Quase tudo passa

Uma vez, quando eu era criança, vi uma charge de revista ou de jornal em que um velhinho de barba longa e branca, muito curvado, apoiado num cajado, entregava a chave de casa a um bebezinho, dava adeus e ia embora. Só muito tempo depois eu descobri que aquela imagem era só uma entre muitas versões do mesmo tema. Mas ela nunca mais saiu da minha cabeça.

Porque me impactou a visão de um vovô partindo e deixando uma criancinha sozinha em casa. Como ele pôde fazer isso? O homem muito idoso era o Ano Velho. O bebê, o Ano Novo.

A charge me voltou agora à lembrança no fim deste 2016, ano esquisito, tão cheio de notícias ruins, mas que evito maldizer, porque, no fundo, o tempo compreendido entre janeiro e dezembro não teve nada com isso. Nós, humanos, é que aprontamos maldades no percurso.

As perdas, as situações indesejadas de tudo que 2016 trouxe vão passar. Ou quase tudo. Porque quase tudo passa. Dor de dente, bebedeira, roupa da moda, calo apertado no sapato da estreia, quase tudo passa. Até o sapato da estreia passa – e passa o pé que o calça, e passa também a meia que o acomoda, e mesmo o caminho percorrido.

Até o amor que a gente imaginava pra sempre passa. Deixa feridas, mas passa. Feridas que, às vezes, demoram a sarar, mas passam. Passam, sim.

Se passa o prazer do sexo, tão intenso, mas fugaz, por que não passaria uma saudade aguda e doída? Passa o que devia e passa o que não devia. Passam a glória eterna, a tristeza que imaginamos sem fim e o riso de segundos.

Até os séculos, tão compridos, passam. Passa a emoção do filme, do livro, do poema. Ardido de queimadura, a empolgação adolescente do primeiro namoro, o miado do gato de madrugada no telhado. Tudo isso passa.

Quase tudo passa. Passa dona Dolores, passa a vizinha Gertrudes, passam Cleonice e Guiomar. Até Adalgisa, a que não passa, também ela passa, embora renasça pra passar de novo e assim seguir no seu adalgizamento, este sim, que não passa nunca.

O branco da parede, que logo encarde, passa. Passa o barulho do ônibus em frente de casa, passa o brilho do brinco. Passa quem na vida nos descarta, e passa também quem descartamos na vida.

Um dia, passa o menino que vive dentro da gente. Não devia, mas passa. Passa a raiva, passa a ira, passam o rancor e o tédio. Uma hora passa.

Passam, inclusive, as horas, os minutos, os segundos. Passam os dias felizes e os difíceis. Não passa a lembrança do que foi, mas tudo cicatriza – e passa.

A frustração pelo não tido, quase tudo passa. Passa dezembro. E logo vem janeiro, que também vai passar. E passa o sentimento e passa o ressentimento e passa o pressentimento.

A curva da estrada passa. A quentura da água. A negação do subvertido, a certeza e a dúvida.

Passa o Natal e passa o pó de canela da rabanada, a fúria e o ímpeto, o cabelo esticado na chuva – e passa a chuva e passa a noite e passa a manhã, e a tarde passa.

O verão, a primavera, o outono, o inverno. Passam a vontade e o desejo. O cheiro do abraço, o gosto do beijo. Passa a tertúlia – e até a poesia passa.

Passarão a roda gigante do mundo, o mandato do Trump, o golpe, o Temer, as safadezas e as vilezas – e logo virão outras. Mas passarão também.

Passa a vergonha do homem que, de tão encantado pela mulher, não consegue dizer quanto a deseja, nem a ter como gostaria no meio da noite. E a noite também passa, e virão outras. Passa o aplauso, passa a vaia, passa a angústia, passa o incômodo, e passam a azia, o cansaço e a falta de sono.

Passa o passarinho que mal acabou de nascer no ninho aqui da varanda. A robustez do galã e o corado da pele da moça da novela, a lágrima no olho, quase tudo vai passar.

Passa o nó no peito. Passa o peito da morena que passa. Pela rua. Por mim. Passa o impulso de segui-la até sei lá. Passam o sabonete e a cintura de bambolê da mulher e o efeito da dipirona na ressaca.

Mas fica o mundo, o renovado mundo, a esperança do que vem a seguir. Permanece o mundo nem sempre igual a antes, nem sempre melhor que ontem, mas renovado. Quase tudo passa.

E quando a gente se dá conta, ficam apenas o prego enferrujado agarrado na parede e o quadro e a fotografia, que podem passar a qualquer momento, se os jogarmos fora – e o novo ano começa pra passar também e só deixar ficar o que ainda não sabemos.

Outras coisas que eu faria se pudesse

Se eu pudesse, diria tanta coisa. Eu, que falo tão pouco, se pudesse, nem saberia por onde começar. Mas diria.

Talvez dissesse à garota da 4ª série primária da Escola Municipal Souza Melo que, até hoje, eu me lembro dela. E ela talvez perguntasse: “Por quê?” E eu lhe diria: “Não sei, nem lembro seu nome.” E ela talvez me acalmasse a dúvida de tantos anos e me acendesse de arrependimento pelo que não vivi: “Eu me chamo Adalgisa.”

