavras novas. Quase digo um “muito prazer” quando isso ocorre.

Por saber disso, volta e meia, meu querido amigo Anésio Pereira Dutra me ensina alguma. Mas já o peguei com “circuncisfláutico”, que ele não conhecia. Ou, por pura delicadeza – olha ela aí de novo, a dona Delicadeza, que, aliás, é uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa -, enfim, talvez só por ser tão delicado, meu amigo Anésio tenha fingido não conhecer o verbete “circuncisfláutico”, adjetivo atribuído a quem fala rebuscadamente ou só é sorumbático ou triste.

Palavras. Meu amigo Anésio, sujeito tão culto, com idade pra ser meu professor, conhece muito mais palavras do que eu.

Anésio é mestre em português. Foi um dos 11 comunistas demitidos do Colégio São Vicente, no Cosme Velho, no Rio, em 1983, num dos capítulos mais pungentes da reação à ditadura militar no Brasil (muito obrigado, seu Pungente, por reaparecer por aqui).

Cabe um parêntese pra resumir essa história. Alunos e pais fizeram uma vigília de um mês no pátio do São Vicente pela readmissão dos professores comunistas. Acampados ali, chegaram organizar uma ceia na noite de Natal. Derrotados, desocupariam o colégio, cantando, numa marcha até o Ceat, em Santa Teresa, onde os 11 demitidos fundariam a primeira turma de ensino médio da escola.

Mas, sem tergiversar muito (perdoe, dona Tergiversação), queria dizer que meu carro velho, o Sujinho, comigo há 20 anos, devo às palavras. Meus dois violões, um deles meu companheiro desde 1986, devo às palavras.

Devo às palavras meus poucos livros publicados, todos esquecidos ou desconhecidos ou lidos por menos gente do que eu pretendia. Devo às palavras as letras de música que escrevi – e a elas também devo os parceiros que ganhei.

Devo tudo isso às palavras. Minha estante de partituras, comprada há uma década, devo às palavras. O computador onde escrevo agora, é a elas que eu devo.

Devo meu passado, devo meu presente e meu futuro.

Devo meus poucos móveis, todos gastos. Minhas roupas, meu amontoado de roupas, a maioria desnecessárias. Até meus sonhos devo às palavras.

As mulheres que tive e as que perdi, eu devo. Muitos amigos que conheci, e mantenho – por eles, também, digo obrigado às palavras. Gente com quem falei e gente com quem nunca troquei… palavra. A elas, as palavras, eu devo.

As declarações de amor que fiz. As que, bobo, contive, apesar de prontas pra serem feitas. As que talvez ainda  faça. Devo às palavras.

Devo às palavras a minha coleção de discos, nem todos ouvidos. Meus muitos livros, alguns por ler.

De uma maneira mais material de olhar a vida, tudo que eu tenho é bem pouco. Bem pouco. Mas, com olhos mais generosos (gosto demais da senhora, dona Generosidade), com olhos assim, tudo que eu tenho é muito. E a elas eu devo.

Devo às palavras cada gesto dos meus três filhos neste mundo. A tranquilidade de nunca ter trapaceado ninguém, devo às palavras. A capacidade de ter caminhado até aqui longe da ganância, tudo isso é a elas que eu devo. Palavras que escrevi e, sobretudo, as que eu li.

Minha casa pequena e desarrumada, mas confortável e acolhedora pra mim. A quem ou a que mais eu devo, senão às palavras?

Escrever é ter o que dizer, e pra quem dizer. Sempre repito isso. Sobretudo (o senhor é muito sério, seu Sobretudo, não me queira mal por dizer isso), bem, sobretudo, quando me sento à frente do teclado movido apenas pelo desejo de escrever o que, às vezes, nem eu sei, na intenção insegura e idiota e exclusiva de me realimentar da certeza de que ainda sei fazer isso.

Nessas horas, acabo demovido de escrever graças a este sentimento – se nada há a dizer, por que forçar as palavras, se elas já me deram tanto?

Carlos Drummond de Andrade escreveu algumas vezes sobre isso. Em “Procura da poesia”, disse, com sua eternidade, e pro meu encantamento: “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra, e te pergunta, sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres: trouxeste a chave?”

Nem sempre eu tenho a chave. E, quando não tenho, deixo as palavras em paz, quietas.

As palavras, ensinou Drummond, dormem paradas em “estado de dicionário”, à espera de serem escritas. Mas não devemos arrancá-las de seu limbo se não temos o que dizer com elas.

Meu grande amigo Antônio Ribeiro Feitoza, maior poeta da minha geração, escreveu: “As palavras estão atentas a tudo (…). As palavras possuem segredos guardados há milênios. Homero, Dante, Drummond também tiveram seus momentos de luta com as palavras. Mas lutar com as palavras é como lutar contra o amor. É inútil luta, que sempre perdemos.”

Qualquer dia, numa das vezes em que falo pra estudantes de jornalismo sobre a minha dívida com as palavras, um garoto ainda vai levantar a mão na plateia e me embaraçar com uma pergunta:

– Desculpe, Marcel. Mas o que você tanto deve às palavras?!

