O meu encontro a sós com Papai Noel

Eu tinha medo de Papai Noel. Não dizia a ninguém, mas tinha. Tudo me apavorava na figura descabida daquele homem gordo, de barba longa e branca, metido num paletó de cetim vermelho em pleno calor de dezembro em Morro Agudo, gesticulando e rindo pra mim sem que eu pedisse.

À meia-noite do dia 24, eu sempre me dividia entre a curiosidade de flagrar aquela criatura improvável desembarcando de um trenó no telhado e o pavor que, na contramão do impulso infantil, me fazia fechar os olhos com muita força só de imaginar a cena.

Nem a expectativa de um presente aliviava o medo. Papai Noel era de outro mundo, um que eu imaginava gelado e deserto, só habitado, possivelmente, por fantasmas, outros seres estranhos e por ele e pelas renas e por um punhado de anões explorados, obrigados a trabalhar de graça pra dar presentes caros a crianças ricas e ordinários a moleques como a gente.

Mais de uma vez me escondi debaixo da cama pra esperar aquele momento passar.

Nossos natais, pro meu desconforto, tinham sempre um Papai Noel. Mesmo quando os presentes não justificavam a presença dele – não importava, aquela figura temida estava lá.

Aparecia, botava os embrulhos perto do presépio que meu avô montava na varanda todo ano, sacudia a barriga com seu “rou, rou, rou” gutural sem nenhuma graça e ia embora. Raras vezes suportei acompanhar o ritual até o fim. Preferia ficar bem longe do alcance dos olhos dele.

Foi por sentir tanto medo que, num certo Natal, dei de cara com Papai Noel – e da pior maneira possível pra mim, porque estávamos só nós dois. Eu tinha seis, talvez sete anos. Pouco antes da meia-noite, entrei debaixo da cama da minha mãe.

A festa corria na varanda dos meus avós, que moravam no mesmo quintal. E, no burburinho de tantas crianças, não notaram minha falta.

Fiquei quieto ali, esperando a meia-noite passar, até que ouvi passos no quarto. Meu coração disparou. Comecei a tremer quando pude ver os pés que se aproximavam. Eram pés calçados em botas. Botas pretas! Eram as botas do… Papai Noel!

Acho que, na minha inocência, senti algo como a aproximação da morte. Papai Noel chegou até a beirada da cama, sentou, suspirou e arrancou as botas. As meias eram pretas. De repente, começou a tirar a roupa. Primeiro, as calças, que caíram no chão. Depois o paletó, o gorro, os óculos e, por último, a… barba!

Sem saber que eu estava ali, chutou tudo para debaixo da cama. Tive de me encolher pra não ser atingido pelo cajado feito de cabo de vassoura forrado com papel crepom. Pra minha surpresa – mais de alívio do que de decepção -, a roupa também era de crepom.

Papai Noel não existia. Usava roupa de papel com bermuda e camiseta por baixo e nem homem era. Papai Noel era a Vilma, filha da Tia Didi, querida vizinha que tratava todas as crianças daquele quintal como sobrinhas de verdade.

A descoberta de que Papai Noel não existe, inevitável na vida de todo mundo, é uma das constatações mais tristes da existência humana. Só hoje eu sei disso. É a primeira grande perda da vida da gente. Infelizmente, nenhuma criança é esperta bastante pra se dar conta disso. Só percebe que a descrença é triste depois de ganhar discernimento suficiente pra se entristecer com muitas outras coisas.

Papai Noel povoa minhas lembranças mais remotas. Porque, no fundo, apesar do medo, eu amava aquele ritual, aguardado o ano inteiro. Entre essas lembranças, está a de uma festa de Natal organizada pela associação de funcionários do antigo Banco Nacional, onde meu pai trabalhava. Naquele dia, ele, o Noel, arrancou minha chupeta, a pedido da minha mãe. “Chupeta não é coisa pra um menino do seu tamanho”, o mal-educado me disse, ou não disse, e sou eu quem acredita até hoje que ele disse isso.

Na festa, ganhei um cachorro de borracha, réplica do Banditt – quem se lembra do Banditt? –, e um medo terrível daquele ladrão de chupeta vestido de vermelho, um velho obeso e abusado, com mais de 200 anos na minha imaginação, sujeito que cheirava a talco barato e carregava nas costas um sacolão com certeza cheio de Banditts.

Meus natais eram bem felizes. Deixavam em mim, e também nas outras crianças do quintal, acho, a impressão ingênua de uma fartura que a gente não experimentava no resto do ano. Talvez por isso, um deles tenha ficado especialmente marcado na minha memória. Foi um Natal bem difícil, em que a sensação infantil de fartura se desintegrou numa frase da minha mãe.

