Sobre recomeços

Quem joga ou já jogou futebol pelo menos uma vez na vida conhece o sentimento esquisito que é levar um gol decisivo e ter de agarrar a bola embaixo do braço, crispar a cara com a expressão de “vamos virar, vamos que dá”, e correr até o centro do campo pra dar a nova saída.

Mesmo quando falta só um minuto pro fim da partida e, no fundo, bem no fundo, nem nós mesmos acreditamos mais na possibilidade da virada. E a gente diz: “Vamos virar, vamos que dá, pessoal” – só pra não esmorecer o ânimo geral do time.

Num sentido simbólico, apenas figurativo, todo mundo já levou gols assim na vida e conhece a dor do recomeço. Eu mesmo já levei alguns. No campo e fora dele.

A impressão que eu tenho é que, desde bem criança, aprendi a importância de recomeçar. Um episódio que me marcou pra sempre ocorreu em 1977. Eu havia acompanhado pelo radinho de pilhas, ainda sem conhecer o Maracanã, todo o Campeonato Carioca daquele ano. O Vasco tinha vencido o primeiro turno e chegado à decisão do segundo contra o Flamengo. Se ganhasse aquele jogo, portanto, levaria a Taça sem precisar da finalíssima.

A partida acabou zero a zero e seguiu pra disputa de pênaltis. Zico foi escalado pra fazer a última cobrança pelos rubro-negros. Pelos vascaínos, a missão coube a Roberto Dinamite.

No gol do Flamengo, estava o Cantarelli; no do Vasco, o Mazarópi – os dois, curiosamente, nascidos no mesmo ano, 1953, e na mesma cidade, Além Paraíba, Minas, coincidência boboca que ficaria gravada eternamente na minha memória.

No penúltimo pênalti do Flamengo, Mazarópi defendeu o chute do Tita, ali ainda um moleque dos juvenis. Zico, já entronizado na camisa 10 da Gávea, pôs a bola na rede em seguida – mas, depois dele, Roberto Dinamite também marcou e deu o campeonato ao Vasco.

Lembro que fiquei muito triste e chorei bastante e até me escondi embaixo da cama. Fiz isso pra me proteger da zombaria do meu único tio materno, que sempre gozava das desditas do meu Flamengo e tentava me convencer a ser Botafogo.

A tragédia da derrota, tão injusta na minha compreensão de criança, embora talvez nem tivesse sido, plantou no meu coração uma vontade ainda maior de torcer pelo Flamengo, num impulso infantil que me acompanharia pra sempre.

Aí veio 1978, e, dessa vez, foi diferente. Agora, era o Flamengo que havia vencido o primeiro turno e chegado à decisão também do segundo. E, de novo, o adversário era o Vasco – e, se o Flamengo vencesse, seria campeão sem necessidade da finalíssima, exatamente como o rival um ano antes.

Mesmo quem não viu aquele jogo épico, e gosta minimamente de futebol, conhece o desfecho desta história. Aos 43 minutos do segundo tempo, depois de passar a partida inteira no ataque, com o Vasco encolhido na defesa, porque só precisava do empate, saiu um escanteio pro Flamengo.

Naquele tempo, quem batia escanteio era lateral ou ponta, e quem marcava gol de cabeça na cobrança, normalmente, era atacante. Mas o destino deu uma ordem invertida, e o Zico pegou a bola pra cobrar.

O camisa 10 bateu, o zagueiro Rondinelli correu da meia lua até a pequena área e surpreendeu o defensor Abel e o goleiro Leão, do Vasco, com uma cabeçada fulminante. Um a zero!

O gol deu o campeonato ao Flamengo e levou embora as minhas dores infantis de 1977 – e ali nascia o time que mais glórias daria nos anos seguintes ao clube da minha paixão, a maior delas a de campeão do mundo, em 1981.

Esta história faz sentido aqui porque é contada por um rubro-negro. Mas poderia ser a de qualquer time, a do próprio Vasco, por exemplo, com seu Expresso da Vitória, imbatível entre 1945 e 1952, como comprova a História. Ou a do Corinthians, campeão paulista depois de 23 anos, em 1977, numa final contra a Ponte Preta.

Ou a de qualquer pessoa, a de alguém derrotado um ano antes e que se reergueu após uma enorme injustiça, fortalecido pelos favores do recomeço.

São muitos os favores dos recomeços. A gente só aprende a importância deles quando perde alguma coisa muito valiosa – um parente ou amigo querido, um bicho de estimação, um grande amor, uma final de campeonato, o emprego, o trem, o prumo, e, às vezes, até tudo isso junto.

Nos anos 1990, eu tive um chefe na editoria de política do “Jornal do Brasil”, o botafoguense Rui Xavier, meu amigo ainda hoje, que me dizia o seguinte, e talvez ele nem lembre: “A gente pode perder tudo na vida, menos a pose.” Nunca esqueci.

Como o Flamengo de 1977, Dilma foi tungada agora do que parece ser tudo – embora não seja. E, apesar do calvário que cumpriu até o derradeiro voto no Senado, não perdeu a pose um só minuto.

Primeira mulher presidente do Brasil, e, mais ainda, uma mulher sem marido, Dilma, no exercício do poder, duelou com a misoginia e o preconceito e até o abandono por seu partido em certo momento. Por último, além da misoginia, duelou com a fraude de argumentos sem consistência daqueles que só queriam o seu lugar.

Acabou derrotada no Senado por uma turbamulta de famintos da cadeira que ela havia conquistado nas urnas. Tudo bem. Jogo jogado.

A agora ex-presidente cumpriu, até o fim, um martírio que não se iguala em dor física ao dos anos duros da ditadura militar, quando, muito jovem, ela se viu presa e torturada. Mas, com certeza, Dilma conheceu neste agosto de 2016 uma dor que ultrapassou os limites do aceitável em sua alma.

Mulher honrada, até prova em contrário, ela jamais foi acusada de qualquer desvio, ao contrário de centenas daqueles parlamentares desimportantes que enxovalharam sua biografia, primeiro na Câmara, sob o comando diabólico de Eduardo Cunha, e depois no Senado, com Aécio Neves e seus siameses.

Numa comparação livre e de consequências menos rebuscadas, situações como a vivida por ela são comuns na vida de todo mundo. Agora mesmo, em algum lugar, alguém está sofrendo uma enorme injustiça e terá de agarrar a bola embaixo do braço e levá-la até o centro do campo e recomeçar a partida pra provar, quem sabe a si mesmo, que pode se levantar e virar o jogo mais adiante.

É quando resta empinar o queixo e animar a turma, “vamos lá, vamos virar”, e dar a nova saída. O jogo não acabou.

Pra quem sobreviveu a tanta sensaboria, como a Dilma, o jogo não acaba nunca. Não acaba nunca. Nem que seja em 2018, já sem ela em campo.

