Minhas conversas com Freud

Quando nem tudo vai bem, ou nem tudo que julgo essencial vai como eu gostaria, nesses dias converso com Freud.

Sim, ele mesmo, Sigmund Schlomo Freud, o médico neurologista, criador da psicanálise, nascido no dia 6 de maio de 1856, em Příbor, município da República Checa – que, na época, pertencia à Áustria, e, por isso, fez seu nome entrar pra História como austríaco.

Psicanálise, ensina a enciclopédia, é o “campo clínico e de investigação teórica da psique humana, independente da psicologia, que tem origem na medicina”.

Hoje a gente conversou, eu e Sigmund – com o perdão da intimidade aparentemente pedante ou permissiva. Ou mesmo irreal. É que já nos falamos muito, eu e ele, e a proximidade, com o tempo, convidou, naturalmente, ao tratamento simples. Somos amigos, eu e Sig.

Contei a ele hoje sobre a situação do Brasil e, claro, aproveitei pra relatar meus últimos infortúnios desimportantes e comezinhos, que ele julgou todos sem nenhum interesse. Só quis mesmo saber do Brasil.

Sigmund ficou espantado ao saber que, por causa do desemprego por aqui, os engarrafamentos em São Paulo já diminuíram, segundo a Companhia de Trânsito, 13% pela manhã e 14% à tarde.

“Há menos carros circulando, doutor Sigmund”, eu contei – e, claro, ele já sabia, também por mim, do pesadelo dos congestionamentos em cidades como São Paulo e Rio nestes tempos de depois da sua existência física.

“Também há menos gente comprando carro, doutor. O percentual de novos emplacamentos caiu 35% de 2014 pra cá.”

“Mas e os trens? Não continuam cheios de trabalhadores?!”, ele se manifestou pela primeira vez na conversa e quis saber, espantado.

O doutor não sabia. Precisei dizer, pra sua decepção, que, há muitas décadas, o principal meio de transporte de massa no Brasil é o ônibus. Expliquei que nossa malha ferroviária, emergente no início do século passado, foi sucateada. Que empreiteiras enriqueceram com a construção de estradas. Que donos de empresas de ônibus, também.

Disse a ele que o asfalto cobriu o trilho dos bondes – e que, só agora, quando Inês é morta e sepultada, o prefeito do Rio, por exemplo, decidiu gastar milhões na contratação de empreiteiras pra…

“Como assim? Mais empreiteiras?!”

“Sim, doutor Sig. Mais empreiteiras. Agora, pra raspar o asfalto das avenidas do Centro da cidade e instalar novos carris de ferro, os trilhos, por onde passarão… bondes de novo.”

“Mas você não me disse que haviam abandonado os bondes?!”, ele se espantou mais uma vez.

“Sim, doutor, mas agora resolveram voltar com eles, os bondes.”

Antes que a gente tergiversasse demais, dei a notícia de que, também por causa do desemprego, o número de passageiros nos ônibus despencou 15 milhões só em São Paulo nos últimos dois anos.

“O povo não tem muito pra onde ir e vir com tanta frequência, Sigmund. Muita gente passou a fazer bicos em casa mesmo. E não tem dinheiro de sobra pra visitar os parentes ou os amigos ou simplesmente sair e se divertir.”

“E o metrô?”, ele insistiu.

“Bom, doutor, eu soube ainda há pouco que, de janeiro a maio deste ano, em relação ao mesmo período de 2014, a queda do número de passageiros no metrô já chega a 96 mil por dia. E, também em São Paulo, os pedidos de ‘bilhetes do desempregado’, que dão direito a 90 dias de viagens de graça, cresceram 69%.”

Ele acendeu um charuto, soltou a fumaça no ar e cumpriu um minuto de silêncio, disse, pela “morte de tantos empregos”.

A conversa avançou da economia pra política, e Sigmund perguntou o que os jornais têm dito de Dilma. Respondi: “Quase nada. A presidente vem sendo, praticamente,  ignorada pelos jornalões, doutor Sig. Sabemos mais dela pelas redes sociais do que pela grande imprensa.”

“É mesmo?”, ele reagiu, já conhecedor, claro, do grande poder da internet e de seus efeitos sobre a humanidade.