O professor que terá me convidado pra palestra me socorrerá, então, e me dará tempo de pensar um pouco mais numa resposta:

– É “Marcêu” o nome dele, Fulano! Não é Marcel, é “Marcêu”!…

O menino seguirá com seu olhos espetados em mim:

– Desculpe, Dirceu. Achei que seu nome era Marcel.

Eu vou entender por trás da pergunta a certeza de quem não quer uma resposta, mas só uma confirmação. E enquanto a turma estiver rindo da confusão com meu nome, eu vou remoer o que o garoto disse e tentar adivinhar o que ele espera ouvir.

Você tem razão, eu vou dizer. Tudo que eu tenho é quase nada mesmo. Tenho o Sujinho; uma bicicleta; um computador apenas razoável; uma TV antiga, daquelas de bunda grande; um quintal cheio de plantas numa casa alugada; uma coleção de camisas do Flamengo; um coador de pano; um fogão de segunda mão; uma máquina de lavar usada presenteada por amigos do peito; uma geladeira já fora de linha.

Realmente, num sentido apenas material, tenho mesmo muito pouco.

– Então, por que você diz que deve tudo às palavras? – o menino vai insistir.

E talvez eu não saiba mais responder. Ou talvez eu disfarce e cite Gabriel García Márquez, e diga que “gosto das coisas não pelo que valem, mas por aquilo que significam”. Ou, num sentido mais sinuoso e dissimulado, eu cite de novo García Márquez e diga que “um único minuto de reconciliação vale mais que toda uma vida de amizade”. 

O cronista digital se sente reconciliado com as palavras neste pequeno quadrado virtual e solto no oceano da internet.

Devo muitos favores às palavras. Elas me deram certeza e dúvida – e discernimento pra separar uma coisa da outra. As palavras me proporcionaram bons amigos, como o professor Anésio. Permitiram que eu ajudasse a construir as consciências tão bonitas dos meus três filhos.

As palavras me socorreram quando precisei de verdade delas.

Mas talvez o que as palavras tenham me dado de mais valioso tenha sido essa teimosia em reuni-las, esse desejo pretensioso de ser íntimo de todas as letras do alfabeto. Porque palavra é como bola. Só ensaia intimidade com quem lhe trata bem.

 

 

 

Carnaval de Adalgisa

Vive olhando pra Lua

Ela é meio lunática

Sai por aí seminua

Cem por cento bombástica

Queimou os seus sutiãs

Mordeu todas as maçãs

Solta pelo paraíso

Jogou fora o juízo

Provoca febres terçãs

Com os seus balangandãs

Desorganiza as estrelas no céu

 

Vai aprontando escarcéu

Ela é meio dramática

Cobre as delícias com véu

Transparência fantástica

Anda a sorrir por aí

Mas só pra quem quer sorrir

Xinga da boca pra fora

Mal chegou, vai embora

Tortura os homens com mel

Corpo esculpido a cinzel

Tão rara como as sereias do mar

(letra da marcha-rancho “Carnaval de Adalgisa”, do cronista digital. Pra ouvir, clique aqui)

*     *     *     *      *

O cronista digital vive mais de uma encarnação numa só. Uma, importante à beça pra ele, é a de letrista de música popular.

Ele também toca violão. Mas, na maioria das vezes, toca só pra ele mesmo.

 quando o convocam, e ele acha que pode fazer isso direito, toca também pra outras pessoas.

O cronista digital fez isso na sexta-feira passada, dia 17 de junho. Convocado pelas meninas do bloco Mulheres Rodadas, da querida Débora Thomé, participou, com seu violão precário de compositor, de uma apresentação das moças no lançamento do “Dossiê Mulher”, sobre violência contra mulheres.

Foi uma manhã de encantamentos. O evento foi no Museu de Arte do Rio, MAR. O auditório estava lotado de mulheres. Havia apenas 13 homens na plateia apinhada.

O esquete idealizado e roteirizado com tanto esmero pelas meninas, dirigido pela talentosa Ludmila Rosa, era sobre o enxovalhamento feminino nas letras de sambas compostos, sobretudo, nas décadas de 1940 e 1950.

Sambas com versos como “mulher indigesta merece um tijolo na testa”, “ela quer apanhar”, entre outras abjeções.

A plateia ficou impactada. A maioria das mulheres ali já havia cantado aquelas músicas sem se dar conta do que as letras dizem.

Tudo isso é só pra dizer duas coisas.

Coisa 1: a letra desta marcha-rancho foi finalizada ainda na emoção daquela manhã no MAR.

Coisa 2: tomara que Adalgisa goste dela.

Minhas conversas com Freud

Quando nem tudo vai bem, ou nem tudo que julgo essencial vai como eu gostaria, nesses dias converso com Freud.

Sim, ele mesmo, Sigmund Schlomo Freud, o médico neurologista, criador da psicanálise, nascido no dia 6 de maio de 1856, em Příbor, município da República Checa – que, na época, pertencia à Áustria, e, por isso, fez seu nome entrar pra História como austríaco.

Psicanálise, ensina a enciclopédia, é o “campo clínico e de investigação teórica da psique humana, independente da psicologia, que tem origem na medicina”.

Hoje a gente conversou, eu e Sigmund – com o perdão da intimidade aparentemente pedante ou permissiva. Ou mesmo irreal. É que já nos falamos muito, eu e ele, e a proximidade, com o tempo, convidou, naturalmente, ao tratamento simples. Somos amigos, eu e Sig.

