A última fuga da gatinha Biba

A morte de um bicho querido é a morte de um pedaço da gente. Minha filha caçula, por exemplo, nunca mais quis ter cachorro depois que o Chope, o yorkshire dela, morreu. O Chope conviveu com a espreita da morte durante meses. Seu calvário e sua vontade de resistir comoviam.

Ainda assim, minha filha sofreu muito e nunca mais quis ter outro cachorro. Não foi a primeira, não foi a única, nem terá sido a última pessoa a passar por dor assim e tomar a decisão sentida de não ter um novo bicho.

Pessoalmente, acho que devemos sempre ter novos bichos. Eles não se substituem. Cada um deles tem pra sempre um lugar exclusivo na nossa lembrança – e o desconsolo causado por sua morte, quando ocorre, ensina muito sobre a finitude.

Ao longo da vida, também chorei por alguns cachorros que perdi. Branquinha, cadelinha pequinês, morreu atropelada pelo Opala velho do meu pai no nosso próprio quintal de Morro Agudo. Foi uma comoção. Eu era bem pequeno e lembro que a enterrei num descampado à beira da Via Dutra.

Kiko, o irmão dela, que volta e meia ficava pendurado com os dentes na bunda de senhorinhas que visitavam minha avó no quintal de três casas – a nossa, a dos meus primos e a dos meus avós -, morreria muitos anos depois, de velho. Já adolescente, chorei muito por ele também.

Ringo, meu primeiro grande amigo, era um vira-lata tão bravo que meu pai o levou pra longe duas vezes. Na primeira, dias depois, voltou. Na segunda, sumiu pra sempre. Pretinha, outra enfezada, mordia quem se aproximasse das crianças do quintal.

Mordeu tanto que teve o mesmo destino, levada embora, dessa vez pelo meu tio. Nunca soubemos pra onde.

Ringo e Pretinha foram tão importantes na minha vida que viraram personagens do meu texto de despedida do “Globo”, onde trabalhei 13 anos e meio (leia sua republicação pelo cronista digital aqui, se quiser).

Vieram muitos cachorros depois deles. Rin-Tin-Tin ficou louco e precisou ser sacrificado. Foi um trauma. Lady, pastora alemã fanfarrona, que só latia de brinquedo e não mordia ninguém, morreu doente. Eu a chamava de Méa. Sei lá por quê.

O apelido pegou, pra insatisfação do meu tio, que a havia arranjado na esperança de se tornar uma cadela de guarda de nome pomposo. Não conseguiu nem uma coisa, nem outra.

Méa odiava o cachorro do vizinho, chamado Bob. Nossa diversão – minha e de uma prima muito querida – era gritar pra ela:

– Pega o Bob, Méa!!! Pega o Bob!!!

Ela tomava distância, corria até o muro e, zupt!, não sei como conseguia, mas escalava aquele paredão. Aí, fingindo ser brava, ficava pendurada lá no topo do muro pra latir e irritar o vira-lata inimigo.

Tiroteio era um dálmata lindo, de pintas miúdas, que engolia tudo – palito de fósforo, papel de pão, bola de gude, caroço de pitanga, plástico, capa de caderno, tampa de xampu, chapinha de garrafa de suco de caju, envelope de refresco, parafuso…

Com o Tiroteio, a diversão da gente era procurar o que havia engolido no meio do cocô dele no dia seguinte.

Um dia, ele engoliu um pedaço de Bombril, que não encontramos no outro dia. Nem nunca mais. Não resistiu à palha de aço, e nós descobrimos, com muita tristeza, mais uma “utilidade” do Bombril, além das 1001 anunciadas por aquele garoto-propaganda do anúncio de TV – matar nosso cachorro querido.

Mais tarde, bem mais tarde, os gatos sucederam aos cachorros, e eu fui apresentado à delícia que também é conviver com os felinos. Lug é um persa idoso e mal-humorado, que acompanhou o crescimento dos meus três filhos e faz companhia pra minha mãe naquele mesmo quintal, hoje repartido em dois.

Fael, gatinho sem raça definida, branquinho e brincalhão, foi um grande amor dos meus dois filhos mais velhos. Fael se foi de repente, nem faz muito tempo, pro luto tão doído deles dois. Sobraram Romeu e Julieta, também vira-latas e mais novos, que continuam espertos, enchendo a casa dos meus filhos de alegria, agora acompanhados também da caçulinha Alice.

E, no meio desses miados todos, há a história da gatinha Biba.

Eu vivia chamando a Biba de feia. Era a persa mais vira-lata que já vi. Chamava de feia só pra implicar. Ela nem me dava bola. Nunca me deu. Biba, na verdade, era linda. Há uns dez anos, preenchia a vida da minha irmã.

Biba parecia predestinada a uma existência curta. Sumiu duas vezes. Numa, passou 15 dias escondida na garagem do prédio da minha irmã, àquela altura já desesperançada de reencontrá-la na selva de Copacabana.

Na outra, ao passar alguns dias em Morro Agudo, enquanto a dona viajava, saltou o muro e desapareceu. Voltou dois dias depois.

Desde então, nas suas visitas a Morro Agudo, a casa precisava ficar toda trancada, pra ela não fugir.

Até que, hoje cedo, depois de uma noite apenas de padecimento grave e repentino, a Biba morreu e deixou na minha irmã um vazio que eu alcanço o tamanho. Alcanço sim.

Acho que a Biba só fugiu – desta vez, pra sempre.

Foi encontrar o Fael e conhecer a Pretinha e o Ringo, e também o Tiroteio, com seu cocô cheio de pequenas bugigangas engolidas na véspera, e ainda o Rin-Tin-Tin e o Kiko e a Branquinha e a Lady Méa e, quem sabe, até o Bob.

– Pega o Bob, Méa! Pega o Bob!

 

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9 comentários sobre “A última fuga da gatinha Biba

  1. Olá!
    Ontem, também fui surpreendida com a notícia triste!
    Li sua crônica para meus filhos que conheceram a Biba.
    Ouviram e choraram. Talvez não pela Biba,e sim, por sua dona. Pois sabem a dor de perder o bichinho de estimação.
    Já eu, precisei ler novamente agora pela manhã. Acredito que muitos se identificaram com a história.
    Nos transporta de volta ao passado infantil.
    Parabéns pelo texto!
    E desta vez, não iremos procurar a Biba.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Eu e meu filho (5 anos na época) presenciamos a nossa cadela Laika morrer atropelada no Aterro do Flamengo em uma manhã de domingo, essa imagem jamais saiu de nossa cabeça. Umas semanas depois, compramos outra Laika, que amamos muito e vive conosco em casa.
    Os últimos 3 post falaram de morte (confete, Geraldo e animais), claro que todos os assuntos abordados pelo amigo Marceu são ótimos, mas como sou muito romântico, sinto saudade dos post com a Adalgisa.

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