Morte e vida carioca

Outro dia, pensei em começar uma crônica com esta frase: “o Rio morreu.” O impulso veio da notícia do assassinato de uma mãe nos braços da filha de 7 anos, após ser esfaqueada por um bandido no Estácio.

Pensei na dinheirama consumida pra receber as Olimpíadas, e me veio a imagem dessa mãe. Pensei no esgotamento do plano de segurança já fracassado e incapaz de conter a segregação, e me veio a imagem dessa mãe.

Pensei no descaso com a educação pública oferecida aos pobres e pensei no sistema de saúde vergonhoso e pensei na falência moral de uma sociedade inviável nos seus falsos propósitos e pensei na indignidade e no indecoro dos nossos políticos – e me veio a imagem dessa mãe.

“O Rio morreu”, eu insisti comigo, “e, na verdade, já está morto há muito tempo, talvez desde quando, levado por sua elite podre e egoísta, com seus mecanismos de controle da informação e do pensamento, franziu os lábios e torceu o nariz e investiu suas armas no desmonte dos Cieps como política de segurança e de construção a longo prazo de uma sociedade mais justa.”

Os dias se passaram, o assunto da moça assassinada desapareceu do noticiário, e eu continuei achando tudo isso. Pois há sentimentos que o tempo não absolve.

Só não escrevi a crônica porque me dei conta de que seria um veredito fatalista e grave demais (“o Rio morreu!”) – sobretudo, a tão poucos dias das Olimpíadas.

E quem seria eu pra dar vereditos? Logo eu, um apaixonado por esta cidade? Logo eu, um cara que viveu e vive no Rio de lá e no de cá, um defensor do Rio em todas as lonjuras por onde andou? Foram tantas as lonjuras.

Logo eu faria isso, um camarada que se emociona ao ver o espelho da Lagoa Rodrigo de Freitas? Um cara que ainda rumina a saudade das férias em Bangu com sua amiga Elinete? Um cariboca de Morro Agudo?

Até que a tragédia do Estácio voltou a ser notícia, apesar de acanhada, com a descoberta de que o assassino da moça não era um assaltante, mas um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento.

Ou seja, a morte daquela mãe não seria uma tragédia coletiva, mas particular, só dela, de mais uma vítima da violência banalizada contra mulheres, de mais uma jovem transformada em número a golpes de faca na contabilidade vexaminosa de execuções assim.

“Mas o Rio morreu, sim”, eu ainda teimei comigo. “Este Rio que está aí, hoje, é só um fantasma do que ele foi.”

Segui pensando que minha cidade, tão linda no cartão postal, está falida na imagem em movimento. Lembrei suas escolas públicas até há pouco ocupadas por crianças e jovens que clamam por educação digna – e, nesse momento, também concluí que a cobertura da imprensa dedicada à ocupação dos colégios, tão minguada e rasa até onde pude ver, deve ainda merecer uma reflexão nas faculdades de jornalismo.

“Os professores deste Rio assassinado”, eu também pensei, “não recebem salários decentes – ultimamente, quando recebem.”

Continuei no meu pensamento: “Sob a cortina do glamour de uma Copa do Mundo em casa, reformou-se o Maracanã – pela quarta vez em uma década e meia! – ao custo de mais de R$ 1,3 bilhão, montanha de dinheiro quase quatro vezes maior que o preço total da construção da nova Arena Dunas, em Natal.”

“Que Rio é este que permite tudo isso?”, eu me perguntei. “Que Rio é este que não vai pra rua de verde e amarelo agora mesmo protestar contra obscenidades e indecências assim?”, eu me exigi. “Que Rio é este que não se manifesta pelo impeachment da miséria e da pobreza e da saúde doente e da educação mofina oferecida a suas crianças pobres, a maioria negras?”

O Rio lúdico não morreu com aquela mulher. Na verdade, ele já estava moribundo bem antes. Já estava à morte antes das facadas que tiraram a vida da moça do Estácio, senão nos braços frágeis de sua pequena filha, nas suas vistas.

“Que cidade covarde é esta?”, eu me questionei, eu mesmo parte dela.

Ela, a cidade, já estava pra morrer quando elegeu e reelegeu políticos que há muitas décadas teima em perpetuar. Eduardo Cunha, por exemplo – que só agora se tornou um vilão da coletividade, como num ato compensatório do afastamento de Dilma -, é do Rio. Foi eleito e reeleito e reeleito e reeleito nesta terra. Homem forte das finanças de Fernando Collor em solo fluminense, em 1989, foi investigado no esquema PC Farias quando veio o impeachment do chefe dele.

