Sobre uma flor que brotou no Maracanã

De tudo que foi dito sobre a bonita cerimônia de abertura dos Jogos do Rio, no Maracanã, talvez só tenha faltado uma reverência à  escolha do poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, lido por Fernanda Montenegro, com direito a versão em inglês.

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta”, começa o cortante poema de Drummond, que, de certa forma, batiza o livro “A rosa do povo”, publicado em 1945. “Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: não, o tempo não chegou de completa justiça”, prossegue o poema.

Drummond, que jamais quis se candidatar à Academia Brasileira de Letras e seria enredo da Mangueira em 1987 sem nunca ter pisado na Marquês de Sapucaí, tinha 43 anos quando escreveu esses versos.

Com a dura ternura que fez dele o poeta maior de seu tempo, o mineiro Carlos Drummond de Andrade, ao longo da vida toda, foi capaz de manter intacta a sua postura carrancuda e ao mesmo tempo doce. Comportou-se assim até morrer de amor em 17 de agosto de 1987, a mês e meio de completar 85 anos de idade e 12 dias depois de perder a única filha, sol da vida dele, Maria Julieta, vitimada por um câncer.

Drummond era um comunista independente de partidos. Flertou com o velho PCB e dele se afastou pouco depois de publicar “A rosa do povo”.

“Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”, ele ainda escreveu no pungente “A flor e a náusea”.

“Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor.”

Setenta e um anos depois de “A rosa do povo”, e a duas semanas de se completarem 29 invernos da morte de amor de Drummond, o Brasil deve agora a Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas, diretores da cerimônia de abertura dos Jogos – ou a alguém da equipe deles -, a exposição ao mundo todo de um dos poemas mais belos da língua portuguesa. Senão o mais belo.

A declamação de “A flor e a náusea” por Fernanda Montenegro cobriu de glória, se algo ainda faltava pra isso, o espetáculo do Maracanã. “Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O contundente manifesto de Drummond, com sua pregação de um tempo mais justo, foi concebido num mundo que saía da Segunda Grande Guerra dividido entre os devotos do capital e os fiéis na possibilidade da partilha da propriedade e dos bens de consumo. O poeta escolheu o lado dele.

Os homens involuíram e evoluíram muito de lá pra cá. Drummond morreu desencantado com o comunismo partidário, mas continuou adversário do poder do capital e de seus propagadores, que passaram a comandar a Terra. Não viu a queda do Muro de Berlim, em 1989, nem a dissolução da União Soviética, em 1991.

Não parecia apoiar uma coisa nem outra, mas também não se alinhava com o lado ocidental do Muro. Tampouco aderia às cartilhas de quem via por trás da “Cortina de Ferro” os grandes inimigos da segunda metade do século 20.

O poeta se manteve digno e gaio, como o personagem de um outro bonito poema seu, “O mito”, e seguiu assim até o último suspiro, em sua morte de amor. A prova pôde ser vista, ou ouvida, no Maracanã, na declamação do seu “A flor e a náusea”.

A mensagem do seu poema, se já era eterna, chegou ao Olimpo na abertura dos Jogos do Rio, num espetáculo de beleza imensa e inesquecível e comovente, e redentor e arrefecedor do maldizer da cidade neste momento em que o Rio recebe as primeiras Olimpíadas realizadas no mundo pobre.

A interpretação do Hino Nacional por Paulinho da Viola ao violão, acompanhado de pequena formação de cordas; a evocação dos grandes compositores de samba que se já se foram, feita por Wilson das Neves; a apresentação de Caetano e Gil com a funkeira Anita, como numa exaltação à diversidade nos versos de Ary Barroso; Zeca Pagodinho e Marcelo D2 também unidos nas suas diferenças; o poder do “Canto de Ossanha”, de Vinicius e Baden Powell, na voz infinita de Elza Soares; a “Garota de Ipanema”, do mesmo Vinicius e de Tom, reencarnada na formosura de Gisele Bündchen; o “país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”, anunciado por Jorge Benjor e Regina Casé; as projeções; as danças; os desfiles dos atletas; e, por fim, a apoteose em que as sementes florescem como em “A rosa do povo” – tudo pareceu descrever o país diverso e misturado e igual e comum sonhado por Drummond em seu poema.

Até a vaia legítima e educada a Temer pareceu parte do roteiro. Legítima, porque ele merece ser vaiado. Educada, porque o público não xingou o interino como havia feito com Dilma, no Itaquerão, na abertura da Copa, em 2014, quando, desabrida, parte da plateia mandou tomar naquele lugar não apenas a presidente da República eleita de forma legítima, mas uma mulher digna, uma mãe, uma avó, e não importa qualquer descalabro cometido por outros de seu partido.

Os Jogos do Rio começaram muito bem. Trouxeram de novo a esperança que Drummond tentou disseminar com a flor do seu poema. A flor teimosa e feia, que furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio – e, tanto tempo depois, ressurgiu fulgurante no Maracanã.

*  *  *  *

A flor e náusea

(Carlos Drummond de Andrade)

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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