Outras coisas que eu faria se pudesse

Se eu pudesse, diria tanta coisa. Eu, que falo tão pouco, se pudesse, nem saberia por onde começar. Mas diria.

Talvez dissesse à garota da 4ª série primária da Escola Municipal Souza Melo que, até hoje, eu me lembro dela. E ela talvez perguntasse: “Por quê?” E eu lhe diria: “Não sei, nem lembro seu nome.” E ela talvez me acalmasse a dúvida de tantos anos e me acendesse de arrependimento pelo que não vivi: “Eu me chamo Adalgisa.”

Se eu pudesse, diria tanta coisa ao meu primo Luís. Diria, por exemplo, que 31 anos depois, ainda não decorei se o nome dele se escrevia com “z” ou “s”. Diria também que a morte não nos separou – e que sinto saudade dele e saudade das brincadeiras da nossa infância e saudade de quando longe era só o percurso entre duas estações de trem da Central do Brasil.

Pediria, se eu pudesse, ao Miles Davis e ao John Coltrane, se não fosse incomodar muito, um solo de “Carinhoso”, do Pixinguinha, com arranjo do Márcio Montarroyos. Ao Márcio Montarroyos, pediria licença por isso – e dedicaria a execução tão delicada a uma mulher, uma que anda livre e bonita por aí, e se exibe no fim da tarde, depois do trabalho, na Praia do Arpoador.

A Norah Jones, pediria a mesma coisa – mas, ainda mais pidão, rogaria também por um afago nos meus ouvidos com sua voz que tanto invade o meu coração, e ela acharia engraçado e talvez me concedesse.

Se eu pudesse, recuaria mais no tempo e, ao francês Michel Foucault, o filósofo das coisas da loucura e do poder e do conhecimento, o sujeito além das certezas, o historiador vitimado pela Aids quando eu ainda lia pela primeira vez um texto dele, eu, enfim, podendo, diria a ele que uma frase nascida das suas reflexões tem andado no meu pensamento ultimamente, na tentativa de compreender um pouco a ignorância humana e a minha particular – “não fazer como aquele que, ao ser picado por abelhas, renuncia a colher o mel”.

“Perdão, professor Foucault, fui idiota e já andei renunciando, perdão”, eu diria, “mas prometo não renunciar mais, ou, pelo menos, tentar.”

A Friedrich Nietzsche, o alemão que nasceu e morreu antes do Foucault, e tanto o influenciou, eu diria, se pudesse, que também guardo algumas frases dele – máximas como “tudo é precioso pra quem foi, por muito tempo, privado de tudo”; ou aquela outra, “sem a música, a vida é um erro”; ou ainda “o medo é o pai da moralidade”.

Se pudesse, sentaria com os dois, Nietzsche e Foucault, no botequim aqui da esquina, e relataria, num idioma comum, tudo que se passou no ano de 2016. Falaria das loucuras cometidas no mundo desde janeiro, e depois me calaria até o último som de vírgula deles. Eu gravaria tudo, e ouviria tudo de novo, e tudo de novo, e de novo.

Se eu pudesse, sentaria no chão do terreiro da Mãe Menininha do Gantois, pediria a bênção a ela – “a sua bênção, Mãe Menininha” – e perguntaria, com muita humildade e muita verdade na minha dúvida: “Mãe, desculpe por te chamar de Mãe, mas qual orixá do Candomblé rege a minha existência?” E ela, depois de esparramar uns búzios, revelaria, convicta, o meu orixá.

E a esse orixá eu recitaria a minha vida toda, e a ele também pediria proteção pro que ainda vem por aí.

Por já estar na Bahia, e abençoado pela Mãe Menininha, pediria a Jorge Amado, com muito jeito, permissão pra ver as estrelas com sua Gabriela, nós dois na noite comprida deitados na areia do mar de Ilhéus. A ela, Gabriela, não diria nada. Só me entregaria, infantil, e sentiria o gelado da sua pele e ouviria a música do seu sotaque trastejando na minha orelha.

Pediria, se pudesse, ao Dida, herói das glórias do Flamengo nos anos 1950 e 1960, que refizesse pra mim um gol dele, um apenas, só pra eu ver como era e espantar alguma tristeza e alegrar o meu dia e a minha noite e a minha madrugada. Pediria ainda um autógrafo na palma da minha mão e, como se eu tivesse 10 anos, devolveria o gesto com um abraço longo e agradecido, desses de criança, que não esquecemos nunca.

