Declaração de amor às palavras

Devo às palavras tudo que eu tenho. Não sei quantas conheço. Menos do que gostaria. Sinto muita vontade de agradecer a cada uma delas. Obrigado, dona Delicadeza, por todas as vezes em que a usei – com todo o respeito. Minha gratidão eterna, seu Vernáculo, o senhor, que, em quatro sílabas apenas, é capaz de conter todas as palavras.

Adoro conhecer palavras novas. Quase digo um “muito prazer” quando isso ocorre.

Por saber disso, volta e meia, meu querido amigo Anésio Pereira Dutra me ensina alguma. Mas já o peguei com “circuncisfláutico”, que ele não conhecia. Ou, por pura delicadeza – olha ela aí de novo, a dona Delicadeza, que, aliás, é uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa -, enfim, talvez só por ser tão delicado, meu amigo Anésio tenha fingido não conhecer o verbete “circuncisfláutico”, adjetivo atribuído a quem fala rebuscadamente ou só é sorumbático ou triste.

Palavras. Meu amigo Anésio, sujeito tão culto, com idade pra ser meu professor, conhece muito mais palavras do que eu.

Anésio é mestre em português. Foi um dos 11 comunistas demitidos do Colégio São Vicente, no Cosme Velho, no Rio, em 1983, num dos capítulos mais pungentes da reação à ditadura militar no Brasil (muito obrigado, seu Pungente, por reaparecer por aqui).

Cabe um parêntese pra resumir essa história. Alunos e pais fizeram uma vigília de um mês no pátio do São Vicente pela readmissão dos professores comunistas. Acampados ali, chegaram organizar uma ceia na noite de Natal. Derrotados, desocupariam o colégio, cantando, numa marcha até o Ceat, em Santa Teresa, onde os 11 demitidos fundariam a primeira turma de ensino médio da escola.

Mas, sem tergiversar muito (perdoe, dona Tergiversação), queria dizer que meu carro velho, o Sujinho, comigo há 20 anos, devo às palavras. Meus dois violões, um deles meu companheiro desde 1986, devo às palavras.

Devo às palavras meus poucos livros publicados, todos esquecidos ou desconhecidos ou lidos por menos gente do que eu pretendia. Devo às palavras as letras de música que escrevi – e a elas também devo os parceiros que ganhei.

Devo tudo isso às palavras. Minha estante de partituras, comprada há uma década, devo às palavras. O computador onde escrevo agora, é a elas que eu devo.

Devo meu passado, devo meu presente e meu futuro.

Devo meus poucos móveis, todos gastos. Minhas roupas, meu amontoado de roupas, a maioria desnecessárias. Até meus sonhos devo às palavras.

As mulheres que tive e as que perdi, eu devo. Muitos amigos que conheci, e mantenho – por eles, também, digo obrigado às palavras. Gente com quem falei e gente com quem nunca troquei… palavra. A elas, as palavras, eu devo.

As declarações de amor que fiz. As que, bobo, contive, apesar de prontas pra serem feitas. As que talvez ainda  faça. Devo às palavras.

Devo às palavras a minha coleção de discos, nem todos ouvidos. Meus muitos livros, alguns por ler.

De uma maneira mais material de olhar a vida, tudo que eu tenho é bem pouco. Bem pouco. Mas, com olhos mais generosos (gosto demais da senhora, dona Generosidade), com olhos assim, tudo que eu tenho é muito. E a elas eu devo.

Devo às palavras cada gesto dos meus três filhos neste mundo. A tranquilidade de nunca ter trapaceado ninguém, devo às palavras. A capacidade de ter caminhado até aqui longe da ganância, tudo isso é a elas que eu devo. Palavras que escrevi e, sobretudo, as que eu li.

Minha casa pequena e desarrumada, mas confortável e acolhedora pra mim. A quem ou a que mais eu devo, senão às palavras?

Escrever é ter o que dizer, e pra quem dizer. Sempre repito isso. Sobretudo (o senhor é muito sério, seu Sobretudo, não me queira mal por dizer isso), bem, sobretudo, quando me sento à frente do teclado movido apenas pelo desejo de escrever o que, às vezes, nem eu sei, na intenção insegura e idiota e exclusiva de me realimentar da certeza de que ainda sei fazer isso.

Nessas horas, acabo demovido de escrever graças a este sentimento – se nada há a dizer, por que forçar as palavras, se elas já me deram tanto?

Carlos Drummond de Andrade escreveu algumas vezes sobre isso. Em “Procura da poesia”, disse, com sua eternidade, e pro meu encantamento: “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra, e te pergunta, sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres: trouxeste a chave?”

Nem sempre eu tenho a chave. E, quando não tenho, deixo as palavras em paz, quietas.

As palavras, ensinou Drummond, dormem paradas em “estado de dicionário”, à espera de serem escritas. Mas não devemos arrancá-las de seu limbo se não temos o que dizer com elas.

Meu grande amigo Antônio Ribeiro Feitoza, maior poeta da minha geração, escreveu: “As palavras estão atentas a tudo (…). As palavras possuem segredos guardados há milênios. Homero, Dante, Drummond também tiveram seus momentos de luta com as palavras. Mas lutar com as palavras é como lutar contra o amor. É inútil luta, que sempre perdemos.”