Contei a ele hoje sobre a situação do Brasil e, claro, aproveitei pra relatar meus últimos infortúnios desimportantes e comezinhos, que ele julgou todos sem nenhum interesse. Só quis mesmo saber do Brasil.

Sigmund ficou espantado ao saber que, por causa do desemprego por aqui, os engarrafamentos em São Paulo já diminuíram, segundo a Companhia de Trânsito, 13% pela manhã e 14% à tarde.

“Há menos carros circulando, doutor Sigmund”, eu contei – e, claro, ele já sabia, também por mim, do pesadelo dos congestionamentos em cidades como São Paulo e Rio nestes tempos de depois da sua existência física.

“Também há menos gente comprando carro, doutor. O percentual de novos emplacamentos caiu 35% de 2014 pra cá.”

“Mas e os trens? Não continuam cheios de trabalhadores?!”, ele se manifestou pela primeira vez na conversa e quis saber, espantado.

O doutor não sabia. Precisei dizer, pra sua decepção, que, há muitas décadas, o principal meio de transporte de massa no Brasil é o ônibus. Expliquei que nossa malha ferroviária, emergente no início do século passado, foi sucateada. Que empreiteiras enriqueceram com a construção de estradas. Que donos de empresas de ônibus, também.

Disse a ele que o asfalto cobriu o trilho dos bondes – e que, só agora, quando Inês é morta e sepultada, o prefeito do Rio, por exemplo, decidiu gastar milhões na contratação de empreiteiras pra…

“Como assim? Mais empreiteiras?!”

“Sim, doutor Sig. Mais empreiteiras. Agora, pra raspar o asfalto das avenidas do Centro da cidade e instalar novos carris de ferro, os trilhos, por onde passarão… bondes de novo.”

“Mas você não me disse que haviam abandonado os bondes?!”, ele se espantou mais uma vez.

“Sim, doutor, mas agora resolveram voltar com eles, os bondes.”

Antes que a gente tergiversasse demais, dei a notícia de que, também por causa do desemprego, o número de passageiros nos ônibus despencou 15 milhões só em São Paulo nos últimos dois anos.

“O povo não tem muito pra onde ir e vir com tanta frequência, Sigmund. Muita gente passou a fazer bicos em casa mesmo. E não tem dinheiro de sobra pra visitar os parentes ou os amigos ou simplesmente sair e se divertir.”

“E o metrô?”, ele insistiu.

“Bom, doutor, eu soube ainda há pouco que, de janeiro a maio deste ano, em relação ao mesmo período de 2014, a queda do número de passageiros no metrô já chega a 96 mil por dia. E, também em São Paulo, os pedidos de ‘bilhetes do desempregado’, que dão direito a 90 dias de viagens de graça, cresceram 69%.”

Ele acendeu um charuto, soltou a fumaça no ar e cumpriu um minuto de silêncio, disse, pela “morte de tantos empregos”.

A conversa avançou da economia pra política, e Sigmund perguntou o que os jornais têm dito de Dilma. Respondi: “Quase nada. A presidente vem sendo, praticamente,  ignorada pelos jornalões, doutor Sig. Sabemos mais dela pelas redes sociais do que pela grande imprensa.”

“É mesmo?”, ele reagiu, já conhecedor, claro, do grande poder da internet e de seus efeitos sobre a humanidade.

“E este…? este…? este…? Desculpe, esqueci o nome dele.”

“O Temer?”, eu o socorri.

“Isso! O Marcos Temer!”

“É Michel, doutor. Michel Temer. Bom, do Temer, soube-se hoje que, agora, é outro acusado na Operação Lava-Jato. Você se lembra da Lava-Jato, né? Eu lhe contei.”

Ele assentiu com a cabeça. Prossegui.

“Então. Hoje, ficamos sabendo que o Temer terá de responder por uma negociação em que teria pedido R$ 1,5 milhão de propina pra campanha de um aliado à prefeitura de São Paulo, em 2012.”

“Mas Dilma não foi afastada pelas tais ‘pedaladas fiscais’, que, no fundo, eram só um pretexto pra punir o PT pela corrupção apurada pela Lava-Jato?! E, mesmo sem que ela fosse acusada de qualquer gesto de corrupção, não puseram este Nelson Temer no lugar dela?!” – ele se exaltou.

“É Michel, doutor. Michel Temer. Pois é. Puseram o Michel Temer no lugar dela.”

“Nem eu posso explicar isso…”, ele suspirou.

Com tristeza, falei do ataque de fazendeiros a índios da etnia guarani-kaiowá, no Mato grosso do Sul. Relatei que um agente de saúde indígena de 26 anos morreu, e outros seis índios ficaram feridos – entre eles, uma criança.

Sig se surpreendeu. “Mas isso ainda ocorre no Brasil?!”

Fiquei envergonhado. Não respondi. Tão envergonhado que nem mencionei o racismo abjeto que, outro dia mesmo, impediu o registro de uma bebê com um nome africano (Makeda Foluke), na Baixada Fluminense. Mesmo depois de seu pai, negro, explicar no cartório que Makeda foi uma rainha etíope e significa “grandiosa” – e que Foluke, em iorubá, quer dizer “entregue aos cuidados de Deus”.

