Elis, o meu coração e a PEC do Temer

Meu coração é velho. Mais do que eu. Por isso, depois de ler tanta coisa e de assistir a tantos comentários de economistas e analistas sabidos na TV sobre o congelamento dos gastos públicos e a reforma da Previdência, entrei num cinema da Praia de Botafogo, onde a Baía de Guanabara é mais agredida e também mais generosa, pra tentar desopilar o coração.

Meu coração é velho, mas o corpo que o carrega ainda precisa trabalhar e trabalhar e trabalhar (e cadê emprego formal bastante pra todo mundo?) e contribuir e contribuir e contribuir pro governo, e ainda assim pagar plano de saúde e escola, e pagar mais plano de saúde e escola, e mais plano de saúde e escola, e ainda assim continuar e continuar e continuar, até o dia em que a vida, talvez nem tão comprida quanto esta frase, determine o fim de tudo.

Fui ver “Elis”, de Hugo Prata, que conta uma parte da trajetória da cantora maravilhosa, a mulher tão bonita e tão cheia de imensas aflições no seu corpo miúdo e ao mesmo tempo exuberante e desejado pelos homens da sua época.

O filme me tocou profundamente. Menos pela construção, que merece elogios e algumas ressalvas (onde foi parar o encontro dela com Tom Jobim?), e mais, bem mais, pela história comovente contida, sobretudo na primeira metade, quando, na tela, surge a moça frágil e forte – muito bem interpretada pela atriz Andreia Horta -, ali recém-chegada do Rio Grande do Sul, conduzida pelo pai até a porta da fama no Rio de Janeiro, onde a jovenzinha gaúcha encontra Miele e Ronaldo Bôscoli, este aí prestes a se tornar a grande paixão da vida dela.

Meu coração velho e confuso se reapaixonou pela personagem na tela. Reapaixonou-se porque eu já tinha 19 anos quando Elis morreu – e, como sempre amei a música, e sempre também me atraí pela beleza não completamente perfeita, e essa, acho, era a beleza da Elis, enfim, rever aquela existência dramática na tela grande do cinema fez a paixão reacender no meu coração, agora já maduro e contaminado pelos anos.

Elis estaria perto de completar 72 de idade se não tivesse morrido naquela manhã de 19 de janeiro de 1982, aos 36, vítima da overdose do álcool e da cocaína. Vítima de uma depressão fulminante. Vítima dela mesma.

A menina descrita no filme nasceu num país corrupto e corrompido desde o primeiro espelho dado por Cabral ao primeiro índio pelado que lhe apareceu na frente. Mas nasceu num tempo de tentativas de se construir por aqui um capitalismo melhor que o de hoje, quando não é mais o baronato industrial o dono do Brasil, mas o financeiro.

A História ensina assim: era o fim da Segunda Grande Guerra quando Elis nasceu. O Brasil se industrializava. Planejava o futuro a longo prazo pra que todo mundo, nesta terra de Caramuru e Paraguaçu, pudesse consumir o que a indústria produzisse.

No tempo da Elis, num planeta sem internet pra dizimar os discos e os afetos e tantas outras coisas, o pacto social determinado pela elite industrial brasileira era o de criar uma classe trabalhadora capaz de comprar o que se produzisse.

Mas, de um momento qualquer da ditadura militar pra cá, passando pelo reinado tucano, alguma coisa deu errado – e a elite mandante passou a ser não mais a industrial, mas a financeira, a dos bancos, a dos juros, a do overnight, a das Letras de Câmbio, a dos fundos de investimento, a do dinheiro pra quem tem dinheiro, até alcançarmos o ápice agora, num tempo já sem a Elis, com a aprovação desta PEC produzida pela perversidade oportunista dos mandarins de ocasião ou pela burrice de quem não acredita que educação, por exemplo, é a política pública de segurança e mobilidade social mais eficiente a longo prazo, capaz de reduzir, numa tabelinha com o futuro, todos os gastos com saúde e Previdência.

O mundo pós-Elis é uma ciranda movida a esse dinheiro detestável e improdutivo. Um mundo às vezes xexelento e desagradável, que ficou demais pra corações velhos como o meu e o de tanta gente que se insubordina, enquanto é tratada no noticiário como antiquada ou alistada ao vandalismo.

