A Flor, a Florzinha e o menino que vai ser avô

Outro dia, a filha mais velha dele pediu alguns minutos de atenção no meio das pressas dela, no meio das pressas dele, no meio de tantas pressas de ambos, porque queria contar algo muito importante. Aí o mundo parou.

Uma ansiedade esquisita, talvez ancestral, se apoderou dos gestos dele, e todos os seus órgãos pareceram imóveis, paralisados, à espera do que ela, a filha, iria dizer.

Pra ele, um dos seus três filhos anunciar que tem algo muito importante a contar é um sinal vermelho aceso pro restante das coisas. Tudo estanca e tudo se interrompe e nada mais reúne qualquer relevância enquanto ele não souber o que é.

Porque a maior urgência do mundo, ele acredita, é o que for urgente pra um filho. Por menor que seja a urgência – uma coceira no queixo, dois reais pra um copo de mate, um desabafo, uma necessidade miúda, qualquer coisa. E os filhos dele pedem tão pouco, tão pouco.

Ele é desses caras que insistem na juventude. Não como quem se comporta como um adolescente de 50 anos, mas de um modo mais grave e permanente, e alheio à idade e aos gostos e ao jeito de se vestir, enfim, ele insiste na juventude como quem sempre acredita que ainda haverá algo a acontecer.

Ele se sente um insistente na juventude mais ou menos como o alter ego do Aldir Blanc, o seu querido Aldir, naquele samba-canção feito em parceria com o Cristóvão Bastos.

“O filme da vida não quer despedida
E me indica: acha a saída
E pede socorro onde a lua
Encanta o alto do morro
E gane que nem cachorro
Correndo atrás do momento que foi vivido”

Ele, então, respirou mais devagar e esperou a notícia:

– Pai, é que você vai ser avô – ela disse, sem rodeios, e com a voz embalada no sorriso que ele reconheceria até de olhos fechados.

O mundo parou de novo. Ele, que ainda estava se acostumando com a ideia de ter trocado o papel de filho pelo de pai, sentiu as pernas bambearem e o ar sumir, e viu o filme da vida, que “não quer despedida”, passar inteiro num átimo pela cabeça.

Sua menininha era apenas uma bebê até outro dia, com seus cachinhos amarelos e sua boca e seus olhos iguais aos dele. Uma linda bebê que, quando chorava, estendia os braços e buscava seu colo. A menina frágil, de pele de flor e voz de anjo, a garotinha que, pra dormir, pedia uma canção a ele, ela, sua filha querida, vai ser mãe – e ele, levado pela tsunami de enorme acontecimento, será avô, o mais jovem de todos, como ele insiste em supor.

– Que lindo!! E seu namorado?! – ele quis saber, cuidando pra transmitir uma entonação feliz e não riscar com sua preocupação a tela de felicidade em que ela pintava seu segredo de filha pro pai.

– Que notícia maravilhosa! O que seu namorado achou, filha? – repetiu, com a mesma entonação feliz.

– Ele amou, pai! Ficou superfeliz!!!

– E você?!

– Eu tô feliz demais, pai!

A descoberta já era muito grande pra ele resistir a mais uma revelação, mas a menina de até ainda há pouco continuou – e ele resistiu:

– Pai, tem outra coisa…

– Diz! Hum…?

– É uma menina!

O mundo parou pela terceira vez em menos de dez minutos. Mais uma menininha na vida dele, além das duas que ele já tem, que vai chegar pra se somar também ao seu menino, agora um futuro tio ainda tão garoto.

Revelado o segredo, as palavras sumiram da sua boca, os olhos marejaram e ele se entregou a lembranças remotas do tempo de criança, no seu subúrbio distante e de importância tão particular, quando viveu com intensidade a alegria de ter o melhor avô do mundo – “o melhor avô do mundo!”, ele repetiu pra enfatizar a si mesmo essa certeza tão feliz.

Olhou-se no espelho como quem ainda teima em não se despedir da juventude, mas, dessa vez, num estalo, compreendeu a finitude das coisas e dele mesmo.

“Será que vou ser um avô como o que eu tive?”, perguntou-se, sem uma resposta possível pra se dar.

Mais uma vez, ele se lembrou de Eduardo Galeano, o jornalista, escritor e pensador uruguaio, que morreu em 2015 sem ter morrido, e nunca morrerá, e do seu “O livro dos abraços”. Numa das fábulas reunidas no livro, chamada “O país dos sonhos”, Galeano descreve “um imenso acampamento ao ar livre”, onde “por todas as partes havia gente oferecendo sonhos pra trocar”.

E a história de Galeano prossegue: “Havia os que queriam trocar um sonho de viagem por um sonho de amores. (…) E um senhor andava ao léu buscando os pedacinhos de seu sonho” (…) e “ia recolhendo os pedacinhos e os colava, e com eles fazia um estandarte cheio de cores”.

Ele se sentiu no papel do senhor recolhendo pedacinhos de sonhos no chão e colando tantos pedacinhos num estandarte colorido e alinhavado de boniteza, feito pra dar de presente à sua filha.

O futuro avô continuou se olhando no espelho e agora percebeu em sua expressão mudanças que há muito tinham se elaborado. Sua menininha, a sua Flor, como sempre a chamou, vai dar a ele uma Florzinha.

Concluiu que ter sido pai tão jovem tinha proporcionado a ele o privilégio de se tornar avô com idade pra ser pai da sua futura Florzinha.

E ele se perdoou de erros já absorvidos pelo tempo, e ele sorriu feliz, e ele sorriu de novo e de novo e uma vez mais – e, desde então, todos os seus pensamentos estão parados junto com o mundo.

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12 comentários sobre “A Flor, a Florzinha e o menino que vai ser avô

  1. A quatro anos tiver esta mesma sensação, um presente do meu filho com sua companheira, uma neta, aos 60 ano, uma vontade imensa nasceu em mim, para viver o bastante para vê-la adulta. Se pudesse veria todos os dias, para acompanhar seu crescimento. Da mesma forma usando suas palavras, as suas crônicas, me leva a um passado remoto; de uma tarde ensolarada, ou de um dia chuvoso. Uma nostalgia sem fim, comenos tristeza é claro!..

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