A menininha só pôde ser registrada assim porque a família foi à Justiça. Poupei o doutor de saber disso.

Passamos a falar de futebol. Ele quis saber da seleção e do Flamengo (sim, Sigmund Freud é Flamengo!). Do Flamengo, eu apenas disse um “depois eu conto, doutor, melhor deixar pra lá”.

“E a seleção?”, ele pediu.

“Bem, o Dunga caiu. Não é mais o técnico da…”

Sigmund se levantou, num assombro.

“Como assim?! Mas o Dunga não caiu em 2010 depois do vexame na África do Sul?! Não escolheram o substituto dele até agora?!”

“Espera, doutor”, eu o acalmei. “Sim, o Dunga caiu em 2010. Mas, depois dos 7 a 1 da Alemanha sobre o Bra…” Ele não me deixou terminar.

“Que 7 a 1?!?! Na Copa?!? Em pleno Brasil?! Houve isso?!?”

“Pois é, Sig. Eu me esqueci de contar. Na verdade, procurei esquecer. Não me ocorreu contar nas nossas conversas.”

“Como você foi capaz de me omitir uma coisa dessas?!”, ele me repreendeu.

“Mas, doutor, pelo que sei, você também destruiu duas vezes seus escritos primários, pra não ter de se lembrar deles.”

“Conte! Conte! Conte!”, ele disfarçou e exigiu.

“Foi na Copa aqui no Brasil, doutor. Na semifinal, em Belo Horizonte, os alemães nos massacraram. Fizeram 7 a 1. Aí, o Felipão caiu depois do Mundial, e recontrataram o Dunga…”

“E o que aconteceu? Não… não precisa contar. Isso eu explico. Ele deu vexame de novo, não foi?”

“Foi, doutor. Fomos eliminados na primeira fase da Copa América pelo Peru. E com um gol de mão. Como a Dilma, deposta com um ‘gol’ de mão…”

A partir dali, Sig, intrigado, sem saber explicar, não quis saber mais nada. Aborrecido, deu as costas e partiu.

“Espera, doutor!! Espera, por favor!!! Quero lhe falar de Adalgisa!!!”, gritei.

Ele já ia longe, batendo a cinza do charuto, sem me ouvir.

 

A volta ao mundo que eu dei

O cronista digital deu a volta ao mundo em 130 dias. Primeiro, viajou pelo Brasil todo. Depois, atravessou o oceano e desembarcou nos Estados Unidos. Dali, subiu ao Canadá e visitou suas geleiras.

Desceu a América novamente e foi ao México. Passou, em seguida, pelo Caribe. Foi visto em Porto Rico, no Panamá. Cumpriu um roteiro extenso por toda a América Latina. Entrou no Equador, no Chile, na Venezuela, na Bolívia, no Peru, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai…

Lamentou não ter entrado em Cuba. Mas entendeu a falta de recepção.

Cruzou novamente o mar e passeou pela Europa. Toda a Europa. Até na Finlândia ele foi. Na Noruega, na Dinamarca, na Holanda, na França, na Alemanha, em Portugal, na Suécia, na Suíça, na Alemanha, no Reino Unido, na Grécia, na Hungria…

Foi reconhecido, inclusive, na Islândia, com sua costa dorsal mesoatlântica e seus vulcões ativos.

Foi chamado ainda à Estônia, à Letônia, à Ucrânia, à Lituânia. Temeu não ter reconhecido Adalgisa em nenhum desses lugares. Sabia que ela estava em cada país que alcançou, multiplicada, talvez à sua espera.

Também foi convocado à Turquia, escalou o mapa-múndi rumo à imensidão da Rússia. Apareceu no Oriente Médio e foi recebido no Iraque, nos Emirados Árabes Unidos, em Omã, no Qatar, no Irã. Trafegou pela Oceania, andou pela Austrália, pela Nova Zelândia, pelas Ilhas Fiji. 

Passou por Israel. Na Ásia, circulou pela China, pelo Japão, pela Tailândia, pela Indonésia. Tantos países.

Não deixou de ir nem à Nova Caledônia, a ilha que, dizem, fica no fim do mundo.

Ficou tão feliz de ter ido também à África. No continente-irmão, caminhou pela Etiópia, por Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Quênia, Marrocos, Congo, Líbia, Egito, Tunísia, Nigéria…

O cronista digital visitou 96 países em pouco mais de quatro meses. Neles, foi lido por cerca de 80 mil pessoas – a imensa maioria, claro, uns 90%, talvez, no Brasil mesmo. Mas teve muita leitura também, certamente de brasileiros, nessas lonjuras todas. 

É o que mostra a análise das estatísticas de acessos a seu pequeno blog neste período. Ele foi lido adiante. Foi lido além. O cronista digital – que bobagem, mas ele fica tão feliz – foi lido depois. Depois desta terra das palmeiras e das aves que gorjeiam, celebradas por Gonçalves Dias. Depois da pátria tão pobrinha, reverenciada por Vinicius de Moraes. Depois da nação das contradições merecedoras de elegias expostas por Carlos Drummond de Andrade.

Foi lido na Colômbia de Gabriel García Márquez. Na República Tcheca de Milan Kundera. Na Irlanda de Oscar Wilde e James Joyce. Na Cabo Verde de Eugénio Tavares.

