O grande amor de Michael Koellreutter

Eu soube com atraso de quatro dias que o querido jornalista Michael Koellreutter morreu. Imperdoável atraso. Imperdoável pra mim mesmo, que agora vou ser pra sempre devedor de muitos gestos inesquecíveis dele comigo.

Recebi a notícia da fotógrafa Elzinha Barroso, com quem Michael foi casado e de quem se manteve amigo até o último suspiro.

Elzinha me enviou uma mensagem de convocação pra missa do Michael, marcada pra segunda-feira agora, dia 13 de junho, às 18h30, na Igreja de Nossa Senhora do Brasil, na Urca, bem perto do botequim onde, nem faz muito, coisa de três, quatro meses, talvez, a gente se encontrou, eu e ele, pra uma tarde inteira de conversa e de almoço e de birita e de risadas e de xícaras de café e de mais risadas e de mais birita e de mais risadas e de mais xícaras de café e de confissões de sonhos e de vida.

Falamos de falta de dinheiro, das aflições da Dilma, ali ainda não afastada, lembramos nossa convivência com Tarso de Castro (saudade), compartilhamos críticas à imprensa, comentamos filmes e livros assistidos e lidos havia pouco, elogiamos a beleza de algumas mulheres, discordamos, concordamos e rimos e rimos e rimos. Rimos muito.

Micha, como ele gostava de ser chamado, estava bem. Segundo a Elzinha, possivelmente logo depois daquele dia, surgiu o câncer devastador que consumiria sua existência em apenas dois meses.

No breve tempo em que enfrentou a doença, não quis que nenhum amigo soubesse dela, nem o visse. Refugiou-se em Ouro Preto, na casa de outra ex-mulher e amiga querida, a joalheira Lygia Duran, e ali ficou até morrer.

Michael era um festeiro. Existir, pra ele, era um carnaval. Adorava ser notado. Pra morrer, preferiu a solidão, a ausência, o não estar perto.

Como escreveu Lu Lacerda em seu blog (lulacerda.ig.com.br), Micha, que viveu uma vida tão barulhenta, optou por “um adeus silencioso”.

Seu corpo foi cremado em Belo Horizonte, e suas cinzas serão levadas pra Bahia, onde iniciou sua carreira de jornalista tão cheia de glamour, aos 14 anos de idade.

“Micha calling!” Era assim, em inglês, que ele escrevia no campo “assunto” dos e-mails que me mandava. E-mails compridos toda vida e sempre cheios dos detalhamentos de projetos. Micha tinha sempre um projeto novo na cabeça.

No último encontro, tentou me convencer a escrever uma biografia do Neymar, o jogador do Barcelona, pra uma coleção que o empresário Ricardo Amaral vinha organizando com ele.

Eu disse que Neymar é novo demais pra ter biografia, e que até já tem uma, autorizada. Mas não o convenci. Ele derramou sobre a mesa do botequim, onde eu bebia chope, e ele, uísque, uma série de argumentos e perguntas sem resposta sobre o camisa 10 da seleção.

– Conheci uma modelo linda que tal e tal e tal com o Neymar. Ela virou minha amiga – ele seguia falando. – Essa modelo me disse isso e aquilo e mais aquilo outro do Neymar, você sabia?

Eu não sabia. Mas o Micha sabia. Porque o Micha sempre sabia de tudo e de todos.

Ofereci várias outras opções de biografia. Ele não gostou de nenhuma. Eram ideias sérias demais pra sua alma alegre e apaixonada pela polêmica e pela volúpia do mundo. Chegamos a pensar numa viagem minha a Barcelona, pra eu tentar, como um zagueiro refém dos dribles imprevisíveis do craque, marcar o Neymar. Sonhos.

Sonhos do Micha, um cara bom e desprovido de pieguices. Um cara que me deu trabalho quando trabalho não havia. Um cara que me ligou logo depois da minha despedida da imprensa diária só pra perguntar um “e aí?” e dizer alegrias e rir e me fazer rir, como se afirmasse: “Parabéns!”

A nós dois, lá pelo fim daquela tarde, na Urca, juntou-se o fotógrafo André Câmara, outro amigo antigo, com quem eu trabalhei no “Jornal do Brasil” dos melhores tempos e que hoje vive em Londres. Foram mais risadas e mais xícaras de café e mais sonhos compartilhados.

A gente se despediu com um abraço e a promessa de um novo encontro, em breve. Um encontro que jamais houve.

Eu já estava mesmo sentindo falta dos e-mails “Micha Calling!”, quando, na madrugada da última quinta-feira, fui surpreendido pela mensagem da Elzinha, com a convocação pra missa. E eu nem sabia de nada.