Se eu pudesse, diria tanta coisa ao meu primo Luís. Diria, por exemplo, que 31 anos depois, ainda não decorei se o nome dele se escrevia com “z” ou “s”. Diria também que a morte não nos separou – e que sinto saudade dele e saudade das brincadeiras da nossa infância e saudade de quando longe era só o percurso entre duas estações de trem da Central do Brasil.

Pediria, se eu pudesse, ao Miles Davis e ao John Coltrane, se não fosse incomodar muito, um solo de “Carinhoso”, do Pixinguinha, com arranjo do Márcio Montarroyos. Ao Márcio Montarroyos, pediria licença por isso – e dedicaria a execução tão delicada a uma mulher, uma que anda livre e bonita por aí, e se exibe no fim da tarde, depois do trabalho, na Praia do Arpoador.

A Norah Jones, pediria a mesma coisa – mas, ainda mais pidão, rogaria também por um afago nos meus ouvidos com sua voz que tanto invade o meu coração, e ela acharia engraçado e talvez me concedesse.

Se eu pudesse, recuaria mais no tempo e, ao francês Michel Foucault, o filósofo das coisas da loucura e do poder e do conhecimento, o sujeito além das certezas, o historiador vitimado pela Aids quando eu ainda lia pela primeira vez um texto dele, eu, enfim, podendo, diria a ele que uma frase nascida das suas reflexões tem andado no meu pensamento ultimamente, na tentativa de compreender um pouco a ignorância humana e a minha particular – “não fazer como aquele que, ao ser picado por abelhas, renuncia a colher o mel”.

“Perdão, professor Foucault, fui idiota e já andei renunciando, perdão”, eu diria, “mas prometo não renunciar mais, ou, pelo menos, tentar.”

A Friedrich Nietzsche, o alemão que nasceu e morreu antes do Foucault, e tanto o influenciou, eu diria, se pudesse, que também guardo algumas frases dele – máximas como “tudo é precioso pra quem foi, por muito tempo, privado de tudo”; ou aquela outra, “sem a música, a vida é um erro”; ou ainda “o medo é o pai da moralidade”.

Se pudesse, sentaria com os dois, Nietzsche e Foucault, no botequim aqui da esquina, e relataria, num idioma comum, tudo que se passou no ano de 2016. Falaria das loucuras cometidas no mundo desde janeiro, e depois me calaria até o último som de vírgula deles. Eu gravaria tudo, e ouviria tudo de novo, e tudo de novo, e de novo.

Se eu pudesse, sentaria no chão do terreiro da Mãe Menininha do Gantois, pediria a bênção a ela – “a sua bênção, Mãe Menininha” – e perguntaria, com muita humildade e muita verdade na minha dúvida: “Mãe, desculpe por te chamar de Mãe, mas qual orixá do Candomblé rege a minha existência?” E ela, depois de esparramar uns búzios, revelaria, convicta, o meu orixá.

E a esse orixá eu recitaria a minha vida toda, e a ele também pediria proteção pro que ainda vem por aí.

Por já estar na Bahia, e abençoado pela Mãe Menininha, pediria a Jorge Amado, com muito jeito, permissão pra ver as estrelas com sua Gabriela, nós dois na noite comprida deitados na areia do mar de Ilhéus. A ela, Gabriela, não diria nada. Só me entregaria, infantil, e sentiria o gelado da sua pele e ouviria a música do seu sotaque trastejando na minha orelha.

Pediria, se pudesse, ao Dida, herói das glórias do Flamengo nos anos 1950 e 1960, que refizesse pra mim um gol dele, um apenas, só pra eu ver como era e espantar alguma tristeza e alegrar o meu dia e a minha noite e a minha madrugada. Pediria ainda um autógrafo na palma da minha mão e, como se eu tivesse 10 anos, devolveria o gesto com um abraço longo e agradecido, desses de criança, que não esquecemos nunca.

A Mário de Andrade, pediria que me guiasse numa travessia por São Paulo. Obrigado, seu Mário, eu lhe diria na Sé.

A Manuel Bandeira, num bar da Lapa, eu encomendaria a “Quarta canção do beco”. Obrigado, seu Manuel, eu me curvaria, pondo o papelzinho com seu poema inédito no bolso da calça.

A Lima Barreto, mostraria o esgoto que vaza na Rua do Lavradio, a infância ao relento da noite ali, a sede da querida “Tribuna da Imprensa” fechada – e quem sabe o Rio não ganhasse a veemência de mais uma crônica dele.

A Ferreira Gullar, eu pediria que não morresse neste 2016, não agora, não sem antes de me contar onde encontro novamente seu poema “Pela rua”. Em qual livro o senhor escreveu essa obra-prima, seu Ferreira, o senhor, tão policiado pelas amizades construídas no seu Maranhão?

A Carlos Drummond de Andrade, a quem já pedi tanto, não pediria mais nada. Só que me inspirasse. Obrigado, seu Carlos.

A Vinicius de Moraes, faria um convite pretensioso pra conhecer minha casa e tocarmos juntos um pouco de violão. Cantaríamos, rindo muito, “Pela luz dos olhos teus”, eu lhe mostraria algumas valsas menores, e no raiar do dia choraríamos coniventes, tocando “Olha, Maria”. E ele, ainda emocionado, diria: “É uma parceria minha com Tom Jobim e Chico Buarque, você deve conhecê-los.” Conheço, sim, seu Vinicius, eu responderia, e conheço também sua filha Maria, e saiba que ela se orgulha muito dessa valsa.