Além-mar e além-terra, os dez países onde teve mais leitores foram os Estados Unidos (uns 2.000), França, Portugal, Espanha, Reino Unido (uns 300, cada um), Alemanha, Itália, Canadá, Argentina e Suíça (uns 200, cada).

Mas o cronista digital também comemora e se alegra com seus 15 leitores da Guatemala, seus cinco da Romênia,  seus 17 da Áustria, 21 da Bélgica, 51 do Uruguai, seis da Hungria, 11 da Índia, três da Eslováquia, quatro do Líbano, dois do Nepal, três de El Salvador… Fica orgulhoso até  do único leitor que conquistou em países como o Vietnã. Ou do solitário que o leu no Timor-Leste. Ou nas Ilhas Cayman. Ou ainda em Cingapura, Camboja, Armênia, Sri Lanka, Cazaquistão, Kuwait.

É muito pouco perto do que conseguem cronistas de bem mais sucesso, como, por exemplo, seu amigo Fernando Brito, com seu poderoso Tijolaço (leia aqui o superblog do Brito).

Mas, pra quem criou esta janela apenas pra se manter vivo e visível, e alimentar sua alma teimosa com a alegria boba de expor suas certezas e impressões e dúvidas, seus pensamentos muitas vezes sem valor, enfim, pra ele, isso parece muita coisa.

Este inventário particular é um “muito obrigado”. E é também um anúncio da mudança de cara e de endereço do cronista digital. Em breve, ele vai morar em marceuvieira.com. Porque esta “sala” do cronista já está meio apertada pra receber tantas visitas.

Visitas que o tem alegrado tanto.

O grande amor de Michael Koellreutter

Eu soube com atraso de quatro dias que o querido jornalista Michael Koellreutter morreu. Imperdoável atraso. Imperdoável pra mim mesmo, que agora vou ser pra sempre devedor de muitos gestos inesquecíveis dele comigo.

Recebi a notícia da fotógrafa Elzinha Barroso, com quem Michael foi casado e de quem se manteve amigo até o último suspiro.

Elzinha me enviou uma mensagem de convocação pra missa do Michael, marcada pra segunda-feira agora, dia 13 de junho, às 18h30, na Igreja de Nossa Senhora do Brasil, na Urca, bem perto do botequim onde, nem faz muito, coisa de três, quatro meses, talvez, a gente se encontrou, eu e ele, pra uma tarde inteira de conversa e de almoço e de birita e de risadas e de xícaras de café e de mais risadas e de mais birita e de mais risadas e de mais xícaras de café e de confissões de sonhos e de vida.

Falamos de falta de dinheiro, das aflições da Dilma, ali ainda não afastada, lembramos nossa convivência com Tarso de Castro (saudade), compartilhamos críticas à imprensa, comentamos filmes e livros assistidos e lidos havia pouco, elogiamos a beleza de algumas mulheres, discordamos, concordamos e rimos e rimos e rimos. Rimos muito.

Micha, como ele gostava de ser chamado, estava bem. Segundo a Elzinha, possivelmente logo depois daquele dia, surgiu o câncer devastador que consumiria sua existência em apenas dois meses.

No breve tempo em que enfrentou a doença, não quis que nenhum amigo soubesse dela, nem o visse. Refugiou-se em Ouro Preto, na casa de outra ex-mulher e amiga querida, a joalheira Lygia Duran, e ali ficou até morrer.

Michael era um festeiro. Existir, pra ele, era um carnaval. Adorava ser notado. Pra morrer, preferiu a solidão, a ausência, o não estar perto.

Como escreveu Lu Lacerda em seu blog (lulacerda.ig.com.br), Micha, que viveu uma vida tão barulhenta, optou por “um adeus silencioso”.

Seu corpo foi cremado em Belo Horizonte, e suas cinzas serão levadas pra Bahia, onde iniciou sua carreira de jornalista tão cheia de glamour, aos 14 anos de idade.

“Micha calling!” Era assim, em inglês, que ele escrevia no campo “assunto” dos e-mails que me mandava. E-mails compridos toda vida e sempre cheios dos detalhamentos de projetos. Micha tinha sempre um projeto novo na cabeça.

No último encontro, tentou me convencer a escrever uma biografia do Neymar, o jogador do Barcelona, pra uma coleção que o empresário Ricardo Amaral vinha organizando com ele.

Eu disse que Neymar é novo demais pra ter biografia, e que até já tem uma, autorizada. Mas não o convenci. Ele derramou sobre a mesa do botequim, onde eu bebia chope, e ele, uísque, uma série de argumentos e perguntas sem resposta sobre o camisa 10 da seleção.

– Conheci uma modelo linda que tal e tal e tal com o Neymar. Ela virou minha amiga – ele seguia falando. – Essa modelo me disse isso e aquilo e mais aquilo outro do Neymar, você sabia?

Eu não sabia. Mas o Micha sabia. Porque o Micha sempre sabia de tudo e de todos.

Ofereci várias outras opções de biografia. Ele não gostou de nenhuma. Eram ideias sérias demais pra sua alma alegre e apaixonada pela polêmica e pela volúpia do mundo. Chegamos a pensar numa viagem minha a Barcelona, pra eu tentar, como um zagueiro refém dos dribles imprevisíveis do craque, marcar o Neymar. Sonhos.