Meu pai estava há meses afastado do trabalho, por causa de uma tuberculose. Coube à nossa mãe, professora primária da rede pública, segurar as pontas, inteirando o pouco que recebia ao quase nada que meu pai conseguia mensalmente da Previdência Social.

– Este ano não vai ter presente – ela nos disse.

Não sei que idade tínhamos. Mas recordo que o aviso foi assimilado sem trauma. Se era assim, que fazer? Eu tinha assistido a uma crise de hemoptise do meu pai. Tinha medo que ele morresse. Então, se o preço da cura dele era a falta de um presente, não fazia mal.

O encantamento de uma infância com quintal, onde havia crianças pra brincar, árvores pra subir e um bom espaço pra jogar futebol, também consolava. Eu não sabia disso. Mas consolava, sim.

O cenário daquele e de todos os nossos natais era a varanda da casa dos meus avós. Eram três casas no mesmo quintal. A nossa, a deles e a dos meus primos.

À meia-noite, quando já estávamos conformados com a falta de um presente, minha mãe apareceu com os embrulhos. O meu, eu nunca vou esquecer, era um carrinho de corrida. Pequeno. Pouco maior que o meu pé. Era movido a pisadas numa sanfona presa à traseira. A pisada na sanfona comprimia o ar dentro do cano de descarga – e o carrinho disparava, vruuuuummmm, até parar dali a alguns metros.

Eu já não acreditava no Papai Noel naquele Natal. Se acreditasse, teria me desiludido como o filho que eu viria a ter dali a uns 20 anos. Ele, o meu filho, ainda não tinha completado 9 de idade quando encontrou no fundo de uma gaveta de casa, largada ali por descuido meu, uma cartinha repleta de mesuras e delicadezas que havia escrito pro Papai Noel. Decepcionado, deixou de acreditar.

A impossibilidade da existência de Papai Noel é uma descoberta marcante. Acho até que a trajetória de uma vida pode ser dividida entre antes e depois do dia em que deixamos de acreditar nele.

Meus três filhos já cresceram demais pra acreditar, e eu morro de pena por isso. Porque nascemos pra perder coisas – e as primeiras são as crenças da infância.

Perder uma crença da infância é o primeiro sinal de que, dali em diante, vamos crescer pra perder muito mais. Vamos perder a inocência, a juventude, cabelos, dentes, amores, memória, gente querida, mais gente querida, mais gente querida, coisas grandes e pequenas, até que, lá no fim de tudo, perdemos o discernimento, a percepção da luz ao nosso redor, a força que move nosso corpo – e é quando também a vida se vai, na nossa derradeira perda.

Apesar do medo que eu tinha, e que meus filhos também tiveram, um dos meus maiores orgulhos é ter sido o primeiro Papai Noel da vida dos três. Era eu que estava sob a fantasia do velhinho inconveniente e enxerido que cada um deles conheceu, tocou e beijou – ou que simplesmente os apavorou.

Guardo num baú de relíquias as fotos dos três no meu colo, eu ali todo paramentado de Noel, no mesmo quintal da minha infância.

Aliás, não é o mesmo. Hoje, está mudado. Está, sobretudo, silencioso. Meus avós não estão mais nele. Um primo muito querido, que morreu adolescente, também não. E eu e todas aquelas crianças de antigamente somos adultos e moramos longe. O chão de terra ganhou cimento e perdeu muitas árvores. Os filhos que geramos nem crianças mais são.

A tradição do Papai Noel também não sobrevive no quintal. Ele não vai mais lá na noite do dia 24, como naquele tempo de mentiras mais felizes.

Meu presente impossível seria me tornar de novo, por um dia, aquele garoto congelado de medo embaixo da cama.

Dessa vez, eu faria barulho e, tenho certeza, ele iria embora pra não ser descoberto.

E eu adiaria um pouco mais o fim da crença na existência dele.

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2 comentários sobre “O meu encontro a sós com Papai Noel

  1. Penso qie Papai Noel faz parte do imaginário infantil e deve continuar fazendo. Mais não devemos trocar Jesus por ele nem o presépio pelos shoppings.
    Enquanto isso, Temer agiu como Papai Noel para os empresários ao liberar o FGTS para o trabalhador pagar suas dívidas. Sabemos que pagar uma dívida é bom para o devedor e muito melhor para o credor.

    Curtido por 1 pessoa

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