E tudo isso, neste tempo sem Elis pra consolar, é feito pra pagar os juros de uma dívida pública que não para de crescer, não para de crescer, não para, não para, como ensinam economistas e comentaristas sabidos na TV.

O que a maioria dos sabidos não diz é que esse desmanche social é feito pra saldar a tal dívida pública com uma elite financeira sustentada pelos impostos pagos pelos mais pobres. E que a tal dívida foi contraída porque ela, a elite financeira, não paga o imposto que deveria pagar por justiça.

Antes da votação da PEC, o professor Jessé de Souza, do Departamento de Ciência Política da UFF, ensinou, numa audiência pública no Senado, que 53% dos impostos engolidos pelo Estado brasileiro são pagos pelos 79% que recebem até três salários mínimos. O professor ensinou em vão, porque os senadores não aprenderam, ou fingiram não aprender.

Ensinou ainda que a tal dívida pública será paga por 200 milhões de brasileiros a essa elite financeira formada por apenas 20 mil famílias – nascidas aqui, nesta terra de Dom Pedro II, ou estrangeiras com interesses aqui.

E também que a tal dívida cresceu porque faltou dinheiro pra obrigação social – o mesmo dinheiro apossado às tungas por tantos políticos ao longo dos anos, como o juiz Moro poderia dizer.

E que, quando faltou dinheiro pra obrigação social, foi a essa elite financeira que o governo recorreu – dinheiro que essa mesma elite financeira deveria era pagar em impostos, camaradamente não cobrados; bufunfa graúda que essa mesma elite vai agora, com a bênção da PEC do Temer, receber pra realimentar essa ciranda.

Segundo meu amigo economista Chico Genu, que dificilmente será um dia ouvido pelas TVs, está em curso “uma rapina, que, em última análise, visa tirar dinheiro dos pobres para dar aos ricos, um Robin Hood ao contrário”.

Chico diz ainda que nunca se viu na História uma concentração de renda tão violenta como a constatada hoje no mundo. “O melhor exemplo que conheço é que, neste momento, haveria 62 pessoas (no planeta) com patrimônio idêntico ao de todo o restante da Humanidade”, ele conta.

Chico acredita que, com a aprovação da PEC, neste Brasil já sem o consolo da existência da Elis, qualquer política contrária a isso “está prejudicada por 20 anos – ou seja, uma geração perdida”.

Levei meu coração ao cinema. No dia da aprovação da PEC da elite financeira; no dia dos 48 anos do Ai-5; no dia dos 48 anos da inauguração do boteco Bip Bip, o meu céu de Copacabana; neste tempo já sem Elis, eu levei meu coração ao cinema.

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4 comentários sobre “Elis, o meu coração e a PEC do Temer

  1. Sobre a “pimentinha”, sem comentários. Quanto a elite financeira, leia o texto seguinte escrito por Karl Marx em 1851, sobre o golpe que colocou o ponto final na 2. e curta República Francesa e culminou com as ascensão de Luis Bonaparte. “Não se deve entender aqui por aristocracia financeira somente as grandes instituições de crédito e os grandes especuladores de títulos públicos, em relação aos quais se compreende imediatamente que seu interesse coincide com o interesse do poder estatal. Todo o moderno negócio com dinheiro e toda a economia bancária estão intimamente entretecidos com o crédito público. Uma parte do capital ativo necessariamente é investido em títulos públicos facilmente resgatáveis e emprestados a juros. Os seus depósitos, o capital disponibilizados entre eles e distribuídos por eles entre comerciantes e industriais, flui em parte dos dividendos dos detentores de fundos públicos. Se em todas as épocas a estabilidade do poder estatal equivalia a algo como Moisés e os profetas para todo o mercado de dinheiro e para os oficiantes desse mercado, como deixaria de sê-los nos dias de hoje, em que o dilúvio ameaça arrastar embora as velhas dívidas públicas junto com os velhos Estados?” Decorridos 165 anos do feito, alguma relação com a situação econômica, financeira e política do Estado Brasileiro?

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