Sonhos do Micha, um cara bom e desprovido de pieguices. Um cara que me deu trabalho quando trabalho não havia. Um cara que me ligou logo depois da minha despedida da imprensa diária só pra perguntar um “e aí?” e dizer alegrias e rir e me fazer rir, como se afirmasse: “Parabéns!”

A nós dois, lá pelo fim daquela tarde, na Urca, juntou-se o fotógrafo André Câmara, outro amigo antigo, com quem eu trabalhei no “Jornal do Brasil” dos melhores tempos e que hoje vive em Londres. Foram mais risadas e mais xícaras de café e mais sonhos compartilhados.

A gente se despediu com um abraço e a promessa de um novo encontro, em breve. Um encontro que jamais houve.

Eu já estava mesmo sentindo falta dos e-mails “Micha Calling!”, quando, na madrugada da última quinta-feira, fui surpreendido pela mensagem da Elzinha, com a convocação pra missa. E eu nem sabia de nada.

Michael morreu no domingo, 5 de junho. Domingo foi o dia em que o Criador, depois de inventar o mundo, descansou, como acreditam os judeus e os cristãos.

Deus precisou descansar pro Michael morrer.

Micha era filho do grande maestro Hans-Joachim Koellreutter e da pianista Maria Angélica Bahia. Aos 17 anos, já era colunista do jornal “A Tarde”, de Salvador. Dedicou mais de 40 anos ao jornalismo, à celebração do bem viver, à felicidade e a seus amigos.

Teve muitos grandes momentos na profissão. Talvez o maior deles tenha sido o do período em que assinou a polêmica coluna “Bitch”, na revista “Interview”, que editou com grande competência.

Li em algum lugar, depois de saber da morte dele, que Zózimo Barroso do Amaral, outra lenda do jornalismo do glamour, costumava dizer assim sobre o Michael: “A ‘Interview’ é a bíblia nervosa do chique, e é por causa de Micha.”

Minha amiga Tetê Karabtchevsky escreveu numa rede social que Michael “era um dos melhores observadores das mazelas humanas”. Era mesmo. Tetê escreveu ainda:  “Nos anos 1980, ele era o colunista mais temido pela elite brasileira. A mesma elite que era capaz de abrir pra ele as portas de suas mansões e, diante de um intrigante fascínio por um simples gravador, contar as histórias mais ousadas de suas vidas.”

Esse era mesmo o Micha. Segundo Tetê, filha do maestro Issac Karabtchevsky, que teve aulas de regência com o pai do Michael, “não havia um número da ‘Interview’ em que ele não fizesse um estrago. E como se divertia com tudo isso, ria até dos processos, das surras que vez por outra levava. Chegou a ser sequestrado por um de seus entrevistados. Tinha sempre histórias fantásticas e hilariantes pra contar. Era dono de um bom humor contagiante. Uma figura singular.”

Descobri que Michael tinha um blog, criado em 2011. Mas sua única postagem parece ter sido a primeira, batizada por ele de “Micha’s history”.

Lá, escreveu de si mesmo: “Notório ficou seu sequestro protagonizado, em 1984, pelo nadador e ator Rômulo Arantes, motivo de publicação de várias páginas na revista ‘Veja’, além da primeira pagina de ‘O Globo’ e da ‘Folha de S. Paulo’.”

Lá, ainda registrou o Micha, no texto em terceira pessoa: “Com a compra de ‘Interview’ pelos sócios da Editora Abril, Michael Koellreutter foi convidado por Thomaz Souto Corrêa para a direção da revista, triplicando a tiragem, arregimentando um respeitável time de colaboradores: Fernando Gabeira, João Luís Albuquerque, Ricardo Boechat, Fred Suter, Hildegard Angel, Palmério Doria, Valério Meinel, Alex Solnik (…). Graças às suas controversas reportagens, percebeu que boa parte dos entrevistados não tinha problema em falar de sexo. Assim, fundou a revista ‘Sexy’, hoje em mãos de seu ex-editor Ângelo Rossi, ex-vice presidente da Editora Abril.”

Michael fez muita coisa. Casou-se três vezes. Além de Elzinha e Lygia, também foi casado com a fashion designer Lúcia Karabtchevsky, irmã da Tetê.

Mas o grande amor dele foi a própria vida mesmo. Saudade.

O jornalista Aziz e outros jornalistas

Li em algum lugar que quarta-feira, 1° de junho, foi o Dia da Imprensa. Em 30 anos de jornalismo, confesso que nunca dei muita bola pra esta data, escolhida por ser a da fundação do primeiro jornal brasileiro de circulação diária.

Não é o mais antigo nas bancas. Esse é o “Diário de Pernambuco”, fundado em 1825 e aí até hoje, que bom.

O “Diário do Rio de Janeiro”, o primeiro, começou a circular em 1° de junho de 1821. Criado por Zeferino Vítor Meireles, funcionário da Imprensa Régia, era uma concessão do príncipe regente. Apesar disso, consta que manteve linha editorial favorável à independência política do Brasil até desaparecer, em 1878.

Desde que pisei pela primeira vez numa redação de jornal, poucas vezes me lembrei do Dia da Imprensa, embora sempre houvesse quem me recordasse dele. Em geral, assessorias de comunicação, que enviavam brindes miúdos ou mensagens de “parabéns”.