A James Joyce, eu contaria que estive em Dublin num certo verão, mas não consegui visitar Rathgar, onde ele nasceu. A Van Gogh, diria que fui a Amsterdã e compreendo toda a sua loucura – e ele talvez também me compreendesse e pintasse, a meu pedido, o retrato falado de uma mulher. E Van Gogh, feliz, ainda me daria o direito de ofertar sua tela jamais feita a essa mulher.

A Dom Pedro II, eu daria minha solidariedade pelo golpe que o lançou ao exílio. E depois de resumir pra ele a História que se seguiu desde seu desterro, eu diria: “Meu querido monarca, conterrâneo carioca, não sofra mais pelo que lhe fizeram, estamos juntos, veja só no que deu a República.”

A Walt Disney, se eu pudesse, agradeceria pelos gibis da infância – e, ainda mais especialmente, por eu ter completado seu álbum com a figurinha da Baleia (será que alguém ainda se lembra da figurinha difícil da Baleia?).

Se eu pudesse, poria três mudas de roupa na mochila e embarcaria daqui a pouco pra uma nova visita ao Gantois, onde a Mãe Menininha, já me reconhecendo dessa vez, perguntaria: “O que veio fazer aqui de novo, meu filho? Já não lhe revelei o orixá que rege sua existência?”

E eu responderia: “Sim, Mãe Menininha. Mas vim pra ficar mais um pouco, e talvez chorar sem razão, só pra esvaziar a alma deste ano tão esquisito, e também agradecer por tudo que aconteceu de novidade boa na minha vida, apesar do pesar, apesar do peso e das vidas desperdiçadas pelo caminho. Posso?”

E ela só diria: “Pode.”

E eu ficaria e veria o ano romper e receberia 2017 com os pés descalços e depois seguiria até o Farol de Santo Antônio e, no nascer do sol, assistiria ao mar comprido toda vida encontrar o céu no horizonte, e não diria mais nada.

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Foto de Lázaro Torres

O meu encontro a sós com Papai Noel

Eu tinha medo de Papai Noel. Não dizia a ninguém, mas tinha. Tudo me apavorava na figura descabida daquele homem gordo, de barba longa e branca, metido num paletó de cetim vermelho em pleno calor de dezembro em Morro Agudo, gesticulando e rindo pra mim sem que eu pedisse.

À meia-noite do dia 24, eu sempre me dividia entre a curiosidade de flagrar aquela criatura improvável desembarcando de um trenó no telhado e o pavor que, na contramão do impulso infantil, me fazia fechar os olhos com muita força só de imaginar a cena.

Nem a expectativa de um presente aliviava o medo. Papai Noel era de outro mundo, um que eu imaginava gelado e deserto, só habitado, possivelmente, por fantasmas, outros seres estranhos e por ele e pelas renas e por um punhado de anões explorados, obrigados a trabalhar de graça pra dar presentes caros a crianças ricas e ordinários a moleques como a gente.

Mais de uma vez me escondi debaixo da cama pra esperar aquele momento passar.

Nossos natais, pro meu desconforto, tinham sempre um Papai Noel. Mesmo quando os presentes não justificavam a presença dele – não importava, aquela figura temida estava lá.

Aparecia, botava os embrulhos perto do presépio que meu avô montava na varanda todo ano, sacudia a barriga com seu “rou, rou, rou” gutural sem nenhuma graça e ia embora. Raras vezes suportei acompanhar o ritual até o fim. Preferia ficar bem longe do alcance dos olhos dele.

Foi por sentir tanto medo que, num certo Natal, dei de cara com Papai Noel – e da pior maneira possível pra mim, porque estávamos só nós dois. Eu tinha seis, talvez sete anos. Pouco antes da meia-noite, entrei debaixo da cama da minha mãe.

A festa corria na varanda dos meus avós, que moravam no mesmo quintal. E, no burburinho de tantas crianças, não notaram minha falta.

Fiquei quieto ali, esperando a meia-noite passar, até que ouvi passos no quarto. Meu coração disparou. Comecei a tremer quando pude ver os pés que se aproximavam. Eram pés calçados em botas. Botas pretas! Eram as botas do… Papai Noel!

Acho que, na minha inocência, senti algo como a aproximação da morte. Papai Noel chegou até a beirada da cama, sentou, suspirou e arrancou as botas. As meias eram pretas. De repente, começou a tirar a roupa. Primeiro, as calças, que caíram no chão. Depois o paletó, o gorro, os óculos e, por último, a… barba!

Sem saber que eu estava ali, chutou tudo para debaixo da cama. Tive de me encolher pra não ser atingido pelo cajado feito de cabo de vassoura forrado com papel crepom. Pra minha surpresa – mais de alívio do que de decepção -, a roupa também era de crepom.

Papai Noel não existia. Usava roupa de papel com bermuda e camiseta por baixo e nem homem era. Papai Noel era a Vilma, filha da Tia Didi, querida vizinha que tratava todas as crianças daquele quintal como sobrinhas de verdade.

A descoberta de que Papai Noel não existe, inevitável na vida de todo mundo, é uma das constatações mais tristes da existência humana. Só hoje eu sei disso. É a primeira grande perda da vida da gente. Infelizmente, nenhuma criança é esperta bastante pra se dar conta disso. Só percebe que a descrença é triste depois de ganhar discernimento suficiente pra se entristecer com muitas outras coisas.