Nem que seja depois. Ou bem depois. Nem que seja na imprecisão de um dia.

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Brizola volta a falar do calvário de Dilma e do impeachment

Ao assistir à inquisição de Dilma no Senado, o cronista digital teve uma nova alucinação e revisitou o baú de lembranças do seu tempo de repórter político. Mais uma vez, surgiu diante dele a memória de Leonel Brizola, e o cronista arrancou do velho trabalhista gaúcho o que ele pensa do martírio e da paixão da presidente em sua crucificação no tribunal do Senado.

Governador, o senhor ainda acredita na possibilidade de absolvição da Dilma?

Veja, Morfeu.

É Marceu, governador.

Tu me desculpes. Tu sabes desta minha confusão renitente com teu nome. Mas veja, Alceu. A rigor, se isto ocorrer, será uma imensa surpresa. Realmente, uma imensa surpresa. Um velho ditado no Sul diz que não se apeia do cavalo enquanto o fim da estrada não chega. Mas o fim da estrada está próximo, independentemente do desfecho que tiver. Eu te digo isso com um sentimento de desgosto muito grande! Muito grande, realmente. Estes senadores de gravatas modernas, não é verdade?, esses que aí estão a julgar a presidente, eles, sim, vão merecer um julgamento. Um julgamento exemplar e ainda mais severo que este que impõem agora à presidente legitimamente eleita. Será o julgamento da História! A História, tu sabes, é cruel em seus julgamentos. Eu mesmo tenho aqui as minhas dificuldades em explicar certas situações em que estive.

Que situações, governador?

A rigor, poucas, bem poucas. Mas sei que ainda hoje me julgam, compreende?

Por exemplo…

Julgam o velho Brizola pelo seu papel no episódio do impeachment do presidente Collor, por exemplo.

O senhor apoiou Collor naquele momento de crise. Sente-se arrependido?

Isto é uma grande inverdade, tu me permitas dizer. Chego a duvidar, sinceramente, que tu penses assim. Tu, que acompanhaste uma boa parte da nossa trajetória, que estavas ali tão próximo, a nos entrevistar naquele período, tu sabes que não foi o que ocorreu. As diferenças entre mim e o Collor eram conhecidas. Já não sei de ti, mas qualquer guri daquele tempo, qualquer piá, francamente, sabia da minha profunda discordância em relação ao presidente Collor. De modo que, se há um arrependimento neste coração que já parou de bater, mas segue vivo aqui no meu peito, se há um arrependimento é o de eu não ter me posicionado com mais clareza sobre estes fatos naquela época para desfazer certos mal entendidos. Nada mais.

Se não era apoio, o que era?

Deixe-me concluir, Ateneu. Calma lá que te darei a tua resposta. Em nome da governabilidade, eu, como governador do Rio de Janeiro, do que muito me orgulho, aliás, procurei o presidente Collor e propus a construção de Cieps federais e a adoção de algumas das nossas ideias. Sobretudo, na área da educação. Ele nos atendeu com os Ciacs, não é verdade? Creio que o presidente se contaminou ali, criou ali um certo encantamento em relação a algumas das nossas ideias, e se construiu um clima amistoso entre nós. Ele foi sempre muito cortês conosco. E nós retribuíamos o trato pessoal. E foi só.

Mas o senhor não participou dos atos pelo impeachment dele nem se posicionou.

Veja, Nereu. Eu sempre disse que caberia ao Congresso e ao Supremo Tribunal julgar os crimes de que acusavam o Collor. Eu não fui a reboque do PT, um ramal auxiliar do PT, que queria a carnificina, o julgamento sumário, a crucificação imediata. Eu estava ali, de camarote, entendes? Tu sabes das minhas convicções e das minhas imensas diferenças também com o PT. Francamente, até me surpreende que tu queiras seguir por esta vereda agora nesta nossa conversa e neste momento tão grave do nosso país.

Qual a diferença daquele processo de impeachment pra este de agora?

Permita que eu te diga. Veja. Tu mesmo, agora, estás aí a trabalhar para a Rede Globo. Andei sabendo, nas minhas resenhas, dos teus novos voos, com este Adné…

Adnet, governador, Adnê.

Tu me perdoes a maneira desabrida. Longe de mim querer te desagradar ou te constranger. Longe de mim! Mas este Adné, que, na verdade, me parece um fanfarrão, te pôs pra trabalhar no império Globo. Por isso, sinto teus questionamentos contaminados.

Governador, trabalho atualmente pra um programa de humor, como roteirista. E perguntei apenas sobre as diferenças entre o processo de impeachment da Dilma e o do Collor.

Eu te peço desculpas. As minhas mais sinceras desculpas. Mas é como vejo. A grande diferença é que não há crime agora. O que fez a dona Dilma?! Com todo o respeito aos sábios da lei, a rigor, ela não fez nada. Não há nada! Esta é a verdade. Dilma não roubou, não acobertou corruptos, não se apequenou diante dos… como te dizer… diante dos chimangos. Dilma não se beneficiou de um alfinete do palácio! Um alfinete! A rigor, Dilma, uma jovem que vimos nascer na política lá no Rio Grande, não fez nada. Nada. Já Collor tinha lá as intercorrências dele, não é verdade? Tu sabes. Collor ficava naquela motoca d’água dele (jet ski), ali nos lagos de Brasília, exibindo seus dotes atléticos, enquanto no porão do palácio havia quem fizesse coisas que se dizia que faziam em nome dele, tu sabes bem. Não sou eu quem está dizendo! Não sou eu, Leonel, quem diz. Diziam que faziam. Diziam até que o tesoureiro pagava as contas pessoais dele! Mas veja. Diziam. Não sou eu que afirmo. E o que fez a dona Dilma? A rigor, nada! Dona Dilma é inocente e está pagando por crimes que não cometeu. Com toda convicção, não cometeu.

O senhor diria que ela paga pelos erros do PT?