“E este…? este…? este…? Desculpe, esqueci o nome dele.”

“O Temer?”, eu o socorri.

“Isso! O Marcos Temer!”

“É Michel, doutor. Michel Temer. Bom, do Temer, soube-se hoje que, agora, é outro acusado na Operação Lava-Jato. Você se lembra da Lava-Jato, né? Eu lhe contei.”

Ele assentiu com a cabeça. Prossegui.

“Então. Hoje, ficamos sabendo que o Temer terá de responder por uma negociação em que teria pedido R$ 1,5 milhão de propina pra campanha de um aliado à prefeitura de São Paulo, em 2012.”

“Mas Dilma não foi afastada pelas tais ‘pedaladas fiscais’, que, no fundo, eram só um pretexto pra punir o PT pela corrupção apurada pela Lava-Jato?! E, mesmo sem que ela fosse acusada de qualquer gesto de corrupção, não puseram este Nelson Temer no lugar dela?!” – ele se exaltou.

“É Michel, doutor. Michel Temer. Pois é. Puseram o Michel Temer no lugar dela.”

“Nem eu posso explicar isso…”, ele suspirou.

Com tristeza, falei do ataque de fazendeiros a índios da etnia guarani-kaiowá, no Mato grosso do Sul. Relatei que um agente de saúde indígena de 26 anos morreu, e outros seis índios ficaram feridos – entre eles, uma criança.

Sig se surpreendeu. “Mas isso ainda ocorre no Brasil?!”

Fiquei envergonhado. Não respondi. Tão envergonhado que nem mencionei o racismo abjeto que, outro dia mesmo, impediu o registro de uma bebê com um nome africano (Makeda Foluke), na Baixada Fluminense. Mesmo depois de seu pai, negro, explicar no cartório que Makeda foi uma rainha etíope e significa “grandiosa” – e que Foluke, em iorubá, quer dizer “entregue aos cuidados de Deus”.

A menininha só pôde ser registrada assim porque a família foi à Justiça. Poupei o doutor de saber disso.

Passamos a falar de futebol. Ele quis saber da seleção e do Flamengo (sim, Sigmund Freud é Flamengo!). Do Flamengo, eu apenas disse um “depois eu conto, doutor, melhor deixar pra lá”.

“E a seleção?”, ele pediu.

“Bem, o Dunga caiu. Não é mais o técnico da…”

Sigmund se levantou, num assombro.

“Como assim?! Mas o Dunga não caiu em 2010 depois do vexame na África do Sul?! Não escolheram o substituto dele até agora?!”

“Espera, doutor”, eu o acalmei. “Sim, o Dunga caiu em 2010. Mas, depois dos 7 a 1 da Alemanha sobre o Bra…” Ele não me deixou terminar.

“Que 7 a 1?!?! Na Copa?!? Em pleno Brasil?! Houve isso?!?”

“Pois é, Sig. Eu me esqueci de contar. Na verdade, procurei esquecer. Não me ocorreu contar nas nossas conversas.”

“Como você foi capaz de me omitir uma coisa dessas?!”, ele me repreendeu.

“Mas, doutor, pelo que sei, você também destruiu duas vezes seus escritos primários, pra não ter de se lembrar deles.”

“Conte! Conte! Conte!”, ele disfarçou e exigiu.

“Foi na Copa aqui no Brasil, doutor. Na semifinal, em Belo Horizonte, os alemães nos massacraram. Fizeram 7 a 1. Aí, o Felipão caiu depois do Mundial, e recontrataram o Dunga…”

“E o que aconteceu? Não… não precisa contar. Isso eu explico. Ele deu vexame de novo, não foi?”

“Foi, doutor. Fomos eliminados na primeira fase da Copa América pelo Peru. E com um gol de mão. Como a Dilma, deposta com um ‘gol’ de mão…”

A partir dali, Sig, intrigado, sem saber explicar, não quis saber mais nada. Aborrecido, deu as costas e partiu.

“Espera, doutor!! Espera, por favor!!! Quero lhe falar de Adalgisa!!!”, gritei.

Ele já ia longe, batendo a cinza do charuto, sem me ouvir.

 

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