Qualquer dia, numa das vezes em que falo pra estudantes de jornalismo sobre a minha dívida com as palavras, um garoto ainda vai levantar a mão na plateia e me embaraçar com uma pergunta:

– Desculpe, Marcel. Mas o que você tanto deve às palavras?!

O professor que terá me convidado pra palestra me socorrerá, então, e me dará tempo de pensar um pouco mais numa resposta:

– É “Marcêu” o nome dele, Fulano! Não é Marcel, é “Marcêu”!…

O menino seguirá com seu olhos espetados em mim:

– Desculpe, Dirceu. Achei que seu nome era Marcel.

Eu vou entender por trás da pergunta a certeza de quem não quer uma resposta, mas só uma confirmação. E enquanto a turma estiver rindo da confusão com meu nome, eu vou remoer o que o garoto disse e tentar adivinhar o que ele espera ouvir.

Você tem razão, eu vou dizer. Tudo que eu tenho é quase nada mesmo. Tenho o Sujinho; uma bicicleta; um computador apenas razoável; uma TV antiga, daquelas de bunda grande; um quintal cheio de plantas numa casa alugada; uma coleção de camisas do Flamengo; um coador de pano; um fogão de segunda mão; uma máquina de lavar usada presenteada por amigos do peito; uma geladeira já fora de linha.

Realmente, num sentido apenas material, tenho mesmo muito pouco.

– Então, por que você diz que deve tudo às palavras? – o menino vai insistir.

E talvez eu não saiba mais responder. Ou talvez eu disfarce e cite Gabriel García Márquez, e diga que “gosto das coisas não pelo que valem, mas por aquilo que significam”. Ou, num sentido mais sinuoso e dissimulado, eu cite de novo García Márquez e diga que “um único minuto de reconciliação vale mais que toda uma vida de amizade”. 

O cronista digital se sente reconciliado com as palavras neste pequeno quadrado virtual e solto no oceano da internet.

Devo muitos favores às palavras. Elas me deram certeza e dúvida – e discernimento pra separar uma coisa da outra. As palavras me proporcionaram bons amigos, como o professor Anésio. Permitiram que eu ajudasse a construir as consciências tão bonitas dos meus três filhos.

As palavras me socorreram quando precisei de verdade delas.

Mas talvez o que as palavras tenham me dado de mais valioso tenha sido essa teimosia em reuni-las, esse desejo pretensioso de ser íntimo de todas as letras do alfabeto. Porque palavra é como bola. Só ensaia intimidade com quem lhe trata bem.

 

 

 

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16 comentários sobre “Declaração de amor às palavras

  1. Quando eu venho aqui parece que estou novamente na Biblioteca Infantil Anne Frank, no Itaim Bibi, em São Paulo-SP. Eu ia todos os dias até os meus 15 anos mais ou menos. Tenho até uma medalha de leitora assídua. Gostava de livros de crônicas, contos, pequenos textos. Ficava horas lendo. Agora leio o seu texto, acho curto demais, quero logo virar a página para ler o próximo e não tem…pena…ficaria horas lendo.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Caro Marceu, seus textos são gostosos como há muito não vejo por aí. Obrigado! Aliás, descobri que ando circuncisfláutico por conta da atual situação política do país. Também gosto de fuçar palavras, eu devia ter estudado Etmologia. Com sua licença vou lhe passar algumas. Gosto muito de borborigmo, que é o barulhinho com que um estômago vazio reclama ao seu dono. No Ceará aprendi a reborréia, que é coisa que não presta.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Então existe as palavras…ok!
    Sabe que um dia eu existi, sem palavras, um mundo psicografado, as palavras sai da mente, estão no absolutismo mental, prontas pra serem usadas…. A vida trás palavras,e vem e vai, não nos pertence porque? faz parte do mundo mental,que
    existe no agora e amanhã prosseguirá mesmo com nossa falta…então palavras serão jogadas ao vento como um céu cheio de estrelas, ou um céu
    que a cada hora muda é só olhar… É assim.
    O mundo sem palavras fica por conta do amor dentro do peito,que vai e vem,como uma vida bela…sem palavras.
    Porque se existisse tintas e pincéis, para descrever a beleza da vida faltaria palavras.

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  4. A uns dias atrás ouvi uma música do Titâs (Palavras) que não conhecia, e agora leio um texto sensacional sobre elas. Marceu sempre deiixando nosso dia mais bonito e feliz.

    Mesmo sendo abstêmio, costumo frequentar o Bar Cardosão, poque lá encontro e converso com amigos do quilate de Marceu e do prof. Anézio, e quando tem jogo do Flamengo, assistimos e torcemos per mais uma vitória do Mengão.

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  5. Pois é, Marceu, eu era dessa galera aí… a chamada “turma da vigília”, que ocupou o Colégio São Vicente para protestar contra a demissão dos professores “subversivos”. O Anésio foi meu professor, um abraço pra ele!
    E quem diria que tanto tempo depois a gente estaria aqui… e que tantas palavras que a gente acreditava que não ia mais usar por um bom tempo voltaram à ordem do dia. Por assim dizer.
    Grande abraço.

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