A Mário de Andrade, pediria que me guiasse numa travessia por São Paulo. Obrigado, seu Mário, eu lhe diria na Sé.

A Manuel Bandeira, num bar da Lapa, eu encomendaria a “Quarta canção do beco”. Obrigado, seu Manuel, eu me curvaria, pondo o papelzinho com seu poema inédito no bolso da calça.

A Lima Barreto, mostraria o esgoto que vaza na Rua do Lavradio, a infância ao relento da noite ali, a sede da querida “Tribuna da Imprensa” fechada – e quem sabe o Rio não ganhasse a veemência de mais uma crônica dele.

A Ferreira Gullar, eu pediria que não morresse neste 2016, não agora, não sem antes de me contar onde encontro novamente seu poema “Pela rua”. Em qual livro o senhor escreveu essa obra-prima, seu Ferreira, o senhor, tão policiado pelas amizades construídas no seu Maranhão?

A Carlos Drummond de Andrade, a quem já pedi tanto, não pediria mais nada. Só que me inspirasse. Obrigado, seu Carlos.

A Vinicius de Moraes, faria um convite pretensioso pra conhecer minha casa e tocarmos juntos um pouco de violão. Cantaríamos, rindo muito, “Pela luz dos olhos teus”, eu lhe mostraria algumas valsas menores, e no raiar do dia choraríamos coniventes, tocando “Olha, Maria”. E ele, ainda emocionado, diria: “É uma parceria minha com Tom Jobim e Chico Buarque, você deve conhecê-los.” Conheço, sim, seu Vinicius, eu responderia, e conheço também sua filha Maria, e saiba que ela se orgulha muito dessa valsa.

A James Joyce, eu contaria que estive em Dublin num certo verão, mas não consegui visitar Rathgar, onde ele nasceu. A Van Gogh, diria que fui a Amsterdã e compreendo toda a sua loucura – e ele talvez também me compreendesse e pintasse, a meu pedido, o retrato falado de uma mulher. E Van Gogh, feliz, ainda me daria o direito de ofertar sua tela jamais feita a essa mulher.

A Dom Pedro II, eu daria minha solidariedade pelo golpe que o lançou ao exílio. E depois de resumir pra ele a História que se seguiu desde seu desterro, eu diria: “Meu querido monarca, conterrâneo carioca, não sofra mais pelo que lhe fizeram, estamos juntos, veja só no que deu a República.”

A Walt Disney, se eu pudesse, agradeceria pelos gibis da infância – e, ainda mais especialmente, por eu ter completado seu álbum com a figurinha da Baleia (será que alguém ainda se lembra da figurinha difícil da Baleia?).

Se eu pudesse, poria três mudas de roupa na mochila e embarcaria daqui a pouco pra uma nova visita ao Gantois, onde a Mãe Menininha, já me reconhecendo dessa vez, perguntaria: “O que veio fazer aqui de novo, meu filho? Já não lhe revelei o orixá que rege sua existência?”

E eu responderia: “Sim, Mãe Menininha. Mas vim pra ficar mais um pouco, e talvez chorar sem razão, só pra esvaziar a alma deste ano tão esquisito, e também agradecer por tudo que aconteceu de novidade boa na minha vida, apesar do pesar, apesar do peso e das vidas desperdiçadas pelo caminho. Posso?”

E ela só diria: “Pode.”

E eu ficaria e veria o ano romper e receberia 2017 com os pés descalços e depois seguiria até o Farol de Santo Antônio e, no nascer do sol, assistiria ao mar comprido toda vida encontrar o céu no horizonte, e não diria mais nada.

*  *  *  *  *

Foto de Lázaro Torres

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5 comentários sobre “Outras coisas que eu faria se pudesse

  1. Comovente! Se você pudesse – tenho certeza – pediria a alguma autoridade do Rio de Janeiro que transferisse “algum dinheiro”, dos muitos surrupiados dos cofres públicos, para aquela mãe que se queixou a um repórter de televisão, de não ter recebido o mísero salário desde out/16, e não receberá o 13. sal. em tempo hábil. As lágrimas dela, por certo, lhe compensarão.

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