Marta, Rafaela, Mayra, Simone Biles e a cidade-mulher de 2016

Muitos compositores fizeram músicas em homenagem ao Rio, cidade sem igual no mundo, contraditória pela própria natureza, cidade bela e aviltada, imprensada entre o mar e a montanha sangrada pela favela desassistida, cidade da alegria carnavalesca e do insondável na virada da esquina, cidade das mãos pro alto na alegria de um gol no Maracanã e das mãos ao alto – é um assalto! – na saída do estádio.

Cidade que, como nenhuma outra, rima amor com dor.

Gilberto Gil cantou “alô, alô, Realengo, alô, torcida do Flamengo”, e disse que nosso querido vale de risos e lágrimas “continua sendo”. Caetano Veloso saudou “o tempo de estio”, com suas “Solanges e Leilas, Flávias e Patrícias, Sônias e Malenas”, e anunciou seu desejo de ter nossas meninas.

Tom e Vinicius, em seu “Samba do avião”, diziam que a alma deles cantava ao ver o Rio de Janeiro. Chico Buarque falou do “Rio de ladeiras, civilização, encruzilhada”, em que “cada ribanceira é uma nação”.

André Filho, com sua “Cidade maravilhosa”, coração do Brasil, doou um hino oficial aos cariocas. Ismael Neto e Antônio Maria compuseram “Valsa de uma cidade”, declaração de amor sem tamanho à terra que os acolheu.

Já Noel Rosa, na brevidade de sua existência, manteve um intenso caso de amor com o Rio e muito cantou a sua Vila Isabel, o Estácio e até mesmo a Penha. Mas Noel fez mais. Criou “Cidade-mulher”.

Marchinha gravada no carnaval de 1936 por Orlando Silva e as Irmãs Pagãs, Rosina e Elvira Pagã, “Cidade-mulher” foi escrita pelo Poeta da Vila pra ser tema de um filme do mesmo nome, de Humberto Mauro, lançado naquele verão de 80 anos atrás.

Pois agora, 80 anos depois daquele carnaval, exigiu o destino, com seus caprichos, que o Rio merecesse ser chamado de novo, e talvez como nunca, de cidade-mulher. Tem sido delas, as mulheres, o protagonismo destes Jogos Olímpicos.

Das piruetas perfeitas e cheias de graça da pequenina ginasta norte-americana Simone Biles ao heroísmo sem medida da nossa Rafaela Silva, campeã do judô e da vida, que tocou pra sempre o coração coletivo do Brasil com seu choro copioso no pódio, tudo aponta pra uma Olimpíada feminina nesta cidade-mulher.

As lágrimas de alegria que, ao som da “Marselhesa”, também lavaram o rosto da francesa Émilie Andéol, outra campeã no judô; o desabar de tristeza de Jade Barbosa em pleno tablado na final da ginástica; a obstinação da ciclista Flávia Oliveira com seu sétimo lugar, histórico pro Brasil; as braçadas da americana Katie Ledecky e da húngara Katinka Hosszu em busca do trono que, entre os homens, parece ser pra sempre do multicampeão e ídolo multinacional Michael Phelps; os gritos de “Marta é melhor que Neymar”; o bi no bronze de Mayra Aguiar no tatame; o dom da maternidade que permitiu a Isabel, do vôlei, e Hortência, do basquete, darem um filho cada uma aos Jogos em casa; Gisele Bündchen atravessando a passarela do Maracanã na festa de abertura, onde também brilhou Elza Soares; as meninas do handebol; as do vôlei na quadra e na praia; as outras e as outras e também as outras, tantas outras – quase todo o protagonismo de 2016 parece mesmo ser delas, as mulheres.

O pênalti perdido por Marta no mata-mata contra a Austrália, e o desfecho corrigido pela bárbara Bárbara, nossa goleira no futebol feminino – ou pelos deuses, ou pelas deusas, que nos protegem -, tudo faz crer, tudo mesmo, que estas Olimpíadas são delas.

As luzes foram na direção das mulheres até mesmo no lado oposto ao da glória. Nesse lado, mais habitado por homens do que por elas, a goleira norte-americana Hope Solo, moça bonita toda vida, alimentou polêmica ao publicar nas redes sociais a foto de seu kit de viagem ao Brasil (dezenas de repelentes, máscara e inseticidas contra o mosquito da zika).

Eliminada, Hope está voltando pra casa com seu arsenal antiaedes, depois de ouvir o coro de “zika, zika, zika” nos estádios, a cada gol tomado.

O Rio é assim. Como uma mulher muito bela que todos amamos, não importa o gênero de cada um de nós, a cidade volta e meia nos faz tristes com suas grandes e pequenas tragédias, quase cem por cento das vezes causadas por seres masculinos, mas, em seguida, nos embevece com seus encantos – estes, quase todos femininos.

Esta cidade-mulher, como escreveu Noel Rosa, “tem mais doçura que uma ilusão” – e é ainda “maior que o paraíso, melhor que a tentação”. Cidade das belezas mil, a que ninguém resiste, capaz de transformar até melancolia e desapontamento e desamor em samba.

“Cidade de flores sem abrolhos/Que encantando nossos olhos/Prende o nosso coração”, assim descrita ainda na exaltação de Noel. “Cidade padrão de beleza, foi a natureza quem te protegeu./Cidade notável, inimitável, maior e mais bela que outra qualquer./Cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher.”

As Olimpíadas, com sua grande porção feminina, parecem ter reconciliado o Rio com os brasileiros. Que tanta paixão perdure.

E como costuma dizer Flávia Oliveira – agora não a ciclista, mas a querida jornalista – sigamos.

*   *   *   *

Cidade mulher

(Noel Rosa)

Cidade de amor e aventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão

Cidade mais bela que o sorriso,
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção

Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável,
Inimitável,
Maior e mais bela que outra qualquer.
Cidade sensível,
Irresistível,
Cidade do amor, cidade mulher.

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar

Cidade do céu sempre azulado,
Teu Sol é namorado
Da noite de luar

Cidade padrão de beleza,
Foi a natureza
Quem te protegeu

Cidade de amores sem pecado,
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu

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3 comentários sobre “Marta, Rafaela, Mayra, Simone Biles e a cidade-mulher de 2016

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