O Rio da foto de Pedro Motta Gueiros

Querido amigo Brian. Espero que o inverno aí de Johannesburgo não esteja igual ao de 2010, quando a sensação térmica foi de menos oito graus naquele 15 de junho, lembra?, estreia do Brasil na Copa da nossa amada África do Sul, com vitória infame do time de Dunga por 2 a 1 sobre a ainda mais inominável seleção da Coreia do Norte, no apinhado e semiacabado Ellis Park Stadium.

Permita que eu chame a sua África do Sul de “nossa”. Também a sinto um pouco minha – eu, meio cariboca, meio zambo, meio cafuzo, meio mameluco, meio africano de Morro Agudo. Também a sinto assim, minha.

Tenho saudade daqueles dias. Saudade das nossas conversas nas longas viagens de carro, em que você afiava meu inglês precário, enquanto eu lhe ensinava algumas palavras e frases em português. “Shosholoza uKle zontaba.” Não esqueço. Jamais vou esquecer.

Escrevo pra falar do Brasil, amigo, falar da Copa seguinte por aqui (a dos 7 a 1), e também do Rio e das Olimpíadas que estão chegando, e do Flamengo e da Mangueira, e de Carlos Drummond de Andrade e das nossas dores todas, tudo isto contido no retângulo desta imagem captada hoje cedo pelo nosso amigo Pedro Motta Gueiros. Você se lembra, com certeza, do Pedrinho.

Pedro respeita tanto as palavras que, quando precisa substituir uma por outra num texto escrito no computador, em vez de apagá-la inteira, mantém as letras que ainda vai usar na substituta.

Explico melhor. Se escreve “ardor” e quer substituir por “calor”, por exemplo, Pedro deleta apenas o primeiro “r” e o “d”, preserva o “aor”, e insere o “c” e o “l”. Alguns podem dizer que isso é mania boba. Mas não é, não, Brian. É respeito mesmo. Também tenho os meus rituais no manuseio das palavras.

Pois o Pedrinho, encantador de palavras, mandou pra mim, hoje, por celular, esta foto da estátua de Drummond na Praia de Copacabana, sob as bandeiras da Mangueira e do Flamengo. Disse que era pra inspirar uma nova publicação deste cronista digital.

A imagem que o Pedro registrou, ele certamente suspeita, contém um milhão de palavras pra mim.

Ao ver a foto pensei também em você, que tanto sonhou estar aqui, primeiro na nossa Copa e agora nos Jogos do Rio.

O Brasil vai mal, Brian. Li num jornal de São Paulo, outro dia, que 282 trabalhadores têm sido demitidos por hora no país. E, se a economia está ruim, a política pior está. Derrubaram a presidente Dilma num golpe parlamentar até difícil de explicar pra você. No lugar dela, assumiu o vice, Michel Temer, personagem mumificado da nossa História recente e grande beneficiado do movimento “coxinha”.

“Coxinha”, deixa eu tentar definir, seria, digamos, a denominação de quem tolera, minimiza ou até mesmo apoia uma espécie de apartheid social, que é histórico no Brasil. Um apartheid que vem desde as caravelas. Aquelas mesmas caravelas que trouxeram nossos irmãos negros aí do continente africano pra serem escravizados aqui.

Temer assumiu em nome da grita contra a corrupção no governo do PT, embora a razão legal do processo do afastamento de Dilma não tenha sido esta – até porque a mesma corrupção já apodreceu o partido dele, o PMDB, há muitos mais anos.

Temer assumiu, sobretudo, pra reinstalar no Brasil a ordem conservadora – e é ela, a ordem conservadora, que vigora hoje no país do Neymar, amigo.

Vigora por aqui, enfim, um certo baixo astral. Desculpe contar isso assim.

Baixo astral pelo golpe, pela situação terrível da economia, pelo desemprego destruidor de sonhos, pela corrupção, pela queda de uma presidente legitimamente eleita e que não cometeu crime de responsabilidade, baixo astral pela volta dos zumbis da vida pública ressuscitados pelo Temer.

Baixo astral também pelo estado de coisas no Rio de Janeiro, onde 60 policiais militares já foram assassinados este ano na guerra sem fim da violência. Por fim, baixo astral por, na outra ponta, incontáveis vítimas da violência desta mesma polícia seguirem em abate renitente.

Dia 7, aqui na cidade, uma mãe morreu de tristeza oito meses depois do assassinato do filho caçula, de 16 anos, numa comunidade chamada Costa Barros. O garoto e outros quatro amigos foram chacinados com 111 tiros de armas pesadas disparados pela polícia contra o carro em que estavam. Foram confundidos com traficantes.

