O voo de Thiago e os caprichos do ‘quase’ nos Jogos do Rio

O inesperado desequilíbrio na trave que tirou da menininha norte-americana Simone Biles a sua quarta medalha de ouro nos Jogos do Rio mostrou como é pequena a distância entre ganhar e perder. No esporte e na vida. Mostrou, sobretudo, como é insondável o papel do “quase” na História.

O “quase” não é protagonista de nada. Só raramente é lembrado depois que os acontecimentos passam – e, apesar disso, nos breves segundos em que atua, volta e meia, torna-se o coadjuvante malvado que determina o desfecho das coisas, às vezes de um sonho.

Simone desembarcou no Rio com a expectativa de conquistar cinco medalhas de ouro. Na sua graciosa caminhada rumo a este Olimpo, que parecia certo, ganhou o coração da gente, mas perdeu a quarta medalha pro “quase”.

O “quase” surge nas histórias só pra ser o que é – um “quase”. Nunca chega a estrela. Nem mesmo naqueles flagrantes disseminados na internet, em que um velhinho atravessa uma rua e quase – quase! – é atropelado por um bonde. O “quase”, nesse caso, é só a “escada” do ator principal, o velhinho.

O velocista Justin Gatlin, compatriota de Simone Biles, foi outra vítima do “quase”. Maior rival do jamaicano Usain Bolt, Gatlin treinou com esmero os últimos quatro anos na esperança de bater o arquirrival no Rio. Liderou a prova dos 100 metros até o último segundo, quando o “quase” entrou na pista e devolveu a glória a Bolt por oito centésimos – 9s81 contra 9s89.

O “quase” é isso. São os oito centésimos que parecem pouco, mas são determinantes na construção da posteridade. O passe errado que foi cair nos pés de Paolo Rossi, da Itália, na Copa de 1982, por exemplo, não foi Toninho Cerezo quem deu. Foi o “quase”. O pênalti perdido contra a França, no Mundial de 1986, não foi culpa do Zico. Foi do “quase”.

Agora mesmo, nos Jogos do Rio, o brasileiro Arthur Zanetti era um dos dois favoritos ao ouro nas argolas. Seu grande adversário era o grego Eleftherios Petrounias. Nosso ginasta fez tudo certo até a saída do aparelho. Naquele momento, o “quase” subiu no colchão de amortecimento, deu uma cutucada no Zanetti e o fez dar um pulinho pra frente.

O garoto brasileiro ficou com a honrosa medalha de prata. Se não fosse o “quase”, teria levado a de ouro.

Assim também é na História da humanidade. Por obra exclusiva do “quase”, Napoleão não nasceu na Itália. Natural da Córsega, ilha entre o sudeste francês e o noroeste italiano, teria sido compatriota de Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Dante Alighieri se o lugar onde veio ao mundo não tivesse sido repassado à França um ano antes do 15 de agosto de 1769, data do nascimento dele.

Com 274 anos de atraso, a Córsega foi transferida pelos italianos aos franceses, em 1768, em obediência ao Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Ou seja, se a História esperasse só mais um ano, Napoleão seria italiano e talvez nem fosse militar – e nada do que aprontou no mapa europeu teria acontecido, e a família real portuguesa, quem sabe?, nem se transferiria pro Brasil. Caprichos do “quase”.

Gandhi quase conseguiu impedir a divisão entre Índia e Paquistão. Se tivesse conseguido, os indianos poderiam ter hoje mais habitantes que a China – e o crescimento do islamismo na Ásia talvez tivesse sido menos intenso.

Pelé quase marcou o gol 1.000 contra o Bahia, em Salvador, no dia 16 de novembro de 1969. O jogo estava 1 a 1 e caminhava pro fim. O camisa 10 do Santos chutou com o goleiro já batido e, quando a bola já ia entrando, já ia entrando, já ia entrando… o “quase” invadiu o campo e fez o zagueiro baiano Nildo salvar em cima da linha.

Contam que até a torcida do Bahia ficou revoltada e, injustamente, vaiou seu zagueiro. Injustamente porque a culpa não foi do Nildo. Foi do “quase”. 

Se a bola tivesse entrado, o Maracanã não teria tido a glória do milésimo gol do Rei, marcado de pênalti sobre o Vasco, logo depois, no dia 19. Esse teria sido o 1.001 – e ninguém falaria dele. Seria só o gol “quase”.

Aliás, o maior momento de protagonismo do “quase” talvez seja a trave. Não a de Simone Biles, mas a do futebol mesmo. No entanto, até aí o estrelato do “quase” é efêmero. Tão efêmero que, um dia depois do jogo, já não se lembra dele – só da bola que entrou.

O “quase” também faz bagunça na política. Leonel Brizola quase derrotou Lula na disputa pela vaga no segundo turno contra Fernando Collor, em 1989. Teve 16,5% dos votos, contra 17,1% do petista. Perdeu pro “quase” no último minuto da prorrogação. Se tivesse vencido, talvez derrotasse Collor – como saber? -, e tudo depois seria diferente.

Mas é no esporte que o “quase” mais age e intriga e é especialmente vil, cruel e vilão. Sobretudo, com os atletas do salto em altura. O herói brasileiro Thiago Braz, novo recordista olímpico da modalidade, voou 6,03m pra tomar a medalha de ouro do favorito francês Renaud Lavillenie.