Papai Noel povoa minhas lembranças mais remotas. Porque, no fundo, apesar do medo, eu amava aquele ritual, aguardado o ano inteiro. Entre essas lembranças, está a de uma festa de Natal organizada pela associação de funcionários do antigo Banco Nacional, onde meu pai trabalhava. Naquele dia, ele, o Noel, arrancou minha chupeta, a pedido da minha mãe. “Chupeta não é coisa pra um menino do seu tamanho”, o mal-educado me disse, ou não disse, e sou eu quem acredita até hoje que ele disse isso.

Na festa, ganhei um cachorro de borracha, réplica do Banditt – quem se lembra do Banditt? –, e um medo terrível daquele ladrão de chupeta vestido de vermelho, um velho obeso e abusado, com mais de 200 anos na minha imaginação, sujeito que cheirava a talco barato e carregava nas costas um sacolão com certeza cheio de Banditts.

Meus natais eram bem felizes. Deixavam em mim, e também nas outras crianças do quintal, acho, a impressão ingênua de uma fartura que a gente não experimentava no resto do ano. Talvez por isso, um deles tenha ficado especialmente marcado na minha memória. Foi um Natal bem difícil, em que a sensação infantil de fartura se desintegrou numa frase da minha mãe.

Meu pai estava há meses afastado do trabalho, por causa de uma tuberculose. Coube à nossa mãe, professora primária da rede pública, segurar as pontas, inteirando o pouco que recebia ao quase nada que meu pai conseguia mensalmente da Previdência Social.

– Este ano não vai ter presente – ela nos disse.

Não sei que idade tínhamos. Mas recordo que o aviso foi assimilado sem trauma. Se era assim, que fazer? Eu tinha assistido a uma crise de hemoptise do meu pai. Tinha medo que ele morresse. Então, se o preço da cura dele era a falta de um presente, não fazia mal.

O encantamento de uma infância com quintal, onde havia crianças pra brincar, árvores pra subir e um bom espaço pra jogar futebol, também consolava. Eu não sabia disso. Mas consolava, sim.

O cenário daquele e de todos os nossos natais era a varanda da casa dos meus avós. Eram três casas no mesmo quintal. A nossa, a deles e a dos meus primos.

À meia-noite, quando já estávamos conformados com a falta de um presente, minha mãe apareceu com os embrulhos. O meu, eu nunca vou esquecer, era um carrinho de corrida. Pequeno. Pouco maior que o meu pé. Era movido a pisadas numa sanfona presa à traseira. A pisada na sanfona comprimia o ar dentro do cano de descarga – e o carrinho disparava, vruuuuummmm, até parar dali a alguns metros.

Eu já não acreditava no Papai Noel naquele Natal. Se acreditasse, teria me desiludido como o filho que eu viria a ter dali a uns 20 anos. Ele, o meu filho, ainda não tinha completado 9 de idade quando encontrou no fundo de uma gaveta de casa, largada ali por descuido meu, uma cartinha repleta de mesuras e delicadezas que havia escrito pro Papai Noel. Decepcionado, deixou de acreditar.

A impossibilidade da existência de Papai Noel é uma descoberta marcante. Acho até que a trajetória de uma vida pode ser dividida entre antes e depois do dia em que deixamos de acreditar nele.

Meus três filhos já cresceram demais pra acreditar, e eu morro de pena por isso. Porque nascemos pra perder coisas – e as primeiras são as crenças da infância.

Perder uma crença da infância é o primeiro sinal de que, dali em diante, vamos crescer pra perder muito mais. Vamos perder a inocência, a juventude, cabelos, dentes, amores, memória, gente querida, mais gente querida, mais gente querida, coisas grandes e pequenas, até que, lá no fim de tudo, perdemos o discernimento, a percepção da luz ao nosso redor, a força que move nosso corpo – e é quando também a vida se vai, na nossa derradeira perda.

Apesar do medo que eu tinha, e que meus filhos também tiveram, um dos meus maiores orgulhos é ter sido o primeiro Papai Noel da vida dos três. Era eu que estava sob a fantasia do velhinho inconveniente e enxerido que cada um deles conheceu, tocou e beijou – ou que simplesmente os apavorou.

Guardo num baú de relíquias as fotos dos três no meu colo, eu ali todo paramentado de Noel, no mesmo quintal da minha infância.

Aliás, não é o mesmo. Hoje, está mudado. Está, sobretudo, silencioso. Meus avós não estão mais nele. Um primo muito querido, que morreu adolescente, também não. E eu e todas aquelas crianças de antigamente somos adultos e moramos longe. O chão de terra ganhou cimento e perdeu muitas árvores. Os filhos que geramos nem crianças mais são.

A tradição do Papai Noel também não sobrevive no quintal. Ele não vai mais lá na noite do dia 24, como naquele tempo de mentiras mais felizes.

Meu presente impossível seria me tornar de novo, por um dia, aquele garoto congelado de medo embaixo da cama.

Dessa vez, eu faria barulho e, tenho certeza, ele iria embora pra não ser descoberto.

E eu adiaria um pouco mais o fim da crença na existência dele.

Ainda sobre 2016 (ou feliz 2018)

De 2016, levo abraços, muitos abraços, todos muito bons. Alguns melhores, mas todos bons. Levo poucos beijos, bem poucos, mas todos muito bons também. Levo uma mancha de lágrima nos óculos e alguma dor, que talvez nunca passe.