Tu agora tocaste num ponto, creia, que tem andado aqui nas minhas reflexões. Daqui de onde estou agora, tenho uma visão mais ampla do que ocorre e descontaminada das coisas da política. O Lula, na sua autossuficiência, abandonou a Dilma em certo momento. Não há como negar. Não quero julgá-lo. Mas, francamente, foi o que se deu. Falam aí de um apartamento, de um pedalzinho da dona Marisa… Olha…

Pedalinho…

Isto. Perdão. Pedalinho. Olha… tisc… isto é uma bobagem. Uma bobagem! Veja o que nossas elites e estes aí que a representam já fizeram em sua grande tunga no atacado! Veja, Marcel. A rigor, o grande assalto… o grande assalto, não é verdade?… o grande assalto é o que fazem agora, com esta gestão para tirar de uma presidente legitimamente eleita o seu mandato conferido pelo povo. Mas veja, eu sei, cá comigo, que muitos lá no PT cometeram seus excessos, se embriagaram com o poder, gostaram daqueles tapetes felpudos, compreende? Nutriram maus sentimentos e fizeram coisas impróprias a quem deve ter o cuidado com a coisa pública. De modo que a Dilma paga, sim, pelos erros dos seus pares. Mas são erros pequenos se comparados a tudo isso que volta a se instalar no país com o Temer. Eu venho de longe! Estes pés trazem calos que seguem comigo. Conheço esta gente. Este Temer chegou ao poder mais perdido do que cusco quando cai de caminhão de mudança e fica ali, francamente, abanando o rabo para as elites financeiras, ungido pela grande imprensa e abençoado pelo baronato da comunicação.

O que será do Brasil com Temer?

A rigor, um desastre! Um desastre! Ouso te dizer que este governo do Temer não se sustentará e também ele sofrerá o impeachment! Se não no Congresso, nas ruas, pela força do nosso povo. Escreva o que te digo. Este Temer representa uma casta. Uma casta! Uma casta que andou aí apartada, apeada do poder, e que cresceu o seu olho gordo, aquele olhão gordo das elites, não é verdade?, e de tudo fez para tomar a cadeira da presidente. Eles, Temer e todos esses a seu redor, que voltaram a sentir o gostinho do poder agora, que se lambuzam com o melado do poder, compreende?, eles precisam se desgastar ainda mais até serem jogados de uma vez no lixo. E é pra lá que eles vão, pro lixo! Podes escrever!

O senhor acredita que a presidente também é vítima de misoginia?

Tu não tenhas dúvida de que sim. Vejo até mais que um ato misógino. Vejo nisto tudo a doença social, tu podes crer, a doença de quem não tolera o ingresso de mulheres, negros e de outras minorias no ambiente predominado por homens brancos filhotes da elite, ou à elite rendidos. Aliás, me permitas concluir, nem são minoria! Nem são minoria! As mulheres e os negros são a maioria do povo brasileiro! Os números do IBGE e da Justiça Eleitoral estão aí a comprovar o que vos digo.

O senhor fala agora especificamente do Ministério montado pelo Temer?

Sim! Francamente, não é possível nem chamar aquilo de Ministério! Aquilo lá é um museu, um cemitério de zumbis ressuscitados. Não há um negro!!! Uma mulher!!! Quem ali defende uma minoria?! Uma única minoria?! Nenhum daqueles senhores! A única minoria presente neste governo provisório e ilegítimo é a sua própria, a daquela pequena elite que quer continuar sugando o melhor leite da vaca, enquanto deixa ao nosso povão apenas o perdigoto. Eles nos veem como abostados, podes crer, como se a grande massa trabalhadora, composta por negros e mulheres, fosse se contentar em comer as cascas das suas bergamotas e a viver chineleada, levando surra de relho.

O senhor acompanhou o discurso da Dilma no Senado?

Sim. Daqui, tudo vejo e tudo escuto. Com grande tristeza e uma dó imensa daquela mulher, acompanhei sua fala e sua inquisição. Vi que, ali, na plateia, estava até aquele filho do professor Sérgio, por quem sempre tive o maior apreço, apesar do seu engajamento ao PT e não a nós na nossa volta do exílio.

O Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque de Hollanda.

Sim, ele, o menino lá. Achei um gesto de grandeza a presença dele ali. Eu, se aí ainda estivesse, lá estaria. Eu e o pai desse menino já mantivemos aqui algumas lábias afetuosas e preocupadas com o que ocorre por aí.

O senhor tem acompanhado a campanha das eleições municipais?

Tenho e te digo que recebi com enorme desapontamento a notícia de que o nosso partido, o PDT, se aliou a este Paes e a seu candidato Paulo Pedro.

Pedro Paulo, governador.

Pedro Paulo. E mais te digo: ainda mais desapontado fiquei ao saber que a dona Cidinha Campos, logo a nossa Cidinha, a quem tanto prezei enquanto estive aí, na luta política, logo ela aceitou ser a vice deste filhote do filhote do Cesar Maia. Francamente! Mas disto eu te pediria para abordarmos em outra hora.

Que cenário o senhor vê pro Brasil?

O cenário imediato eu vejo como trágico. A rigor, uma tragédia. Com este Temer, veja bem, francamente, não há saída que não seja a da porteira da fazenda. Mas creia que, quando olho o futuro, daqui de onde estou, eu, Leonel, mantenho a esperança. No meu último quarto de hora da vida, eu vi o início de uma era que culminou com a eleição do Lula em 2002. Eu me fui daí em 2004. Tu sabes que nunca morri de amores pelo Lula, nem ele por mim. Relevei muitas agressões e espetadas dele. Mas reconheci e ainda reconheço nele, no governo dele, e adiante no governo da dona Dilma, com toda a humildade, com toda a humildade, compreendes?, reconheço nesse conjunto de governos o avanço de que o Brasil precisava.

O senhor ainda se ressente de não ter chegado lá? Acha que, se fosse o senhor lá, em vez do Lula, o Brasil estaria melhor e nada disso teria ocorrido?

Veja. Estas conjecturas eu deixei no passado. Não deu para ser conosco. Nós estávamos desgastados e enfrentávamos a grande resistência disseminada e impetrada pelas elites. Este lombo aqui levou muitas chibatadas das elites e até mesmo do PT. Tu sabes o que a Globo fazia comigo sob o silêncio do PT. Trago aqui as marcas daquelas chibatas. Mas… tisc… o rio, depois que passa com a força de suas águas, leva as folhas mortas e o lodo que se instalam em suas margens. A chuva lava a poeira das telhas. De modo que me sinto livre de ressentimentos e mantenho a esperança na retomada do caminho das esquerdas unidas pelo bem do Brasil, não mais comigo, Perseu.

É Marceu, governador.

Tisc… tu me perdoes uma vez mais! Meus agradecimentos, Narceu.

Sabe o Mário?

A imagem do primeiro-ministro japonês fantasiado de Mario Bros na cerimônia de encerramento dos Jogos do Rio pareceu servir como um despertador gigante pra acordar a gente do sonho da cidade perfeita.

Tudo estava tão bonito, tão lúdico, tão VLT sem fila, tão amor correspondido, até que surgiu aquele personagem descombinado pra misturar política onde só deveria haver arte e avisar: “Ei, meninas, ei, meninos, acabou.”

A vida também é assim. Chega um momento em que um Mario Bros qualquer aparece e diz que a festa acabou – e aí as visitas vão embora e a gente precisa limpar a casa e lavar a louça e retomar as coisas. É assim também quando vínculos que pareciam eternos se desfazem, e uma nova ordem se instala e nos obriga a reinventar o caminho.

