Rosa

Grato, primeiramente, ao improvável, ao imponderável, ao insondável, a seus sinônimos – todos eles -, que lhe permitiram tanta coisa. Ele, o moleque-índio nascido às margens da décima quarta estação do ramal Japeri da Central do Brasil.

Grato ao improvável que permitiu, sobretudo, que ele chegasse até aqui, desde lá, tão longe, tão perto, o paraíso e o purgatório, o lugar a que bem poucos ele já se concedeu apresentar.

Grato por não ceder. Por resistir. Por não se render. Por persistir. Grato por não se calar. Por desafiar. Por ter vencido e perdido. Pelo vagão do 33 lotado. Por segurar a fome por 15 horas. Pela cama dura da pensão do seu Juca. Pelo botequim do Aranha. Pelos bailes do Vasquinho de Morro Agudo. Pelo gols do Zico. Cada um deles. Todos eles. O Maracanã da infância tão cheio. O balé das bandeiras.

Grato à janta servida pela dona Penha. Aos almoços na mesma mesa do general Do Valle (será que era este mesmo o nome de guerra dele?)

Grato ao excesso de “quês” pontuados nas frases escritas pela vida. E grato pela partícula “que” ter sido até aqui tão amiga, um elemento eterno da ligação entre as palavras, os raciocínios, as pessoas, as paisagens, os fatos, as coisas, os versos. Grato por ter percebido, desde cedo, a sua importância.

Grato, primeiramente, a quem pensa primeiramente. Nas pessoas. Todas elas feitas de carne, de ossos, de realidade, de sonhos e pesadelos.

Grato à mãe; à madrinha e primeira professora; ao avô carpinteiro e marceneiro; aos amigos originais, todos eles, todos eles, todos eles de um Morro Agudo que não existe mais e, ainda assim, teima em existir. Teimará amanhã e depois de amanhã e depois e depois e pela vida eterna, amém.

E grato a todas as meninas que naquele mesmo Morro Agudo um dia olharam com seus olhos pra ele e acreditaram haver alguma especialidade naquele menino que elas viam.

Grato ao Bar-Te-Papo e por ele ter cantado na noite já aos 18. Agradecido à “Poesia na Praça”. Ao Dom Adriano Hipólito pela primeira comunhão e pela coragem primeira. À Igreja de São Francisco de Assis. Ao Padre Aloísio. À Primeira Igreja Batista de Morro Agudo. À Tenda Espírita Mirim. À Cabana de Umbanda Santo Antônio. À Nossa Senhora de Fátima. Às festas do vaivém, “gasta sapato, não come ninguém”.

Grato a tanta religiosidade desperdiçada, ou não, que resultou num sujeito agnóstico e ao mesmo tempo crente na existência da Nossa Senhora, a Maria Virgem, a mãe daquele sobre o qual quatro relatos coincidem. Crente também na Iemanjá e na Oxum e no Ogum e em todos os orixás que o protegem.

Grato aos amigos de hoje e de sempre.

Grato ao professor Ruy Capdeville, e como era mesmo que se escrevia o nome dele? Grato ao Iacs, ao Ichf, à Rua Lara Vilela, à professora Sônia, ao Moacy Cyrne, ao Antonio Serra, ao Muniz Sodré, à Maria Luíza Braga. Grato à escola pública que o levou até eles.

Grato ao Tarso de Castro por tudo, pelo começo, pela mão dada, pelo caminho mostrado, por ter omitido o perigo e por ter ordenado: “Vai!” E ele foi.

Grato ao José Trajano. Grato ao Joaquim da pesquisa da “Tribuna da Imprensa”, onde o único funcionário era ele mesmo, Joaquim. Grato ao antigo sobrado da Rua do Lavradio, esquina com Rua da Relação, no Centro Velho do lado mais velho do Rio de Janeiro dos seus amores.

Grato à Iza Freasa, que não é mais Freasa, agora é Salles. Ao Palmério Dória, ao Arthur Parahyba, ao Robertão Porto, ao Bertholdo Fabuloso, ao Napoleão, ao Aragão e a suas histórias sobre a Segunda Grande Guerra Mundial.

Grato ao Marcos Sá Corrêa, ao Ancelmo Gois – nós por ele, ele por nós. Grato pra sempre. Pra sempre. Pra sempre mesmo.

Grato à Condessa Pereira Carneiro, cujo fantasma o conduzia seis andares acima na Avenida Brasil 500. Grato, especialmente, à Avenida Brasil 500, que ainda o marca tanto. Marcará por todos os dias da vida dele.

Grato ao Rui Xavier pelos discursos sobre a inviabilidade humana. Ao Chico Paula Freitas pelos ensinamentos sobre a viabilidade. Ao motorista Francisco por sua gentileza e espera. Ao Chicão, ao Heitor, ao Luizão, ao Deene, a todos os motoristas-repórteres que ouviram até mesmo seu silêncio em viagens tão compridas ou tão curtas, mas sempre intensas e inesquecíveis em reportagens que ele nem sabe como conseguiu fazer. E fez.

A quem não desistiu dele e a quem desistiu e depois permaneceu, um agradecimento maior ainda. História escrita no coração não se apaga.

Grato à loucura e à beleza, tanta beleza, e pelo que poderia ter sido – mesmo que a dona desta gratidão, hoje já uma senhora de 50 anos ou quase, trancada em si mesma num manicômio, mesmo que ela nunca saiba disso. Provavelmente, ela não reconheceria o rosto dele. Provavelmente, ele não reconheceria o dela. Jamais voltaram a se ver.

À moça gaúcha do amor original doado a ele sem que ela soubesse, gratidão inesquecível. Os dois corpos suados, enlaçados, cheiros inaugurais da juventude que nunca sumiram da memória. Grato antes à Elza, a menina do peito que ela dizia crescer atrás de uma orelha… esquerda ou direita? Grato pelo rascunho do amor que ela lhe deu.

Grato às mães dos filhos, por tanto amor multiplicado nas existências de três criaturas melhores que todas as demais do mundo. Muito melhores, muito melhores. Seguirão no coração dele até seus olhos não se abrirem mais.

Muito grato ao Drummond e à sua poesia sem igual no século XX, a suas considerações filosóficas sobre a existência humana. Agradecido pelos desapontamentos das descobertas proporcionadas pela leitura e pela releitura de seus poemas. Exageradamente grato.

Grato ao Gabriel García Márquez e ao desejo de morar em seus livros. Ele pode? Poderá ainda no declínio inevitável da existência dele, pouco antes de morrer, quem sabe, quando finalmente lhe será assentido morar na casa ao lado à de Firmina Daza, numa meia-água pequena e sem luxo, diferente da mansão de Florentino Ariza?

Grato pelas desilusões. Pelo crescimento. Por ter dito não. Por ter partido e por só ter olhado pra trás pra dedicar saudade a quem, por impossível, jamais deixará mesmo de ser importante. Uma mulher. Ele a levará pra sempre dentro do peito. A mulher viva. A mulher inesquecível. Ela. A que custou a chegar e se foi de repente sem nunca ter ido. Jamais irá. Irá? Como se chamava mesmo? Adalgisa?

Grato pelo futuro. Rosa, grato. É pra você que ele escreve. Só pra você. Leia um dia. Prometa. É por você. Só por você. Grato pela semente plantada e pela flor que nascerá. Grato. Imensamente.

Por tudo. Pelo riso que hoje ele tenta fabricar. Pelo fazer rir que ele tenta aprender, além de tudo que já supunha saber e hoje suspeita nunca ter sabido. Grato. Muito grato. Muito. Muito.

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