Quarenta anos sem Geraldo num tempo já sem geraldinos

Quarenta anos passam como um sopro, eu pensei hoje ao me lembrar da morte de Geraldo, o Assoviador.

Quem por aí sabe quem foi Geraldo, lembra seu nome completo ou o que ele fez, onde nasceu, como surgiu pra uma vida intensa e tão curta, do que era capaz com a bola nos pés, correndo, correndo, correndo, sempre em frente, sempre em frente, elegante, rumo à área inimiga?

Eu sei. Eu vivi e vi. Na verdade, mais ouvi no rádio do que vi.

Geraldo brilhou no primeiro time do Flamengo que aprendi a soletrar do goleiro ao ponta-esquerda, de trás pra frente, de frente pra trás. Time rubro-negro campeão carioca de 1974, quando eu, garoto de canelas ruças e joelhos ralados nos campinhos de Morro Agudo, ainda nem conhecia o Maracanã – e hoje o Maracanã nem se reconhece, e eu nem me reconheço nele.

Geraldo vestia a camisa 8 de um time mágico, que, além dele, tinha Renato no gol, reserva da seleção na Copa de 1974, na Alemanha. Um time espetacular, que tinha Júnior, sim, ele, o Capacete, ali lateral-direito, depois de ter sido meia nos juvenis.

Um escrete maravilhoso, como se dizia na época, que, na zaga, reunia Luís Carlos e Jaime – o próprio, o ex-zagueiro e hoje auxiliar-técnico rubro-negro -, e  na lateral-esquerda contava com Rodrigues Neto, incluído num troca-troca desastroso com o Fluminense, dois anos depois.

Liminha, o Carregador de Piano, era o volante, soberano à frente da área (Renato Maurício Prado, craque no tema, corrige com propriedade o cronista digital, muito menino na época, e informa, depois da crônica publicada, que o titular da camisa 5 era o Zé Mário. Liminha estava no elenco, mas o titular era o Zé Mário).

Um moleque de 20 anos, chamado Zico, vestia a 10 e dividia o meio de campo com o amigo Geraldo.

Paulinho, ponta-direita que faria história num jogo do Flamengo com a seleção brasileira, era o 7. Doval, o monumental atacante argentino, que jamais deveria ter deixado a Gávea, também envolvido no tal troca-troca com o Fluminense, era o 9. A 11 pertencia a Edson, ponta-esquerda que havia se destacado no América-MG. O técnico era Joubert.

Esse time e sua glória completaram 42 anos neste 2016 – e, dia 26 de agosto, daqui a pouco, vai fazer 40 que Geraldo, o Assoviador, morreu. Tinha só 22 de idade.

Eu lembro que assimilei a morte dele como a de um amigo da rua ou alguém da família. Geraldo, nas noites de quarta-feira, morava no radinho de pilhas sob meu travesseiro, com suas jogadas e gols que eram cantiga de ninar pra mim.

Foi o único jogador do Flamengo convocado pra Copa América de 1975. Mineiro de Barão de Cocais, tinha nove irmãos, quatro deles também jogadores de futebol – um era o zagueiro Washington, que o levou pro clube, onde também atuava.

Geraldo jogava assoviando. Parecia correr rodeado de anjos.

Quando, jovenzinho, tomou de Afonsinho a vaga de titular no Flamengo, chorou e confessou ao vizinho tricolor Raimundo Fagner, seu amigo, ainda não famoso, que queria desistir do futebol. Sentiu-se um traidor do ídolo tão querido.

Fagner e outros amigos o convenceram a esquecer aquela ideia – e Geraldo seguiu. Pra minha alegria, ele seguiu. Pra alegria de milhões de torcedores, ele seguiu.

Seguiu também pra alegria daquele timaço, que ainda gestava o título de campeão do mundo interclubes, em 1981.

Seguiu pra alegria do próprio Afonsinho, que dele gostava tanto.

Nestes dias modernos e, ao mesmo tempo, tão submissos e aferrados ao atraso, dias em que a sonda Juno entra na órbita de Júpiter pra investigar o planeta gigante, enquanto negros, mulheres e gays, em plena era dos avanços científicos, continuam espezinhados, humilhados e mortos aqui e mundo afora, recordo Geraldo, um jovem preto, eleito protagonista de sua breve existência por seus talentos, e percebo como a minha contemporaneidade perdeu gente relevante nesses 40 anos.