Levo carinhos não dados nem recebidos. Seguem guardados, espero dá-los, espero tê-los. Levo uma digital indecifrável no corpo, talvez no queixo, ou na nuca, rabiscos de unha nas costas, a marca do braço da cadeira do cinema no cotovelo direito, lembrança de afagos trocados.

Um segredo de mentira contado no ouvido, uma bobagem sussurrada, também levo.

Levo o sonho de um vestido dançando no vento, o vento indeciso de direção, o vento saliente, ameaçando me deixar ver o que não adivinhei acordado.

Levo a saudade de gente que nunca mais vou rever – todas boas e essenciais e necessárias e dignas. Farão falta. Desapareceram pra sempre no boliche do tempo e do destino em 2016. Mas as levarei. Pra sempre.

Levo a música, a poesia que insiste. Levo um gol inesquecível, uma mulher inesquecível, amigos inesquecíveis, paisagens inesquecíveis.

De 2016, levo minha solidão autoconsentida. Levo uma frase já eternizada do Zico (“Como rubro-negro, eu gostaria de estar na arquibancada me vendo jogar”).

Levo um sorriso que não se apaga, levo a promessa de uma Rosa.

O som agudo de alguns copos quebrados na pia, eu vou levar. Levo novas constatações da finitude. Levo perrengues, porres, ressacas, desaforos e falta de dinheiro. Levo a superação de medos, e ainda outros medos que ficaram.

Passeios a pé, algumas decepções, poucas, bem poucas, eu levo – e muitas fotografias, e solos de Chet Baker no último volume, e Carlos Drummond de Andrade gritando com a voz mansa eternizada em vinil a sua “Viagem na família”, na qual a sombra do pai dá a mão ao menino e o conduz numa travessia pelo passado.

Levo a visão horrenda de Belo Monte, a floresta sangrada, o Rio Xingu ferido, vidas mudadas sem retorno. Levo meu pinhão-pajé e minhas outras plantas.

Levo a barba por fazer, poemas de Fernando Pessoa, histórias fantásticas de Gabriel García Márquez e uma vontade grande guardada aqui dentro. Uma caminhada solitária numa certa madrugada pela Rua Jardim Botânico, o pensamento perdido em desejos não contemplados, levo tudo isso.

Levo até Adalgisa, a que não se deixa levar, mas a levo.

Levo o ímpeto ariano, a teimosia taurina, a complacência pisciana, a coragem leonina, levo o céu inteiro, com suas luas e planetas e ascendentes de difícil compreensão, e levo a água e a terra e o fogo que me acorda na madrugada com tanta saudade do que não sei mais. Levo anseios e outros sentimentos – uns muito nobres, outros nem um pouco.

De 2016, levo o nojo da injustiça, a abjeção da vitória dos ladravazes do futuro coletivo. Levo meu apego à beleza não perfeita, a paciência da espera, a impaciência da busca, confidências não feitas. Levo luz de vela, água fresca nas plantas e mais manchas de lágrima nos óculos.

Levo cada detalhe da existência dos meus três filhos. Cada lindo detalhe da existência deles. Estarão sempre comigo. Levo a família. Levo todos os meus amigos trancados no peito.

Levo a possibilidade do esquecimento e a redescoberta da viabilidade das novas paixões. Levo a surpresa desconcertante de um fio de cabelo encontrado no banco do carro tanto tempo depois. A persistência do tempo. Levo, aliás, um carro velho, que quase já não me leva.

Levo livros e filmes e olhares correspondidos na fila do supermercado, e levo, sobretudo, a generosidade das palavras comigo.

De 2016, levo dúvidas, muitas. Certezas, poucas. E cheiro de chuva e de sopa ardendo no fogão e do mar na Praia da Reserva. Cordas de violão, ressoar de teclas de piano, procuras não consumadas, muitas também, vou levar.

Vão comigo também o mergulho no oceano do humor e tudo mais que isso me proporcionou – as novas pessoas que conheci; as que permiti me conhecerem; as que não conheci tanto por não permitirem; e até as que não permiti, essas também vão.

Levo a sensação de que 2017 será a construção de um feliz 2018. E noites no Bip Bip, menos do que gostaria, eu levo. Levo meu romantismo antigo e mal disfarçado e renitente e descabido. Levo a curiosidade das mudanças e o convencimento de que preciso permanecer como sempre fui.

Novas parcerias, letra e música, eu levo. Frases que gostei de escrever. Outras que preferia não ter escrito. Mas vão.

Levo o prazer que ainda quero ter; a memória intransigente dos prazeres que já tive. Levo alívio e desprendimento, desapego e menos roupas. Levo a recordação de uma mão feminina tão leve, tão leve, acariciando meu rosto ainda há pouco.

Perfume natural de pele macia, novidades, cantorias, banho de rio, são coisas que levarei também. Descidas de bicicleta pela Rua Mundo Novo, a brisa na cara, a brisa na cara, a brisa na cara, o coração pulando, pulando, pulando, a vista oferecida da Enseada de Botafogo, tudo isso eu levo.

Madrugadas em Morro Agudo, meu Morro Agudo tão querido, tão feio e tão maltratado e tão desprezado e tão sem perspectivas – vou levar meu Morro Agudo e todos ali contidos. Levarei pra sempre. Eu vou.

A nostalgia e a pressa antes que o dia amanheça, levo. A força oculta da noite, os perigos vividos, tudo isso vai comigo.

