Sabe o Mário?

A imagem do primeiro-ministro japonês fantasiado de Mario Bros na cerimônia de encerramento dos Jogos do Rio pareceu servir como um despertador gigante pra acordar a gente do sonho da cidade perfeita.

Tudo estava tão bonito, tão lúdico, tão VLT sem fila, tão amor correspondido, até que surgiu aquele personagem descombinado pra misturar política onde só deveria haver arte e avisar: “Ei, meninas, ei, meninos, acabou.”

A vida também é assim. Chega um momento em que um Mario Bros qualquer aparece e diz que a festa acabou – e aí as visitas vão embora e a gente precisa limpar a casa e lavar a louça e retomar as coisas. É assim também quando vínculos que pareciam eternos se desfazem, e uma nova ordem se instala e nos obriga a reinventar o caminho.

Chega o instante em que a existência de alguém querido se esvai num sopro, por exemplo – e a necessidade de seguir em frente não consola nem conforta, mas, de certo modo, redime e impulsiona. Ou aquela hora em que o amor se desintegra como escultura de areia na mão, e só resta recomeçar.

O Mario Bros da cerimônia no Maracanã, se pecou na falta de gosto, serviu ao menos pra isso. Pra nos lembrar do dia seguinte.

É hora de lavar a roupa largada há dias na cesta, de encomendar a moldura pra foto tirada com o Usain Bolt e de pensar no almoço de amanhã e planejar a janta de logo mais e mandar plastificar o autógrafo da Simone Biles.

É hora de aquele voluntário guardar protegido no seu baú de relíquias o prendedorzinho de cabelo tão cheio de significados que talvez a holandesinha Sanne Wevers, medalha de ouro na trave, tenha deixado cair no chão.

Hora de consertar o telhado desfeito pela ventania de ontem e reparar os danos causados por aquela outra tempestade que soprou há mais tempo e teimou em desorganizar os passos e rearrumar os sonhos e acordar pesadelos e refazer o futuro sem decifrar o passado.

Hora de o Flamengo voltar a jogar no Maracanã, de o Botafogo reaver o Engenhão e de experimentar a possibilidade de trancar no pensamento tanta lembrança e limpar os armários e trocar as fotos da cortiça. Hora de conhecer mais gente e sobreviver e amanhecer e anoitecer e dormir e acordar e fazer tudo diferente amanhã e depois de amanhã e depois também e depois e depois.

Hora de sentir saudade da glória breve e eterna de heróis de todos e de si próprios, como a Rafaela Silva e o Thiago Braz, ou o Robson Conceição e o Izaquias Queiroz. Hora de deixar curtir na memória a generosidade do Michael Phelps ao fazer do Rio o cenário da despedida dele das piscinas, e pensar mais uma vez na vergonha que é a Baía de Guanabara imunda.

É hora de esquecer quem já foi embora da festa faz tempo, embora ainda acreditássemos que não, que só era um rosto desfocado no salão cheio e voltaria pra nos convidar a mais uma dança. Dia de esquecer quem nos esqueceu e preferiu retomar seu passado pra fazer dele a opção do seu futuro.

Hora de perdoar mentiras, dissimulações, traições furtivas que já não contam, cobranças falsas, promessas sem sentido, juras sem lastro. Pôr fora o dominó que não coube, relevar as peças pregadas pelas doenças do amor.

Hora de aproveitar os novos presentes dados pela vida e encerrar o luto do vazio deixado pelas coisas que ela, a vida, caprichosa, trouxe e levou embora em seguida. De dar de ombros pra quem pôs as aspirações do outro no lixo com um simples gesto desatinado e desvairado.

Hora de pensar de novo em nós mesmos, nativos desta cidade, agora sentados sozinhos no banquinho do Boulevard Olímpico já sem a pira acesa e sem cobertura ao vivo de TV. Sem policiamento diligente e sem a multidão em volta.

Lá se foi o sorriso da moça estrangeira bonita, que, ainda há pouco, estava bem ali, ao alcance dos meus olhos pidões.

A boa lembrança é sempre um legado deixado ao recomeço, a qualquer recomeço – e o aumento do número de cariocas no mundo talvez seja a maior herança lúdica dos Jogos do Rio. Bolt foi embora carioca. Simone Biles partiu carioca. Phelps levou o Rio no coração e deixou um pedaço do dele aqui.

É a melhor maneira de as pessoas partirem das nossas vidas – quando levam no coração um pouco do nosso coração, ao mesmo tempo em que deixam batendo no peito da gente um pouco do pulsar do peito delas.

O carioca nunca teve complexo de vira-lata. Isso é uma invenção boboca em que muitos já acreditamos. O Rio nunca teve este sentimento – e nunca teve porque é grande, e este pensamento, pequeno. Desde Estácio de Sá, o Rio nunca se sentiu assim. Desde que os portugueses expulsaram os franceses em 1567 com a ajuda dos nossos irmãos índios, o Rio jamais teve este complexo.

Esta cidade é maior e mais bonita que o Eduardo Paes de chapéu eleitoral na festa do Maracanã. Maior que a mentira do Ryan Lochte e de sua trupe de nadadores arruaceiros. Passou, deixa pra lá.

O Rio é mais intenso e mais merecedor de felicidade que o tamanho da pena imposta a Dilma, exilada da festa feita com dinheiro federal após ser condenada pelo erro cometido por seus iguais de partido num julgamento no qual, goste-se ou não dela, o crime analisado nem era este.

É maior que a vaia provável e merecida que o Temer levaria de novo se ali aparecesse.

O Rio é amoroso e cruel, injusto e democrático, plural e único, verdadeiro e de cinema com seus espigões dispostos no tabuleiro urbano entre o mar e a favela – e deste jeito continuará sendo. Esta talvez seja a única cidade do mundo que sorri envaidecida apenas por lembrar que ela é ela.

Assim somos. Assim seremos sempre.

Sabe o Mário?

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5 comentários sobre “Sabe o Mário?

  1. Existem umas poucas razões para não se ler o Marceu. A principal, óbvio, é desconhecer que ele exista. Porém, uma vez que se saiba de sua existência, uma vez que se tenha dado uma mera olhadinha em uma ou duas de suas crônicas, não passar a lê-lo com certa regularidade talvez revele que o melhor de nossos atributos humanos terá se perdido.

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