Eram todos pretos, Brian. A foto de um deles vestido com camisa do Flamengo, cheio de sorriso e de vida, continua postada nas redes sociais a desafiar a lógica da viabilidade da existência humana.

Por falar em Flamengo, a notícia mais impactante sobre meu clube do coração desde 2010, quando nos vimos pela última vez, ainda é a da prisão do goleiro Bruno, durante aquela Copa – lembra que lhe falei na época, numa das nossas conversas, aí em Johannesburgo?

Bruno foi condenado pelo assassinato da ex-namorada Elisa Samúdio. Segue preso. Era tão bom que teria sido, tenho certeza, o goleiro brasileiro da Copa de 2014.

Dessa Copa, aliás, tenho pouco a contar, além do que você deve ter visto pela TV e já sabe. O baile alemão em Belo Horizonte completou dois anos dia 8 agora. De lá pra cá, Felipão foi demitido e recontrataram Dunga.

Imagino as risadas que você deu por aí ao saber da volta do técnico de 2010 à seleção. Dunga já foi demitido também. No lugar dele, entrou Tite, ex-treinador do Corinthians. Torço pra que dê certo, e o time do Brasil volte, pelo menos, a ser respeitado. Porque não é mais, você é testemunha.

Como vai o seu valente Orlando Pirates? Soube que foi campeão em 2012. Como está na temporada atual? Lidera o campeonato sul-africano? Aproveito pra contar que o cronista digital tem 16 leitores aí. Um deve ser você, claro. Os outros 15, certamente, são seus amigos – ou, mais provavelmente, brasileiros que por aí vivem.

Como anda a luta pela preservação dos bichos das savanas? Como está o Addo National Park, com seus elefantes monumentais e tão bonitos? Amigo, eu não lhe falei, mas, de todos os bichos africanos, o que mais me encanta é o elefante.

Drummond, maior poeta brasileiro, enredo da querida escola de samba Mangueira em 1987, meses antes de morrer, escreveu nos anos 1940 um poema em que tomava emprestada a forma de um elefante pra descrever sua esperança num mundo mais amoroso e mais justo.

É um dos escritos mais belos cometidos em língua portuguesa. Posso tentar traduzir pra você. Mas não sei se conseguiria.

O poeta, nascido em Minas Gerais, estado brasileiro onde ocorreu a tragédia dos 7 a 1, vivia em Copacabana, aqui no Rio – e, por isso, mereceu esta estátua à beira-mar, fotografada pelo Pedrinho Motta Gueiros sob bandeiras da Mangueira e do Flamengo, fincadas na areia da praia.

O Rio e o Brasil estão bem aí na foto, Brian – mas vão muito mal na imagem corrida, real, dos 24 quadros por segundo alcançados pela visão humana. Sinto muito dizer isso, amigo. Sinto muito por mim. Sinto pelos meus filhos, sinto por quem mais amo e por todos que aqui vivem.

O Rio da foto do Pedrinho é o Rio que reenvio pra você. No retângulo da imagem captada por ele, está a estátua do poeta que usou a forma do seu elefante pra descrever a esperança. Nele, estão as bandeiras da Mangueira e do Flamengo, com todos os seus significados de povaréu do Brasil. E estão, repare, uma pontinha do mar de Copacabana e um cocuruto de montanha e um rasgo do céu azul carioca deste inverno.

Também por aqui tudo é “shosholoza uKle zontaba”, amigo – ou, no meu idioma, vamos seguindo adiante através destas montanhas. Um abraço do seu irmão brasileiro. Marceu.

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8 comentários sobre “O Rio da foto de Pedro Motta Gueiros

  1. Sei que o comentário é suspeito – mais do que suspeito, suspeitíssimo. Mas vem do Alfredo, seu segundo pai. Disse ele, concentrado, fotografadíssimo por conta do inesperado celular nas mãos: “O Marceu é a melhor coisa da Internet”. Exagerado talvez, mais um superlativo neste texto. Mas é o Alfredo.

    Chiquinho Genu

    Curtido por 2 pessoas

  2. Excelente, como sempre. Fiquei curioso sobre o “paradeiro ” profissional do Pedro Motta Gueiros, cujos textos me agradavam muito na seção de esportes do abominável O Globo, que, em boa hora, deixei de assinar , logo depois da saída daquele jornalista. Percebia também que você integrava a equipe que colaborava com a coluna do não apreciado por mim Ancelmo Góes.
    O que importa é que hoje tenho o privilégio de receber suas apreciadíssimas crõnicas. Grato por isso.
    Lamento apenas que não possa acessar também o Pedro Motta Gueiros.
    Abraço, e novamente obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

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