O candidato dos sonhos

Esta crônica tem prazo de validade. Expira às 17h deste domingo, 30 de outubro de 2016, quando o Rio já terá escolhido seu futuro prefeito. Foi escrita pra ter apenas 24 horas de duração.

É o tempo que cada um dos 4.898.045 eleitores da cidade, belezura de cidade, onde nasceram Noel Rosa, Pixinguinha e tantos outros libertários, terão tido pra pensar em quem votar.

Em quem ou no quê – se no Freixo, no Crivella, na tecla “nulo” ou na tecla “branco”.

Pelo que as pesquisas dizem no tempo real em que a crônica é escrita, votar nulo ou em branco vai significar dar vitória ao Crivella. Porque o universo de votos válidos se reduzirá ao número de eleitores que terão optado por um candidato, e quem dos dois chegar na frente vai governar o Rio por quatro anos.

É preciso refletir. Por isso, é preciso refletir.

O candidato dos sonhos de muita gente, se existiu um dia, já morreu – e seu substituto ainda não surgiu. Talvez não surja nunca mais. Resta, então, pensar, se não na cidade dos sonhos, na cidade possível.

Na minha cidade possível, não cabe uma prefeitura comandada por alguém que decide meu futuro baseado na sua crença religiosa. Mesmo que esta crença fosse também a minha.

A administração da minha cidade possível será eternamente laica. Não comporta homofobia. Abomina preconceitos. Não se alia ao pior da política. É contra as milícias e a exploração da aflição do pobre. Deseja uma escola pública abrangente, que se abra pra todos e seja eficiente e capaz de criar consciência crítica em suas crianças.

Minha cidade possível tem hospitais que funcionam pra qualquer cidadão, independentemente do credo ou do gênero ou do transgênero de quem os procura necessitado de socorro.

É uma cidade livre pra se posicionar e gritar da janela de casa aquilo no que acredita. Uma cidade que jamais se curvará à ordem intrusa ou se permitirá servir de trampolim pra um projeto tresloucado de instalação do cacicado de uma igreja no Palácio do Planalto.

Na minha cidade possível, a composição do governo nunca será feita a partir de acordos com quem não reúna competência adequada pra gerir políticas públicas ou tenha apenas afinidades religiosas ou de conveniência com o prefeito.

Minha cidade possível é democrática. Muito democrática. Nela, pra sempre, eternamente, só os melhores ocuparão os cargos que vão projetar o amanhã de todos.

Não há intolerância na minha cidade possível. Só com a própria intolerância. E, claro, com o que fere o direito individual e a moral e a integridade física do outro – como a violência, como o preconceito contra gays, como a misoginia, como a agressão a crianças e a idosos e aos demais indefesos.

Minha cidade possível terá sempre um prefeito que valorize a cultura e conheça seu poder de verdade. Um que saiba que cultura é instrumento de libertação, não de catequização. Porque não existe na minha cidade possível interseção entre cultura e estoicismo.

A cidade que eu suponho possível está impedida de ter um prefeito que não compreenda a importância desses valores.

Ou um que seja parte de uma engrenagem comercial cujo plano seja tomar a hegemonia da mídia, já tão demonizada por si mesma, como é hoje.

Minha cidade possível quer democratizar os meios de comunicação. Não quer apenas trocar um Charles Foster Kane por outro. Trocar um Cidadão Kane por outro que, além da voracidade de querer ser hegemônico comercialmente, queira também a hegemonia da fé coletiva.

Pois é a este projeto que serve um dos dois candidatos a prefeito da minha cidade – e nele eu não poderia votar. Em qualquer eleição.

Mesmo que seu oponente não fosse o candidato dos sonhos.

Minha cidade possível não quer um prefeito artificial, servo de um senhor terreno. Um senhor que, do seu pedestal de dono de uma igreja e de uma emissora de TV, evoque pra si a interpretação do desejo de Deus.

Minha cidade possível não pode ser assim. Exige não ser assim.

Por isso, pra quem vive no Rio, belezura de cidade, em respeito aos oprimidos, que são tantos; aos apartados, que são tantos; em respeito aos desterrados da sorte, que são tantos; pela dignidade dos gays e das trans e das lésbicas; em respeito à memória de conterrâneos como Noel Rosa, Pixinguinha, João da Baiana e outros; por tudo isso, eu peço, recomendo, indico o voto no Freixo 50.

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5 comentários sobre “O candidato dos sonhos

  1. O candidato dos meus sonhos sempre foi Brizola, aquele que junto com Darcy Ribeiro criou o CIEP e recebeu ainda mais minha admiração quando teve coragem de comprar briga com a Globo, (assista o inesquecível vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ObW0kYAXh-8.

    Já sobre os Marcelos, estou meio ressabiado com a forte rejeição da Globo e da Veja contra Crivella, Brizola dizia que se a Globo Não gosta, deve ser bom. Claro que votarei no Freixo, mas ainda não tenho a resposta desse suspeito apoio e ele.

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  2. É, meu caro Marceu, agora que o seu nosso candidato doss sonhos nåo foi eleito, e que nesse Brasil invadido pela direita o sonho fica a cada dia mais difícil, temos uma nova luta a cada dia. Agora, as atenções têm em de ficar centradas na PEC 241, que retirará dos nossos netos a possiblidade de saber qual o significado de um arcaísmo chamado sonho.

    Curtido por 1 pessoa

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