Ou mesmo um parente ou um amigo, depois de ouvir uma nota lida no rádio.

Desta vez, o Dia da Imprensa passou, e eu nem soube. Talvez por estar ausente do jornalismo diário. Talvez por estar fora do alcance das pequenas bajulações e dos seus interesses embutidos.

Mas suspeito, com algum desapontamento, que a razão do esquecimento tenha sido outra. Talvez tenha sido o momento ruim da nossa imprensa.

Por tudo que tem publicado, ou deixado de publicar, o jornalismo brasileiro não reúne, ultimamente, muitas razões pra festas.

No andar de cima das redações, a preocupação é com a alegada queda dos lucros. Fala-se no mercado que o faturamento do negócio jornal e revista despencou 11,6% entre 2013 e 2014. Foi quando a informação gratuita lida nos celulares teria começado a dizimar com mais intensidade o hábito da leitura de notícias no papel.

Sobretudo, entre os mais jovens – e a formação de novos leitores segue seu curso pelas redes sociais, onde tudo se sabe, onde tudo se diz, onde sobre qualquer coisa se opina.

É no andar de baixo das redações, no entanto, que as preocupações parecem doer mais fundo. A maneira como são veiculadas as informações sobre esta crise imensa que engole o Brasil constrange uma enorme parcela dos jornalistas.

Digo de coração, porque é a minha percepção. Pode estar errada, mas é a minha percepção.

A esta crise, digamos, “qualitativa”, soma-se uma outra, “quantitativa”, que também castiga a imprensa. Nos últimos oito anos, se a memória não falha, onze jornais sucumbiram no país ao avanço da internet.

Deixaram de circular “Tribuna da Imprensa”, “Gazeta Mercantil”, “Jornal do Brasil”, “Jornal da Tarde”, “O Estado do Paraná”, “O Sul”, “Diário do Povo”, “Diário do Comércio”, “Jornal da Paraíba”, “Brasil Econômico” e “Jornal do Commercio” – os três últimos, ainda há pouco, neste 2016.

Nas últimas semanas, “O Dia”, do Rio, controlado pelo grupo português Ejesa, demitiu uma leva de profissionais de muita competência. Um deles, Aziz Filho, seu diretor de redação.

Aziz fez no “O Dia” um bom trabalho. Saiu aplaudido da redação ao se despedir dos colegas. Uma cena rara. Já testemunhei algumas despedidas. A minha própria, entre elas. Sei que é.

Eu já devia ter escrito aqui sobre o Aziz, com quem tive a sorte de trabalhar no velho JB e também no “O Dia”, em outro tempo. Porque, falando dele, falo de muitos jornalistas. De mim também.

Neste momento de tantos questionamentos ao comportamento da imprensa no Brasil, feitos inclusive por gente lá de fora, suponho que a razão dos aplausos recebidos pelo Aziz, em sua despedida, tenha sido seu empenho por manter o equilíbrio editorial do “O Dia” nestes dias difíceis.

A grande imprensa passa por um tempo grave. É o que penso. Com serenidade, é o que penso.

Um amigo não jornalista me perguntou por que não encontrou no “O Globo”, principal jornal do Rio, qualquer linha sobre a presença de Dilma na cidade, quinta-feira passada, 2 de junho, no ato “Marcha das Mulheres em Defesa da Democracia”.

Eu respondi:

– Não sei.

Mas, no fundo, eu sei, sim. Uma massa enorme de gente tem deixado de consumir jornais de papel, e não é não apenas por causa da internet. Faz isso também porque não encontra neles as notícias que gostaria de ler.

Ou as encontra com abordagens que a aborrece.

No mesmo dia da “Marcha das Mulheres”, por exemplo, a principal notícia sobre a presidente foi o suposto pagamento de seu cabeleireiro com dinheiro sujo. Dilma negou, disse ter provas e prometeu processar quem veiculou a denúncia.

Notícias contra Dilma têm mais privilégios na grande mídia do que seus contrapontos. Não é preciso gostar dela pra se perceber isso.

Os reais motivos do pedido de impedimento da presidente – as tais “pedaladas fiscais” – só tiveram destaque na grande mídia nos momentos finais da consumação do seu afastamento. Até ali, só se destacava a corrupção apurada pela Operação Lava-Jato, como se esta fosse a razão legal do frenesi pelo impeachment.

Dilma não é acusada de qualquer gesto ilícito nas papeladas do juiz Sérgio Moro. O nome do seu cabeleireiro ou o estilo do seu penteado, pelo que se sabe, não estão no processo.

Algo está errado quando uma presidente afastada vem ao Rio no auge da crise, participa de uma manifestação com milhares de mulheres nas ruas do Centro de uma das capitais mais celebradas do mundo, e nenhuma linha sai no principal jornal desta cidade.

Esta autocrítica será feita um dia. Tenho certeza. Será sim.

As faculdades de Comunicação ensinam que o jornalismo é feito de fatos. Opiniões, salvo exceção, cabem em artigos e editoriais.

Os adjetivos, se mal empregados, assim eu aprendi, são os piores inimigos da notícia.

E o mais grave dos adjetivos, acredito, é o não dito, mas que o silêncio, na sua contundência, revela.

