Ainda sobre 2016 (ou feliz 2018)

De 2016, levo abraços, muitos abraços, todos muito bons. Alguns melhores, mas todos bons. Levo poucos beijos, bem poucos, mas todos muito bons também. Levo uma mancha de lágrima nos óculos e alguma dor, que talvez nunca passe.

Levo carinhos não dados nem recebidos. Seguem guardados, espero dá-los, espero tê-los. Levo uma digital indecifrável no corpo, talvez no queixo, ou na nuca, rabiscos de unha nas costas, a marca do braço da cadeira do cinema no cotovelo direito, lembrança de afagos trocados.

Um segredo de mentira contado no ouvido, uma bobagem sussurrada, também levo.

Levo o sonho de um vestido dançando no vento, o vento indeciso de direção, o vento saliente, ameaçando me deixar ver o que não adivinhei acordado.

Levo a saudade de gente que nunca mais vou rever – todas boas e essenciais e necessárias e dignas. Farão falta. Desapareceram pra sempre no boliche do tempo e do destino em 2016. Mas as levarei. Pra sempre.

Levo a música, a poesia que insiste. Levo um gol inesquecível, uma mulher inesquecível, amigos inesquecíveis, paisagens inesquecíveis.

De 2016, levo minha solidão autoconsentida. Levo uma frase já eternizada do Zico (“Como rubro-negro, eu gostaria de estar na arquibancada me vendo jogar”).

Levo um sorriso que não se apaga, levo a promessa de uma Rosa.

O som agudo de alguns copos quebrados na pia, eu vou levar. Levo novas constatações da finitude. Levo perrengues, porres, ressacas, desaforos e falta de dinheiro. Levo a superação de medos, e ainda outros medos que ficaram.

Passeios a pé, algumas decepções, poucas, bem poucas, eu levo – e muitas fotografias, e solos de Chet Baker no último volume, e Carlos Drummond de Andrade gritando com a voz mansa eternizada em vinil a sua “Viagem na família”, na qual a sombra do pai dá a mão ao menino e o conduz numa travessia pelo passado.

Levo a visão horrenda de Belo Monte, a floresta sangrada, o Rio Xingu ferido, vidas mudadas sem retorno. Levo meu pinhão-pajé e minhas outras plantas.

Levo a barba por fazer, poemas de Fernando Pessoa, histórias fantásticas de Gabriel García Márquez e uma vontade grande guardada aqui dentro. Uma caminhada solitária numa certa madrugada pela Rua Jardim Botânico, o pensamento perdido em desejos não contemplados, levo tudo isso.

Levo até Adalgisa, a que não se deixa levar, mas a levo.

Levo o ímpeto ariano, a teimosia taurina, a complacência pisciana, a coragem leonina, levo o céu inteiro, com suas luas e planetas e ascendentes de difícil compreensão, e levo a água e a terra e o fogo que me acorda na madrugada com tanta saudade do que não sei mais. Levo anseios e outros sentimentos – uns muito nobres, outros nem um pouco.

De 2016, levo o nojo da injustiça, a abjeção da vitória dos ladravazes do futuro coletivo. Levo meu apego à beleza não perfeita, a paciência da espera, a impaciência da busca, confidências não feitas. Levo luz de vela, água fresca nas plantas e mais manchas de lágrima nos óculos.

Levo cada detalhe da existência dos meus três filhos. Cada lindo detalhe da existência deles. Estarão sempre comigo. Levo a família. Levo todos os meus amigos trancados no peito.

Levo a possibilidade do esquecimento e a redescoberta da viabilidade das novas paixões. Levo a surpresa desconcertante de um fio de cabelo encontrado no banco do carro tanto tempo depois. A persistência do tempo. Levo, aliás, um carro velho, que quase já não me leva.

Levo livros e filmes e olhares correspondidos na fila do supermercado, e levo, sobretudo, a generosidade das palavras comigo.

De 2016, levo dúvidas, muitas. Certezas, poucas. E cheiro de chuva e de sopa ardendo no fogão e do mar na Praia da Reserva. Cordas de violão, ressoar de teclas de piano, procuras não consumadas, muitas também, vou levar.

Vão comigo também o mergulho no oceano do humor e tudo mais que isso me proporcionou – as novas pessoas que conheci; as que permiti me conhecerem; as que não conheci tanto por não permitirem; e até as que não permiti, essas também vão.

Levo a sensação de que 2017 será a construção de um feliz 2018. E noites no Bip Bip, menos do que gostaria, eu levo. Levo meu romantismo antigo e mal disfarçado e renitente e descabido. Levo a curiosidade das mudanças e o convencimento de que preciso permanecer como sempre fui.

Novas parcerias, letra e música, eu levo. Frases que gostei de escrever. Outras que preferia não ter escrito. Mas vão.

Levo o prazer que ainda quero ter; a memória intransigente dos prazeres que já tive. Levo alívio e desprendimento, desapego e menos roupas. Levo a recordação de uma mão feminina tão leve, tão leve, acariciando meu rosto ainda há pouco.

Perfume natural de pele macia, novidades, cantorias, banho de rio, são coisas que levarei também. Descidas de bicicleta pela Rua Mundo Novo, a brisa na cara, a brisa na cara, a brisa na cara, o coração pulando, pulando, pulando, a vista oferecida da Enseada de Botafogo, tudo isso eu levo.

Madrugadas em Morro Agudo, meu Morro Agudo tão querido, tão feio e tão maltratado e tão desprezado e tão sem perspectivas – vou levar meu Morro Agudo e todos ali contidos. Levarei pra sempre. Eu vou.

A nostalgia e a pressa antes que o dia amanheça, levo. A força oculta da noite, os perigos vividos, tudo isso vai comigo.

De 2016, levo a necessidade de ganhar mais dinheiro e meu desprezo sem ressalvas pela acumulação. Levo a constatação idiota de que toda riqueza só será boa se puder ser dividida com muita gente.

Levo o temor do que vai ser feito do mundo, mas também a disposição de enfrentar o que virá.

Levo todas as letras do alfabeto. Levo crenças, anáforas, abduções, apagogias e outras palavras jamais escritas ou pouco conhecidas, cujo valor será pra mim, eternamente, apenas o de dar nome a figuras de retórica.

Ainda levo contas a pagar e algumas besteiras soltas na gaveta e arrependimentos e alguns tênis velhos e mais alguma mancha de lágrima nos óculos, e levo propósitos e levo esperança.

Anúncios

8 comentários sobre “Ainda sobre 2016 (ou feliz 2018)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s