A República de Ipanema e o país da Ana Júlia

O discurso de uma estudante de 16 anos na Assembleia Legislativa do Paraná ganhou as redes sociais nos últimos dias. De uma maneira que talvez ninguém tenha conseguido antes, ela falou sobre as ocupações das escolas pelos alunos país afora.

A voz embargada pelo choro mal contido, a veemência juvenil contra a PEC 241 e contra a Medida Provisória do Novo Ensino Médio, tudo que a menina disse calou os deputados – e foi um dos principais assuntos da semana pré-eleitoral na internet.

Quem não viu pode clicar aqui. Vale a pena. No discurso, a menina lembrou a morte mal explicada de um adolescente numa das ocupações em Curitiba e chegou a sugerir que os deputados olhassem suas mãos. Corajosa, afirmou que as mãos de Suas Excelências deviam estar “manchadas” pelo sangue do garoto.

“O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que a responsabilidade pelo nosso bem estar é do Estado! Os senhores são representantes do Estado!”, foi mais ou menos o que ela disse, sem se dobrar à ameaça do presidente da Assembleia paranaense de cortar o som do microfone.

As ocupações de escolas já passam de 1.000 em 21 estados brasileiros. A imprensa estrangeira parece dar mais atenção a isso do que a nossa grande mídia. Coube a menina viralizar o assunto por aqui – e, aliás, já faz tempo que a nossa grande mídia mais reproduz e pega carona nas redes sociais do que publica coisas capazes de atrair a atenção do universo virtual, sobretudo o dos mais jovens.

O nome da menina é Ana Júlia Ribeiro, secundarista do Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães, em Curitiba. Seu discurso contundente repercutiu tanto à margem da grande mídia que ela foi convocada pra uma audiência pública no Senado. Também em Brasília pegaram carona no discurso dela.

O desabafo da pequena imensa Ana Júlia concorreu com outro acontecimento da semana. Um que também ganhou as redes. Foi a vitória do “não” na eleição no Rio, resultado da soma de votos em branco, nulos e abstenções, que superou a votação do Crivella no segundo turno pra prefeito da cidade.

Crivella recebeu 1.700.030 votos. O “não”, ou “ninguém”, 2.034.352.

Em Curitiba, onde o candidato vencedor foi Rafael Greca, politicão da antiga, que confessou na campanha ter vomitado um dia ao sentir cheiro de pobre, a estrela da eleição foi a Ana Júlia. No Rio, onde venceu o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, com seu passado assumidamente homofóbico e de pregador fanático contra a fé afro-brasileira, a estrela parece ter sido Ipanema.

Desde o fim da ditadura militar, Ipanema tem determinado o caminho que o Rio e o Brasil vão seguir. Ipanema, com seu cinturão de favelas formado pelos morros do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, na fronteira com Copacabana, já foi Brizola, já foi Moreira Franco, foi Fernando Collor, Sérgio Cabral, Lula, foi Dilma e agora foi “não” e também, como a gente poderia supor?, foi Crivella.

Do Posto 8 ao Posto 10, passando pelo 9, com seu histórico de protestos e aplausos ao pôr do sol, 24,2% dos eleitores de Ipanema votaram nulo ou em branco – a maior concentração do “não” da cidade aos dois candidatos, maior até que média de 20,1% do Rio todo. Dos votos válidos, porém, o bairro-emblema do Rio deu 52% ao bispo e 48% ao PSOL do Freixo.

Ao dizer “não” a Crivella e a Freixo, Ipanema apontou pra vitória previsível do candidato da Universal e mandou seu recado ao Brasil da Ana Júlia. É pra onde o Brasil do Temer, este Brasil no qual o Brasil de 2014 não votou, parece perigosamente caminhar.

A menina Ana Júlia combate a PEC 241, que é apoiada por políticos como o Crivella. É contra a reforma do ensino médio imposta pelo Temer e por seu governo festejado por senadores como o Crivella. Ela luta pela consciência crítica dos adolescentes nas salas de aula e, na sua jovem certeza, acha uma ofensa ao pensamento livre a premissa de “escola sem partido”, coisa também pretendida pelo bispo-prefeito.

Ipanema é volúvel. Numa década, cata latas de maconha cuspidas pelo mar e acende seu baseado na praia. Noutra, abre sua avenida pra passeata verde e amarela do impeachment da Dilma e dá seus votos válidos e inválidos ao sobrinho-servo do Edir Macedo.

Ipanema, às vezes, envelhece e encareta – e assim cumpre sua ciclotimia histórica pra desenvelhecer e desencaretar mais adiante. Desta vez, como nas eleições do Moreira e do Collor e do Cabral e de alguns outros, encaretou. Votou, primeiramente, no “não”, e, segundamente, no bispo – e elegeu o que só o futuro poderá revelar.

Ipanema talvez tenha visto no Freixo a imagem e a semelhança do PT do Lula e, por isso, ignorado o grito da garota Ana Júlia do Paraná.

O país da Ana Júlia – segundo levantamento da Organização pra Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Ocde, entidade internacional que reúne 34 países afinados com os princípios da democracia representativa e da economia livre – tem, proporcionalmente, menos pessoas nas universidades do que o Azerbaijão ou a Colômbia, por exemplo.

Só 14% de nós temos diploma de ensino superior.

No país da Ana Júlia, 95% dos alunos do ensino médio chegam ao terceiro ano com alguma deficiência em matemática. Nele, viva!, o governo gasta mais com educação do que potências como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido ou Itália – mas, pena, o gasto anual direto com quem está na ponta desse sistema, o aluno, ou seja, a Ana Júlia, é um dos mais baixos do mundo, mal chega a US$ 2,7 mil.

A República de Ipanema, com seu Índice de Desenvolvimento Humano de 0,962 e sua expectativa de vida de 78,7 anos, precisa reencontrar o país da Ana Júlia, onde estes números alcançam 0,755 e 75,2, respectivamente – e, ainda assim, graças ao Sul-Sudeste Maravilha; portanto, graças a Ipanema.

Que o reencontro ocorra logo. Antes que a morte os separe pra sempre. Antes que a Ana Júlia envelheça. Antes que a alma anoiteça, como escreveu Drummond numa ode a Manuel Bandeira.

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3 comentários sobre “A República de Ipanema e o país da Ana Júlia

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