Pela abolição do ‘mas’ em casos de estupro e algumas outras reflexões

O cronista digital, em suas reflexões recentes, formulou um projeto de lei pra sugerir ao parlamentar que quiser apresentá-lo ao Congresso Nacional. Diz assim:

Artigo 1°: fica abolido o emprego de todas as conjunções adversativas em conclusões policiais e judiciais em casos de estupro.

Artigo 2°: quando o assunto for estupro, também estará sujeito às punições previstas na regulamentação desta lei o uso dessas expressões em conversas de botequim, festas, estádios de futebol, bailes funk, rodas de samba, forró, demais eventos públicos, em salões de beleza, filas de supermercado ou de açougue ou de sorveteria ou de banco ou de banheiro ou de ônibus, metrô ou trem, e mesmo em blogs, redes sociais ou ambientes privados, como almoços ou jantares de família.

Artigo 3°: o emprego dessas expressões pela imprensa na abordagem de casos de estupro será livre, como livre deve ser a imprensa, e seu uso por jornalistas e articulistas será de responsabilidade do editor ou do chefe do setor da redação correspondente a uma, quem sabe, Editoria de Bom Senso ou Editoria de Vai Dar Merda (como havia sugerido Chico Buarque em relação ao Ministério de Lula), pois também estará sujeito às punições previstas na regulamentação desta lei.

Artigo 4°: compreenda-se como conjunção adversativa toda e qualquer expressão cujo significado coincida com o de “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia”, “entretanto”, “no entanto” e “não obstante”.

Artigo 5°: revogam-se todas as disposições em contrário.

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Nesta quarta-feira, 1 de junho, Marilyn Monroe faria 90 anos. A linda atriz norte-americana morreu por dose excessiva de barbitúricos no dia 5 de agosto de 1962. Até hoje não se sabe se foi exatamente um suicídio.

O cronista digital nem em criança foi seu contemporâneo. A beleza arrebatadora de Marilyn, apesar disso, passeia em seu pensamento desde que ele era menino.

Marilyn Monroe foi uma mulher súbita e inesperada neste mundo. Uma mulher que se casou três vezes e se manteve livre e amou quem quis e conseguiu a proeza de, numa só existência, ter vivido romances intensos com um comunista, o dramaturgo Arthur Miller, seu terceiro marido, e um presidente dos EUA, John F. Kennedy.

Uma mulher liberta e imensa, maior que seu 1,66m, com quem dez entre dez homens de Hollywood queriam se deitar – e que, por muitos deles, era chamada de puta.

Uma mulher que, segundo a pesquisadora americana Lois Banner, professora de História da Universidade do Sul da Califórnia, chegou a apanhar do segundo marido, Joe DiMaggio, astro do beisebol americano na época, apenas por lhe despertar ciúme com sua sensualidade e boniteza.

Na biografia “Marilyn: the passion and the paradox”, Lois Banner sustenta que Marilyn, vítima do machismo implacável de seu tempo, plantou sementes do feminismo contemporâneo com sua vida livre. Com certeza plantou mesmo.

Seu nome de batismo era Norma Jeane Mortensen. Menina pobre da Califórnia, abandonada pela mãe, cresceu em orfanatos e revelou, certa vez, ter sofrido abuso sexual na infância. Casou-se aos 16, diz Lois Banner, apenas pra poder deixar o orfanato.

Marilyn morreu sozinha, aos 36 anos de idade, e, ainda hoje, faz companhia, em sonho, a homens do mundo inteiro.

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Nesta quarta-feira, 1 de junho, o governo mequetrefe de Michel Temer completou 20 dias em seu projeto de tentar ressuscitar um país senil, que a gente já supunha morto e sepultado.

Neste breve período, o governo mequetrefe nomeou como secretária de Políticas para Mulheres uma senhora, a ex-deputada Fátima Pelaes, que se assume contrária à descriminalização do aborto até em casos de estupro – o que é legal no Brasil desde 1984.

Também neste breve período, o governo mequetrefe já perdeu dois ministros por suspeitas de envolvimento direto numa trama cujo objetivo, mais do que afastar Dilma, era parar as investigações da Operação Lava-Jato.

Nesta quarta, primeiro dia da metade exata do ano, o relator do processo de cassação do mandarim Eduardo Cunha na Comissão de Ética da Câmara, deputado Marcos Rogério, apresentou seu parecer favorável à perda do mandato daquele que orquestrou o golpe do impedimento de Dilma.

Cunha, disse o relator em seu parecer, deve ser cassado por ter mentido a seus pares ao afirmar que não tinha contas na Suíça, supostamente abastecidas com dinheiro do estupro da Petrobras.

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Nesta quarta-feira, 1 de junho, o noticiário foi dominado por informações sobre o novo encolhimento do PIB e o aumento histórico da massa de desempregados no país.

Nesta quarta, 1 de junho, primeiro dia do mês – e de pagar contas, portanto -, o cronista digital completou nove meses em sua nova rotina sem carteira assinada e sem contracheque que lastreie seus boletos de luz, gás, telefone, aluguel, mensalidade escolar, cartão de crédito, prestações…

Mas ele vai levando – e, neste caso específico de estupro financeiro, o uso do “mas” está liberado.