Chega o instante em que a existência de alguém querido se esvai num sopro, por exemplo – e a necessidade de seguir em frente não consola nem conforta, mas, de certo modo, redime e impulsiona. Ou aquela hora em que o amor se desintegra como escultura de areia na mão, e só resta recomeçar.

O Mario Bros da cerimônia no Maracanã, se pecou na falta de gosto, serviu ao menos pra isso. Pra nos lembrar do dia seguinte.

É hora de lavar a roupa largada há dias na cesta, de encomendar a moldura pra foto tirada com o Usain Bolt e de pensar no almoço de amanhã e planejar a janta de logo mais e mandar plastificar o autógrafo da Simone Biles.

É hora de aquele voluntário guardar protegido no seu baú de relíquias o prendedorzinho de cabelo tão cheio de significados que talvez a holandesinha Sanne Wevers, medalha de ouro na trave, tenha deixado cair no chão.

Hora de consertar o telhado desfeito pela ventania de ontem e reparar os danos causados por aquela outra tempestade que soprou há mais tempo e teimou em desorganizar os passos e rearrumar os sonhos e acordar pesadelos e refazer o futuro sem decifrar o passado.

Hora de o Flamengo voltar a jogar no Maracanã, de o Botafogo reaver o Engenhão e de experimentar a possibilidade de trancar no pensamento tanta lembrança e limpar os armários e trocar as fotos da cortiça. Hora de conhecer mais gente e sobreviver e amanhecer e anoitecer e dormir e acordar e fazer tudo diferente amanhã e depois de amanhã e depois também e depois e depois.

Hora de sentir saudade da glória breve e eterna de heróis de todos e de si próprios, como a Rafaela Silva e o Thiago Braz, ou o Robson Conceição e o Izaquias Queiroz. Hora de deixar curtir na memória a generosidade do Michael Phelps ao fazer do Rio o cenário da despedida dele das piscinas, e pensar mais uma vez na vergonha que é a Baía de Guanabara imunda.

É hora de esquecer quem já foi embora da festa faz tempo, embora ainda acreditássemos que não, que só era um rosto desfocado no salão cheio e voltaria pra nos convidar a mais uma dança. Dia de esquecer quem nos esqueceu e preferiu retomar seu passado pra fazer dele a opção do seu futuro.

Hora de perdoar mentiras, dissimulações, traições furtivas que já não contam, cobranças falsas, promessas sem sentido, juras sem lastro. Pôr fora o dominó que não coube, relevar as peças pregadas pelas doenças do amor.

Hora de aproveitar os novos presentes dados pela vida e encerrar o luto do vazio deixado pelas coisas que ela, a vida, caprichosa, trouxe e levou embora em seguida. De dar de ombros pra quem pôs as aspirações do outro no lixo com um simples gesto desatinado e desvairado.

Hora de pensar de novo em nós mesmos, nativos desta cidade, agora sentados sozinhos no banquinho do Boulevard Olímpico já sem a pira acesa e sem cobertura ao vivo de TV. Sem policiamento diligente e sem a multidão em volta.

Lá se foi o sorriso da moça estrangeira bonita, que, ainda há pouco, estava bem ali, ao alcance dos meus olhos pidões.

A boa lembrança é sempre um legado deixado ao recomeço, a qualquer recomeço – e o aumento do número de cariocas no mundo talvez seja a maior herança lúdica dos Jogos do Rio. Bolt foi embora carioca. Simone Biles partiu carioca. Phelps levou o Rio no coração e deixou um pedaço do dele aqui.

É a melhor maneira de as pessoas partirem das nossas vidas – quando levam no coração um pouco do nosso coração, ao mesmo tempo em que deixam batendo no peito da gente um pouco do pulsar do peito delas.

O carioca nunca teve complexo de vira-lata. Isso é uma invenção boboca em que muitos já acreditamos. O Rio nunca teve este sentimento – e nunca teve porque é grande, e este pensamento, pequeno. Desde Estácio de Sá, o Rio nunca se sentiu assim. Desde que os portugueses expulsaram os franceses em 1567 com a ajuda dos nossos irmãos índios, o Rio jamais teve este complexo.

Esta cidade é maior e mais bonita que o Eduardo Paes de chapéu eleitoral na festa do Maracanã. Maior que a mentira do Ryan Lochte e de sua trupe de nadadores arruaceiros. Passou, deixa pra lá.

O Rio é mais intenso e mais merecedor de felicidade que o tamanho da pena imposta a Dilma, exilada da festa feita com dinheiro federal após ser condenada pelo erro cometido por seus iguais de partido num julgamento no qual, goste-se ou não dela, o crime analisado nem era este.

É maior que a vaia provável e merecida que o Temer levaria de novo se ali aparecesse.

O Rio é amoroso e cruel, injusto e democrático, plural e único, verdadeiro e de cinema com seus espigões dispostos no tabuleiro urbano entre o mar e a favela – e deste jeito continuará sendo. Esta talvez seja a única cidade do mundo que sorri envaidecida apenas por lembrar que ela é ela.

Assim somos. Assim seremos sempre.

Sabe o Mário?

Carta à Sheilla e a todas as meninas do vôlei brasileiro

Queridas Sheilla, Natália, Fabíola, Dani Lins, Fernanda Garay, Thaisa, Fabiana, Gabi, Juciely, Adenizia, Leia e Jaqueline. Esta é uma carta de amor. Quem a escreve é o cronista digital, um sujeito apaixonado por vocês, cada uma de vocês.

Ele, o cronista, também estende esta cartinha simplória, escrita com o coração na ponta dos dedos, às moças do vôlei de praia. Digam a elas, por favor. Digam a Larissa e Talita e a Agatha e Bárbara que os nomes delas estarão também pra sempre gravados no coração dele.

O cronista digital jamais conseguiu sucesso no vôlei. Até arriscou uns saques e umas cortadas nos tempos de escola. Mas como não era bom o bastante, voltou às peladas de futebol e se contentou em ser apenas um torcedor nas quadras.

A paixão por vocês, meninas, foi instantânea. Surgiu antes mesmo de 2008, quando vocês conquistaram, em Pequim, a primeira das duas medalhas de ouro olímpicas que deram pra gente.

E esta paixão já havia se convertido em amor eterno antes da apoteose em Londres-2012 – como esquecer aquela vitória histórica diante da Rússia, no tie-break, nas quartas de final, depois de vocês salvarem seis match points, e como apagar a lembrança da finalíssima contra os Estados Unidos, 3 a 1 pra nós? Impossível.