De 2016, levo a necessidade de ganhar mais dinheiro e meu desprezo sem ressalvas pela acumulação. Levo a constatação idiota de que toda riqueza só será boa se puder ser dividida com muita gente.

Levo o temor do que vai ser feito do mundo, mas também a disposição de enfrentar o que virá.

Levo todas as letras do alfabeto. Levo crenças, anáforas, abduções, apagogias e outras palavras jamais escritas ou pouco conhecidas, cujo valor será pra mim, eternamente, apenas o de dar nome a figuras de retórica.

Ainda levo contas a pagar e algumas besteiras soltas na gaveta e arrependimentos e alguns tênis velhos e mais alguma mancha de lágrima nos óculos, e levo propósitos e levo esperança.

Quando a morte de alguém é um pouco também a nossa

Toda vez que morre uma pessoa muito querida, e essa morte já era aguardada como a curva de um caminho decorado, a gente fica naturalmente triste. Às vezes, ficamos até mais tristes do que diante de um desaparecimento inesperado.

Mas a tristeza de uma perda inevitável, seja pela derrota pra uma doença ou pra velhice mesmo, é diferente.

A vida já me deu a compreensão particular de que choramos essas mortes, mesmo quando são muito previsíveis, porque, de algum modo, elas significam um pouco a morte da gente também. Ou são um prenúncio, um assovio nos nossos ouvidos a nos lembrar, sem dó, da passagem irremediável das coisas e de nós mesmos.

São mortes doídas, porque, além de atingirem pessoas queridas, reafirmam a nossa finitude e a de todos que a gente ama.

Foi como eu me senti ao receber a notícia da morte do seu Villas. Pra quem não teve como eu a alegria de ter convivido e aprendido com ele por um longo tempo no “Jornal do Brasil”, ou, mais ainda, por todos os dias, ou quase, daquele longo tempo, e por isso não pôde chamá-lo assim, de seu Villas, ou apenas de Villas, como ele preferia, enfim, pra quem não recebeu essa chance, explico que falo do jornalista Villas-Bôas Corrêa, o craque da análise política, o cidadão democrata, o homem apaixonado por música brasileira e futebol, o imenso conhecedor dos maiores acontecimentos da História do século XX, não só por estudá-la, mas, sobretudo, por ter ajudado a escrevê-la.

Falo do pai do também genial jornalista Marcos e do querido professor Marcelo, ele, o Marcelo, um dos fundadores do ensino médio do Ceat, nascido no Rio de Janeiro em 1983 da demissão coletiva de dez professores e um coordenador do Colégio São Vicente, acusados de “comunistas”.

Falo do senhor esguio e de riso fácil, que tirava o relógio e o depositava sobre a mesa pra escrever. Falo do colunista que costumava cronometrar o tempo que levava pra terminar seu texto. Do observador das coisas da política e da vida, que dizia conceber sua coluna inteira enquanto caminhava no calçadão de manhã, antes de ir pro jornal.

A morte do seu Villas é um pouco a morte de nós todos que com ele convivemos na mitológica redação do sexto andar do velho JB, na Avenida Brasil 500, onde a gente, ainda tão jovem, olhava pra um lado e via o João Saldanha, virava-se pra outro e avistava o Sandro Moreyra, voltava a atenção pra mais uma direção e enxergava o Zózimo Barroso do Amaral, percebia um vulto passando em frente e era o Carlos Castelo Branco.

Porque, como numa manchete de antigamente, ela, a morte do seu Villas, grita o fim de um tempo.

Anuncia, ou só nos lembra, o fim de um tempo em que o jornalismo parecia ser melhor – e devia ser mesmo, ressalvada a mania renitente de gente como eu (e talvez como tenha sido o seu Villas) que teima em glorificar o passado.

Naquele velho JB, houve um período em que, às segundas-feiras, eu, ainda um moleque, munido de uma audácia certamente consentida, escrevia a coluna “Coisas das Política”. Numa daquelas segundas, depois de ler o meu texto na página 2, seu Villas pegou no meu braço e disse sem olhar pra mim: “Olha, o que você faz é crônica. Não perca nunca essa mão.” Não esqueci. Não vou esquecer.

A imagem que me vem no pensamento agora é a de vê-lo alto e digno, conversando com o Castelinho, o imenso Carlos Castelo Branco, outro mito daquela redação, defronte do aquário do filho Marcos Sá Corrêa, nosso editor-chefe – que, aliás, chefiava o próprio pai, inclusive.

Com suas orações longas e suas frases invertidas, com suas afirmações que, de tão simples, soavam rebuscadas ou sinuadas ou como poesia, com o seu jeito ocre de disfarçar as emoções do ofício diário, o seu Villas não caberia no jornalismo feito hoje.

Ou, e é mais provável, o jornalismo feito hoje já não caberia nele. Saudade pra sempre.

*  * * *

Seu Villas morreu aos 93 anos de idade, nesta quinta-feira, 15 de dezembro de 2016, num leito do Hospital São Lucas, em Copacabana, onde estava internado desde a sexta anterior, com complicações pulmonares.

Elis, o meu coração e a PEC do Temer

Meu coração é velho. Mais do que eu. Por isso, depois de ler tanta coisa e de assistir a tantos comentários de economistas e analistas sabidos na TV sobre o congelamento dos gastos públicos e a reforma da Previdência, entrei num cinema da Praia de Botafogo, onde a Baía de Guanabara é mais agredida e também mais generosa, pra tentar desopilar o coração.