Geraldo Cleofas Dias Alves era uma revelação. Promessa pra Copa do Mundo de 1978, na Argentina, morreria antes que sua genialidade pudesse ser exibida aos olhos do mundo.

Padecia de uma inflamação renitente na garganta, e, por isso, havia recebido a indicação de uma simples cirurgia pra retirada das amígdalas. Internado às 7h da manhã daquele 26 de agosto de 1976, sentiu-se mal 20 minutos depois da operação – e, às 10h30, seu coração parou de bater, num choque causado pela anestesia.

A tentativa dos médicos de reanimá-lo foi inútil. Não se reanima a bola morta dentro do gol. A não ser por vontade dos juízes.

Os juízes que regem os mistérios do futebol não quiseram naquele dia.

O time do Flamengo, sem ele, estava no Ceará pra uma partida contra o Fortaleza. Os jogadores voltaram e foram direto pro velório, na sede do clube. Todos choravam.

Seu grande companheiro desde menino nas categorias de base, a quem chamava de irmão e cujo pai o apresentava como “meu filho marronzinho”, Zico, ao chegar – acho que foi meu amigo Fernando Calazans quem me contou isso -, parecia um desterrado pra sempre de sua alegria.

A morte de Geraldo foi tão sentida que seu melhor amigo na vida adulta, o também meia Carlos Alberto Pintinho, do rival Fluminense, mergulhou em grave desconsolo e decidiu deixar o Brasil. Pintinho vive até hoje na Espanha.

Em sinal de luto, pela primeira vez, o Flamengo passou a jogar de calções pretos, e assim seguiu por longo tempo.

O time estava vestido assim no dia 6 de outubro daquele ano, quando, num amistoso pra arrecadar algum dinheiro pra família de Geraldo, enfrentou a seleção brasileira no Maracanã.

Diante de 142 mil torcedores, o Flamengo venceu a seleção de Pelé e Rivelino por 2 a 0, gols de Paulinho e Luiz Paulo, sucessor de Edson na ponta-esquerda. Até o general-ditador-presidente Ernesto Geisel estava lá, na tribuna de honra, pra assistir ao jogo e reverenciar a memória de Geraldo.

Faz 40 anos que tudo isso aconteceu. Um sopro.

Geraldo carregava no próprio nome o encantamento daquele Maracanã – Geral… do.

Geral do povo humilde, que lotava o estádio/templo pra ver deuses da bola como ele. Geral do torcedor do Flamengo, da torcida do Vasco, do Fluminense, do Botafogo.

Geral até da seleção do Brasil, que, como o velho geraldino daqueles dias de Geraldo, nem o Maracanã frequenta mais.

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12 comentários sobre “Quarenta anos sem Geraldo num tempo já sem geraldinos

  1. Eu ainda não entendia muito de futebol quando Geraldo nos deixou, mas pela repercussão que presenciei na época, dava para perceber que foi um ídolo muito querido que havia morrido.
    Pena que Geraldos raramente aparecem, para deleite de nossos olhos e coração, ainda mais nos dias de hoje, onde o futebol é mais um espetáculo televisivo que um jogo, onde atletas parecem atores. Fingem que correm, fingem que choram, dão beijo artístico no escudo de clubes nos quais não passam mais de seis meses. Coincidentemente o mesmo período de duração de uma novela das oito, como disse Marcelo Migliaccio .

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  2. Marceu, dois dias depois, dia 28 de agosto de 1976, completei nove anos e sem dúvida esse foi o pior aniversário da minha infância. Senti a morte de Geraldo assim mesmo, como se tivesse partido um amigo ou parente. O poster desse time campeão de 1974, com patrocínio de Drury’s, o whisky das grandes vitórias e com Zé Mario na cabeça de área, continua da parede do meu quarto. Também senti muito, anos depois, com a morte da geral, da arquibancada e do nosso saudoso maraca. Obrigado pela crônica, meu irmão.

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