O cronista digital ama vocês não só pela beleza, que é muita – boniteza, aliás, que faz de cada uma de vocês uma Adalgisa inalcançável; lindeza, aliás, que, de tão grande, só permite elogios, jamais galanteios. Ele ama pelo talento, pela garra, pela doação, pela devolução à torcida tão sincera dele e de tantos.

O cronista tem certeza de que vocês teriam conquistado o tri olímpico, agora, nos Jogos do Rio, se o destino não fosse tão insensível e sem coração, como cisma de ser às vezes. O destino decidiu ser assim na noite de terça-feira, insensível e sem coração.

Como escreveu Carlos Drummond de Andrade a Manuel Bandeira na sua tocante “Ode ao cinquentenário do poeta brasileiro”, o cronista digital envia esta carta com um pedido lancinante pra que vocês não o deixem sozinho nesta cidade, neste país, neste mundo em que ele se sente pequeno à espera dos maiores acontecimentos.

Chorem, podem chorar, porque choramos todos também – na arquibancada e na frente da TV. Mas se reergam, não esmoreçam, não se sintam desimportantes, porque vocês não são, nem decepcionaram. Não mesmo.

No pódio do coração do cronista, ainda é de vocês o lugar mais alto. E ainda pertence a vocês a imensa admiração dele, e continua sendo de vocês o imenso orgulho dele.

O cronista faz um pedido especial à Sheilla, oposta da camisa 13, moça tão bela, que, pra ele, é a maior jogadora do mundo. Não desista. Não saia da seleção. Prossiga. Precisamos de você mais um pouco.

“Foi minha despedida, não queria sair desse jeito”, você disse, Sheilla, encerrado o trágico 3 a 2 imposto pelas gigantes chinesas nas quartas de final destes Jogos do Rio. “Queria estar na final para buscar o tri olímpico, é um momento muito triste pra mim, não era o que eu queria, mas é assim”, você desabafou.

Sheilla, aos 33 anos de idade, há 14 na seleção, você merece uma estátua. Mas teimou na autodesfeita de dizer que é hora de parar. Não é, não, moça. Eu li o que você escreveu nas redes sociais: “Hoje é um dia muito triste não só pela eliminação, mas porque foi meu último jogo pela seleção. E não foi como eu queria. Infelizmente, pra mim já deu.”

Pra quem ama tanto você, como este cronista precário, não deu ainda, Sheilla. Resista. Persista. Nada vai apagar o que suas cortadas e seus saques já nos proporcionaram. Nada mesmo. Por favor, fique.

Natália, Fabíola, Dani Lins, também chorei com vocês. Fernanda Garay, Thaisa, Fabiana, sofremos juntos, creiam. Gabi, Juciely, Adenizia, Leia, vocês são demais. Jaqueline, no meu time, você seria titular, suas lágrimas foram as minhas.

Digam ao técnico Zé Roberto que o cronista manda um abraço forte e um “muito obrigado”. Ele fez mais que o possível. Mas era a noite de Ting Zhu e das demais chinesas. Não era a nossa.

Vocês jogam com amor nos olhos, meninas, e isso é algo que a gente raramente vê no futebol, por exemplo – e esse amor que se projeta dos olhos de vocês é correspondido, podem acreditar, é sim.

Fiquem bem, enxuguem as lágrimas, sigam, porque Tóquio-2020 logo surge no horizonte. Estaremos juntos de novo. Até lá, como também escreveu Drummond, “não nos afastemos, não nos afastemos muito”.

Com amor, do cronista digital.

PS: como a Marta, vocês são todas melhores que o Neymar – e olha que ele joga pra caramba.

 

O voo de Thiago e os caprichos do ‘quase’ nos Jogos do Rio

O inesperado desequilíbrio na trave que tirou da menininha norte-americana Simone Biles a sua quarta medalha de ouro nos Jogos do Rio mostrou como é pequena a distância entre ganhar e perder. No esporte e na vida. Mostrou, sobretudo, como é insondável o papel do “quase” na História.

O “quase” não é protagonista de nada. Só raramente é lembrado depois que os acontecimentos passam – e, apesar disso, nos breves segundos em que atua, volta e meia, torna-se o coadjuvante malvado que determina o desfecho das coisas, às vezes de um sonho.

Simone desembarcou no Rio com a expectativa de conquistar cinco medalhas de ouro. Na sua graciosa caminhada rumo a este Olimpo, que parecia certo, ganhou o coração da gente, mas perdeu a quarta medalha pro “quase”.

O “quase” surge nas histórias só pra ser o que é – um “quase”. Nunca chega a estrela. Nem mesmo naqueles flagrantes disseminados na internet, em que um velhinho atravessa uma rua e quase – quase! – é atropelado por um bonde. O “quase”, nesse caso, é só a “escada” do ator principal, o velhinho.

O velocista Justin Gatlin, compatriota de Simone Biles, foi outra vítima do “quase”. Maior rival do jamaicano Usain Bolt, Gatlin treinou com esmero os últimos quatro anos na esperança de bater o arquirrival no Rio. Liderou a prova dos 100 metros até o último segundo, quando o “quase” entrou na pista e devolveu a glória a Bolt por oito centésimos – 9s81 contra 9s89.

O “quase” é isso. São os oito centésimos que parecem pouco, mas são determinantes na construção da posteridade. O passe errado que foi cair nos pés de Paolo Rossi, da Itália, na Copa de 1982, por exemplo, não foi Toninho Cerezo quem deu. Foi o “quase”. O pênalti perdido contra a França, no Mundial de 1986, não foi culpa do Zico. Foi do “quase”.

Agora mesmo, nos Jogos do Rio, o brasileiro Arthur Zanetti era um dos dois favoritos ao ouro nas argolas. Seu grande adversário era o grego Eleftherios Petrounias. Nosso ginasta fez tudo certo até a saída do aparelho. Naquele momento, o “quase” subiu no colchão de amortecimento, deu uma cutucada no Zanetti e o fez dar um pulinho pra frente.

O garoto brasileiro ficou com a honrosa medalha de prata. Se não fosse o “quase”, teria levado a de ouro.

Assim também é na História da humanidade. Por obra exclusiva do “quase”, Napoleão não nasceu na Itália. Natural da Córsega, ilha entre o sudeste francês e o noroeste italiano, teria sido compatriota de Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Dante Alighieri se o lugar onde veio ao mundo não tivesse sido repassado à França um ano antes do 15 de agosto de 1769, data do nascimento dele.

Com 274 anos de atraso, a Córsega foi transferida pelos italianos aos franceses, em 1768, em obediência ao Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Ou seja, se a História esperasse só mais um ano, Napoleão seria italiano e talvez nem fosse militar – e nada do que aprontou no mapa europeu teria acontecido, e a família real portuguesa, quem sabe?, nem se transferiria pro Brasil. Caprichos do “quase”.

