Sobre a finitude

Fui acordado no meio da madrugada de sexta pra sábado, 25 pra 26 de novembro, por dois apitos estridentes do celular. Abri os olhos e intuí, naqueles apitos, que 2016 tinha aprontado mais alguma coisa, agora já perto de se despedir.

O primeiro avisava da postagem de uma foto do grupo de criação do programa “Adnight”, do querido Marcelo Adnet, do qual tive a alegria grande de participar (a última gravação da temporada tinha acontecido no fim da noite de sexta).

O segundo apito era de um aplicativo de notícias, e trazia a informação urgente: Fidel Castro, aos 90 anos, tinha morrido. Fidel, um dos maiores personagens do século XX – e que, até há pouco, era o herói da minha juventude nas aulas de História sobre a Revolução Cubana.

Os dois apitos, além de roubarem meu sono, acenderam minha madrugada com uma reflexão recorrente, que volta e meia tenho, sobre a finitude. A finitude das coisas. A finitude das pessoas. A finitude das plantas e dos bichos. A finitude de tudo que amamos. A nossa própria finitude.

O fim das pessoas, o fim das coisas, o fim de tudo é tão óbvio. Mas, na nossa humanidade e na nossa egoísta compreensão, sempre nos surpreendemos com as perdas – e só na dor da saudade aguda concluímos que mesmo as grandes pessoas, aquelas de existência fundamental pra gente, até essas se vão.

Também os grandes acontecimentos das nossas vidas, aqueles que nos marcam pra sempre, até esses passam, vão morrendo aos poucos dentro do nosso silêncio, e um dia se esgotam e se tornam só lembrança.

As famílias se multiplicam, mas todos os seus integrantes acabam um dia. Todos partimos em algum momento impossível de ser previsto.

A foto postada no grupo de WhatsApp pelos companheiros de viagem do “Adnight” mostrava a turma quase toda numa mesa de bar, celebrando o fim da última gravação da temporada. A vontade de me transportar pra aquela imagem foi tanta que o sono não voltou mais – e se desintegrou de vez, em seguida, quando li a notícia da morte do Fidel.

Todo mundo e todas as coisas nascem pra cumprir o mesmo ciclo. Como os grandes impérios da História, a gente, as plantas, os bichos, todos nascemos, crescemos, acumulamos e perdemos coisas – dentes, cabelos, vigor, dinheiro, outras bobagens terrenas – até fenecermos e alcançarmos o instante final do desaparecimento.

Fidel, e eu nem tinha me dado conta, havia arrastado o século XX até aquela madrugada deste novembro de 2016, quando, finalmente, o segundo milênio pareceu se despedir como uma alma penada que resistia a deixar a Terra.

O século XX já havia se encompridado com Gabriel García Márquez, com Eduardo Galeano, com Leonel Brizola, com Modesto da Silveira (que, como o próprio nome dele, aliás, ganhou dos jornais obituários modestos demais pra sua grandeza). O século passado-presente, enfim, já havia avançado além dos limites do tempo com Oscar Niemeyer, com tantos outros – e agora, com Fidel, parecia me dar adeus na madrugada de sexta pra sábado.

Fiquei pensando nas duas vezes em que estive em Cuba, onde não vi o Fidel, e também no aperto de mão que ganhei dele no fim de uma entrevista coletiva, em Brasília, no dia 15 de março de 1990, logo depois da posse do Collor, quando, por conhecer o embaixador Ítalo Zappa, amigo do comandante e pai da minha parceira de tantos sonhos Regina Zappa, pude chegar perto do herói da Revolução Cubana e cumprimentá-lo.

Abre parêntese. Que falta fazem hoje brasileiros como o Ítalo Zappa, outro nome que mantenho na memória como num altar particular dos grandes personagens do século XX. Fecha parêntese.

Um dia, o Betinho me contou (e quem ainda se lembra do Betinho, o fundador do Ibase e da cruzada contra a fome, ele, outro nome no meu altar do último século?), bom, um dia o Betinho me contou que, na ditadura, quando o bicho pegava no país, ele foi o cara escolhido pra ir a Cuba negociar com o regime do Fidel, em nome do Brizola, uma ajuda em dinheiro pra financiar aqui a resistência ao golpe militar e incrementar o sonho da nossa revolução.