O “quase” derrubou o sarrafo nos saltos de todos os outros competidores e foi o grande adversário de Thiago na sua conquista. Mais do que vencer Lavillenie, o brasileiro derrotou o “quase”.

Nascido num país em que, ao contrário da França, o esporte não é política de Estado, Thiago precisou vir derrotando o “quase” desde criança. Abandonado pela mãe, o menino de Marília, São Paulo, foi criado pelos avós e precisou duelar muito com os desfavores da vida simples pra se tornar um atleta, numa trajetória iniciada aos 14 anos de idade. Faz oito anos isso. Hoje ele só tem 22.

Enquanto isso, Lavillenie, lá na França, deve ter enfrentado bem menos as maldades implacáveis do “quase”. Moldado desde bem miúdo em sua escola pra se tornar o grande atleta que é, chegou ao Rio como favorito.

Até que o “quase”, na noite chuvosa do Engenhão, desmanchou os prognósticos e as estatísticas.

É ele, o “quase”, que desarruma os caminhos e atrapalha o balé de mitos como Simone Biles na trave da ginástica. É ele que, às vezes, conspira contra a última braçada na piscina e impede o ippon numa final de judô perdida por um yuko.

Vencer é superar o “quase”. Thiago conseguiu.

*    *    *    *

Ainda o quase

Depois da crônica publicada, o “quase” aprontou mais uma – desta vez, com o Brasil, na semifinal do futebol feminino.

Não foram Andressinha e Cristiane que perderam pênaltis. Nem foi Bárbara que não segurou a última cobrança das suecas. A culpa foi do “quase”.

Nossas meninas do futebol são muito maiores que o “quase”. Foram brilhantes e, nem importa o resultado da disputa pelo bronze, já merecem nossa admiração.

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6 comentários sobre “O voo de Thiago e os caprichos do ‘quase’ nos Jogos do Rio

  1. Permita´me um chiste : dois acontecimentos narrados merecem um pequeno comentário: 1. O penalty perdido por Zico não foi determinante na derrota da seleção brasileira em 86 ; na decisão por penalties, Zico marcou o seu e Platini e Sócrates perderam os que cobraram e a sorte ( ou o quase fatídico ) veio com o “quase” do zagueiro Júlio Cesar, que bateu o seu na trave, na última e decisiva cobrança. 2. A falha da Simone Biles foi bem maior do que a julgada pelos árbitros, que lhe concederam uma nota muito mais alta do que merecia, após o grave desequilíbrio que apresentou, equivalente a uma queda, que merecia um desconto muito maior. A medalha de bronze correspondeu ao “quase” para a atleta quarta colocada e para a Flávia Saraiva, cujos desequilíbrios muito menores mereceram maior severidade dos juízes. Isso sem falar na possibilidade de Brizola vencer Collor….Minas, São Paulo e Paraná rejeitariam severamente o grande político gaúcho, e Lula , quase foi eleito em 89, não fosse a manipulação odienta feita pela Globo nos noticiários ( como hoje ) e no último debate. Mas nada disso quase tira o imenso brilho das suas crônicas, inclusive esta, que são uma notável exceção no meio da execrável produção jornalística dos dias de hoje. Desculpe-me a ousadia dos comentários e reafirmo que aguardo com uma quase impaciência a próxima crônica que leio sempre com admiração e deleite. Felicidades Redson Mello

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  2. O quase é uma benesse Divina para os ¨quase perfeitos¨. Conduz à reflexão de que seriamos perfeitos se não existisse o quase. Contém a vaidade e a prepotência quando entendemos que vale sempre a pena fazermos o nosso melhor , o que não torna obrigatório o resultado máximo esperado. O quase é contenção de emoções, é merecimento. Nos protege e ajuda quando o entendemos e aceitamos.

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  3. PARABÉMS AOS BRASILEIROS MEDALHISTAS , QUE CHEGARAM AO PÓDIO , COM SEU PRÓPRIO ESFORÇO E POUCOS RECURSOS.HÁ DÉCADAS ESSE FENÔMENO SE REPETE. O ESPORTE DEVE SER OBRIGATORIAMENTE MATÉRIA DE CURRÍCULO ESCOLAR, EM TODOS OS NÍVEIS. E ASSIM QUE PROCEDEM AS NAÇÕES QUE LIDERAM O RANKING DE MEDALHAS. MUITA GENTE FATUROU ALTO COM ESSE EVENTO. ESPECIALMENTE OS EMPRESÁRIOS. QUE NADA FAZEM PELOS COMPETIDORES.OS NOSSOS GOVERNANTES ÍDEM. FOI BOM PARA AS EMPREITEIRAS , GOVERNOS E OS ATLETAS QUE ROAM O OSSO DO FILÉ. cERTO ESTAVA O BEKEMBAUER JOGADOR DA SELEÇÃO ALEMÃ QUE DISSE: ESSE TIPO DE FESTA NÃO PODE SER REALIZADO EM PAÍS COM PROBLEMAS SOCIAIS IGUAIS AOS NOSSOS. OS ESCÂNDALOS IRAõ pipocar a qualquer momento AGUARDEM……

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