Gandhi quase conseguiu impedir a divisão entre Índia e Paquistão. Se tivesse conseguido, os indianos poderiam ter hoje mais habitantes que a China – e o crescimento do islamismo na Ásia talvez tivesse sido menos intenso.

Pelé quase marcou o gol 1.000 contra o Bahia, em Salvador, no dia 16 de novembro de 1969. O jogo estava 1 a 1 e caminhava pro fim. O camisa 10 do Santos chutou com o goleiro já batido e, quando a bola já ia entrando, já ia entrando, já ia entrando… o “quase” invadiu o campo e fez o zagueiro baiano Nildo salvar em cima da linha.

Contam que até a torcida do Bahia ficou revoltada e, injustamente, vaiou seu zagueiro. Injustamente porque a culpa não foi do Nildo. Foi do “quase”. 

Se a bola tivesse entrado, o Maracanã não teria tido a glória do milésimo gol do Rei, marcado de pênalti sobre o Vasco, logo depois, no dia 19. Esse teria sido o 1.001 – e ninguém falaria dele. Seria só o gol “quase”.

Aliás, o maior momento de protagonismo do “quase” talvez seja a trave. Não a de Simone Biles, mas a do futebol mesmo. No entanto, até aí o estrelato do “quase” é efêmero. Tão efêmero que, um dia depois do jogo, já não se lembra dele – só da bola que entrou.

O “quase” também faz bagunça na política. Leonel Brizola quase derrotou Lula na disputa pela vaga no segundo turno contra Fernando Collor, em 1989. Teve 16,5% dos votos, contra 17,1% do petista. Perdeu pro “quase” no último minuto da prorrogação. Se tivesse vencido, talvez derrotasse Collor – como saber? -, e tudo depois seria diferente.

Mas é no esporte que o “quase” mais age e intriga e é especialmente vil, cruel e vilão. Sobretudo, com os atletas do salto em altura. O herói brasileiro Thiago Braz, novo recordista olímpico da modalidade, voou 6,03m pra tomar a medalha de ouro do favorito francês Renaud Lavillenie.

O “quase” derrubou o sarrafo nos saltos de todos os outros competidores e foi o grande adversário de Thiago na sua conquista. Mais do que vencer Lavillenie, o brasileiro derrotou o “quase”.

Nascido num país em que, ao contrário da França, o esporte não é política de Estado, Thiago precisou vir derrotando o “quase” desde criança. Abandonado pela mãe, o menino de Marília, São Paulo, foi criado pelos avós e precisou duelar muito com os desfavores da vida simples pra se tornar um atleta, numa trajetória iniciada aos 14 anos de idade. Faz oito anos isso. Hoje ele só tem 22.

Enquanto isso, Lavillenie, lá na França, deve ter enfrentado bem menos as maldades implacáveis do “quase”. Moldado desde bem miúdo em sua escola pra se tornar o grande atleta que é, chegou ao Rio como favorito.

Até que o “quase”, na noite chuvosa do Engenhão, desmanchou os prognósticos e as estatísticas.

É ele, o “quase”, que desarruma os caminhos e atrapalha o balé de mitos como Simone Biles na trave da ginástica. É ele que, às vezes, conspira contra a última braçada na piscina e impede o ippon numa final de judô perdida por um yuko.

Vencer é superar o “quase”. Thiago conseguiu.

*    *    *    *

Ainda o quase

Depois da crônica publicada, o “quase” aprontou mais uma – desta vez, com o Brasil, na semifinal do futebol feminino.

Não foram Andressinha e Cristiane que perderam pênaltis. Nem foi Bárbara que não segurou a última cobrança das suecas. A culpa foi do “quase”.

Nossas meninas do futebol são muito maiores que o “quase”. Foram brilhantes e, nem importa o resultado da disputa pelo bronze, já merecem nossa admiração.

Marta, Rafaela, Mayra, Simone Biles e a cidade-mulher de 2016

Muitos compositores fizeram músicas em homenagem ao Rio, cidade sem igual no mundo, contraditória pela própria natureza, cidade bela e aviltada, imprensada entre o mar e a montanha sangrada pela favela desassistida, cidade da alegria carnavalesca e do insondável na virada da esquina, cidade das mãos pro alto na alegria de um gol no Maracanã e das mãos ao alto – é um assalto! – na saída do estádio.

Cidade que, como nenhuma outra, rima amor com dor.

Gilberto Gil cantou “alô, alô, Realengo, alô, torcida do Flamengo”, e disse que nosso querido vale de risos e lágrimas “continua sendo”. Caetano Veloso saudou “o tempo de estio”, com suas “Solanges e Leilas, Flávias e Patrícias, Sônias e Malenas”, e anunciou seu desejo de ter nossas meninas.

Tom e Vinicius, em seu “Samba do avião”, diziam que a alma deles cantava ao ver o Rio de Janeiro. Chico Buarque falou do “Rio de ladeiras, civilização, encruzilhada”, em que “cada ribanceira é uma nação”.

André Filho, com sua “Cidade maravilhosa”, coração do Brasil, doou um hino oficial aos cariocas. Ismael Neto e Antônio Maria compuseram “Valsa de uma cidade”, declaração de amor sem tamanho à terra que os acolheu.

Já Noel Rosa, na brevidade de sua existência, manteve um intenso caso de amor com o Rio e muito cantou a sua Vila Isabel, o Estácio e até mesmo a Penha. Mas Noel fez mais. Criou “Cidade-mulher”.

Marchinha gravada no carnaval de 1936 por Orlando Silva e as Irmãs Pagãs, Rosina e Elvira Pagã, “Cidade-mulher” foi escrita pelo Poeta da Vila pra ser tema de um filme do mesmo nome, de Humberto Mauro, lançado naquele verão de 80 anos atrás.

Pois agora, 80 anos depois daquele carnaval, exigiu o destino, com seus caprichos, que o Rio merecesse ser chamado de novo, e talvez como nunca, de cidade-mulher. Tem sido delas, as mulheres, o protagonismo destes Jogos Olímpicos.

Das piruetas perfeitas e cheias de graça da pequenina ginasta norte-americana Simone Biles ao heroísmo sem medida da nossa Rafaela Silva, campeã do judô e da vida, que tocou pra sempre o coração coletivo do Brasil com seu choro copioso no pódio, tudo aponta pra uma Olimpíada feminina nesta cidade-mulher.