Outro parêntese. A nossa revolução nunca chegou. Desde Caramuru e Paraguaçu, pai e mãe do povo brasileiro, a nossa revolução nunca veio, ainda é aguardada. Fecha parêntese.

Por causa da tal negociação do dinheiro, que, na lembrança de Betinho, seria de uns 200 mil dólares, o Brizola, outro personagem dessa minha galeria do século XX, foi chamado de “El Raton” por gente que, sem saber, ou não, estava a serviço da direita. Pecados sem perdão que ficaram pra trás.

Betinho, segundo relato do próprio, viajou com uma carta do Brizola pro Fidel. A carta era dividida em duas, pro caso de o remetente ser apanhado no caminho. Palavras-chave foram retiradas de uma e transcritas na outra. Só com as duas era possível decifrar a mensagem. Betinho levou um envelope em cada bolso. A carta chegou – e, agora, com a morte do Fidel, talvez seja revelada num museu de Cuba ou daqui.

Essa confusão de lembranças percorreu e misturou meu pensamento durante toda a madrugada, até que a manhã surgiu e o sábado se foi, e veio o domingo e, com ele, outra notícia triste – a da morte da querida tia Francisca, vizinha de frente da casa da minha infância em Morro Agudo, na Baixada Fluminense.

O terror da tia Francisca eram as bolas que eu chutava nas peladas da rua e caíam no quintal dela, enxovalhando as plantas e atiçando os cachorros. Uma quebrou o vidro de um basculante. Nunca mais vi aquela bola. A tia sumiu com ela.

Na minha sensação, até a madrugada de sábado, minha bola tinha ficado presa no limbo do tempo no século XX. Fechei os olhos e me vi de novo criança em frente à casa da tia Francisca, a bola sendo lançada por trás do muro e vindo na minha direção, rolando, rolando, rolando.

Tia Chica, finalmente, havia devolvido a minha bola.

O mundo piorou muito desde que minha bola estilhaçou o vidro do basculante da tia Chica. Quantas guerras houve, quantas trapaças se arquitetaram, quantas sacanagens foram feitas pelos homens contra os homens, quantas esperanças puderam ou não puderam ser correspondidas.

Fidel, mal teve a morte confirmada no pronunciamento do irmão Raul na TV cubana, começou a ser julgado pelo que fez de bom pro povo pobre de Cuba e de mau pras elites carcomidas espalhadas pelo mundo.

Já a tia Chica teve condenação sumária do destino antes mesmo de morrer. Com seu corpo frio estatelado no chão da casa humilde até a chegada do rabecão, ela não mereceu do oficialismo senão o desprezo da espera de mais de 12 horas pra ser recolhido e autopsiado.

Na sua condição de mulher nordestina e pobre e moradora da Baixada Fluminense, tia Chica não mereceu qualquer diligência oficial, senão a da família e a dos vizinhos.

Eu já vi e vivi tanta coisa. Mas os sentimentos que seguem roubando meu sono desde a madrugada de sexta pra sábado, 25 pra 26 de novembro, têm excedido.

Talvez só reste desejar que, como na Cuba sonhada pelo Fidel, cheguem pra todo o mundo, num tempo breve, a educação pública decente e a saúde digna e o socorro rápido e a conexão entre serviço público e solidariedade.

Ou, quando não houver mais jeito, que ao menos os rabecões cheguem mais ligeiro pra recolher os corpos das tias Chicas que morrem todos os dias por aí pra entrar na História apenas como números.

Ou, e é mais provável, talvez só reste desejar que 2016 acabe logo.

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3 comentários sobre “Sobre a finitude

    1. Linda homenagem de frei Betto a Fidel:

      Com Fidel, desaparece o último grande líder político do século XX, o único que logrou sobreviver mais de 50 anos à própria obra: a Revolução Cubana. Graças a ela, a pequena ilha deixou de ser o prostíbulo do Caribe, explorado pela máfia, para se tornar uma nação respeitada, soberana e solidária, que mantém profissionais da saúde e da educação em mais de cem países, inclusive o Brasil.

      Curtido por 1 pessoa

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