#TáFoda (ou as maluquices do Brasil de hoje)

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”, resmungava o João Pinel, o meu amigo doidinho do boteco Bip Bip, na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, quando ouvia a gente comentar barbaridades que ocorriam no Brasil.

Talvez ele resmungasse assim, agora, ao saber do Temer; dos solecismos de caráter do Eduardo Cunha, que derrubou a Dilma e depois acabou preso pela mesma razão alegada pra derrubá-la; dos milhões do Cabral; dos cheques-cidadão do Garotinho; da superpopulação de Bangu 8; do Geddel Vieira Lima; das culpas pregressas do PT; da PEC 241 e das suas malvadezas; do Trump nos EUA; da queda iminente do Inter pra segunda divisão do Brasileiro; do helicóptero da PM; da eleição do Crivella no Rio e de sua ideia de levantar um muro como o de Israel ao redor da cidade.

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

Foi uma postagem da minha amiga Teresa Albuquerque no Facebook, lembrando o João, personagem eterno do Bip Bip, onde o conheci, que despertou em mim a vontade de também escrever sobre ele.

João era um cara de classe média alta, já na faixa dos 50 anos. Vivia com os pais na pequena Almirante Gonçalves, seu domínio, de onde raramente saía. Tinha uma mente brilhante, mas comprometida pelos desfavores da esquizofrenia.

Li numa publicação da Organização Mundial de Saúde que existem cerca de 400 milhões de pessoas com algum transtorno mental no planeta – 23 milhões só no Brasil, ou o equivalente a sete Uruguais, a mais de meia Argentina ou a quase uma Holanda e meia.

Desse contingente, no país do Michel Temer, uns 5 milhões têm transtorno de moderado a grave. O João era um deles.

Foi quase em frente ao Bip Bip, numa calçada da Almirante Gonçalves, que, num dia triste de 2009, o Joãozinho decidiu abreviar a vida. A calçada foi batizada pela gente, com direito a inauguração de placa na fachada do boteco, de “Calçada João Pinel”.

A esquizofrenia do João era agravada pelo excesso de álcool e de substâncias mais nocivas, que ele comprava no Pavão-Pavãozinho/Cantagalo e consumia sem fazer mal a ninguém, além de si mesmo. A condição não lhe roubava o discernimento e o poder de amar quem ele escolhia. Mas só quem ele escolhia.

Não permitia, por exemplo, que outros maluquinhos se aproximassem da Almirante Gonçalves e, principalmente, do Bip Bip – e o relento da rua, sobretudo em lugares como Copacabana, está cheio deles, os maluquinhos, como se sabe. E se um outro se aproximasse do bar, ou resolvesse dominar uma marquise da Almirante, o João era severo e bradava pra espantar o invasor:

– O único maluco do Bip sou eu!!! O único maluco da Almirante sou eu!!!

Minha impressão é que, até hoje, o querido botequim da Almirante Gonçalves, tocado pelo Alfredinho Melo, pai de nós todos, particularmente meu, cumpre o luto da morte do João. A decisão do Joãozinho de morrer, que só nos alcançou quando era tarde, não despertou  o interesse geral nem de Copacabana. Que dirá do Rio.

O dia seguiu comprido e quente como qualquer outro daquele verão na cidade. Assaltos continuaram acontecendo nas ruas e nos salões da política. O meu Flamengo não cancelou treino. Nem o Fluminense do João. Nem o Botafogo do Alfredinho. Tampouco o Vasco do Cabral.

As escolas não suspenderam as aulas. As repartições funcionaram normalmente.

Mas, pra gente, que o conhecia, algo de grave havia se passado.

O João Pinel tinha decidido morrer e de uma maneira muito dolorida, por não ser instantânea: pôs fogo no corpo depois de comprar um litro de álcool numa farmácia perto. Por isso, ainda precisou cumprir o calvário de alguns dias num hospital até conseguir o desfecho que havia pretendido.

João não deixou bilhete, não aprontou carta, não avisou antes, só decidiu.

Eu lembro que, um dia, o João foi forçado por nós a um passeio até a Lapa. Era aniversário dele. Alfredinho e um punhado de amigos-confrades do bar o fizemos entrar num táxi e rumamos pro bairro boêmio no Centro do Rio. Quando que aquele maluquinho, com seu corpo livre e de gestos espaçosos, aceitaria entrar num carro? Mas o Joãozinho foi.