As lágrimas de alegria que, ao som da “Marselhesa”, também lavaram o rosto da francesa Émilie Andéol, outra campeã no judô; o desabar de tristeza de Jade Barbosa em pleno tablado na final da ginástica; a obstinação da ciclista Flávia Oliveira com seu sétimo lugar, histórico pro Brasil; as braçadas da americana Katie Ledecky e da húngara Katinka Hosszu em busca do trono que, entre os homens, parece ser pra sempre do multicampeão e ídolo multinacional Michael Phelps; os gritos de “Marta é melhor que Neymar”; o bi no bronze de Mayra Aguiar no tatame; o dom da maternidade que permitiu a Isabel, do vôlei, e Hortência, do basquete, darem um filho cada uma aos Jogos em casa; Gisele Bündchen atravessando a passarela do Maracanã na festa de abertura, onde também brilhou Elza Soares; as meninas do handebol; as do vôlei na quadra e na praia; as outras e as outras e também as outras, tantas outras – quase todo o protagonismo de 2016 parece mesmo ser delas, as mulheres.

O pênalti perdido por Marta no mata-mata contra a Austrália, e o desfecho corrigido pela bárbara Bárbara, nossa goleira no futebol feminino – ou pelos deuses, ou pelas deusas, que nos protegem -, tudo faz crer, tudo mesmo, que estas Olimpíadas são delas.

As luzes foram na direção das mulheres até mesmo no lado oposto ao da glória. Nesse lado, mais habitado por homens do que por elas, a goleira norte-americana Hope Solo, moça bonita toda vida, alimentou polêmica ao publicar nas redes sociais a foto de seu kit de viagem ao Brasil (dezenas de repelentes, máscara e inseticidas contra o mosquito da zika).

Eliminada, Hope está voltando pra casa com seu arsenal antiaedes, depois de ouvir o coro de “zika, zika, zika” nos estádios, a cada gol tomado.

O Rio é assim. Como uma mulher muito bela que todos amamos, não importa o gênero de cada um de nós, a cidade volta e meia nos faz tristes com suas grandes e pequenas tragédias, quase cem por cento das vezes causadas por seres masculinos, mas, em seguida, nos embevece com seus encantos – estes, quase todos femininos.

Esta cidade-mulher, como escreveu Noel Rosa, “tem mais doçura que uma ilusão” – e é ainda “maior que o paraíso, melhor que a tentação”. Cidade das belezas mil, a que ninguém resiste, capaz de transformar até melancolia e desapontamento e desamor em samba.

“Cidade de flores sem abrolhos/Que encantando nossos olhos/Prende o nosso coração”, assim descrita ainda na exaltação de Noel. “Cidade padrão de beleza, foi a natureza quem te protegeu./Cidade notável, inimitável, maior e mais bela que outra qualquer./Cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher.”

As Olimpíadas, com sua grande porção feminina, parecem ter reconciliado o Rio com os brasileiros. Que tanta paixão perdure.

E como costuma dizer Flávia Oliveira – agora não a ciclista, mas a querida jornalista – sigamos.

*   *   *   *

Cidade mulher

(Noel Rosa)

Cidade de amor e aventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão

Cidade mais bela que o sorriso,
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção

Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável,
Inimitável,
Maior e mais bela que outra qualquer.
Cidade sensível,
Irresistível,
Cidade do amor, cidade mulher.

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar

Cidade do céu sempre azulado,
Teu Sol é namorado
Da noite de luar

Cidade padrão de beleza,
Foi a natureza
Quem te protegeu

Cidade de amores sem pecado,
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu

Sobre uma flor que brotou no Maracanã

De tudo que foi dito sobre a bonita cerimônia de abertura dos Jogos do Rio, no Maracanã, talvez só tenha faltado uma reverência à  escolha do poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, lido por Fernanda Montenegro, com direito a versão em inglês.

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta”, começa o cortante poema de Drummond, que, de certa forma, batiza o livro “A rosa do povo”, publicado em 1945. “Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: não, o tempo não chegou de completa justiça”, prossegue o poema.

Drummond, que jamais quis se candidatar à Academia Brasileira de Letras e seria enredo da Mangueira em 1987 sem nunca ter pisado na Marquês de Sapucaí, tinha 43 anos quando escreveu esses versos.

Com a dura ternura que fez dele o poeta maior de seu tempo, o mineiro Carlos Drummond de Andrade, ao longo da vida toda, foi capaz de manter intacta a sua postura carrancuda e ao mesmo tempo doce. Comportou-se assim até morrer de amor em 17 de agosto de 1987, a mês e meio de completar 85 anos de idade e 12 dias depois de perder a única filha, sol da vida dele, Maria Julieta, vitimada por um câncer.

Drummond era um comunista independente de partidos. Flertou com o velho PCB e dele se afastou pouco depois de publicar “A rosa do povo”.

“Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”, ele ainda escreveu no pungente “A flor e a náusea”.

“Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor.”

Setenta e um anos depois de “A rosa do povo”, e a duas semanas de se completarem 29 invernos da morte de amor de Drummond, o Brasil deve agora a Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas, diretores da cerimônia de abertura dos Jogos – ou a alguém da equipe deles -, a exposição ao mundo todo de um dos poemas mais belos da língua portuguesa. Senão o mais belo.

A declamação de “A flor e a náusea” por Fernanda Montenegro cobriu de glória, se algo ainda faltava pra isso, o espetáculo do Maracanã. “Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O contundente manifesto de Drummond, com sua pregação de um tempo mais justo, foi concebido num mundo que saía da Segunda Grande Guerra dividido entre os devotos do capital e os fiéis na possibilidade da partilha da propriedade e dos bens de consumo. O poeta escolheu o lado dele.

Os homens involuíram e evoluíram muito de lá pra cá. Drummond morreu desencantado com o comunismo partidário, mas continuou adversário do poder do capital e de seus propagadores, que passaram a comandar a Terra. Não viu a queda do Muro de Berlim, em 1989, nem a dissolução da União Soviética, em 1991.

Não parecia apoiar uma coisa nem outra, mas também não se alinhava com o lado ocidental do Muro. Tampouco aderia às cartilhas de quem via por trás da “Cortina de Ferro” os grandes inimigos da segunda metade do século 20.

O poeta se manteve digno e gaio, como o personagem de um outro bonito poema seu, “O mito”, e seguiu assim até o último suspiro, em sua morte de amor. A prova pôde ser vista, ou ouvida, no Maracanã, na declamação do seu “A flor e a náusea”.

A mensagem do seu poema, se já era eterna, chegou ao Olimpo na abertura dos Jogos do Rio, num espetáculo de beleza imensa e inesquecível e comovente, e redentor e arrefecedor do maldizer da cidade neste momento em que o Rio recebe as primeiras Olimpíadas realizadas no mundo pobre.