Meu coração é velho, mas o corpo que o carrega ainda precisa trabalhar e trabalhar e trabalhar (e cadê emprego formal bastante pra todo mundo?) e contribuir e contribuir e contribuir pro governo, e ainda assim pagar plano de saúde e escola, e pagar mais plano de saúde e escola, e mais plano de saúde e escola, e ainda assim continuar e continuar e continuar, até o dia em que a vida, talvez nem tão comprida quanto esta frase, determine o fim de tudo.

Fui ver “Elis”, de Hugo Prata, que conta uma parte da trajetória da cantora maravilhosa, a mulher tão bonita e tão cheia de imensas aflições no seu corpo miúdo e ao mesmo tempo exuberante e desejado pelos homens da sua época.

O filme me tocou profundamente. Menos pela construção, que merece elogios e algumas ressalvas (onde foi parar o encontro dela com Tom Jobim?), e mais, bem mais, pela história comovente contida, sobretudo na primeira metade, quando, na tela, surge a moça frágil e forte – muito bem interpretada pela atriz Andreia Horta -, ali recém-chegada do Rio Grande do Sul, conduzida pelo pai até a porta da fama no Rio de Janeiro, onde a jovenzinha gaúcha encontra Miele e Ronaldo Bôscoli, este aí prestes a se tornar a grande paixão da vida dela.

Meu coração velho e confuso se reapaixonou pela personagem na tela. Reapaixonou-se porque eu já tinha 19 anos quando Elis morreu – e, como sempre amei a música, e sempre também me atraí pela beleza não completamente perfeita, e essa, acho, era a beleza da Elis, enfim, rever aquela existência dramática na tela grande do cinema fez a paixão reacender no meu coração, agora já maduro e contaminado pelos anos.

Elis estaria perto de completar 72 de idade se não tivesse morrido naquela manhã de 19 de janeiro de 1982, aos 36, vítima da overdose do álcool e da cocaína. Vítima de uma depressão fulminante. Vítima dela mesma.

A menina descrita no filme nasceu num país corrupto e corrompido desde o primeiro espelho dado por Cabral ao primeiro índio pelado que lhe apareceu na frente. Mas nasceu num tempo de tentativas de se construir por aqui um capitalismo melhor que o de hoje, quando não é mais o baronato industrial o dono do Brasil, mas o financeiro.

A História ensina assim: era o fim da Segunda Grande Guerra quando Elis nasceu. O Brasil se industrializava. Planejava o futuro a longo prazo pra que todo mundo, nesta terra de Caramuru e Paraguaçu, pudesse consumir o que a indústria produzisse.

No tempo da Elis, num planeta sem internet pra dizimar os discos e os afetos e tantas outras coisas, o pacto social determinado pela elite industrial brasileira era o de criar uma classe trabalhadora capaz de comprar o que se produzisse.

Mas, de um momento qualquer da ditadura militar pra cá, passando pelo reinado tucano, alguma coisa deu errado – e a elite mandante passou a ser não mais a industrial, mas a financeira, a dos bancos, a dos juros, a do overnight, a das Letras de Câmbio, a dos fundos de investimento, a do dinheiro pra quem tem dinheiro, até alcançarmos o ápice agora, num tempo já sem a Elis, com a aprovação desta PEC produzida pela perversidade oportunista dos mandarins de ocasião ou pela burrice de quem não acredita que educação, por exemplo, é a política pública de segurança e mobilidade social mais eficiente a longo prazo, capaz de reduzir, numa tabelinha com o futuro, todos os gastos com saúde e Previdência.

O mundo pós-Elis é uma ciranda movida a esse dinheiro detestável e improdutivo. Um mundo às vezes xexelento e desagradável, que ficou demais pra corações velhos como o meu e o de tanta gente que se insubordina, enquanto é tratada no noticiário como antiquada ou alistada ao vandalismo.

E tudo isso, neste tempo sem Elis pra consolar, é feito pra pagar os juros de uma dívida pública que não para de crescer, não para de crescer, não para, não para, como ensinam economistas e comentaristas sabidos na TV.

O que a maioria dos sabidos não diz é que esse desmanche social é feito pra saldar a tal dívida pública com uma elite financeira sustentada pelos impostos pagos pelos mais pobres. E que a tal dívida foi contraída porque ela, a elite financeira, não paga o imposto que deveria pagar por justiça.

Antes da votação da PEC, o professor Jessé de Souza, do Departamento de Ciência Política da UFF, ensinou, numa audiência pública no Senado, que 53% dos impostos engolidos pelo Estado brasileiro são pagos pelos 79% que recebem até três salários mínimos. O professor ensinou em vão, porque os senadores não aprenderam, ou fingiram não aprender.

Ensinou ainda que a tal dívida pública será paga por 200 milhões de brasileiros a essa elite financeira formada por apenas 20 mil famílias – nascidas aqui, nesta terra de Dom Pedro II, ou estrangeiras com interesses aqui.

E também que a tal dívida cresceu porque faltou dinheiro pra obrigação social – o mesmo dinheiro apossado às tungas por tantos políticos ao longo dos anos, como o juiz Moro poderia dizer.