Desembarcamos no Carioca da Gema pra uma noite de surpresas – pra nós e pro nosso Pinel, criatura alheia a cerimônias e mentiras e tão cheio de compaixão com quem ele acreditava merecer. Mas só com quem ele acreditava merecer.

Naquela noite, conseguimos um bolo de aniversário pro João (quando teria sido o último bolo de aniversário dele? Será que chegou a ter outro?) e o apresentamos à Lapa. A Lapa do nosso amigo Lefê Almeida, o também saudoso Lefê, produtor cultural que havia acabado de reinventar a boemia ali. A Lapa do grupo de samba e choro Dobrando a Esquina, que, se não me engano, tocava aquela noite no Carioca da Gema.

João detestou. “Eu sou da Almirante, eu sou da Almirante!”, repetia com seus olhos espetados. “Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

Joãozinho escolheu a hora e o ringue em que o gongo bateria pra encerrar sua última luta com a vida – justo a sua Almirante. Virou saudade no Bip Bip, silêncio na rua, lenda de Copacabana, travo na garganta, vazio no coração.

O Crivella, com suas ideias de muro, não vai fazer isso. Mas, no lugar dele, eu pediria desculpas aos descendentes do almirante Jerônimo Francisco Gonçalves, baiano nascido em 1835, em Salvador, que combateu na Guerra do Paraguai e já batiza um dique-flutuante da Marinha, e retiraria a placa com o nome do militar da rua do João e do Bip Bip.

No lugar, poria uma outra, onde se leria: Rua João Pinel.

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

*  *  *  *  *

Pro caso de o Crivella considerar a ideia de mudar o nome da Almirante Gonçalves (“depois o maluco sou eu…”), vale ler a reprodução da postagem da amiga brasiliense Teresa Albuquerque, muito reveladora de quem foi o João Pinel.

“Guns N Roses em Brasília e quem me vem à mente? João Pinel. John Pinel (‘Paai-nel’, repetia), Juan Pinel, Jean Pinellí, Giovanni Pinelli, Johann Pínel, Ho Pini (sim, ele dizia que era esse seu nome em japonês). Conheci João nas rodas de samba do Bip Bip, o bar do querido Alfredinho, lá em Copacabana, em 1999. Ele morava no prédio em frente, descia dia sim, dia não. Era uma combinação que tinha com a mãe, acho, pra tentar diminuir os exageros das noites de Copa. É… sozinho, como ele mesmo dizia, João esgotava a lotação de malucos do botequim. Tinha dia que chegava tranquilo. Tinha dia que vinha com a macaca e ficava zoando a roda. ‘Guns N Roses!’, gritava. Um dia me pediu um CD do Guns, do show que ele dizia ter visto em 1992. Comprei pra ele o duplo ‘Use your illusion’. Gostou não, disse que não era aquele. Eu achava graça de quase tudo. Ele gostava. Às vezes, conversava comigo por meio de letras de Jorge Ben e Tim Maia. ‘Teresa foi ao samba lá no morro e não me avisou.’. ‘Arrumei um crioulo, por isso não voltei.’ A cada resposta certa, ele ria que só. Dizia que eu era sua ‘noiva’, a ‘Adriane Galisteu’ dele, e abria um sorrisão. Era uma figura. O maluco mais doce que conheci na vida.”

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9 comentários sobre “#TáFoda (ou as maluquices do Brasil de hoje)

  1. Que saudade do especial João. Tínhamos uma relação muito carinhosa. Ele só me chamava de ” inglesinha”. “Chegou a inglesinha”, dizia sempre que me via no Bip. Eu lhe abria sempre um sorrisão e demorei pra perguntar porque me chamava assim. A resposta surpreendente me fez chorar de tanto rir. “Porque seu cabelo é igual ao do Mick Jagger”. Adorei. A “inglesinha” fez questão de lhe dar um último beijo no dia do enterro.

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  2. Marceu,
    Mario Ferrer ontem recordou uma história incrível do João. No lançamento do livro do Bip, demos a ele um exemplar autografado. Ele folheia, olha tudo, reolha e, apontando para os autógrafos, resmunga ao jeito dele:
    – Não quero esse livro não, não quero esse livro não. Muito rabiscado, muito rabiscado. Quero um livro limpinho.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Marceu,
    Mario Ferrer ontem recordou uma história incrível do João. No lançamento do livro do Bip, demos a ele um exemplar autografado. Ele folheia, olha tudo, reolha e, apontando para os autógrafos, resmunga ao jeito dele:
    – Não quero esse livro não, quero esse livro não. Muito rabiscado, rabiscado. Quero um livro limpinho.

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