A interpretação do Hino Nacional por Paulinho da Viola ao violão, acompanhado de pequena formação de cordas; a evocação dos grandes compositores de samba que se já se foram, feita por Wilson das Neves; a apresentação de Caetano e Gil com a funkeira Anita, como numa exaltação à diversidade nos versos de Ary Barroso; Zeca Pagodinho e Marcelo D2 também unidos nas suas diferenças; o poder do “Canto de Ossanha”, de Vinicius e Baden Powell, na voz infinita de Elza Soares; a “Garota de Ipanema”, do mesmo Vinicius e de Tom, reencarnada na formosura de Gisele Bündchen; o “país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”, anunciado por Jorge Benjor e Regina Casé; as projeções; as danças; os desfiles dos atletas; e, por fim, a apoteose em que as sementes florescem como em “A rosa do povo” – tudo pareceu descrever o país diverso e misturado e igual e comum sonhado por Drummond em seu poema.

Até a vaia legítima e educada a Temer pareceu parte do roteiro. Legítima, porque ele merece ser vaiado. Educada, porque o público não xingou o interino como havia feito com Dilma, no Itaquerão, na abertura da Copa, em 2014, quando, desabrida, parte da plateia mandou tomar naquele lugar não apenas a presidente da República eleita de forma legítima, mas uma mulher digna, uma mãe, uma avó, e não importa qualquer descalabro cometido por outros de seu partido.

Os Jogos do Rio começaram muito bem. Trouxeram de novo a esperança que Drummond tentou disseminar com a flor do seu poema. A flor teimosa e feia, que furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio – e, tanto tempo depois, ressurgiu fulgurante no Maracanã.

*  *  *  *

A flor e náusea

(Carlos Drummond de Andrade)

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Diário da volta ao mundo com 100 mil pessoas em 180 dias

O cronista digital já fez muita coisa que só teve importância pra ele mesmo. Tomou banho de balde no quintal, por exemplo, e foi tão bom. Passou uma noite inteira deitado na areia da praia, olhando as estrelas, com o pensamento parado em Adalgisa, e sentiu tanto frio. Mijou de tanto rir uma vez, porque estava apertado.

Também saiu fantasiado de velho num carnaval, e ninguém o reconheceu. Fez carinho num leão, jogou futebol com bola de papel, soltou pipa no telhado, pulou o muro de um motel recém-inaugurado em Morro Agudo com a molecada da rua pra se esbaldar na piscina, pediu autógrafo ao Zico três vezes e, em cada uma delas, disse que era pra alguém diferente – mas era pra ele mesmo.

Fez tantas coisas desimportantes aos olhos dos outros, e tão repletas de especialidades pra ele.

Fez mais uma agora. O blog dele de crônicas passou de 100 mil acessos.

É pouco no oceano infinito da internet, o cronista sabe. Mas ele ficou tão prosa que decidiu agradecer a seus leitores.

Por conspiração do insondável, o reloginho da audiência alcançou estes seis dígitos na terça-feira, 26 de julho, dia exato em que o cronista digital completava seis meses no ar.

Nestes 180 dias, ou 4.320 horas, ou 259.200 minutos, ou ainda 15.552.000 segundos, ele publicou 59 textos (este aqui é o 60°) e foi lido em 99 países – certamente, claro, por brasileiros espalhados pelo mundo.

Na Armênia, por exemplo, conseguiu um leitor. Na Nova Caledônia, outro. Na Indonésia, sete. Na Malásia, cinco. Na Finlândia, 12. Na França, já tem quase 500, e em Portugal, também. Na Espanha, está chegando a 400. Nos Estados Unidos, já são mais de 2.200. Fora os quatro da Venezuela, os três da Nicarágua, os dois da Letônia… A todos, o cronista agradece de coração.

Às vezes, ele fica triste por não ter conseguido ainda nenhum na Groenlândia. Mas mantém a esperança e acha que ainda chega lá.

Autopromoção não é o que o cronista digital faz melhor. Desde muito menino, quando disputava o amor da garota que ele achava a mais bonita da escola, é assim. Por isso, ele se ausenta. Por isso, ele cala. Por isso, como agora, fica meio sem jeito e tenta sair de si mesmo e escreve na terceira pessoa.

Pra comemorar esta volta ao mundo em 180 dias na companhia de 100 mil pessoas, o cronista decidiu abrir mais uma vez sua caixa postal e repartir com seus leitores algumas observações, aflições, dúvidas e certezas de quem lhe escreve. Lá vão.

“Orfeu, que ideia é essa de aposentar Adalgisa?! Pela volta de Adalgisa já!”

“#SomosTodos Adalgisa!”

“Cara, você foi muito insensível, ‘matando’ Adalgisa…”

“Eu não aguento mais Adalgisa!”

“Duvido que tenha ‘matado’ Adalgisa de verdade.”

“Minha avó se chama Adalgisa.”

“Minha tia se chama Adalgisa.”

“Eu me chamo Adalgisa.”

“Descobri! Você é Adalgisa!”

“Marceu, você é filho do Marceu Vieira que escrevia no ‘Jornal do Brasil’?”

“Marceu, você se chama Marceu mesmo ou é nome artístico?”

“Marcel, adorei a crônica do Suplicy, ele é um grande brasileiro.”

“Marceau, Suplicy é patético. Aliás, Marceau, você também foi ao escrever isso…”

“Você é homem ou mulher? Já perguntei, você não respondeu.”

“Por que você não responde se blog dá dinheiro? Insisto, dá ou não dá?”

“Troca isso!” (o Sujinho)

“Não troca!” (o Sujinho)

“Vende isso!” (o Sujinho)

“Quem vai comprar isso?” (o Sujinho)

“Dá isso!” (o Sujinho)

“Quem vai querer isso? Nem dado!” (o Sujinho)

“Publica uma foto dele!” (o Sujinho)

“Perseu, cadê a crônica sobre a escola sem partido?”

“Você torce pra que time em Pernambuco?”

“Entrevista de novo a memória do Brizola, por favor, e pergunta pra ele sobre o Temer! Falta um Brizola pra esculhambar esse Temer!”

“Falta uma crônica sobre o Bip Bip…”

“Quando você criou o blog, eu pensei: pronto, vai ele escrever sobre esse boteco Bip Bip e sobre aquele dono antipático, o tal Alfredo…”

“Alceu, algum cantor ou alguma cantora de sucesso já gravou música sua?”

“Morro Agudo existe ou é ficção?”

“Narceu, duvido que errem tanto seu nome assim. Deve ser brincadeira sua.”

“Márcio, você poderia me passar seu telefone?”

“Você é velho?”

“Você é jovem?”

“Você picha a Globo, mas trabalhou no Globo. Explique-se.”

“É verdade que foi você quem levou as expressões ‘saliência’, ‘tem culpa eu?’, ‘danadinho’ e ‘fofo’ pra coluna do Ancelmo Gois? Você também é isso, viu? Hi hi hi…”

“Li em algum lugar que tem um Marceo Vieira na equipe de criação do novo programa do Marcelo Adnet. É você, Marceo?”

*   *  *  *

Obrigado.