E que, quando faltou dinheiro pra obrigação social, foi a essa elite financeira que o governo recorreu – dinheiro que essa mesma elite financeira deveria era pagar em impostos, camaradamente não cobrados; bufunfa graúda que essa mesma elite vai agora, com a bênção da PEC do Temer, receber pra realimentar essa ciranda.

Segundo meu amigo economista Chico Genu, que dificilmente será um dia ouvido pelas TVs, está em curso “uma rapina, que, em última análise, visa tirar dinheiro dos pobres para dar aos ricos, um Robin Hood ao contrário”.

Chico diz ainda que nunca se viu na História uma concentração de renda tão violenta como a constatada hoje no mundo. “O melhor exemplo que conheço é que, neste momento, haveria 62 pessoas (no planeta) com patrimônio idêntico ao de todo o restante da Humanidade”, ele conta.

Chico acredita que, com a aprovação da PEC, neste Brasil já sem o consolo da existência da Elis, qualquer política contrária a isso “está prejudicada por 20 anos – ou seja, uma geração perdida”.

Levei meu coração ao cinema. No dia da aprovação da PEC da elite financeira; no dia dos 48 anos do Ai-5; no dia dos 48 anos da inauguração do boteco Bip Bip, o meu céu de Copacabana; neste tempo já sem Elis, eu levei meu coração ao cinema.

O ano que começou antes e ameaça terminar depois

O poeta espanhol Miguel Hernández (1910-1942), herói da guerra civil contra o fascismo de Francisco Franco, democrata que não resistiu a três anos de prisão e morreu de tuberculose na cela, descreveu, já no cárcere, o seu sentimento sobre aqueles dias de profunda derrota particular e coletiva.

Num poema bonito toda vida, ele disse que tinha “ânsias de arrancar do peito o coração e colocá-lo debaixo do sapato”.

O nome do poema de Hernández, grande homem e artista genial da primeira metade do século XX, poeta que a História ainda não redimiu completamente, é “Me sobra coração”. Já ouvi alguns de seus versos recitados pelo José Mujica, outro grande homem, este do século XXI, num vídeo disseminado na internet, em que o ex-presidente uruguaio critica a carência de solidariedade e de afeto e de tantas outras coisas essenciais da Humanidade nestes tempos difíceis.

De um certo modo, 2016 trouxe esse desejo esquisito descrito pelo Miguel Hernández, de tirar o coração do peito e botá-lo debaixo do sapato, onde, até 31 de dezembro, ele pulse a salvo de tantas dores e desfavores cometidos.

Não ajuda maldizer o ano, porque ele ainda nem acabou – e nunca se sabe o que ainda virá de bom ou ruim. É como os últimos dias têm ensinado com aguda insistência, à custa de muita lágrima. Lágrimas pelas tragédias do mundo, lágrimas pelos refugiados da Síria, pela perda de ídolos, perda de amores, pela perda pra sempre de amigos.

Faz lembrar outro imenso poeta do século XX, este o maior de todos, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade, que decretou assim num poema chamado “Resíduo”: “De tudo fica um pouco.”

De tudo fica um pouco? Ficará mesmo? O ano de 2016 provou que o poeta estava certo. Ficou um pouco dele no nosso coração. Ou muito, talvez.

De 2016, o ano que começou antes e ameaça só acabar depois, ficou, por exemplo, a percepção de um novo tempo, estranho tempo de transações à revelia da maioria.

Com o silêncio e a precisão de uma flecha que fura o coração, o mesmo coração que o espanhol Miguel Hernández disse ter vontade de arrancar do peito e pôr sob o sapato, Drummond escreveu no poema “Resíduo”: “Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço vazio de cigarros…”

De 2016, depois dessas últimas delações do diretor da Odebrecht, vai ficando a conclusão triste e incômoda pra uma metade do Brasil de que Dilma parece ser, ao menos até aqui, a única inocente no meio do pântano brasileiro, apesar de ter sido sua maior vítima.

De 2016, vai ficando essa percepção indesejável pra essa mesma metade de Brasil de que Dilma pagou com seu impedimento da Presidência a revelação das indecências de tantos pares – inclusive, como diz o tal diretor da Odebrecht, as do sucessor dela, político até outro dia menor e que periga ter o nome anotado na História como um golpista, de cuja existência nem se deve falar tanto no futuro.

De 2016, fica também o balé no ar da americanazinha Simone Biles, com seus ouros nas Olimpíadas do Rio. Fica a certeza da frivolidade do relógio diante da rapidez sobre-humana do jamaicano Usain Bolt. Ficam o salto histórico do brasileiro Thiago Braz e as impossibilidades desmentidas pelo americano Michael Phelps nas piscinas do Parque Olímpico da Barra da Tijuca.

Fica a dor imensa da aniquilação de muitas vidas no voo derradeiro da Chapecoense – das vidas que se foram e também das que ficaram. Mas ficam também a solidariedade do povo colombiano e a cena do abraço generoso da mãe do goleiro Danilo no repórter impávido até ali, apesar de estar de frente pro destino mau, que havia roubado tantos amigos dele. Tantos amigos nossos.

De 2016, fica o coração que pulsa insistente sob o sapato. Fica o desejo de que nossos amores sobreviventes sejam preservados. Fica quase nada. Mas fica muito.

*  * * * * *

Pra quem não conhece e quer conhecer, ou não lembra e quer reler, segue a íntegra de “Resíduo”, do Drummond.

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”