Plantas que Temer esmaga com os pés no quintal

De todas as maldades cometidas até agora pelo governo transitório do Temer, uma que não deu o menor ibope, e aconteceu silenciosa, sem ninguém dar bola pra ela, foi feita contra o Geraldo do Norte, o Poeta Matuto.

Na verdade, não foi feita. Ela segue. Continua em curso. Geraldo, pra quem não sabe, é um versador nordestino, nascido em Parelhas, no Rio Grande do Norte. Pobre, negro, sertanejo, chegou ao Rio de Janeiro em 1982, aos 23 anos de idade, e foi trabalhar em obra.

Eu o conheci no botequim Bip Bip, nos anos 1990, onde ele chegou, se não me engano, levado pelo Adelzon Alves, o radialista querido que tanto faz pela cultura do Brasil. No boteco de Copacabana, altar do samba e do choro no Rio, Geraldo calou o coração da gente com seus versos e sua contundência brasileira.

Geraldo se tornou fã do Adelzon ainda menino em Parelhas. Ouvia o ídolo no rádio e sonhava conhecê-lo. No Rio, depois de uma baldeação na Bahia, criou coragem e bateu no estúdio do “Amigo da madrugada”. Pediu pra mostrar seus versos, conquistou o apresentador com seu talento e, de fã, logo virou amigo.

Suas participações quase diárias no programa do Adelzon, naquela época, tornaram o Geraldo conhecido e reconhecido no lado B da indústria cultural. Tão conhecido e reconhecido que acabou ganhando um programa só dele, na mesma Rádio Nacional do Adelzon, já na Era Lula, em 2004.

O programa do Geraldo se chama “No Tabuleiro do Brasil”. Vai ao ar, em rede nacional, de 3h às 6h da manhã, ao vivo, e distribui a quem ouve a brasilidade imensa da arte nordestina – do repente à moda de viola, do cordel ao baião, do xote ao maracatu, do coco à embolada, da poesia falada à poesia cantada.

Aliás, se nada acontecer que reverta isso, o programa dele não se chama “No Tabuleiro do Brasil”. Chamava-se. Nem vai ao ar das 3h às 6h da manhã. Ia. Tampouco leva a arte nordestina a qualquer lugar. Levava. Porque o Geraldo foi arrancado da grade da Rádio Nacional na tsunami do golpe que anulou o resultado da eleição de 2014.

O contrato do Geraldo do Norte acabou e não foi renovado pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), controladora da Rádio Nacional. Sucumbiu na mesma leva que ameaçou tirar o Adelzon do ar, atropelado pela nova ordem instituída com a chegada do pessoal do Temer à EBC.

Temer, na sua desimportância original, entrou na política pela porta lateral, sem o Brasil reparar. Fez-se conhecido na carona dos acontecimentos e deve sair dela como entrou, daqui a um tempo. Mas não sem antes esmagar plantas no quintal pelo caminho, como neste caso sem glamour do Geraldo.

Geraldo do Norte, o Poeta Matuto, emprestava à Rádio Nacional um enraizamento brasileiro que, agora, nestes tempos difíceis, parece se perder. Uma grande pena.

 

 

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7 comentários sobre “Plantas que Temer esmaga com os pés no quintal

  1. Em tempo:
    A participação popular é muito importante nesse momento:
    Não devemos votar em candidatos de partidos que apoiaram o golpe (PSDB, DEM, PMDB, etc…) devemos vaira e chamar de golpista todos os membros do governo e políticos de Temer que se apresentarem em público, como fizeram com o ministro da Cultura em Petrópolis http://www.jb.com.br/pais/noticias/2016/09/03/ministro-da-cultura-e-chamado-de-golpista-em-festival-de-petropolis/

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  2. Marceu deixo aqui o comentário em nome da Rádio Viva o Samba. Você explicitou muito bem a realidade de Geraldo do Norte e a amputação que acontece nesse momento com a nossa cultura.
    Vamos juntos lutar para que fatos codmo esse revertam. Volta Geraldo.
    Vamos mandar e-mail e lotar a caixa postal da ouvidoria da EBC pedindo a volta do Poeta Matuto com o seu Tabuleiro rechead de cultura.
    o e-mail é: ouvidoria@ebc.com.br

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  3. Com a emoção ainda na garganta, escrevo para dizer que a demissão do Geraldo justifica acrescentar mais um veemeente “Fora, Temer” a todos os outros que já berrei por aí.
    Primeiramente, pela pessoa. Geraldo é um ser humano único pela gentileza e doçura. Único.
    Depois, pelo talento. Sua poesia rústica mexe com nosso centro de gravidade.
    Por último, pelo programa. A direita decididamente não quer um povo que se identifique e se orgulhe de suas raízes.

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  4. Michel Temer é um cadáver insepulto, vai acabar seus resto de vida na amargura, pelo mau que praticou, vai implorar pra morrer, e a morte o dirá; viva para que saiba, e tenha consciência do que fizeste e praticou, é um mau imperdoável, viverás contigo até o fim, não escapa, viverás a agonia. “Como um toureiro espetar o touro antes do golpe final”.

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