Mas, ainda assim, de lá pra cá, sem altercar ou contender, o Rio o elegeu e o reelegeu e o reelegeu e o reelegeu e o reelegeu. Ele e muitos outros.

Insisti na minha conclusão contaminada de pessimismo: “É preciso contar a verdade à legião estrangeira que começa a chegar à cidade pras Olimpíadas. Contar a ela que o Rio da foto bonita, o Rio dos postais da Praia de Copacabana na década de 1950, quando Tom e Vinicius ensinaram à Elizeth na Rua Nascimento Silva 107 as canções de ‘Canção do amor demais’, o Rio do Maracanã do povão com mais de 100 mil pessoas, o Rio da garota de Ipanema, coisa mais linda e cheia de graça, o Rio da pureza do Garrincha, esse Rio feliz e acolhedor e hospitaleiro, esse Rio morreu.”

Pensei, por último, que é preciso, com urgência, parir um outro Rio. Um novo, onde a menininha órfã da mãe assassinada possa ter um futuro melhor que o seu presente terrível.

“Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio”, cometeu Luiz Melodia no seu belo samba-canção “Estácio, holly Estácio”. O bandido que tirou a vida da moça não matou por amor. Fez isso por ódio. O mesmo ódio que segue assassinando o Rio aos poucos.

Por amor ao Rio, minha cidade tão querida, não escrevi essas coisas no momento em que a comoção pela morte daquela mãe fervia no meu caldeirão de culpas. Deixei que o tempo quarasse o meu sentimento.

Lembrei a flecha disparada pelo tamoio que tirou a vida de Estácio de Sá, fundador do Rio e nome do bairro onde a tragédia se deu. Lembrei tanta coisa.

Lembrei que o Morro do Estácio foi o primeiro que subi na cidade, na minha trajetória já comprida de repórter. Eu era, ali, um estudante sonhador e boboca de Comunicação, com 20 anos de idade, e fazia um trabalho de faculdade, na cobertura de um assassinato, acompanhado por Zé Grande, grande jornalista de polícia que fez história no “O Dia” e no jornalismo carioca.

Reli, então, “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e percebi que o Rio de hoje é o avesso do avesso do Nordeste desinfeliz que o poeta descreve.

* * *

O meu nome? Carioca.

Vivo nesta ingresia:

espigão onde era oca,

entre o morro e a maresia.

Ouço o tiro que espoca

pela noite e até de dia.

Olha a maconha! Olha a coca!

Ilegal é a hipocrisia.

Somos uma só paçoca,

mas desiguais nessa vida:

comem uns só badalhoca;

outros, fartos de comida.

Desnivelados na sorte,

mas todos nessa biboca

se igualam na mesma morte:

mesma morte carioca.

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6 comentários sobre “Morte e vida carioca

  1. Sempre me pergunto para quem o Rio ainda é uma Cidade Maravilhosa ??
    Seria para quem visita o Cristo Redentor e contempla a linda vista lá de cima, ou para quem vai a uma das muitas praias que temos, ou seria para quem gosta de carnaval e sai em um bloco de rua ou vai ao desfile no sambódromo ??
    Para o cidadão que vive aqui, a Cidade já deixou de ser Maravilhosa a muito tempo, mesmo morando na Zona Sul onde a atenção e o cuidado dos governantes é maior nessa região.
    Sabemos que o governo age como inimigo da população.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Antes a população era rural no Brasil,com a industrialização, houve uma concentração de pessoas em cidades muito grande,falta espaço. Mais isso por si,não seria motivo suficiente para uma criminalidade tão grande,não estamos em guerra, nossa guerra é interna, falta paz nas pessoas e a ausência de paz,trás violência descontentamento,somando-se a isso, uso de drogas,muita ilusão,desesperança…..
    Cada qual terá que encontrar seu caminho,
    um por um,um caminho sem dor nem sofrimentos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. É Marceu, quem destruiu os CIEPs foi o gato angorá “Moreira Franco”, o mesmo que é a iminência
    parda do golpe Temer, um pústula, agindo sempre nos bastidores contra os menos favorecidos.
    Longa vida ao seu Blog e, como diria o baterista do Chico, ô sorte poder ler o cronista e poeta
    Marceu Vieira. Um demorado abraço.

    Curtido por 2 pessoas

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