Michael morreu no domingo, 5 de junho. Domingo foi o dia em que o Criador, depois de inventar o mundo, descansou, como acreditam os judeus e os cristãos.

Deus precisou descansar pro Michael morrer.

Micha era filho do grande maestro Hans-Joachim Koellreutter e da pianista Maria Angélica Bahia. Aos 17 anos, já era colunista do jornal “A Tarde”, de Salvador. Dedicou mais de 40 anos ao jornalismo, à celebração do bem viver, à felicidade e a seus amigos.

Teve muitos grandes momentos na profissão. Talvez o maior deles tenha sido o do período em que assinou a polêmica coluna “Bitch”, na revista “Interview”, que editou com grande competência.

Li em algum lugar, depois de saber da morte dele, que Zózimo Barroso do Amaral, outra lenda do jornalismo do glamour, costumava dizer assim sobre o Michael: “A ‘Interview’ é a bíblia nervosa do chique, e é por causa de Micha.”

Minha amiga Tetê Karabtchevsky escreveu numa rede social que Michael “era um dos melhores observadores das mazelas humanas”. Era mesmo. Tetê escreveu ainda:  “Nos anos 1980, ele era o colunista mais temido pela elite brasileira. A mesma elite que era capaz de abrir pra ele as portas de suas mansões e, diante de um intrigante fascínio por um simples gravador, contar as histórias mais ousadas de suas vidas.”

Esse era mesmo o Micha. Segundo Tetê, filha do maestro Issac Karabtchevsky, que teve aulas de regência com o pai do Michael, “não havia um número da ‘Interview’ em que ele não fizesse um estrago. E como se divertia com tudo isso, ria até dos processos, das surras que vez por outra levava. Chegou a ser sequestrado por um de seus entrevistados. Tinha sempre histórias fantásticas e hilariantes pra contar. Era dono de um bom humor contagiante. Uma figura singular.”

Descobri que Michael tinha um blog, criado em 2011. Mas sua única postagem parece ter sido a primeira, batizada por ele de “Micha’s history”.

Lá, escreveu de si mesmo: “Notório ficou seu sequestro protagonizado, em 1984, pelo nadador e ator Rômulo Arantes, motivo de publicação de várias páginas na revista ‘Veja’, além da primeira pagina de ‘O Globo’ e da ‘Folha de S. Paulo’.”

Lá, ainda registrou o Micha, no texto em terceira pessoa: “Com a compra de ‘Interview’ pelos sócios da Editora Abril, Michael Koellreutter foi convidado por Thomaz Souto Corrêa para a direção da revista, triplicando a tiragem, arregimentando um respeitável time de colaboradores: Fernando Gabeira, João Luís Albuquerque, Ricardo Boechat, Fred Suter, Hildegard Angel, Palmério Doria, Valério Meinel, Alex Solnik (…). Graças às suas controversas reportagens, percebeu que boa parte dos entrevistados não tinha problema em falar de sexo. Assim, fundou a revista ‘Sexy’, hoje em mãos de seu ex-editor Ângelo Rossi, ex-vice presidente da Editora Abril.”

Michael fez muita coisa. Casou-se três vezes. Além de Elzinha e Lygia, também foi casado com a fashion designer Lúcia Karabtchevsky, irmã da Tetê.

Mas o grande amor dele foi a própria vida mesmo. Saudade.

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7 comentários sobre “O grande amor de Michael Koellreutter

  1. É querido amigo Marceu,vejo que ficaste muito sensível com o desencarne de seu amigo.Sabe querido,vou te dar uma boa noticia dele,Michel foi escrever no céu,é que papai do céu anda muito atribulado com tantas coisas feias que os encarnados andam fazendo.Ai ele o Poderoso resolveu chamar o michel para dar uma forcinha na redação do jornal OMundo Maior.Fique tranquilo ele sempre estará mandando notícias,através do Correio Espiritual .A sua primeira contribuiçao será um Editorial sobre”Como continuar amando e apostando nos seres humano” com o título Desistir dos Sonhos Nunca.Pode acreditar companheiro.

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  2. Seu texto me lembrou a alegre loucura da sucursal da Interview e da Sexy aqui no Rio, Marceu. Minha primeira redação, onde Michael chegava, direto da ponte área, me chamando “Patricita” e pedindo para marcar mil e uma estripulias. Minha primeira redação, onde publiquei meu primeiro texto e aprendi que escrever é um exercício de sedução. Minha primeira redação, onde pude conviver com um time de charmosos e talentosos jornalistas que só o danado do Micha era capaz de escalar. Obrigada pelas lembranças que este texto trouxe, Marceu. Um “viva!” para esse adorável enfant terrible que foi o Michael.

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