O ano que começou antes e ameaça terminar depois

O poeta espanhol Miguel Hernández (1910-1942), herói da guerra civil contra o fascismo de Francisco Franco, democrata que não resistiu a três anos de prisão e morreu de tuberculose na cela, descreveu, já no cárcere, o seu sentimento sobre aqueles dias de profunda derrota particular e coletiva.

Num poema bonito toda vida, ele disse que tinha “ânsias de arrancar do peito o coração e colocá-lo debaixo do sapato”.

O nome do poema de Hernández, grande homem e artista genial da primeira metade do século XX, poeta que a História ainda não redimiu completamente, é “Me sobra coração”. Já ouvi alguns de seus versos recitados pelo José Mujica, outro grande homem, este do século XXI, num vídeo disseminado na internet, em que o ex-presidente uruguaio critica a carência de solidariedade e de afeto e de tantas outras coisas essenciais da Humanidade nestes tempos difíceis.

De um certo modo, 2016 trouxe esse desejo esquisito descrito pelo Miguel Hernández, de tirar o coração do peito e botá-lo debaixo do sapato, onde, até 31 de dezembro, ele pulse a salvo de tantas dores e desfavores cometidos.

Não ajuda maldizer o ano, porque ele ainda nem acabou – e nunca se sabe o que ainda virá de bom ou ruim. É como os últimos dias têm ensinado com aguda insistência, à custa de muita lágrima. Lágrimas pelas tragédias do mundo, lágrimas pelos refugiados da Síria, pela perda de ídolos, perda de amores, pela perda pra sempre de amigos.

Faz lembrar outro imenso poeta do século XX, este o maior de todos, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade, que decretou assim num poema chamado “Resíduo”: “De tudo fica um pouco.”

De tudo fica um pouco? Ficará mesmo? O ano de 2016 provou que o poeta estava certo. Ficou um pouco dele no nosso coração. Ou muito, talvez.

De 2016, o ano que começou antes e ameaça só acabar depois, ficou, por exemplo, a percepção de um novo tempo, estranho tempo de transações à revelia da maioria.

Com o silêncio e a precisão de uma flecha que fura o coração, o mesmo coração que o espanhol Miguel Hernández disse ter vontade de arrancar do peito e pôr sob o sapato, Drummond escreveu no poema “Resíduo”: “Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço vazio de cigarros…”

De 2016, depois dessas últimas delações do diretor da Odebrecht, vai ficando a conclusão triste e incômoda pra uma metade do Brasil de que Dilma parece ser, ao menos até aqui, a única inocente no meio do pântano brasileiro, apesar de ter sido sua maior vítima.

De 2016, vai ficando essa percepção indesejável pra essa mesma metade de Brasil de que Dilma pagou com seu impedimento da Presidência a revelação das indecências de tantos pares – inclusive, como diz o tal diretor da Odebrecht, as do sucessor dela, político até outro dia menor e que periga ter o nome anotado na História como um golpista, de cuja existência nem se deve falar tanto no futuro.

De 2016, fica também o balé no ar da americanazinha Simone Biles, com seus ouros nas Olimpíadas do Rio. Fica a certeza da frivolidade do relógio diante da rapidez sobre-humana do jamaicano Usain Bolt. Ficam o salto histórico do brasileiro Thiago Braz e as impossibilidades desmentidas pelo americano Michael Phelps nas piscinas do Parque Olímpico da Barra da Tijuca.

Fica a dor imensa da aniquilação de muitas vidas no voo derradeiro da Chapecoense – das vidas que se foram e também das que ficaram. Mas ficam também a solidariedade do povo colombiano e a cena do abraço generoso da mãe do goleiro Danilo no repórter impávido até ali, apesar de estar de frente pro destino mau, que havia roubado tantos amigos dele. Tantos amigos nossos.

De 2016, fica o coração que pulsa insistente sob o sapato. Fica o desejo de que nossos amores sobreviventes sejam preservados. Fica quase nada. Mas fica muito.

*  * * * * *

Pra quem não conhece e quer conhecer, ou não lembra e quer reler, segue a íntegra de “Resíduo”, do Drummond.

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

 

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